4.30.2012

Σίβυλλα, τί θέλεις;

ἐκ μέρους γὰρ γινώσκομεν καὶ ἐκ μέρους προφητεύομεν.
duma parte conhecemos, doutra prophetizamos.

I ad Corinthios. 13.9

4.29.2012

æthera donet

« Suppose Vergil's heart was divided. Suppose he read and reread his Lucretius as a religious atheist might peruse his Saint Paul –desperate, faithful in his disbelief, hoping, at some moment, for the illumination . . . 

. . . his desire to believe in cosmic order, and, failing a strong faith in human nature, his reverence for human dignity. »

W. R. Johnson. Darkness Visible: A Study of Vergil's Aeneid. University of California Press: 1976.

4.28.2012

um verso para a decisão

                            e la vita è qui,
in ogni no che pare una certezza.

Salvatore Quasimodo.

4.19.2012

Finnegans Wake

The insubstantiality that has been warded off throughout [the Aeneid], though it seems to be about to vanish for good, now returns in full force. Reality dwindles to dream, and the nightmare from which we have been fighting free throughout the poem (velle videmur  for at this moment Vergil includes his readers in his poem) has become the reality. No homeric lucidities or articulations here, for the laws of time and space like the human capacities for motion, action, and speech— themselves have become void. Action, truth, and their images drain away to nothingness. It is the perfect flowering of the Vergilian imagination, this perfect representation of the monstruous and unreasoning night. The via negativa is now, against all likelihood, as reliable and as expressive a mode of mimesis as the via positiva that Homer's art had brought, in Western poetry, to its great perfection. This wardness or subjectivity or elaborations of the potentialities of poetic mood and poetic music; they rather involve an exploration of the relentless, impenetrable darkness inside us and outside us. The lyricism is soemetimes tender and fragile, but it is also sometimes ferocious and unyielding in its search for our real weaknesses and real enemies as well as for the lies and myths we tell ourselves about them. After Vergil, not only the grand desolations of Dante and Milton but also the smaller desolations of Tennyson will be possible:

But, ever after, the small violence done
Rankled in him and ruffled all his heart,
As the sharp wind that ruffles all day long
A little bitter pool about a stone
On the bare coast.

The darkness without and within, the big darkness and the small  Vergil has found ways of imagining them; darkness, all kinds of darkness, is finally made visible. And the boundaries of poetry are extended immesurably.

W. R. Johnson. Darkness Visible: A Study of Vergil's Aeneid. University of California Press: 1976.

4.14.2012

pax deorum

μηδ᾽ Ολυμπίας αγῶνα φέρτερον
Píndaro

we crossed the hinterlands
of light took the praise
of the games
                        yet sometimes
the heart doubles as the flesh
bashful saints die just to prove
you wrong, and who's to say
who did it?
                   the road is green
ice your blood is spread across
I do not count each stone I
do not count the blessings this
stranger has brought to the world

4.13.2012

Os Poetas Hipócritas

Poetas Hipócritas

Hipócritas frios, não mencionem os deuses!
     Vocês têm Racionalidade!, não acreditam em Hélios,
          Nem no Tonitroante, nem no Deus do Mar;
               A Terra está morta, de que serve dar-Lhe graças?

Animai-vos, Deuses! Ainda enfeitais o canto,
     Mesmo que dos vossos nomes a alma se esvaia,
          E sempre que faz falta um termo soante,
               Mãe Natureza!, lembram-se sempre de ti.

Hölderlin. Tradução minha.


Die Scheinheiligen Dichter

Ihr kalten Heuchler, sprecht von den Göttern nicht!
     Ihr habt Verstand! ihr glaubt nicht an Helios,
          Noch an den Donnerer und Meergott;
               Tot ist die Erde, wer mag ihr danken? --

Getrost ihr Götter! zieret ihr doch das Lied,
     Wenn schon aus euren Namen die Seele schwand,
          Und ist ein grosses Wort vonnötten,
               Mutter Natur! so gedenkt man deiner.

4.12.2012

do nosso amor pela terra faz também parte a morte infinita. se assim não fosse, viveríamos em traição. assim como somos, somos um copo do melhor vinho, que o tempo vai invernalmente bebendo. a resurreição é um pecado.

Perdoa-me se do meio de tantos foi para a tua alma que eu olhei.

