Jam, dulcis amica

in

vem já, mesmo já, meu amor
as batidas do meu coração sou eu a chamar-te;
entra no meu quarto,
todo decorado e belo.

lá há mantas a cobrir os sofás
e toda a bela casa,
há até flores que se espalham
misturadas com ervas aromáticas.

a mesa está posta
com todo o tipo de delícias;
lá o vinho brilha e há tanto,
e há de tudo o que gostas, meu amor, há de tudo.

lá ouvem-se as doces symphonias
e as flautas tocam sempre mais e nunca param;
lá um rapaz e uma ágil rapariga
inventam belos poemas, e inventam-nos para ti.

enquanto ele toca a cítara,
ela vibra canções com a lira;
e os servos trazem os jarros
cheios de vinho doce.

um banquete assim tão grande não me agrada
prefiro a nossa conversas, os nossos surrurros,
nem me agrada toda esta abundância
tanto como as nossas parcas palavras.

por isso vem agora, vem já, tu que eu amo como minha irmã, mas por escolha minha
amo mais que todos, mais que todas, acima de tudo
lux branca olhos leucoluzentes
que vêem e iluminam a parte da minha alma que estava ainda escura

eu fui sozinha à floresta mais funda
e descobri clareiras secretas
onde fui tantas vezes para fugir ao tumulto
e evitei a turba

a neve e o gelo já são água
as folhas e as ervas já são verdes
no céu já ouço um pássaro
queimo-me quando chego ao fundo da caverna do meu peito

amore meu, não demores
aprendamos a amar, nós que já somos mestres,
sem ti o que posso aprender? Amorte
traz a hora de desvendar a raiz do amor

porquê demorarmo-nos em horas e dias, meu amor
que não resistiremos a mais tarde recuperar em noites?
depressa apressa-te a próxima hora
é tua, é tua e não minha a demora.


Jam, dulcis amica, venito,
quam sicut cor meum diligo;
Intra in cubiculum meum,
ornamentis cunctis onustum.

Ibi sunt sedilia strata
et domus velis ornata,
Floresque in domo sparguntur
herbeque fragrantes miscentur.

Est ibi mensa apposita
universis cibis onusta:
Ibi clarum vinum abundat
et quidquid te, cara, delectat.

Ibi sonant dulces symphonie
inflantur et altius tibie;
Ibi puer et docta puella
pangunt tibi carmina bella:

Hic cum plectro citharam tangit,
illa melos cum lira pangit;
Portantque ministri pateras
pigmentatis poculis plenas.

Non me juvat tantum convivium
quantum post dulce colloquium,
Nec rerum tantarum ubertas
ut dilecta familiaritas.

Jam nunc veni, soror electa
et pre cunctis mihi dilecta,
Lux mee clara pupille
parsque maior anime mee.

Ego fui sola in silva
et dilexi loca secreta:
Frequenter effugi tumultum
et vitavi populum multum.

Iam nix glaciesque liquescit,
Folium et herba virescit,
Philomena jam cantat in alto,
Ardet amor cordis in antro.

Karissima, noli tardare;
studeamus nos nunc amare,
Sine te non potero vivere;
jam decet amorem perficere.

Quid juvat deferre, electa,
que sunt tamen post facienda?
Fac cito quod eris factura,
in me non est aliqua mora.

http://www.thelatinlibrary.com/iamdulcis.html

Eu de mãos dadas com o Barão de Teive...

in

... e vá-se a ver, ninguém nos avisou. E até aposto que isto já é antigo. Portanto este post é para aquelas pessoas que são interneticamente analfabetas, ou então pessoanamente analfabetas, o que acaba por ser a mesma coisa.

patri

in

chora aquilo que não me podes dar, manhã negra, altar côr-de-vinho,
dom de cegueira fria, o queimar de incenso por mãos mortas de linho,
pois ambos sabemos que tudo o que puxa pela luz do crepúsculo
é algo que arde, pele-de-leopardo em costas alheias,
herdeiros que ficam– memórias da mente, atrofias do músculo
escritos   patentes   primeiras serpentes: essas eu sei,
as imensas manobras que voltam que viram que quebram
alertam pró dia que vem, aprovas as leis às loucas auroras
que ferem os olhos, que cortam as pernas, epístulas ébrias
do rei sob o monte, do ano vindouro, do deus que não tu;
ouvi que subiste a pirâmides sérias, mandaste um oráculo
às cortinas pregadas à tua janela, com o manto do mundo
cobri-me, falei com garganta de seda, honrando o fundo do corno,
o raio primeiro das garras da carne, do canibalismo do santo enchido
de voz; pediste que desse os astros à noite, suspiro de iambo, a cópia
de mim, a mão que benzeu a poucas cabeças, o marco do fim,
relíquias das trevas sagradas, dum touro caído, do tempo d’antanho
que sonho e vivi; esqueceste-me ainda a panóplia infinda
das tintas da vida, o choque da queda, o cancro que seca
o choro do golpe ao luar   da dor que me afirma; ainda que tragas as velhas
promessas, o podre do sangue, a luz que até vê os trovões de terror,
animas o peito, acordas a lava, aqueces a mão que te esmaga.

