12.02.2015

Shibboleth // um poema do Paul Celan

Shibboleth


Junto das minhas pedras
grandes de tanto chorar
por detrás das grades
arrastaram-me
para o meio do mercado,
para lá,
onde se desfralda a bandeira
à qual eu não eu prestei juramento.

Flauta,
Flauta-dupla da noite:
pensa na negra
roda dupla
em Viena e Madrid.

Põe a tua bandeira a meia haste,
Memória.
A meia haste
hoje e para sempre.

Coração:

dá-te também aqui a conhecer,
aqui, no meio do mercado,
Convida-o, ao Shibboleth,
para a estranheza do lar:
Fevereiro. No pasarán.

Unicórnio:

tu sabes das pedras,
tu sabes das águas,
vem,
que eu levo-te para longe
para as vozes
da Estremadura.


Paul Celan. Tradução minha.


Schibboleth

Mitsamt meinen Steinen,
den großgeweinten
hinter den Gittern,
schleiften sie mich
in die Mitte des Marktes,
dorthin,
wo die Fahne sich aufrollt, der ich
keinerlei Eid schwor.

Flöte,
Doppelflöte der Nacht:
denke der dunklen
Zwillingsröte
in Wien und Madrid.

Setz deine Fahne auf Halbmast,
Erinnrung.
Auf Halbmast
für heute und immer.

Herz:

gib dich auch hier zu erkennen,
hier, in der Mitte des Marktes.
Ruf's, das Schibboleth, hinaus
in die Fremde der Heimat:
Februar. No pasaran.

Einhorn:

du weißt um die Steine,
du weißt um die Wasser,
komm,
ich führ dich hinweg
zu den Stimmen
von Estremadura.

11.30.2015

It is with them a war or a revolution, or it is nothing.

It was in the most patient period of Roman servitude that themes of tyrannicide made the ordinary exercise of boys at school — quum perimit sævos classis numerosa tyrannos. In the ordinary state of things, it produces in a country like ours the worst effects, even on the cause of that liberty which it abuses with the dissoluteness of an extravagant speculation. Almost all the high-bred republicans of my time have, after a short space, become the most decided, thorough-paced courtiers; they soon left the business of a tedious, moderate, but practical resistance to those of us whom, in the pride and intoxication of their theories, they have slighted as not much better than Tories. Hypocrisy, of course, delights in the most sublime speculations, for, never intending to go beyond speculation, it costs nothing to have it magnificent. But even in cases where rather levity than fraud was to be suspected in these ranting speculations, the issue has been much the same. These professors, finding their extreme principles not applicable to cases which call only for a qualified or, as I may say, civil and legal resistance, in such cases employ no resistance at all. It is with them a war or a revolution, or it is nothing. Finding their schemes of politics not adapted to the state of the world in which they live, they often come to think lightly of all public principle, and are ready, on their part, to abandon for a very trivial interest what they find of very trivial value. Some, indeed, are of more steady and persevering natures, but these are eager politicians out of parliament who have little to tempt them to abandon their favorite projects. They have some change in the church or state, or both, constantly in their view. When that is the case, they are always bad citizens and perfectly unsure connections. For, considering their speculative designs as of infinite value, and the actual arrangement of the state as of no estimation, they are at best indifferent about it. They see no merit in the good, and no fault in the vicious, management of public affairs; they rather rejoice in the latter, as more propitious to revolution. They see no merit or demerit in any man, or any action, or any political principle any further than as they may forward or retard their design of change; they therefore take up, one day, the most violent and stretched prerogative, and another time the wildest democratic ideas of freedom, and pass from one to the other without any sort of regard to cause, to person, or to party.
Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France.

11.25.2015

TS Eliot e o Renascimento

What happens is not, to be sure, always just what the author intends. It is fatally easy, under the conditions of the modern world, for a writer of genius to conceive of himself as a Messiah. Other writers, indeed, may have had profound insights before him; but we readily believe that everything is relative to its period of society, and that these insights have now lost their validity; a new generation is a new world, so there is always a chance, if not of delivering a wholly new gospel, of delivering one as good as new. Or the messiahship may take the form of revealing for the first time the gospel of some dead sage, which no one has understood before; which owing to the backward and confused state of men's minds has lain unknown to this very moment; or it may even go back to the lost Atlantis and the ineffable wisdom of primitive peoples. A writer who is fired with such a conviction is likely to have some devoted disciples; but for posterity he is liable to become, what he will be for the majority of his contemporaries, merely one among many entertainers. And the pity is that the man may have had something to say of the greatest importance: but to announce, as your own discovery, some truth long known to mankind, is to secure immediate attention at the price of ultimate neglect.
T.S. Eliot. After Strange Gods: A Primer of Modern Heresy.

8.28.2015

A paixão pela eternidade

Nei nostri tempi, pochi parlano volentieri dell'eternità. Non ne parlano gli scrittori: i filosofi; e nemmeno i teologi, che scorgono nell'eternità una specie di incrostazione greca, sovrapposta al messagio di Cristo. Ciò che oggi importe è il qui ed ora; e così anche la fede cristiana diventa qualcosa di storico, che non bada al Paradiso, ma alle mortificazioni della realtà quotidiana. Vorrei soltanto ricordare un fatto linguistico: la parola greca da cui deriva il nostro «eterno», la parola aión, significa in Omero «liquido vitale», «forza vitale». Dunque, nella sua radice, l'eternità non è nulla di estraneo e di sovrapposto a noi stessi: è la nostra forza vitale, il liquido vitale, che corre nelle membra degli uomini e dell'universo e non si consuma mai.
Pietro Citati. Le due preghiere nel Getsemani. in Dio La Morte Il Mistero. (1999) Mondadori


Esta parece-me uma forma adequada de definir o indefinido que se alargou sobre nós nas últimas décadas desde o último estrebuchar do Modernismo: o fim da paixão pela eternidade que, até à nossa, cunhara todas as épocas da história humana e a consciência desse facto.

8.19.2015

are both perhaps present in time future

O passado, que é meu e de Johanes Lupigis e de outros, começa a amontoar-se diante de mim como um futuro, no qual devo penetrar. O passado amontoa-se, assim, diante de todos nós. Nós erguemo-nos e caminhamos sobre ele e temos de o penetrar para obter o conhecimento. Nós experienciámos — ou absorvemos — parte dele e agora temos de o penetrar e engolir novamente para nos libertarmos através do conhecimento sobre o que aconteceu. Esse é, possivelmente, o acto do conhecimento, o caminho onde recolhemos os benefícios da experiência, como disse o diácono Anselmus.
Eyvind Johnson (1960) in O tempo de Sua Graça. João Reis (trad). Cavalo de Ferro.

8.04.2015

um poema

e Deus disse: Não
me quero ir embora
prefiro empunhar a espada
da História degolar o tempo,

ficar junto de ti.

7.16.2015

Xenofonte sobre Segunda-feira 13

O tirano nem sequer se alegra juntamente com a sua cidade em tempos de prosperidade e de abundância, pois conclui que se pode servir dos seus cidadãos melhor se eles forem pobres e passarem necessidade.
 Xenofonte. Hierão. V.4
ἀλλὰ μὴν οὐδ' ἂν εὐετηριῶν γενομένων ἀφθονία τῶν ἀγαθῶν γίγνηται, οὐδὲ τότε συγχαίρει ὁ τύραννος. ἐνδεεστέροις γὰρ οὖσι ταπεινοτέροις αὐτοῖς οἴονται χρῆσθαι.

7.15.2015

Sebastianismo à Grega


Θά'ρθεις σαν ἀστραπή
θά'χει ἡ χώρα γιορτή
θάλασσα γῆ και οὐρανός
στο δικό σου φῶς!

7.14.2015

um poema do Cavafis para a decisão da Cimeira Europeia [segunda-feira 13]

INTERRUPÇÃO

A obra dos deuses interrompemo-la nós,
os apressados e inexperientes seres do instante.
Nos palácios de Elêusis e da Ftia,
Deméter e Tétis iniciam belas obras
entre as chamas altas, e no fumo espesso. Mas
sempre corre Metanira de dentro do quarto
do rei, descomposta e aterrorizada,
e sempre Peleu teme e intervém.


Constandinos Cavafis. 
Tradução minha


ΔΙΑΚΟΠΗ

Τὸ ἔργον τῶν θεῶν διακόπτομεν ἐμεῖς,
τὰ βιαστικὰ κι ἄπειρα ὄντα τῆς στιγμῆς.
Στῆς Ἐλευσῖνος καὶ στῆς Φθίας τὰ παλάτια
ἡ Δήμητρα κ' ἡ Θέτις ἀρχινοῦν ἔργα καλὰ
μὲς σὲ μεγάλες φλόγες καὶ βαθὺν καπνόν. Ἀλλὰ
πάντοτε ὁρμᾶ ἡ Μετάνειρα ἀπὸ τὰ δωμάτια
τοῦ βασιλέως, ξέπλεγη καὶ τρομαγμένη,
καὶ πάντοτε ὁ Πηλεὺς φοβᾶται κ' ἐπεμβαίνει.

um poema do Cavafis [ἐπῆγα]

Não me contive. Larguei-me por completo e parti.
Para os prazeres que eram meio reais,
Meio a girar na minha mente.
Parti para a noite iluminada.
E bebi dos mesmos vinhos potentes
De que bebem os destemidos do prazer.


Constandinos Cavafis.
Tradução minha.


Δὲν ἐδεσμεύθηκα. Τελείως ἀφέθηκα κ' ἐπῆγα.
Στὲς ἀπολαύσεις, ποῦ μισὸ πραγματικές,
μισὸ γυρνάμενες μὲς στὸ μυαλό μου ἦσαν,
ἐπῆγα μὲς στὴν φωτισμένη νύχτα.
Κ' ἤπια ἀπὸ δυνατὰ κρασιά, καθὼς
ποῦ πίνουν οἱ ἀνδρεῖοι τῆς ἡδονῆς

7.13.2015

Epitáfio de um Tirano

Perfeição, dum certo tipo, era o que ele desejava,
E a poesia que ele inventava era fácil de entender;
Ele conhecia a loucura humana como a palma da sua mão,
E estava sempre muito interessado em exércitos e frotas;
Quando ele se ria, senadores respeitáveis desmanchavam-se a rir,
E quando ele chorava as criancinhas morriam nas ruas.