Tirei ao calhas da bibliotheca um livro de nome La didattica del greco e del latino, para me aperceber que era o epistolário de Baptista Guarino. Não o conhecia senão de nome, portanto pus-me a ler as cartas que ele escrevera a Pico della Mirandola e a Angelo Poliziano. Numa das cartas escreveu isto a Poliziano.

Doctos omnes amo coloque et novos nescio quomodo magis etiam quam veteres admiror, quippe cum hoc tempore et librorum jactura et morum aliquorum ignorantia et multarum rerum desuetudo anxiam laboriosamque pariat mergendi difficultatem: quare ignosces mihi si ex aliis animum spectavi tuum.

(ou seja,) Amo e estimo todos aqueles que se cultivam, e, não sei bem porquê, mas admiro ainda mais os novos do que os mais velhos; talvez porque, no tempo em que vivemos, o investimento que é preciso pôr num livro, misturado com uma certa ignorância de bons costumes assim como com a falta de hábito, gera grandes ânsias e dificuldades a quem quer que deseje mergulhar [pela primeira vez no conhecimento]. É por isso que te peço, perdoa-me se do meio de tantos foi para a tua alma que eu olhei.

4.10.2012

quem tem fé não merece ter deuses

o atheísmo na triangulação #3: Pedro.

juntamente e talvez diametricamente espelhando Judas, Pedro salta-nos à vista como a personagem mais duradoira dos Evangelhos. diametricamente pois enquanto Judas nos espanta pela resolução contundente com que leva a cabo o seu propósito, Pedro atordoa-nos pela traição tanto mais potente quanto maior as honras e a confiança que nele haviam sido repositadas. nem se trataria aqui de maneira alguma duma encenação da parábola do filho pródigo, que desbarata o património mas o recupera ope gratiae, pois que aí a ênfase é na restituição do indivíduo solo, da dignidade de cada em particular, idealmente formulada nas palavras afirmação de Christo de que o bom pastor buscaria a única ovelha perdida, e mais a estimaria que a todas as outras. Não: o que achamos estranho é o abalar que presenciamos de leis geológicas: como é possível que aquele do qual houvera sido dito que sobre essa pedra o Christo construiria a sua Igreja, e que o que ele separasse na terra seria separado no céu, e de igual modo com o que unisse? com que estabilidade e solidez, com que argamassa e com que exemplo alguém mantém seja o que for unido e separado na terra e no céu que, após negar peremptoriamente ser capaz de negar o Christo, o nega não uma mas três vezes? as duas respostas tradicionais a este escândalo, quer que Pedro é humano e portanto fraco e quebrantável, quer que dele depende toda a Igreja, e portanto é justificada a renúncia, são insatisfatórias. a primeira porque não explica o problema, apenas o deflecte, e não se preocupa em explicar aquilo que torna Pedro Pedro mas limita-se a tecer considerações de ordem universalmente humana. escolasticamente diríamos que não lhe toca a quididade. a segunda não têm fundamentação evangélica, como denunciaram as Igrejas Protestantes, e aparece antes como uma construcção cathólica romana. isto de lado, tentemos tornar a negação substancial; e acima de tudo necessária. É necessário a Pedro negar porque só assim ele obtém a segurança da aniquilação da sua fé. Não, cuidado, para que esta se torne mais forte (como dissemos, não se trata aqui do filho pródigo, nem muito menos duma Aufhebung hegeliana), mas para que aprenda quão areia, quão pó é a pedra mais sólida, a pedra do próprio Christo, quão fundamentada no nada, na morte, e na recusa está até o fundamento mais sólido. Só quem nega Deus é o rochedo da fé. O que nos diz isto sobre aquele, o Christo, que se depositara sobre a rocha, aquele que dissera uma vez que a fé nele seria como quem constrói uma casa na pedra? Mas a pedra vacilou, falhou a sua função. Diz-nos tudo isto, além de claro está todas as congruências patentes com a theologia negativa, que sem errar podemos chamar a theologia do negar, a mim salta-me sempre à memória aquele psalmo por comentadores e alegoristas violentado, o dos rios da Babylónia, em concreto o final versículo – Bendito aquele, Babilónia, que despedaçar os teus filhos contra a rocha. Esta é uma das duas razões que me leva todos os poemas fechar com a rocha, creio. Esse psalmo junta em si a riqueza da terra; os filhos dos nossos inimigos (isto é, tal como os Aqueus são os filhos dos Aqueus) colidirão contra a rocha e quebrá-la-ão, despedeçarão o arco mandando abaixo a pedra angular. Só aquele a quem os inimigos estilhaçaram será bendito, só aquele cujos inimigos triunfaram e nada tem de certo, só aquele que recusou Luthero, só aquele que, em suma, perdeu o fundamento que é Deus e nem por isso deixou de ser a pedra angular, rejeitada por rachada a meio, só aquele cujo horizonte é impenetrável como granito e sólido como areia percebe Pedro e o ama, e é capaz de com ele chorar.

4.09.2012

o atheísmo na triangulação #2: Judas.

não é necessário considerar o estranho Evangelho de Judas para sentir que o ódio que lhe é a Judas dirigido o atinge sempre obliquamente: não deixa de ser cumprido e necessário, pensamos, mas há sempre algo de inquietante na necessidade mútua imputada entre as figuras dúplices de Christo e de Judas. o evangelho que leva o seu nome, como convém à tradição gnóstica onde se insere, lê a relação priveligiada entre Judas e Jesus dum lado à luz da iniciação selectiva (algo que é lembrado quando lemos “muitos são os chamados, poucos os eleitos” (Mt 22:14), frase eternamente reminiscente da mais antiga "muitos são os que levam o thýrsos, poucos os bacchantes" (Phaedon, 69c-d)), iniciação pela qual a Judas teriam sido revelados mystérios do reino dos céus desconhecidos aos próprios apóstolos, um engenho frequente nos textos que continuam por uma via gnóstica a tradição evangélica, como por exemplo no dito Evangelho Secreto de Marcos, onde do mesmo se trata; segundo o Evangelho de Judas, então, a natureza dos ditos revelados pertenceria a uma doutrina abjectamente gnóstica: em poucas palavras, sendo o corpo e o mundo origem e fonte de corrupção, Judas não pode deixar de ser benemérito de Deus se o “libertar” desta tabes. Jesus daria então o seu consentimento e aprovação ao acto de Judas (que aliado à libertação do corpo cumpriria os ditos dos profetas). Claro que para mim é difícil encontrar neste testemunha da lenda algo que seja capaz de nos auxiliar a compreender aquele sentimento inquietante que sentimos quando confrontados com aquele que Dante faz sofrer no mais profundo inferno mastigado perpetuamente pelas mandíbulas do próprio Lúcifer. Tudo aqui parece contaminado pelo gnosticismo, essa maior das pestilências que alguma vez contagiou o pensamento theológico. Aquilo que nos mais toca é a afinidade inegável, aliás a frequente própria identidade entre Christo, o cordeiro sacrificial de Deus, e Judas o traidor. É da natureza de Jesus ser traído, ser assassinado em sacrifício de sangue; mas enquanto os mártyres e todos aqueles que se devotassem a “cumprir a vontade de Deus” (fiat voluntas tua), Judas recebe as terríveis palavras “tudo isto terá que acontecer. mas ai do homem por quem o filho do Homem for traído. seria melhor para esse homem não ter nascido.” (Marcos 14:21) Chamas em vez de honras, solidão e devastação em vez da felicidade dos bem-aventurados. O erro do Evangelho de Judas é querer assumir que ele será recompensado, enquanto que é precisamente por ele ser o mais-amado dos apóstolos que aceita sobre si o fardo de Morte que é tanto a traíção e a negação do filho do Homem quanto o castigo que a isso vem associado. Assim como Deus de tal modo amou a raça humana que lhe ofereceu em sacrifício aquilo que de mais precioso tinha, o seu filho, assim também Judas de tal modo amou o Christo que para a sua felicidade sacrificou o seu bem mais preicioso, a sua alma. Está escrito: “Aquele que tentar ganhar a sua alma perdê-la-á, e aquele que a perder em meu nome ganhá-la-á.” (Lucas 9:24) A virtude de Judas é então o amor absolutamente aniquilado e gratuito que faz com que se nos surja mais fulgente do que todos os mártyres que alguma vez viveram; pois eu sempre tive dificuldades em entender a instituição do martýrio: para alguém que tenha fé, a escolha do martýrio é justifica-se principalmente não num campo de amor mas num de utilitarismo: sofrer agora em troca de recompensas celestes, ou joiar-se agora brevemente em troca de punição eterna; a escolha parece matemàticamente simples, e óbvia para quem possua a capacidade prospectiva para a tomar: o mártyr parece quase um jogador de casino perito: o martýrio como nos é contado nada tem de sacrifício real. Judas é aquele que escapa a esta lógica, precisamente por ser fundamentalmente antignóstico ou anti-maniqueísta. Ele sabe que o resultado do seu amor, que o fruto que para si tomará, o cálice das suas boas-acções gratuitas será tormentos, mas como pode ele deixar de amar? como pode deixar de trair? por amor do traído. isto sim um acto sacrificial, sem qualquer sombra de interesse ou de calculismo. compreendemos então de que modo a acção de Judas se assemelha à de Christo, e de que modo percebemos como esta figura tutelar do nosso atheísmo escolhe, confrontada por um lado com os ofício de fé, com a religião, e com a própria existência na alma de fé, por amor opta delas prescindir e assumir o confronto invencível com o vazio. por amor. se Judas foi capaz de trair mesmo sabendo o que o esperava, e desse modo se tornou benemérito do mesmo deus que o odiou, talvez nós devamos assumir o papel de, como os bons pagãos da Divina Commedia, afirmar que “sanza speme vivemo in disio” (Inf. IV.42), porque amamos alguém que não nos poderá retribuir o nosso amor, por não existir, por o nosso amor estar a ser desepejado no vácuo do pensamento. O “sanza speme” é importante principalmente para contrariar o erro duplo da Weil e de Adrian Leverkhün, cujas negações, ou cujos theologias apophânticas pressupõem sempre profundamente, no mais fundo mais recôndito (aquilo a que os Gregos chamavam μυχός), um momento de superação através da epiphania celeste que diz a palavra da salvação àqueles que ousaram chegar à Ultima Thule dessa fé nihilista; essa fé ultima tem que ser abolida, como mauvaise fois que é e que não mais é que a dúvida de Pascal e de Kierkegaard que se permite os concelebrados saltos de fé. senza speme con speme é contraditório, e o primeiro sai nefariamente anulado, com prejuízo para a honestidade intelectual. Comemorando é o “vivemo in disio”, isto é em amor, porque é de igual modo propugnando contra o énnui posmoderno, os gritos de saudades de Deus (como Nietzsche falou da sombra de Deus) contra quem se lamente por entre teses de textos literários que Deus está morto ai mas que pena. A verdade do dito de Nietzsche não se compreende na philosophia ou no énnui mas sim na mýstica.