W.H. Auden. Tradução minha


Perfection, of a kind, was what he was after,
And the poetry he invented was easy to understand;
He knew human folly like the back of his hand,
And was greatly interested in armies and fleets;
When he laughed, respectable senators burst with laughter,
And when he cried the little children died in the streets.

Tradução de 'Killing the European Project' de Paul Krugman


Uma tradução deste texto.
Vamos assumir que tu achas que o Tsipras é um palhaço incompetente. Vamos assumir que desejas ardentemente que o Syriza saia do poder. Vamos mesmo até assumir que ficas feliz com a possibilidade de fazer com que aqueles Gregos irritantes saiam do euro. 
Mesmo se tudo isso for verdade, a lista de exigências do Eurogrupo é pura loucura. A crescente hashtag #ThisIsACoup (Isto É Um Golpe) descreve a situação perfeitamente. Isto vai bem para além de ser uma posição dura, para se tornar numa posição puramente vingativa, numa destruição completa da soberania nacional, sem qualquer esperança de recuperação. Supõe-se que tenha sido proposta para ser uma oferta que a Grécia não possa aceitar, mas mesmo assim é uma traição grotesca de tudo aquilo que o projecto Europeu deveria simbolizar. 
Será que há alguma coisa que possa puxar a Europa para longe do precipício? Ouve-se dizer que o Mario Draghi está a tentar reintroduzir alguma sanidade, que o Hollande está finalmente a mostrar a resistência ao teatro de moralismo económico alemão que tão evidentemente lhe esteve em falta no passado. Mas muito do dano já foi feito. Quem é que alguma vez poderá voltar a confiar nas boas intenções da Alemanha? 
Num certo sentido, a economia tornou-se um assunto secundário. Mas ainda assim, diga-se que aquilo que aprendemos nestas duas semanas é que ser um membro da zona euro significa que os credores podem destruir a tua economia se não te portares bem. Isto não tem qualquer ligação com as medidas económicas de austeridade que estão em questão. O facto é que, agora como sempre, impor uma austeridade severa sem alívio da dívida é uma medida condenada à partida, independentemente do facto de o país estar ou não estar disposto a acatar essa austeridade. E por sua vez o que isso significa é que mesmo que a Grécia se renda a toda a linha estará à mesma num beco sem saída. 
Será que a Grécia conseguirá sair? Será que a Alemanha vai tentar impedi-la de recuperar? (Peço desculpa, mas neste momento é esse o tipo de perguntas que temos de fazer.) 
O projecto Europeu — um projecto que eu sempre elogiei e defendi — acabou de receber um golpe terrível e talvez fatal. E penses o que pensares do Syriza, ou da Grécia, não foram os Gregos que o desferiram.

Paul Krugman.
Tradução minha

7.11.2015

um poema do Rilke

O Vizinho

Violino desconhecido, acaso persegues-me?
Em quantas cidades é que a tua
Solitária noite falou com a minha?
Tocam-te centenas? Toca-te um só?

Haverá em todas as grandes cidades
Pessoas que, sem ti,
Já se teriam perdido nos rios?
E por que razão é que vens sempre ter comigo?

Por que razão sou eu sempre o vizinho daqueles
Que te aterrorizam até que tu cantes
E digas: A vida é mais pesada
Que o peso de todas as coisas.



R.M. Rilke. em O Livro das Imagens [Das Buch der Bilder]. Tradução minha



Der Nachbar

Fremde Geige, gehst du mir nach?
In wieviel fernen Städten schon sprach
deine einsame Nacht zu meiner?
Spielen dich hunderte? Spielt dich einer?

Giebt es in allen großen Städten
solche, die sich ohne dich
schon in den Flüssen verloren hätten?
Und warum trifft es immer mich?

Warum bin ich immer der Nachbar derer,
die dich bange zwingen zu singen
und zu sagen: Das Leben ist schwerer
als die Schwere von allen Dingen.

7.10.2015

φιλεῖσθαι

αὐτόματα τἀγαθὰ τῷ φιλουμένῳ [γίγονται] καὶ παρὰ θεῶν καὶ παρὰ ἀνθρώπων.

Xenofonte. Hierão.II.5. Tradução minha.

Αs bençãos dos homens e dos deuses chegam espontaneamente a quem é amado.

7.09.2015

Alusões aos poetas

William Empson formulated a crucial principle when he commented on another kind of allusion, that to classical mythology. In ‘The Nymph complaining for the death of her Faun’, Andrew Marvell writes exquisitely:

The brotherless Heliades
Melt in such Amber Teares as these.

Empson’s elucidation has its own beauty in acknowledging Marvell's:
It is tactful, when making an obscure reference, to arrange that the verse shall be intelligible even when the reference is not understood. Thus many conceits are prepared to be treated as subdued conceits, though in themselves they have been fully worked out. Consider as the simplest kind of example
The brotherless Heliades
Melt in such amber tears as these.
(Marvell, The Nymph complaining)
If you have forgotten, as I had myself, who their brother was, and look it up, the poetry will scarcely seem more beautiful; such of the myth as is wanted is implied. It is for reasons of this sort that poetry has so much equilibrium, and is so much less dependent on notes than one would suppose. But something has happened after you have looked up the Heliades; the couplet has been justified. Marvell has claimed to make a classical reference and it has turned out to be all right; this is of importance, because it was only because you had faith in Marvell’s classical references that you felt as you did, that this mode of admir-ing nature seemed witty, sensitive, and cultured. If you had expected, or if you had discovered, that Marvell had made the myth up, the couplet might still be admired but the situation would be different; for instance, you would want the brother to be more relevant to the matter in hand.
Empson imagines responsibly the responsibility of the poet who alludes, and he is at once speculative and precise when it comes to matters of learning. A poem, without being dependent on our knowing certain things, may yet benefit greatly from our doing so. For to say that poetry ‘is so much less dependent on notes than one would suppose’ is not at all to demean that which can be supplied by notes, those necessary evils.

Christopher Ricks. Allusion to the Poets. OUP (2002)

Génesis, do Geoffrey Hill

Génesis

I
Lançando-me contra o ar emproado
Gritei os milagres de Deus.

E primeiro o peso morto
Do mar contra a terra empurrei.
Orei e as ondas abriram em flor,
Os rios geraram areia.

E lá onde os rios salgados se enchem
O salmão rijo e bronco esforçou-se,
Golpeando as águas, contra a corrente,
Para no cume chegar ao repouso.


II
No segundo dia parei e olhei
Para o mergulho afiado da águia-pesqueira,
Que raiava sangue costa fora
Ao exibir a carne viva do tendão.

E no terceiro dia gritei: ‘Atenção
Ao arrulhar da coruja, ao furão sorridente,—
À calculista vénia do falcão,
Olhos frios, e corpos cingidos a aço,
Sempre na presa fincados.'


III
E renunciei no quarto dia,
A esta feroz e obstinada argila,
Ao construir em mito imenso à raça humana
O aquático Leviathã,

E fiz com que albatroz de asa enorme
Limpasse ao mar as cinzas
Onde Zero se cruza a Capricórnio,
Uma imortalidade pensativa —
Tal como a que tem a fénix assombrosa
Na árvore imarcescível.


IV
A fénix arde fria como a geada
E, como um fantasma das histórias,
A ave-espectral dá em louca e desvaira
Arremessada pelo oceano à toa.

Então no quinto dia eu de novo avancei
Para a carne e para o sangue e para a dor do sangue.


V
No sexto dia enquanto me apressava
A cavalgar pelas obras de Deus,
Com esporas colhi o sangue do cavalo.

Pelo sangue vivemos, o frio, o quente,
Para despojar e redimir o mundo:
Não há mito exangue que aguente.

E pelo sangue de Christo podem-se os homens libertar
Mesmo que os seus corpos jazam em sudários rentes
Sob o couro áspero do mar;

Mesmo tendo a Terra feito do seu peso embrulho
Aos ossos que não aguentam a luz.



Geoffrey Hill. Tradução minha.



Genesis

I
Against the burly air I strode
Crying the miracles of God.

And first I brought the sea to bear
Upon the dead weight of the land;
And the waves flourished at my prayer,
The rivers spawned their sand.

And where the streams were salt and full
The tough pig-headed salmon strove,
Ramming the ebb, in the tide’s pull,
To reach the steady hills above.


II
The second day I stood and saw
The osprey plunge with triggered claw,
Feathering blood along the shore,
To lay the living sinew bare.

And the third day I cried: ‘Beware
The soft-voice owl, the ferret’s smile,—
The hawk’s deliberate stoop in air,
Cold eyes, and bodies hooped in steel,
Forever bent upon the kill.’


III
And I renounced on the fourth day,
This fierce and unregenerate clay,
Building as a huge myth for man
The watery Leviathan,

And made the long-winged albatross
Scour the ashes of the sea
Where Capricorn and Zero cross,
A brooding immortality —
Such as the charmed phoenix has
In the unwithering tree.


IV
The phoenix burns as cold as frost;
And, like a legendary ghost,
The phantom-bird goes wild and lost,
Upon a pointless ocean tossed.

So, the fifth day, I turned again
To flesh and blood and the blood’s pain.


V
On the sixth day, as I rode
In haste about the works of God,
With spurs I plucked the horse’s blood.

By blood we live, the hot, the cold,
To ravage and redeem the world:
There is no bloodless myth will hold.

And by Christ’s blood are men made free
Though in close shrouds their bodies lie
Under the rough pelt of the sea;

Though Earth has rolled beneath her weight
The bones that cannot bear the light.

7.05.2015

um poema do Cavafis para o referendo grego

Che fece ... il gran rifiuto

A algumas pessoas acontece que um dia
têm o grande Sim e o grande Não
e é preciso de dizer um deles. Reconhece-se imediatamente aquele
que está pronto para o Sim, e que ao pronunciá-lo dá um

passo adiante na sua honra e na sua convicção.
Mas aquele que negou não se arrepende. Se lhe voltassem a perguntar,
voltaria a dizer não. Continuará a ser moldado
pelo seu não — tão acertado — durante toda a sua vida.