o atheísmo na triangulação #1: Athena, Pan.

Athena, convém dizer, não figura entre os nomes frequentes que atravessem os meus lábios. Nunca lhe fui particularmente devoto, não por desdenhar o seu nome ou por desprezar as suas virtudes, mas porque a venero sob aspectos melhor paragonizados pela minha Tríade Apollínea, onde figuram Hermes, Diana, e Diónysos. Mas apercebi-me recentemente, fortuitamente, que o encabeçamento da dita tríade oscila; que nem sempre o deus de Delos preside. O Hippólyto para mais ensinou-nos que todos os deuses têm de ser venerados. Se escrevi um hymno a Minerva foi disso persuaso. Mas não há hymno que não seja respondido, seja benèvola seja malèvolamente: sempre os deuses te ouvem quando lhes falas, aprendi, e ou te inclinam o seu olhar benfazejo ou te desprezam e te recusam, e te abandonam mesmo enquanto te negam a epiphania da destruição, a sua secreta συμφορά. Mas daquela vez senti a presença da deusa, o seu vácuo de amor seco, e percebi que ela me demonstrava que também ela tem um papel na aniquilação dos pantheões. O motivo disto é ambíguo, confesso que não percebo porque se une ela a Pan e dum olhar  implodem o Olympo e Syão. Porque não nos iludamos quanto ao progresso ou às alterações vazias, às alegorizações que se parecem levar a cabo com o decurso dos séculos e com a secularização: apenas uma única coisa mudou na divindade helénica desde Sóphocles até hoje, conquanto grande, a saber a substituição do deus da Justiça Zeus pelo deus do Pavor Pan. Pan, que integra em si a triangulação do divino em Tremendo, Fascinante, e Majestoso, exclui de si a justiça, algo que não abala o pantheão grego, pois que, como logo os philósophos se apressaram a taxar, com os deuses gregos seja como for a justiça não abundava. Deixemos isso aos moralistas de Jerusalém e aos Platónicos. Com o oraculado destronar de Zeus pelo deus silvano, abriu-se o caminho para a bastarda construcção theorética que é o pantheísmo. O pantheísmo é necessariamente, malgrado a sedução e saudação do Príncipe Espinosa, um passo em falso. É algo de profundamente acertado na medida em que é um atheísmo, mas é errado e nefasto na medida em que esquece dos deuses: eles são necessários para o atheísmo, pois que quando nos confrontamos com a natureza de um, confrontamo-nos com a natureza deles. O mar imenso de que falava Freud está num e nos outros, mas só é passível de vislumbrar por reflexos. É por isso que Pan sai vitorioso – também Pessoa canta o Io Pan! em triunfo saudoso. O terror de Pan – o deus dos ermos e dos silêncios, o deus do Vargtimmen – é o mesmo terror das trevas infinitas de Pascal, e é por isso que quer a ele quer ao seu oposto onomástico, o nada, oferecemos as nossas libações de leite e mel. O único deus que soube morrer sem troçar, ressuscitando, do nosso amor pela terra, o deus que vai à frente no trilho, é esse o deus que lidera o nosso pantheão. Athena, parece-me, percebeu isso, e que conquista não terá sido para ela, que transmutação mais paulina, trocar o pai de cuja cabeça nascera pelo deus-bode! Uma coragem sobredivina. Terá perdido a aegis, mas já não precisa dela. Pôde agora tornar-se rainha da morte e do olhar, rainha de Bassae, impotente e vigilante sobre a sua cidade e sobre o seu mundo moribundo para que, morta também ela, possa receber o culto do desprezo, e desbaratar a nossa confiança enquanto por ilhas e luz se desbanda.