Constandinos Cavafis. Tradução minha

Σε μερικούς ανθρώπους έρχεται μια μέρα
που πρέπει το μεγάλο Ναι ή το μεγάλο το Όχι
να πούνε. Φανερώνεται αμέσως όποιος τόχει
έτοιμο μέσα του το Ναι, και λέγοντάς το πέρα

πηγαίνει στην τιμή και στην πεποίθησί του.
Ο αρνηθείς δεν μετανοιώνει. Aν ρωτιούνταν πάλι,
όχι θα ξαναέλεγε. Κι όμως τον καταβάλλει
εκείνο τ’ όχι — το σωστό —  εις όλην την ζωή του.

Aufklärung

Athen will eben immer wieder neu aus Alexandrien zurückerobert sein.

Atenas precisa de estar sempre a ser reconquistada de novo a Alexandria.

Aby Warburg, numa carta a T.S. Eliot.Tradução minha

6.28.2015

De vera religione

Quid est aliud de philosophia tractare, nisi veræ religionis, qua summa et principalis omnium rerum causa, Deus, et humiliter colitur, et rationabiliter investigatur, regulas exponere? Conficitur inde, veram esse philosophiam veram religionem, conversimque veram religionem esse veram philosophiam.
João Escoto Eriugena. Sobre a predestinação. Tradução minha.
Que outra coisa é tratar a filosofia, se não explicar o que é a verdadeira religião, pela qual adoramos humildemente e investigamos racionalmente Deus, a maior e principal causa de todas as coisas? Daí se concluiu que a verdadeira filosofia é a verdadeira religião, e inversamente também que a verdadeira religião é a verdadeira filosofia.

6.22.2015

The demands of memory are heavy.

Memory brings modesty and reassurance. It is necessary to culture, to an understanding of permanence in a changing world, to a possible persistence of the past in the present, a past whose influence lives on. The demands of memory are heavy. Rilke, seeing the Belvedere Torso: «You must change your life.» Times which remember are creative; times which forget fall into excess.
Friedrich Ohly. The Damned and the Elect: Guilt in Western Culture. Linda Archibald (trad.) Cambridge University Press (1992)

6.17.2015

L'alma me levi e'l cor l'alegreça

E vantende, segnor mio, e vatene, amore
Con ti via se ne vene l'alma mia e'l core.
E gli ochi dolenti piangon sença fine
Cha veder el paradisso e soa belleza.
A cuy ti lasso, amore, ché no me meni?
L'alma me levi e'l cor e l'alegreça.
La bocha cridava che sentiva dolceça;
Amara lamentarse, oymé, topina!
Altro signor zamay non voglio avere
Perch'io non troverey del suo vallore.
Séc. XVº (Manuscrito em Paris)

George Steiner sur Martin Heidegger

6.16.2015

a função da filosofia

vão é o filosofar que não alivia ninguém do seu sofrimento

— Epicuro (fr.54) —

κενὸς ἐκείνου φιλοσόφου λόγος, ὑφ'οὗ μηδὲν πάθος ἀνθρώπου θεραπεύεται 

Constantinopla

Cidade gentil,
existes ainda
e e não te esquecerás de ti.
todas as cidades te chamam ainda
Cidade.

quando têm um querer, quando suspiram e desejam,
és tu que nelas suspiras e queres.
como membros fantasma as tuas ruas
estendem-se misteriosamente pelo mediterrâneo,

cortam o mar e semeiam-te.
e ao caminhar ao longe, na península que mal pisaste,
vejo que a lembrada pedra da igreja dos Santos Apóstolos
largou âncora entre a minha casa e a universidade.

tanto do tempo são destroços,

mas restituir-te-ás a ti antes da fim.

pois virá o dia em que também os minaretes se afundarão debaixo da porta dourada.
em que transformado em mármore o almuadem aguardará o fim dos tempos.

penso que esse será o dia em que os Atenienses imperiais punirão uma vez mais a velhaca cidade de Byzâncio.
e que esta jamais voltará a fechar seus gananciosos portos aos gregos do Ponto.

6.15.2015

Chaque film sa histoire

Non, les copies rayées ne nous gênet pas, au contraire, on aurait tendance à y voir quelque chose de sacerdotal. Sur Internet, nombre de raretés présent d'ailleurs une image malheureusement de mauvaise qualité. Mais chaque copie, chaque fichier a aussi son histoire. La copie VHS d'un Biette retrouvée dans une cave, un laserdisc de Patrick Tam, réputé introuvable, pourtant débusqué à Taïwan, ou même un DVD institutionnel uniquement trouvable en bibliothèque. Cette quête dépasse largement Internet: le virtuel ne nous a pas coupés du réel.
Hughes Perrot e Vincent Poli. Nouvelle cinéphilie. Cahiers du Cinéma Setembro 2014

6.14.2015

A tanatogénese reproduz a ontogénese

Nos velórios, o processo da decomposição faz com que o morto recupere as suas faces anteriores. Nalgum momento da confusa noite do dia 6, Teodelina Villar foi magicamente a que fora vinte anos atrás; os seus traços recobraram a autoridade imposta pelo orgulho, pelo dinheiro, pela juventude pela consciência de coroar uma hierarquia, pela falta de imaginação, pelas limitações, pela estupidez. Pensei mais ou menos assim: nenhuma versão desta face que tanto me inquietou será tão memorável como esta; convém que seja a última, já que pôde ser a primeira. Deixei-a rígida entre as flores, o seu desdém aperfeiçoado pela morte.

Jorge Luís Borges, O Zahir em O Aleph. Fávio José Cardoso (trad) Teorema (1998)

Ab ethnicis si quid recte dictum, in nostrum usum est convertendum.

Philosophi autem qui vocantur, si qua forte vera et fidei nostræ accomodata dixerunt, maxime Platonici, non solum formidanda non sunt, sed ab eis etiam tamquam ab injustis possessoribus in usum nostrum vindicanda. Sicut enim Ægyptii non tantum idola habebant et onera gravia, quaæ populus Israel detestaretur et fugeret, sed etiam vasa atque ornamenta de auro et de argento et vestem, quæ ille populus exiens de Ægypto sibi potius tamquam ad usum meliorem clanculo vindicavit, non auctoritate propria, sed præcepto Dei, ipsis Ægyptiis nescienter commodantibus ea quibus non bene utebantur; sic doctrinæ omnes Gentilium non solum simulata et superstitiosa figmenta gravesque sarcinas supervacanei laboris habent, quæ unusquisque nostrum, duce Christo, de societate Gentilium exiens, debet abominari atque devitare, sed etiam liberales disciplinas usui veritatis aptiores et quædam morum præcepta utilissima continent, deque ipso uno Deo colendo nonnulla vera inveniuntur apud eos. Quod eorum tamquam aurum et argentum quod non ipsi instituerunt, sed de quibusdam quasi metallis divinæ providentiæ, quæ ubique infusa est, eruerunt, et quo perverse atque injuriose ad obsequia dæmonum abutuntur, cum ab eorum misera societate sese animo separat, debet ab eis auferre Christianus ad usum justum prædicandi Evangelii. Vestem quoque illorum, id est, hominum quidem instituta, sed tamen accomodata humanæ societati qua in hac vita carere non possumus, accipere atque habere licuerit in usum convertenda Christianum.

Sanctus Augustinus. De Doctrina Christiana. II.40

Judas e São Brandão

Igitur Sanctus Brendanus cum navigasset contra meridiem apparuit illis in mare quadam formula quasi hominis sedentis supra petram et velum ante illum a longe quasi mensura unius sagi pendens inter duas furcellas ferreas et sic agitabatur fluctibus sicut navicula solet quando periclitatur a turbine. Alii ex fratribus dicebant quod avis esset alii navim putabant. Vir Dei cum audisset eos inter eos conferentes talia ait: «Sinite contendere; dirigite cursum navis usque ad locum illum». Cum vero vir Dei illuc appropinquasset restiterunt inde in circuitu quasi coagulati. Et invenerunt hominem sedentem supra petram hispidum ac deformem et undae ex omni parte quando defluebant ad illum percutiebant.eum usque ad verticem et quando nudebant apparabat illa petra nuda in qua sedebat infelix ille. Pannus quoque qui ante illum pendebat aliquando percutiebat eum per oculos et frontem. Beatus Brendanus cepit interrogare illum quis esset aut pro qua culpa missus esset ibi seu quid habuisset talem penitentiam sustinere. Cui ait: «Ego sum infelicissimus Judas atque negociator pessimus; non pro meo merito habeo istum locum sed pro misericortia ineffabili Jhesu Christi. Non mihi computatur penalis iste locus sed pro indulgentia redemptoris propter honorem dominicae resurrectionis». Nam dies dominicus erat tunc.» Mihi enim videtur quando sedeo hic quasi fuissem in paradiso delitiarum propter timorem tormentorum quae futura sunt mihi in hac vespera. Nam ardeo sicut massa plumbi liquefacta in olla die ac nocte in medio montis quem vidistis. Ibi est Leviathan cum suis satellibus. Ibi fui quando deglutivit fratrem vestrum et ideo erat infernus laetus ut emissiset foras flammas ingentes et sic facit semper quando animas impiorum devorat. Meum vero refrigerium habeo hic omni die dominico a vespera usque ad vesperam et in Nativitate Domini usque (in) Theophaniam et a Pascha usque in Pentecostem et in purificatione Dei genetricis atque Assumptione. Postea et antea crucior in profundum inferni cum Herode et Pilato et Anna et Caïpha. Idcirco adjuro vos per Redemptorem mundi intercedere dignemini ad Dominum Jhesum Christum ut habeam hic potestatem esse usque ad ortum solis cras ne (me) daemones in adventu vestro crucient atque ducant ad malam hereditatem quam comparavi malo precio». Cui Sanctus Brendanus ait: «Fiat voluntas Domini. Hac nocte non eris morsus daemonum usque mane». Iterum vir Dei interrogabat illum dicens: «Quid sibi vult iste pannus?» Cui ait: «Istum pannum dedi cuidam leproso quando fui camerarius Domini. Sed tamen non fuit meus quem dedi. Nam Domini et fratrum suorum erat. Ideoque ab illo non habeo ullum refrigerium sed magis impedimentum. Nam furcas ferreas in quibus pannus pendet illas dedi sacerdotibus templi ad cacabos sustinendos. Petram in qua sedeo illam misi in fossam in publica via sub pedibus transeuntium antequam fuissem discipulus Domini». Cum autem vespera hora obumbrasset Tethin ecce innumerabilis multitudo daemonum cooperuit faciem Tethidis in circuitu vociferantium atque dicentium: «Recede vir Dei a nobis quia non possumus appropinquare ad socium nostrum usque dum ab illo recedas. Nec faciem principis nostri ausi sumus videre donec sibi reddamus suum amicum. Tu vero abstulisti nobis nostrum cursum . Noli istum hac nocte defendere». Quibus ait vir Dei: «Non ego defendo sed Dominus Jhesus Christus concessit sibi istam noctem hic esse usque mane». Cui aiunt daemones: «Quomodo invocas nomem Dei super illum cum sit ipse traditor Domini?» Quibus ait vir Dei: «Precipio vobis in nomine Domini nostri Jhesu Christi ut nihil sibi mali faciatis usque mane». Transacta itaque nocte illa cum Dei cepisset iter agere ecce infinita multitudo daemonum cooperuit faciem abyssi emitientes diras voces atque dicentes: «O vir Dei maledictus ingressus tuus atque exitus tuus quia princeps noster hac nocte flagellavit nos verberibus pessimis propter quod non presentavimus maladictum sibi captivum». Quibus ait vir Dei:«Non nobis pertinet vestra maledictio sed vobismet ipsis. Cui autem maledicitis ille est benedictus et cui benedicitis ille est maledictus». Cui daemones responderunt: «Duplices penas sustinebit in istis sex diebus infelix Judas propter quod illum defendistis in ista praeterita nocte». Quibus venerabilis pater dixit «non habetis potestatem inde neque princeps vester sed potestas Dei erit». Iterum subjunxit: «Precipio vobis in nomine Domini nostri Jhesus Christi et principi vestro ne istum extollatis amplius cruciatibus quam antea». Cui responderunt: «Numquid Dominus es omnium ut tuis sermonibus obediamus?» Quibus ait vir Dei: «Servus suus sum et quicquid in suo nomine precipiam (jude fiet) .Habeo ministerium de quibus ille mihi concedit». Et ita secuti sunt eum usque dum non poterant Judam videre. Reversi autem daemones levaverunt infelicem animam inter illos cum magno impetu et ululatu.