nimmermehr wird Gedicht zum Gebet

unkeusch ist der Mantel der Dichtung, und nimmermehr wird Dichtung zur Gründung, nimmermehr erwacht Dichtung aus ihrem ahnenden Spiel, nimmermehr wird Gedicht zum Gebet, zu dem opfergültigen Wahrheitsgebet, das dem echten Namen der Dinge so sehr innewohnt, daß für den Betenden, eigeschlossen vom Opferwort, sich die Weltverdopplung wieder schließt, daß für ihn und nur für ihn Ding und Wort wieder zur Einheit gelangen—, oh, Keuschheit des Gebetes, unerreichbar der Dichtung, und doch, oh doch ihr erreichbar, soferne sie selber geopfert, soferne sie überwunden und vernichtet wird.

unchaste the mantle of poetry, and nevermore would poetry come to be fundamental, nevermore would it awake from its game of divination, nevermore would poetry turn into prayer, into the sacrificially-valid prayer of truth so surely inherent in the genuine name of things that the suppliant, included in the supplication, closes off the duplicated word so that for him and him alone word and thing shall succeed in becoming one — oh, purity of prayer, unattainable by poetry and yet, oh yet attainable for it, as it offered itself, as it overcame and annihilated its very self.

Hermann Broch, Der Tod des Vergil. Versão inglesa de Jean Starr Untermeyer.

4.08.2012

The Myth of Er


0. The Unity of the Harp

Always were my words like dust,
colours to twilight, whispers
to trumpets, yet though I would
be winds beaming, say singing
beseems me better, what then?
music so unlike the truth won't weave
this world apart
nor others. And lips
all my songs seduced in face of syntax
meek that luring won't make manifest
the mooring of my speech. This
is no sacred copse. This is the last
resort, a dive
into darkness.


1. Mystagogy

against the blade of light
that sinks and blooms
against the stained glass
and tulips-God and bloody eyes for towers
against what bliss could come
from much-repeated May
leaves that smell of flames
hallowed storms of sand
and saints interpreted:


2. Matter.

like a book half-read, a horse full-fed,
always was I mad at possibilities.
if you burn a heap of feathers,
they say you can see Palaiologos. Once I drank, drank,
drank, until the irides of my eyes were a lifeless sea.
You were there, your feet were empty, you could walk through fire.
You were a tumid fire full of the past.
It was only when I fought you
for your name that I learnt from the ether
there must come spirit,
hot as the ghost, and marble as our ship.
I was like a city, a gelid port
where you anchored and bought off my age.
She, the no-crone, the winged confessor: No,
if you want to talk you must sleep
alone in silence and motionless. Then maybe I'll come,
and sail off. You were like a wall whose idea I crumbled,
whose dark chalk stood, whose cement the vineyards
mimed as the walls of sacred Thebes.
Once, twice; and you were silent. I a dog
to maul you when you'd enter. "In the mines you breathe just
like in the monasteries," Alexis said.
You could go, drown, speak. Or you could be an halcyon,
lay your eggs in the corners of my lips.
Revisit me, like you once revisited home
by prestidigitation. What did you bring
from there? Rocks shaped like a book
written in a tongue you just half-get.
I was broken bread. I thought aged wine
could bind us both together. I climbed to your blood,
it was blue yet had no oxygen.


3. Lamella Aurea

Libel luring of the wind, would I but need
no roaring seed for you to carry. Miles I would run
for fleeing, loam I would not plant for farming
always will be opposite, settling town, hoary dawn,
fight faces of a ghost in mist, all inhaled haar,
a throat of song, a flow of milk– at shores that never wither
long we watch and long we draw on sand,
and long we bear the weight of rocks upon our brains
against the wind that mocks our dusk, our souls of salt.
Provided still the moon commands, revolt is far
from over, and life comes seven roses later, burnt
to spirit, and blasting ere our worlds are sunk.



3. Pentecost

although you're always too Summer, always too much
the juice we drain from ripe and rotten worlds,
instruct me: the language of the earthquakes
it took to empty you of miracles. your hair
is long; your eyes are bloody. and I am one to arm you
with my heartbeat, and learn your accent's pitch. Poisoned
by the shadow of a crossroad, the meals are saltier,
you are slightly less unholy. a challenge, to wait
for the tanned women before we drained the river and made pottery
from the riverbed; a challenge you could not accept. I did it,
I waited and banished the pines from my forest of Autumn.
there could blossom a man, who had shells for fingernails.
when the sea is empty, our children are dead
and we drown them to the algae. when the sea
is happy, our ships are smaller, the sails are leaner,
and God is the rudder we turn and the ropes
that we tie and we cut.


Miguel Monteiro

um poema do Pico della Mirandola

Dapoi che me convien in altra parte
volger i passi e pur lassar colei
che a pianger ne commove a invidia i dei,
che 'l nostro cor divise in mille parte,

l'alma nostra non già da qui si parte,
anzi rimane in compagnia di lei
ch'odì piatosamente i sospir mei,
e sol di noi se 'n va la più vil parte.

Ferma speranza, immaculata fede,
memoria d'una mente altera e pia,
un amoroso desio, un giacio, un fuoco,

un vago lume, ove d'Amor se vede
la forza, un dolor longo, un breve gioco
sempre saran cun me, Donna, fra via.


Visto que me obrigam a partir
para outras paragens e a deixá-la
a chorar a ponto de fazer dos deuses
invejosos e a quebrar-me o coração em mil

pedaços, daqui não moverei a alma um passo,
que prefere ficar junto de quem
ouve piedosamente os meus suspiros;
e eu por mim apenas o vil corpo afastarei.

Esperança firme, fé imaculada,
a memória da sua mente altiva e pia,
um desejo amoroso, qual gelo, qual fogo,

um lume pálido, onde do Amor se comprova
a força, uma dor duradoira com breves alentos,
Senhora, tudo isto sempre e ao partir terei comigo 

Pico della Mirandola. VIII.

um poema do Guido Cavalcanti

Io temo che la mia disaventura
non faccia sì ch' i' dica: « I' mi dispero »:
però ch' i' sento nel cor un pensero
che fa tremar la mente di paura

e par che dica: « Amor non t'assicura
in guisa, che tu possi di leggero
a la tua donna sì contar il vero,
che Morte non ti ponga 'n sua figura ».

De la gran doglia che l'anima sente
si parte da lo core uno sospiro
che va dicendo: «Spiriti, fuggite!»

Allor d'un uom che sia pietoso miro,
che consolasse mia vita dolente
dicendo: «Spiritei, non vi partite!»

Começo a temer que com tantas
  desgraças aprenda a dizer "Desisto".
Mas pesa-me ao peito um pensamento
que me enche de pavor tremente

e quase que diz, "o Amor não te dá
descanso, pra que consigas contar
à tua senhora o que sentes de verdade;
e pra que a Morte não te leve igual a si."

Da grande dor que a alma sente
um suspiro deste peito descola
a dizer, "Spíritos, fugi!"

Se ao menos viesse alguém com pena
a consolar a minha sofredora vida,
que dissesse, "Spíritos, ficaide aqui!"

Guido Cavalcanti. 18. Tradução minha.