Navigationis Sancri Brendani Abbatis Caput XXXII

6.11.2015

Borges & Piranesi: Arquitectos de Infernos Impossíveis

§1

Em 1745 Giovanni Battista Piranesi publica a primeira edição dos seus Carceri d'Invenzione — Prisões Imaginárias. Esta edição consiste em 14 ilustrações de grandiosas salas, amplas e duma luminosidade que parecia querer mascarar o propósito denunciado no título: enormes prisões, imaginadas ou sonhadas, oníricas, pelo menos na medida em que uma prisão possa ser. Em boa verdade se não soubéssemos poderíamos ser levados a pensar que a primeira versão pouco tem de horripilante: a maior parte das superfícies planas não aparecem preenchidas, a ilustração ostensivelmente esboçal oferece uma claridade que transforma as grandes arcadas em sítios onde quase nos poderíamos imaginar a querer passear. Ninguém chega porém às ilustrações sem ter lido o título (e a magnífica folha de capa, uma obra-prima em ambas as versões), e a contemplação de cada cenário é condicionada pela consciência de que estamos a olhar para prisões, para cárceres; a nossa reacção será pautada condignamente por esse conhecimento. Somos porém levados à conclusão de que, se isto é uma situação infernal, é infernal da mesma forma que o Limbo no Inferno do Dante é infernal. Sim, é terrível, mas é-o por ausência. Um cárcere, como a matéria que pregavam os Neoplatónicos, mais lamentável por aquilo de que nos mantém afastados, do que realmente pelas trevas com que poderia investir sobre nós. O Plotino ensinou-nos de que o Mal não existe, e que aquilo a que chamamos Mal é na realidade apenas o afastamento do Bem. Também na primeira edição dos Carceri parece que o elemento de sofrimento é derivado menos dos suplícios que vamos vislumbrando em algumas das gravuras do que do afastamento daquela luz que emana quer das janelas entrevistas quer do exterior do edifício quer de fora da quarta parede, de fora da folha de papel ou do ecrã: a leveza sustida nas linhas é transportada para a estrutura dos próprios edifícios — e nós que o contemplamos ocupamos dessa forma uma posição inevitavelmente sotereológica: se não fôssemos nós a ver aqueles edifício de forma menos pesada, os suplícios seriam mais penosos; ao mantermos os olhos abertos aliviamos por instantes, como São Brandão aliviou Judas, o sofrimento aos condenados.

Versão de 1745

Versão de 1761


Ao avançarmos para a edição de 1761 saímos do Limbo e entramos no Inferno. O volume possui um acrescento de duas novas ilustrações, mas a grande alteração prende-se indiscutivelmente com as alterações feitas às já existentes. São de duas ordens. Os cenários passam a crescer com arcos tenebrosos que ligam colunas anteriormente disconexas; em cantos escuros amontoam-se cadeias de ferro; cada vez mais estamos a falar de Prisões, sem sublimação nem espiritualidade, e que facilmente prescindiriam da folha de título para poderem ser entendidas como tal. Mas para além de acrescentos materiais, de longe mais notório é o escurecimento de todas as superfícies. Não há superfície que não tenha sido preenchida com lápis escuro. A leveza do cenário desapareceu por completo. A única lembrança é a macabra manutenção da luz exterior, que tem agora o efeito não de contribuir para a sustentação do ambiente de suspiros e resignação com que a edição de ’45 estivera assombrada, mas sim para corroborar o chiaroscuro infernal do pandemónio de cárceres que se sucedem como uma cacofonia de supliciantes e supliciados. Aqui a treva do chiaroscuro não reforça a luz, é antes a luz que, exilada do seu ambiente natural, nos convence da sua própria impotência e nos retira a esperança para resistir a sermos esmagados pelo peso dominante daquelas arcadas que, como arco-íris de sombra, se precipitam sobre nós e nos capturam como grilhões. A aspereza das linhas aumenta também a violência das figuras, que aguçadas como num filme expressionista, parecem elas próprias ser as ferramentas dum carnífice. Se a edição de ’45 fora plotiniana, esta é maniqueísta: o Mal existe, as chamas do inferno e a sua «darkness visible» são mais visíveis que a luz emanada dos dedos de um qualquer redentor que apontasse. Até mesmo nós, que na edição anterior éramos co-redentores, fomos reduzidos ao estatuto de voyeurs do sofrimento alheio. Olhando para os instrumentos de tortura não os alivia, não nos purifica, ninguém redime. Fechar o livro, fechar a página? Claro que seria uma opção. Aliás, fechar os olhos à dor dos outros é uma prática à qual estamos já sobejamente habituados.

Versão de 1745

Versão de 1761


§2

Será que o Escher conhecia o Piranesi? Recuperemos a ingenuidade da pergunta. O que é que nos faz tão instantaneamente ligar os dois? Por um lado o Escher é tão ubíquo que a sua referência numa descrição de arquitectura interior que escape minimamente a uma apresentação clássica é quase um cliché. Por outro porém há uma afinidade óbvia que pode ser colhida na projecção de pseudo-interiores amplos, preenchidos, e que parecem oferecer obstáculos intelectuais à projecção espacial. As ilustrações do Escher são aquilo a que vulgarmente chamamos adynata, ou impossibilia: representações de realidades impossíveis. Um dos meus exemplos favoritos de tal figura é aquele que aparece no secundo livro do poeta romano Propércio:

errat, qui finem vesani quærit amoris:
    verus amor nullum novit habere modum.
terra prius falso partu deludet arantis,
    et citius nigros Sol agitabit equos,
fluminaque ad caput incipient revocare liquores,
    aridus et sicco gurgite piscis erit,
quam possim nostros alio transferre dolores.

Que o Ezra Pound verteu assim na sua Homenagem a Sexto Propércio:

Fool who would set a term to love's madness,
For the sun shall drive with black horses,
earth shall bring wheat from barley,
The flood shall move toward the fountain
Ere love know moderations,
The fish shall swim in dry streams.
No, now while it may be, let not the fruit of life cease.

O termo impossibilia em arquitectura — ou, falando com mais correcção, em representações arquitectónicas — refere-se à representação de estruturas cuja construcção é espacialmente impossível. Não se refere a impossibilidades materiais (a suspensão, por exemplo dum castelo numa espiral de lã não seria um impossibile) mas sim a erros de perspectiva que resultem numa estrutura não tridimensionalmente esculpível. De forma muito curiosa têm sido videojogos a receber esta herança — ver, por exemplo, esta cena de The Stanley Parable, uma das experiências filosóficas interactivas mais fascinante que já experimentei; ou ainda The Bridge, que para além arquitectura assume espontaneamente a estética do Escher. Um pormenor importante é que impossibilia, enquanto termo técnico, tende a reservar-se para erros intencionais. Uma situação arquitectónica que resulte incongruente devido a uma qualquer falha no cálculo da perspectiva apenas por analogia se poderá chamar um impossibile. Claro que isto é uma petição de princípio, pois casos limite versarão precisamente na ambiguidade entre a intencionalidade e o percalço.

Observaremos isso em breve. Concluímos no entretanto que, qualquer que seja o elo que queiramos traçar entre o Piranesi e o Escher, este não poderá passar por meras conclusões arquitectónicas — pois isso far-nos-ia cruzarmo-nos com muitos mais ilustradores etc — mas sim pela afinidade entre ambos que nos permitam fazer a triangulação com a noção do impossível. Os Carceri d’Invenzioni devolvem uma resposta negativa. As galerias, na sua grandiosidade funesta, parecem preservar apesar de tudo uma ordenação espacial segura. O interessante começa precisamente aqui. Na primeira parte passámos sucintamente em revista as alterações inseridas da versão de 1745 para a de 1761. A primeira, dissemos, fora o acrescento de objectos, balaustradas, etc; a segunda o assombramento do ambiente. Falta-nos acrescentar agora uma terceira, que na realidade é uma elaboração da primeira: o acrescentar de segmentos arquitecturais tem várias vezes a consequência de tornar a arquitectura, duma versão para a outra, impossível. Aparece descrito nesta página. Esta afirmação parte dum axioma: quando  o Piranesi torna uma arquitectura imaculada em arquitectura impossível está a fazê-lo intencionalmente. É uma suposição de fé, mas não serei o único a apostar nela contra a alternativa: «[He was] a master of classical perspective. It is hard to believe that such technical brilliance would easily make several errors in just one place, the Carceri, where they were appropriate to the primary theme […]. It is more reasonable to think that he knew well what he was trying to achieve.» (supra)

Versão de 1745

Verão de 1761

Há várias conclusões que podemos tirar daqui. A primeira é que o Piranesi considerou a impossibilidade como uma característica eminentemente infernal: quando quis privar as suas prisões de toda o seu raiar de esperança, tornou-as lugares impossíveis. A ligação entre impossibilidade e inferno conta-nos uma história complexa. Ao longa da história a teologia hesitou sumamente entre considerar por vezes  o mal não só possível como até mesmo o possibilissimum. Toda a tradição maniqueística e gnóstica para aqui conduz: este mundo é do mal, e por conseguinte as coisas que nele podem acontecer só podem ser, antes de tudo o mais, más. Entre poder ser e ser mau não há qualquer diferença. No sæculum, não há refúgio possível da Cidade dos Homens. O domínio de Deus e da Justiça, se se fizer, far-se-á ou no Fim dos Tempos, ou na região inoperativa dos corações humanos, ou então através do mais impossível dos actos, o milagre. Contra esta leitura coexistiu sempre a outra, platónica mas mais especificamente neoplatónica, de que o mal em si é impossível, na medida em que o bem jamais larga as suas garras do mundo que dele emana. O mal absoluto seria o caos absoluto, seria a matéria sem forma, essa abstracção intelectual sobre a qual o Eliot viria a comentar que seria como «Shade without form, shape without colour». Desta vez foi a vez do mal se transformar em impossibilissimum e do bem, que tudo toca, penetrar na semente de todos os seres e lhes dar, por virtude da Sua existência, a existência também a eles.

O Piranesi está com os dois pés nesta segunda tradição platónica. É com a inserção dos impossibilia na obra de arte que os seus infernos desabrocham. O seu platonismo revela-se portanto como existente apenas a um nível teórico, pois a sua ética é profundamente anti-platónica. Anti-platónico, pois não poderia deixar de despertar a ira de Platão, que percebeu bem o perigo da Arte que concede aos artistas a ténica para se dedicarem à ímpia geração do Mal, ao ultrapassarem despreocupadamente as constrições que lhe estariam de outra forma impostas. Esta lado demoníaco não o compreendeu Escher, ou ignorou-o: não sou capaz de entender as suas representaçãos do impossível como outra coisa que não eticamente neutras. Houve no entanto um seu coevo que o entendeu bem. No seu conto O imortal, aparecido pela primeira vez aquando da publicação de O Aleph (1949), Borges conta a história de um aventureiro que parte em busca da Cidade dos Imortais. No término do seu árduo percurso apresenta-nos a seguinte descrição:
Fui divisando capitéis e astrágalos, frontões triangulares e abóbadas, confusas pompas de granito e mármore. Foi-me assim concedido ascender da cega região de negros labirintos entretecidos à resplandecente Cidade. Emergi numa espécie de pequena praça, ou melhor, de pátio. Circundava-o um só edifício de forma irregular e altura variável; a esse edifício heterogéneo pertenciam as diversas cúpulas e colunas. Mais que qualquer outro traço desse monumento incrível, causou-me admiração a antiguidade da sua construção. Senti que era anterior aos homens, anterior à terra. Essa evidente antiguidade (embora, de algum modo, terrível para os olhos) pareceu-me adequada ao trabalho de operários imortais. Cautelosamente a princípio, com indiferença depois, com desespero por fim, errei por escadas e andares do inextricável palácio. (Depois verifiquei que eram variáveis a altura e a extensão dos degraus, facto que me fez compreender a singular fadiga que me provocaram.) «Este palácio é obra dos deuses», pensei inicialmente. Explorei os inabitados precintos e corrigi: «Os deuses que o edificaram morreram.» Notei as suas particularidades e disse: «Os deuses que edificaram estavam loucos.» Disse isso, bem sei, com uma incompreensível reprovação que era quase um remorso, com mais horror intelectual que medo sensível. À impressão de enorme antiguidade juntaram-se outras: a do interminável, a do atroz, a do complexamente insensato. Eu atravessara um labirinto, mas a nítida Cidade dos Imortais atemorizou-me e repugnou-me. Um labirinto é uma casa urdida para confundir os homens; a sua arquitectura, pródiga em simetrias, está subordinada a esse fim. No palácio que imperfeitamente explorei, a arquitectura carecia de fim. Abundavam os corredores sem saída, as altas janelas inalcançáveis, as portas aparatosas que davam para uma cela ou para um poço, as inacreditáveis escadas invertidas, com os degraus e a balaustrada para baixo. Os degraus, adossados a um muro monumental, morriam sem chegar a nenhuma parte, ao fim de duas ou três voltas, na treva superior das cúpulas. Ignoro se todos os exemplos que enumerei são literais; sei que durante muitos anos infestaram os meus pesadelos. Já não posso saber se este ou aquele traço é uma transcrição da relaidade ou das formas que desatinaram as minhas noites. «Esta Cidade», pensei, «é tão horrível que o simples facto de existir e perdurar, embora no centro de um deserto secreto, contamina o passado e o futuro e de algum modo compromete os astros. Enquanto perdurar, ninguém no mundo poderá ser valoroso ou feliz.» Não quero descrevê-la; um caos de palavras heterogénas, um corpo de tigre ou de touro, em que pululassem monstruosamente, conjugados e odiando-se, dentes, órgãos e cabeças, podem (talvez) ser imagens aproximadas.
A Cidade dos Imortais está para a tradição dos impossibilia como a segunda versão dos Carceri para a primeira. Replica-a, mas recusa-se a aceitá-la sem uma avaliação ética profundamente negativa. Poderíamos dizer mais uma vez que se trata de ver o mundo em escala musical menor — embora aqui mesmo isso pareça ficar aquém; talvez numa escala musical diminuta que se aguenta em perpetuidade sem resolução. Não obstante, a nossa capacidade de olhar para o impossível com olhos julgadores não deve ser vista como uma falha. Na Náusea do Sartre, Antoine Roquentin entende justamente a sua nascente capacidade de olhar moralmente para um jardim, «que lhe sorri», como um triunfo. Esse triunfo é um renascer dum pensamento mítico que já tínhamos podido antever, por exemplo, nas reflexões morais e religiosas que os Pitagóricos antigos traçavam em torno daquilo que hoje é tido por absolutamente asséptico, os números. Não é o caso que a Cidade dos Imortais esteja feita de forma imoral, como se esse tivesse sido o objectivo. O que e passa é que o seu princípio básico, o da impossibilidade, é entendido como imoral, e todo o monumento adquire portanto essa característica aos olhos de quem o ultrapassa, como uma Hogwarts que funcionasse mesmo depois de toda a magia ter sido desactivada.

Execramos o impossível na medida em que este viola as leis da terra, pois foi-nos dito: «E Deus viu que ela era boa.» E foi-nos dito ainda: «Permanecei fiéis à terra.» Como porém no-lo lembra o Vergílio Ferreira, lidamos perpetuamente com o pecado intrínseco que nos dita que «O impossível é a medida do homem e a sua vocação.» Mais do que medida, diria eu vocação, mais do que vocação, inclinação. ou tendência. Que os seres humanos tendem para o impossível já o sabemos desde que na dita Ode ao Ser Humano Sófocles pôs a nu arrogância imensa de todo o agir que tem o impossível como meta. Há muito que arrastámos para a terra a casa de muitas mansões do Senhor; com essa queda fizemos muitos quartos virar-se de cabeça para baixo, trancámos e perdemos a chave de tantos outros, e outros ainda colocámos tão acima ou tão abaixo de pés humanos que se tornou impossível aceder a eles. Ainda assim insistimos em continuar a frequentar sofregamente cada um deles, quanto mais não fosse porque de onde estamos não nos é permitido sair.

6.08.2015

if Christ does not rise tomorrow

The absorption of pagan ideas is well illustrated by the belief still prevalent among the peasants that the Easter festival, like the cult of Demeter, has an important bearing upon the growth of the crops. A story in point was told to me by one who had traveled in Greece. Happening to be in some village of Eubœa during Holy Week, he had been struck by the emotion which the Good Friday services evoked; and observing on the next day the same general air of gloom and despondency, he questioned an old woman about it, whereupon she replied, 'Of course I am anxious; for if Christ does not rise tomorrow, we shall have no corn this year.'

John Lawson. Modern Greek Folklore and Ancient Greek Religion: A Study in Survivals. Cambridge University Press (1910).

6.05.2015

O atheísmo como punição divina

Não é de todo improvável que o ateísmo seja uma forma de punição. Faz sentido que aqueles que conheceram os Deuses e os desprezaram se vejam numa outra vida privados desse conhecimento [...], sofrendo a punição pelas suas acções ao ser exilados para longe deles.

Salústio Teólogo. Dos Deuses e do Mundo [XVIII.3]. Tradução minha.

καὶ κολάσεως δὲ εἶδος εἶναι ἀθεΐαν οὐκ ἀπεικός · τοὺς γὰρ γνόντας Θεοὺς καὶ καταφρονήσαντας εὔλογον ἐν ἑτέρῳ βίῳ καὶ τῆς γνώσεως στέρεσθαι, καὶ [...] ἔδει τὴν δίκην αὐτῶν ποιῆσαι τῶν Θεῶν ἐκπεσεῖν.

6.04.2015

Cartas a Lucílio

Meu querido Lucílio.
Mais uma vez te exorto a ponderares
As virtudes da temperança
E da tranquilidade.
Meu querido Lucílio.
Há muito que te escrevo incessantemente,
Que te conto histórias de almas corajosas
Para que as imites.
Estamos ambos a fazer progressos.
Meu querido Lucílio.
Dizem-me os nossos amigos
Que nas tuas noites de festa passas por minha casa
E que cantas um pouco mais baixo
Para não me acordares.
Eu tenho de facto o sono leve,
Mas não das curas,
Mas sim da luz eléctrica que os deuses
Plantaram em mim,
No meu espírito,
E que me mantém acordado à noite
Enquanto te escrevo.
Meu querido Lucílio.
Traz-me notícias. Uns dizem
Que todas as noites cantas
Até te doerem os lábios.
Tenho dificuldade em acreditar nisso.
Tu não cantas, tu rezas.
Sempre mantiveste sólida a diferença,
E seja como for não creio que saberias cantar
Sem mim que te desse o tom.
É verdade,
Não é?
Meu querido Lucílio.
Mais uma vez te peço que dirijas o corpo
Para acções justas, que conformes a alma
Aos deuses supracelestes.
Se me repito, se te procuro,
Se insisto e me vejo em ti,
É porque sei que Deus que tudo gira
Nos gira aos dois uníssono,
Se te dou uma mão Ele
Dá-me a Sua a mim,
E dá-te a outra a ti.
Meu querido Lucílio.
Procura amortecer o teu amor.
Amortece-o e aplana-o,
O amor por pessoas,
O amor pelas belas estátuas nos teus palácios,
Amortece o amor pela filosofia,
O amor pela música,
O amor pelos deuses do Amor e pelos outros.
Ama antes o amortecer.
Mas mesmo esse de forma mansa e ténue.
Deixa-o secar e recolhe-o no verão seguinte.
Esguia-o até que caiba,
Como uma folha de papiro,
Entre o bico fechado de uma íbis.
Meu querido Lucílio.
Mais uma vez te exorto a ponderares
As virtudes da temperança e da resignação.

6.01.2015

um poema-prece do Dietrich Bonhöffer


Em 9 de Abril de 1945, meras horas antes da libertação da prisão onde estava captivo, Dietrich Bonhöffer foi martirizado pelo regime Nazi. Ele não ignorava que esse era o destino que o esperava, o que torna o seguinte poema, a seguinte prece, escrita poucos dias antes da data fatídica, ainda mais espantosa. O texto foi de tal forma celebrado que foi passado para música em numerosos hinos.

Tradução dedicada à Suse, com um obrigado por mo ter mostrado.

Pelas forças do bem constante e calmo envolto,
Consolado e resguardado maravilhosamente,
Quero eu viver convosco nestes dias,
E entrar convosco em um novo ano.

Mas o passado atormenta-nos os corações.
Afunda-nos a pesada carga dos dias do mal.
Ah, Senhor, dá às nossas almas aterrorizadas
A Salvação para a qual nos heis criado.

Passa-nos o pesado cálice de amargo
Sofrimento, cheio até ao rebordo,
Que nós recebê-lo-emos sem estremecer
Da tua doce e bem-amada mão.

Mas se nos quiseres mais uma vez alegrar
Com este mundo e com o seu Sol quente,
Nós vamo-nos lembrar do tempo que passou,
E seremos então teus para todo o sempre.

Faz arder quente e claro as velas
Que tu à nossa escuridão trouxeste.
Conduz-nos, se é que pode ser, de novo juntos.
Nós sabemos que brilha à noite a tua luz.

Agora que o silêncio cresce fundo em nós
É a altura de ouvir o som inteiro
Do mundo invisível, que à nossa volta aumenta
Em alto louvor de toda a criação.

Pelas forças do Bem maravilhosamente abrigados
Esperamos com lealdade o que há-de vir.
Deus está connosco no Crepúsculo e na Manhã
E sem dúvida também em cada novo dia.


Dietrich Bonhöffer. Tradução minha


Von guten Mächten treu und still umgeben,
Behütet und getröstet wunderbar,
So will ich diese Tage mit euch leben
Und mit euch gehen in ein neues Jahr.

Noch will das alte unsre Herzen quälen,
Noch drückt uns böser Tage schwere Last.
Ach, Herr, gib unsern aufgeschreckten Seelen
Das Heil, für das du uns geschaffen hast.

Und reichst du uns den schweren Kelch, den bittern
Des Leids, gefüllt bis an den höchsten Rand,
So nehmen wir ihn dankbar ohne Zittern
Aus deiner guten und geliebten Hand.

Doch willst du uns noch einmal Freude schenken
An dieser Welt und ihrer Sonne Glanz,
Dann wolln wir des Vergangenen gedenken
Und dann gehört dir unser Leben ganz.

Lass warm und hell die Kerzen heute flammen,
Die du in unsre Dunkelheit gebracht.
Führ, wenn es sein kann, wieder uns zusammen.
Wir wissen es, dein Licht scheint in der Nacht.

Wenn sich die Stille nun tief um uns breitet,
So lass uns hören jenen vollen Klang
Der Welt, die unsichtbar sich um uns weitet,
All deiner Kinder hohen Lobgesang.

Von guten Mächten wunderbar geborgen,
Erwarten wir getrost, was kommen mag.
Gott ist bei uns am Abend und am Morgen
Und ganz gewiss an jedem neuen Tag.

5.17.2015

תמשך לויתן בחכה

θεὸς ἅπαν ἐπὶ ἐλπίδεσσι τέκμαρ ἀνύεται,
θεός, ὃ καὶ πτερόεντ' αἰετὸν κίχε, καὶ θαλασ-
σαῖον παραμείβεται
δελφῖνα, καὶ ὑψιφρόνων τιν' ἔκαμψε βροτῶν,
ἑτέροισι δὲ κῦδος ἀγήραον παρέδωκε.

Píndaro. Pítica II 49-53. Tradução minha.

Deus atinge sempre o objecto das suas esperanças.
Deus, que ultrapassa a águia alada, que o mar-
inho golfinho
supera, já derrotou também muitos dos arrogantes mortais,
enquanto que a outros concedeu glória sem idade.

5.14.2015

Hades vs Valhalla


Cattle die, kindred die, 
Every man is mortal: 
But the good name never dies 
Of one who has done well.


Cattle die, kindred die, 
Every man is mortal: 
But I know one thing that never dies, 
The glory of the great dead.

Edda Poética. Ditos do Grande Odin [76-77].



I shall leave my scrolls, like the potter's cup and the sculptor's marble, for what they're worth. Marble can break, the cup is a crock thrown in the well; paper burns warm on a winter night. I have seen too much pass away. So when they come to me, as they do from King Hieron down, asking about the days before they were begotten, I tell them what deserves remembrance, even if it keeps me up when I crave for bed. The true songs are still in the minds of men.

Mary Renault. The Praise Singer.The Pitman Press (1979)

5.04.2015

Destino: o mito grego.

Neste momento releio o Hipérion de Hölderlin, o esquizofrénico. Que fervor na condução da luz pessoal! Destino: o mito grego. A correria do preceptor por todos os lados da incandescência! E a passagem por casa do banqueiro Gontard desenha o trágico tumulto luminoso que é o trânsito do poeta pelos círculos da treva. Da casa, do banco, da noite — dos arraiais pequeninamente contentes, com suas assustadas iluminações de castiçal — emerge a cabeça fulgurante e mortal de Diotima. Entretanto, Hipérion entrega-se obsessivamente aos trabalhos de recuperação da unidade, ele (Hölderlin), que «a miséria espiritual do mundo ocidental moderno» empurrou para trinta e sete anos de Grécia completa interior, também no caso dita esquizofrenia. Morta Diotima, quem o acompanha na viagem a tais Grécias excessivamente centrais? Digo que o mundo não estaria louco se houvesse afinação nervosa para decifrar esses fundos arquipélagos da escrita hölderliniana.
Herberto Helder. Photomaton & Vox. Porto Editora (2015).

5.03.2015

A pessoa gramatical de Deus

The action and development of that mysterious force which is the seed of all creation is, according to the Zohar's interpretation of the Scriptural testimony, none other than speech. "God spoke — this speech is a force which at the beginning of creative thought was separated from the secret of En-Sof." The process of life in God can be construed as the unfolding of the elements of speech. This is indeed one of the Zohar's favorite symbols. The world of divine emanation is one in which the faculty of speech is anticipated in God. Varying stages of the Sefiroth-Universe represent, according to the Zohar, the abysmal will, thought, inner and inaudible word, audible voice, and speech, i. e. articulated and differentiated expression. 
The same conception of progressive differentiation is inherent in other symbolisms of which I should like to mention only one, that of the I, You and He. God in the most deeply hidden of His manifestations, when he has as it were just decided to launch upon His work of creation, is called He. God in the complete unfolding of his Being, Grace and Love, in which He becomes capable of being perceived by the "reason of heart," and therefore of being expressed, is called "You." But God, in His supreme manifestation, where the fullness of His Being finds its final expression in the last and all-embracing of his attributes, is called "I." This is the stage of true individuation in which God as a person says "I" to Himself. This divine Self, this "I", according to the theosophical kabbalists —and this is one of their most profound and important doctrines— is the Shekhinah, the presence and immanence of God in the whole of creation. It is the point where man, in attaining the deepest understanding of his own self, becomes aware of the presence of God. And only from there, standing as it were at the gates of the Divine Real, does he progress into the deeper regions of the Divine, into His "You" and "He" and into the depths of Nothing. To gauge the degree of paradox implied by these remarkable and very influential thoughts one must remember that in general the mystics, in speaking of God's immanence in His creation, are inclined to depersonalize him: the immanent God only too easily becomes an impersonal God-head. In fact, this tendency has always been one of the main pitfalls of pantheism. All the more remarkable is the fact that the Kabbalists and even those among them who are inclined to pantheism managed to avoid it, for as we have seen the Zohar identifies the highest development of God's personality with precisely that stage of His unfolding which is nearest to human experience, indeed which is immanent and mysteriously present in every one of us.
Gershom Scholem. Major Trends in Jewish Mysticism. Schoken Books (1974)

5.02.2015

Breve nota sobre os usos da cultura

Goebbels não tinha ingressado no exército por ser coxo, e tinha-se doutorado em Filologia em 1922 em Heidelberga [...]. Era um leitor apaixonado dos clássicos gregos e, no que dizia respeito ao seu pensamento político, preferia o estudo dos textos marxistas e todos os escritos contra a burguesia. Admirava Friedrich Nietzsche, recitava poemas de memória e escrevia textos dramáticos.
Fernando BáezHistória Universal da Destruição dos Livros (2004), Texto Editores. Maria da Luz Veloso (trad.)

κανείς δεν ήξερε πως είναι τόσο ωραία

4.30.2015

Notas Práticas sobre Misticismo e Sincretismo Religioso


A realidade fáctica de que os diversos tipos de misticismo existem sempre ancorados num tipo particular de religião faz ainda mais urgir ao tipo de sincretismo religioso de que havemos anteriormente falado – pode-se falar de sincretismo antropológico – entendendo-se por isso o sincretismo que combina elementos de diversos tipos de religiões numa só, e em que, na maior parte das vezes por conseguinte, o todo é menor do que as partes. Mas por sincretismo aqui refiro-me a algo psicológico e quiçá mais incoerente ainda. Claro que esta incoerência aparentemente bizarra e estilhaçadora é derivada dum escalão profundamente conservador e tradicional: parte do princípio de que as diversas tradições religiosas foram no mais das vezes capazes de chegar a uma síntese completa das suas partes e que, onde falham, se falham, é ao nível axiomático e filosófico (o Pico tentará aproveitar este recesso). Assim sendo, procurar combiná-las, na medida em que tal deturpa o seu carácter consistente, é um crime contra a tradição não em si mas apenas porque é um crime contra a coerência interna de cada uma – e.g., não posso acrescentar a história da paixão, tão fulcral para a devoção cristã, ao Judaísmo, sem com isso o everter. Ao caminho que resta àqueles que desejariam não obstante ter acesso directo às várias correntes do pensamento religioso globais não serve nem a mono-religiosidade nem o sincretismo. Como obedecer então à injunção do Pessoa de “aumentar sem combater nunca”? Urge uma psicologia diversa da que temos até agora. As camadas de consciente e inconsciente legadas pelo Freud são inúteis, pois outra coisa não fazem que colocar as esferas do inconsciente fora do nosso domínio – é preciso sim, num primeiro momento, uma divisão do consciente em duas camadas, aquela que poderíamos chamar activa e a outra latente. A camada latente, ou camadas, seria onde estaria repousante toda a recolecção das nossas predilecções religiosas – onde jaz o meu xamanismo, o meu politeísmo, os meus monoteísmos, acessíveis mas fundamentalmente inoperantes. A camada activa do consciente será aquela detentora das crenças no momento cridas. Esta exposição e proposição coloca problemas por duas frentes. A primeira diz respeito á activação e desactivação da fase consciente. Relacionado com isto está também o valor da realidade ou ficção das crenças esposadas enquanto neste estado, e portanto da relevância deste projecto e deste texto propriamente ditos.

קדוש קדוש קדוש יהוה צבאות
קדוש קדוש קדוש יהוה צבאות
קדוש קדוש קדוש יהוה צבאות

O problema da activação e da desactivação diz naturalmente respeito ao problema da manutenção duma crença verdadeira nos princípios de fé em questão. Sendo o nosso objectivo final a aspiração à experiência mística particular às várias religiões, e não apenas uma humana empatia com os seus princípios, servir-nos-ia de pouco uma mera familiaridade e simpatia para com eles que estivesse não obstante constantemente consciente da sua caducidade. O princípio de fé tem de se tornar nesses instantes tão sólido e inamovível como os princípios do mais fervoroso dos crentes monolíticos. Isto obriga ao esquecimento da sua (hipotética) limitação temporal – consciente activo, ou seja eu, não posso saber que os meus princípios são desligáveis. O problema renasce portante pela desactivação: se os princípios são inabaláveis, então o seu desligamento é certamente uma forma de violência extrema infligida por (já vamos ver) sobre o consciente activo. Ao arrancar violento das crenças espirituais mais profundas não erraríamos muito se déssemos o nome de suicídio espiritual.

Vimos no entretanto nascer também o problema da unidade, ou melhor dizendo da soberania presente no consciente latente. Este tem de possuir várias qualidades. Antes de mais tem de conter em si as outras possíveis configurações de crença a cuja experiência mística se quiser aceder. Quer estas sejam concebidas unitariamente – como “as outras” – ou particuladamente, é irrelevante. Bem mais importante é a necessidade da existência do seguinte facto: o consciente latente tem de querer trocar uma das fases por outra. Ou seja, em maior ou menor grau, tem de as querer a todas, mas tem de ter o auto-domínio necessário para não as querer todas ao mesmo tempo – em cujo caso perderíamos a coerência conservadora que anteriormente louvávamos, e provavelmente cairíamos no sincretismo antropológico que censurámos, ou que pelo menos depusemos. Ademais, tem de saber também durante quanto tempo é que quereria conceder a preeminência a cada uma delas. Não pode deixar essa decisão às fés pois estas, como seria de esperar, quereriam como um perfeita cancro apoderar-se de tudo e viver para sempre. Reflectindo nesta linha arriscaríamos cometer uma grande confusão. Arriscaríamos pensar que esta parte do consciente latente (cuja natureza ainda está por indagar e que se nos aparece cada vez menos como algo latente!) fosse de certa forma o nosso verdadeiro eu, que a identidade pessoal lhe fossem em última instância redutível, que o consciente latente derivasse a sua autoridade e o seu poder de infligir violência ao consciente activo por virtude de lhe ser superior. Essa opinião é necessariamente falsa precisamente pois a sua veracidade refutaria a realidade da experiência mística por parte do consciente activo. Para a ocorrência da unio mystica ou devekut é força pensemos que a parte mais apta para isso fosse a mais preparada, e não uma subalterna – não porque o divino não condescendesse em relacionar-se com um subordinado (pois afirmar isso seria uma afirmação que roçaria o arianismo), mas meramente porque essa parte da alma não estaria concentrada suficientemente para o tolerar. Antes, segundo a mesma lógica, não só é crível que o consciente latente não lhe seja superior, como seria até mesmo perfeitamente concebível que a seria o consciente activo o superior, por ser ele o inaugurador e o sustentáculo da experiência mística. A falsidade desta sugestão fica patente por tudo que foi dito anteriormente.

Resta elaborar duas questões: qual o papel ou a natureza da parte deliberativa do consciente latente, e qual o principium individuationis, o princípio da individuação, nesta salganhada toda. Aquilo que urge dizer em primeiro lugar da parte deliberativa do consciente latente é que é essencial não deixar jamais de a considerar latente. Se por um instante que for lhe for concedida uma simultaneidade operativa com o consciente activo, o poder religioso deste último seria imediatamente diminuído, se bem que não aniquilado, invalidando assim a possibilidade da experiência mística. O que na realidade acontece é que ela está latente mas funcional da mesma forma que um despertador está funcional ou um temporizador. O sono não é minimamente afectado pelo facto de o despertador estar activo, e aliás este poderá estar activo tempos imensos sem que tal tenha o menor impacto no decorrer do sono. Para clarificar a metáfora: dir-se-ia que alguém dormiria de forma diferente se soubesse que haveria um despertador para o acordar, que sentiria o seu sono como condicionado. Mas o despertador pode ter sido programado sem que eu o soubesse, por outra pessoa por exemplo, e a ideia do consciente activo funcionar de maneira análoga como algo estanque é precisamente o argumento que estou a sugerir. Poder-se-ia dizer também que para o despertador funcionar correctamente teria de estar a observar a operação do consciente activo para decidir baseada na vida espiritual deste quando desactivar a presente fé e activar outra. Isso porém é um entendimento deficiente desta realidade: nós impomos a nós mesmos uma certa narrativa das oscilações de crença por que passámos, mas isso não implica de forma alguma que essas transições estivessem determinadas ou sequer articuladas entre si: a ideia de que acontecem pelo nosso melhor interesse é animadora mas antropocêntrica, e a mística tem pouco que ver com isso. Muitas pessoas conhecem várias religiões sem jamais se desligarem da primeira, mesmo que um observador exterior gostasse de dizer que tê-lo feito teria sido a seu favor.

ἅγιος ἅγιος ἅγιος κύριος σαβαώθ
ἅγιος ἅγιος ἅγιος κύριος σαβαώθ
ἅγιος ἅγιος ἅγιος κύριος σαβαώθ

a pergunta principal jaz com o princípio da individuação, a pergunta da qual tudo deriva. Como teremos de a formular para o encontrar? Já sabemos de que forma temos acesso às experiências mística: as religiões. Sabemos de que forma as religiões são escolhidas: violentamente, e arbitrariamente. Mas este tempo todo temos vindo a falar de consciente, e no meio disso, devido em grande parte ao uso da palavra activo e latente, podermos ter parecido dizer que em algum momento não estamos nós em controlo. Ora este texto foi predicado anunciando desde o princípio a oposição às diversas noções de inconsciente, ou pelo menos a sua irrelevância para as matérias em discussão. Só uma coisa escapa, que é a ânsia pelo divino cuja origem não havíamos sido capazes de desvendar. Ela parece de facto ser a raiz, o fundamento que unifica todas as outras. É ela que deseja aceder ao divino, é com esse objectivo que transmite ao consciente latente esse mesmo desejo. Numa outra perspectiva, transmite ao consciente activo a capacidade de pôr em ato o processo extático por meio das religiões. Que nome não lhe daremos? Qualquer que fosse o nome finalmente escolhido esconder-se-ia atrás de mais uma distância e deixar-nos-ia irredutivelmente insatisfeitos. Serão então os deuses, o seu terrível númen, que se esconde dentro do mais fundo eu e que como uma cria abandonada pela mãe nos tenta obrigar, e aliás construi-nos de tal forma que o nosso esqueleto espiritual estivesse de tal forma elaborado que tudo nele se encaminhasse para que a devolvêssemos à sua origem? E se sim, será essa centelha nos mesmos anelantes pelo retorno à realidade do divino? Sempre achei que o gnosticismo era uma fraude.

Mas então e se não somos nós uma centelha de deus, e se é o divino mesmo que fez a sua toca no fundo das nossas profundezas infinitas? O problema primeiro duma afirmação monumental como essa parte do sabotar do princípio da individuação. Como serei eu eu, se no fundo de mim eu sou Deus? Assumamos isto: que carrego Deus em mim como a semente carrega a flor. A primavera é o extático. Mesmo que isso fosse verdade, não estaria a dar como ponto de partida aquilo que deveria ser o objectivo final? Em outras circunstâncias acrescentaria ainda que seria blasfémia afirmá-lo; aqui porém não o é, pois estamos ainda longe das verdades das religiões, face às quais, ou melhor, graças às quais, temos ortodoxia e heresia, magnificat e blasfémia. O que é então esse grande abismo? E por é que ele anseia? Com a repetição da pergunta descobrimos mais uma vez a resposta, agora modulada: se não é uma cria perdida a ansiar pela mãe, então também não pode ser o próprio divino que se esconde. Estaria a ansiar por si mesmo, e nesse caso quase onanístico de amor sui não precisaria de nós que o reconduzíssemos a ele. O grande sábio grego, Plotino, transmite-nos que o Um se desfez devido a um acto de arrogância, mas mesmo que isso fosse verdade, que devido a esse pecado original por parte da própria divindade esta se tivesse tornado incapaz de restabelecer o seu círculo perfeito, longe mesmo assim estaríamos, e nada justificaria o facto de se ter refugiado dentro de cada um de nós apenas para voltar para próprio.

Dentro de nós há um imenso vazio. Podemos imaginá-lo como um grande túnel, de cujas trevas sai a enorme ânsia de ser preenchido. No fundo não há nada; ou, se preferirem, para me apropriar ilicitamente da linguagem dos místicos, no fundo desse infinito túnel está o nada. No momento da união mística o túnel deixa-se preencher pelo óleo de fogo do divino. Apercebemo-nos de que o fosso não ansiava em particular pelo divino, mas só que o divino, como o grande deus Thor, era o único capaz de aguentar, ainda que solamente por brevíssimos instantes, o líquido à superfície antes de escorrer para as profundezas, como água num tubo demasiado estreito para ela. Mas descer ela desce. O motivo pelo qual acedemos às exigências do fosso do nosso íntimo é porque entendemos que estamos simultaneamente a aceder àquilo que há de mais tenebroso e terrível sim, mas também mais nosso, e esse instante da exaustão corresponde a uma, talvez a última, obediência ao império de Delfos. Quanto ao divino, bem, não quero com isto dizer que é unicamente instrumentalizado e utilizado como um pretexto, mas o seu papel é certamente paragonável ao do açúcar no copo amargo do conhecimento de nós mesmos.

Sanctus Sanctus Sanctus Dominus Sabaoth
Sanctus Sanctus Sanctus Dominus Sabaoth
Sanctus Sanctus Sanctus Dominus Sabaoth

Quererá isto ao fim de contas significar uma recantação daquilo que fora dito em torno do conservadorismo das religiões e da especificidade de cada uma delas para a experiência mística, tudo em favor duma exaltação do misticismo anárquico contra o qual eu próprio avisara? Só se pensarmos que a forma é maior que a substância sem compreender que a experiência acima descrita é possível apenas no contexto de cada uma das fés e dos seus preceitos ou lassitudes. A anelação pela unio mystica sem a preparação concedida pelas técnicas tramandadas pela tradição é, como as histórias no-lo recordam constantemente e como a experiência no-lo testemunha, perigosa e possivelmente mortal. Fora isso, a situação acima descrita, embora tenha sempre de se enquadrar numa religião em específico, é finalmente aquilo que dá coerência lexical á palavra misticismo, e que permite que nos entendamos, venhamos seja de que tradição for e sendo cultores de ritos ou técnicas tão díspares como o sufismo ou os mistérios gregos. Tudo isto que disse pode ser também lido numa chave política.

Santo Santo Santo é o Senhor dos Exércitos
Santo Santo Santo é o Senhor dos Exércitos
Santo Santo Santo é o Senhor dos Exércitos

4.29.2015

Occhi miei, se mirar più [Monteverdi]



Occhi miei se mirar piu non debb'io.
La vostra luce a me tanto gradita.
Toglietemi la vita.

Se'l mio cor lasso abandonato resta
Dal tuo bel sol ond'havra lume e vita
Toglietemi la vita.

Se gia son di dolor empio ricetto
Ne pieta mi soccorre o porge aita
Toglietemi la vita.

Ma se pur vive ancor qualche speranza
Di riveder la luce gia smarrita
Conservatemi in vita.


Claudio Monteverdi. Tradução minha.


Olhos meus, se mais não posso olhar
A vossa luz que me é tão grata,
Levem de mim minha vida.

Se o meu coração cansado foi abandonado
Plo teu belo sol onde teria luz e vida,
Levem de mim minha vida.

Se me tornei num ímpio refúgio da dor
E nem piedade me acode ou dá ajuda,
Levem de mim minha vida.

Mas se vive ainda alguma esperança
De ver de novo a luz perdida
Sustenham a minha vida!

4.28.2015

Filosofia & Mythologia

Um caso paradigmático do bom uso do mito é o do Thomas Mann, que encarou o mito como um símbolo. Enquanto símbolo, o mito é capaz de se tornar transparente & de potenciar uma realidade à escolha a um nível inefável. Aquilo que o torna digno, aquilo que o torna num "Homem em tempos sombrios" (ein Mensch in finsteren Zeiten) é a escolha corajosa de ter tornado essa realidade simbólica em algo que é anti-irracional.

Não digo racional, pois isso iria essencialmente contra a escolha de a) o fazer por meio da literatura e b) de o fazer por meio de um símbolo, ou seja, de um mito. Mas anti-irracional porque escolheu fazer com que esse símbolo fosse uma contra-força contra si mesmo. Escolheu fazer do simbolizado uma resistência contra o mito propriamente dito. Assim o mito torna-se um acto de resistência, antes de mais política. A dignidade e a integridade da natureza humana são preservadas pelo facto de, precisamente por essa escolha dos meios (a literatura e o símbolo), ele estar implìcitamente a reconhecer o estatuto fundamental do elemento mítico no espírito humano.

Mas a transformação do mito em mitologia sabota o gesto totalitário & obscurantista, e concede-nos a possibilidade de auto-crítica, de profanação do mito, que de outra forma seria algo exclusivamente sagrado (e com o qual nos seria portanto permitido ligar através da adoração ou da violência — tanto uma como a outra destructivas, a uma de si mesmo, a outra de todos).

A transformação do mito em mitologia inaugura a possibilidade da discussão aberta dos pressupostos simbólicos da natureza humana ao mesmo tempo sem os fortalecer nem debilitar em excesso. Settembrini, o humanista da Montanha Mágica, triunfa inesperadamente, mas também José (de José e os Seus Irmãos) transforma-se no Providenciador (der Ernäher). A interpretação dos sonhos, comunicados por linguagem, traduz-se em conselhia política pautada pela mediação entre onirologia e sagacidade; não, urge dizê-lo, por vaticínio. Numa escala maior, a descida aos Infernos (Höllenfahrt, o primeiro capítulo do José e os seus irmãos) é contraposta ao Prólogo nos Graus Maiores (Vorspiel in oberen Rängen, o último).

O argumento final extrai-se da escolha propriamente dita dos argumentos dos romances, como seja o Fausto (no Doktor Faustus), São Gregório/Édipo (no Der Erwählte [O Eleito]), a lenda bíblica de José (em José e os Seus Irmãos). Face ao poder do mito entendeu que o melhor era encará-lo numa pose combativa, com as suas próprias armas: virar o mito racional contra o mito irracional, pois só o primeiro aceita o ser humano na sua natureza dupla, e antes de mais, só o primeiro lhe concede armas de auto-defesa e não o deixa exposto à manipulação — que é, especialmente quando aparenta ser meramente filosófica, ou artística, sempre e implacàvelmente manipulação política.

A ausência do tipo de coragem necessária para aceitar a razão como uma virtude, a disponibilidade para aceitar as trevas da inteligência como uma medalha de honra, tem sido uma constante no último século. Grandes culpados, embora não os únicos, são os nietzscheanos de confissão (que confundem força com idolatria, e estimam a fraqueza taoísta como algo condenável). A falência do projecto do Iluminismo, perpètuamente anunciada por quem tem interesse em que ela realmente aconteça, há muitos anos que tem trazido a destruição dos diques que a civilização construíra contra a barbárie. Mas não é inevitável. O Thomas Mann é um dos grandes archotes que poderá evitá-la.

Filosofia & Mysticismo

The dangers which myth and magic present to the religious consciousness, including that of the mystic, are clearly shown in the development of Kabbalism. If one turns to the writings of great Kabbalists one seldom fails to be torn between alternate admiration and disgust. There is need for being quite clear about this in a time like ours, when the fashion of uncritical and superficial condemnation of even the most valuable elements of mysticism threatens to be replaced by an equally uncritical and obscurantist glorification of the Kabbalah. I have said before that Jewish philosophy had to pay a high price for its escape from the pressing questions of real life. But Kabbalism, too, has had to pay for its success. Philosophy came dangerously near to losing the living God; Kabbalism, which set out to preserve Him, to blaze a new and glorious trail to Him, encountered mythology on its way and was tempted to lose itself in the labyrinth.
Gershom Scholem. Major Trends in Jewish Mysticism. Schoken Books (1974)

Palavras necessárias, especialmente quando transpostas fora do domínio estreito da Cabala e reaplicadas aos domínios mais irracionais do pensamento humano. A ânsia que tantos hoje têm de desejar, até mesmo de ansiar, pelo irracional, pelo emotivo, pelo ilógico, em prejuízo hostil dos seus opostos — seja isso na filosofia, na arte, ou, no caso que conheço melhor, no idolatrar tolo de certas forças supostamente libertadoras da poesia & da linguagem, é uma ânsia que deveria ser denunciada.

4.27.2015

Judas & Pedro

Il s'en est fallu de très peu que les larmes de Judas ne fussent confondues dans le souvenir des hommes avec celles de Pierre. Il aurait pu devenir un saint, le patron de nous tous qui ne cessons de trahir. Le repentir l'étouffait: l’Évangile précise qu'il se repentit. Judas fut au bord de la contrition parfaite. Dieu aurait eu tout de même le traître nécessaire à la Rédemption, et un saint de surcroît.
François Mauriac. Vie de Jesus. Seuil (1999)

4.26.2015

um poema (+música) do Nikos Gátsos



A lua míngua como espuma viva
e esse lótus de pedra, o tempo, parte e desaparece ·
tempo pesado, tempo agreste e amargo,
como um cervo no Hades ·

No teu olhar cinzento
conquisto o meu corpo e perco a minha alma ·
na tempestade eu jamais vi a chuva verde

A lua míngua
como espuma viva
fecha dentro de si
ó, aquilo que resta do nosso amor

Nikos Gátsos. Tradução minha.

Μικραίνει το φεγγάρι σαν ζωντανό σφουγγάρι
και πέτρινος λωτός φεύγει και χάνεται ο καιρός,
βαρύς καιρός, δριμύς καιρός πικρός,
σαν ζαρκάδι μες στον Άδη.

Στο βλέμμα σου το γκρίζο
το σώμα μου κερδίζω και χάνω την ψυχή·
ποτέ δεν είδα στην καταιγίδα μια πράσινη βροχή.

Μικραίνει το φεγγάρι
σα ζωντανό σφουγγάρι
μέσα του κλείνει
ό, τι έχει μείνει απ’ την αγάπη μας.