Sobre o Romantismo e Mimesis

in

Os poetas românticos tentaram quebrar com a teoria poética mimética que, em variegadas formas e modulações permaneceu o fundamento principal da criação poética até ao neo-classicismo. Uma teoria de arte que se assuma como imitação foi entendida como se fosse diametricamente oposta à noção completamente individualista que foi seguida pelos poetas românticos: estes acreditavam que ao escrever poesia não estavam a imitar nem a realidade nem os autores clássicos, mas preferiam ao invés disso entender os poetas, os indivíduos que escreviam, como catalizadores, a imagem é de Shelley na Defense of Poetry, o material bruto que, em contacto com o "Espírito", a "Natureza", ou qualquer que fosse o nome atribuído a essa noção de indomável physis, e que gerava a reacção chamada Poesia sem que houvesse qualquer efeito no poeta propriamente dito.

Poetry, in a general sense, may be defined to be “the expression of the imagination”: and poetry is connate with the origin of man. Man is an instrument over which a series of external and internal impressions are driven, like the alternations of an ever-changing wind over an Æolian lyre, which move it by their motion to ever-changing melody.

Mas o que me interessou para isto não foi essa noção da chamada "harpa eólica", que de qualquer modo não é assim tão simples, mas a legitimidade da reacção da teoria mimética. Ora se o Romantismo se desfaz do carácter de imitação como definidor da sua poesia, e se a arte se assume como baseada unicamente em expressão dessa força dæmonica, então chegamos a uma encruzilhada. Temos a possibilidade de assumir que a arte, e a poesia em particular, é consubstancial ao às forças caóticas que possibilitaram essa criação, que a poesia é "os deuses", o que por muito poético que soe não me parece que tenha sido a intenção, pois levanta demasiados problemas, ou então, o que me parece muito mais sensível, a poesia é expressão divina, é o "soar da harpa eólica", é a marca que os deuses deixam no mundo através da mão do poeta. Mas não é isto ainda assim μίμησις? Platão em alguns diálogos rejeita a poesia como sendo imitação do mundo físico, sendo portanto censurável na medida em que estaria duplamente afastada do mundo imaterial das Idéias. A imitação da natureza, como a defende Aristóteles, não faz mais que afastar daquilo que realmente importa. Não será que a a concepção Romântica assume mais paralelos com uma teoria poético-moral platónica do que com a mais bem-sucedida teoria aristotélica? Pois não é o deixar os deuses falar e deixar marcas 'apenas' mais um capítulo da teoria mimética, na medida em que continua a não haver espaço teórico para a criatividade individual, para uma poesia ex nihilo, enquanto a poesia continuar a ser uma expressão mais fiel possível das forças que estão em jogo? A diferença é que o mimêta deixa de ser o poeta, e passam a ser os deuses propriamente ditos, com a ressalva de que agora, em vez de a physis ser imitada por outrém, está a expresar-se e a imitar-se a si mesma, numa mimesis sui que é ainda assim mimesis. Se o poeta não fôr 'reduzido' ao estatuto de "harpa eólica" ou de "catalizador", então a physis está necessariamente a exprimir-se a si mesma. Se assim não fôr, e mesmo que aceitarmos uma poética menos de-autoral que a de Shelley, em que o poeta ainda tenha alguma função activa, então ainda assim é o poeta a 'mimar' aquilo que lhe é confiado pelos deuses.

O que Shelley diz em relação a isso é formidável: se o poeta ao escrever não consegue atingir as alturas que a insuflação divina lhe permitia, é porque existe um vazio temporal gigantesco entre o momento da inspiração e o da escrita: a possessão do humano pelo divino é breve, e no momento em que é passada a poema resta apenas uma sombra pálida; curioso é o modo como prossegue a desmantelar um dos mitos que ainda se ouvem de bocas de poetas (principalmente principiantes, mas não só), de que "aquilo veio no momento, [moralmente] não o posso editar"; o que Shelley diz é que a contínua revisão não só é lícita como aliás é moralmente certa: editar o poema fruto de inspiração divina é dar côr à palidez, é aproximar a sombra do poema inspirado daquela idéia que o Espírito lhe houvera revelado. -- enquanto existe uma força que se fala e que consegue com maior ou menor sucesso ser passada para papel, então o pressuposto é que há algo a atingir, um ideal platónico a tocar, que está a ser imitado. Não é mais a imitação aristotélica, mas continua a ser muito derivativo, parece-me.

Escusado será dizer que tudo isto é uma reflexão, de largo a largo muito básica e muito possivelmente já desmantelada em muitos sítios: quer tenha sido quer não é muito um esboço. Convidaria comentários que me mostrassem como estou completamente errado, ou que me mostrassem livros onde pudesse eu descobrir como estou completamente errado, ou então discussão para continuar esta reflexão a mais cabeças (para descobrirmos o quanto estou errado!).


PS: Noutras notícias, embora tenha sido isso que encorajou este post, o Shelley continua a resistir à tradução.

This dog.

in


κατεβην χθες

in

O meu grego não é ainda ágil o suficiente para ler grandes obras grandes em extensão. Lá vou deitando os olhos ao texto paralelo, mas se quero ler o livro de fio a pavio não me posso iludir dedicando-me apenas ao original (ou talvez esteja aqui a razão pela qual verdadeiramente não consigo?). Mas então, visto que estou a começar a República, lanço-me com duas cópias abertas, a da Gulbenkian traduzida pela professora Rocha Pereira, e uma versão italiana bilingue, traduzida por Francesco Gabrieli. Li apenas as primeiras linhas, mas para a questão interessa unicamente a primeira palavra. Κατέβην. Dirigi-me para baixo. κατα + έβην. κατέβην χθὲς εἰς Πειραιᾶ. "Desci ontem ao Pireu." Em Português aparece inocentemente como "Fui." "Ontem fui até ao Pireu." Já me tinham falado do paralelo da descida, do declínio, presente no confronto entre esses dois autores basilares que respondem um ao outro, Nietzsche e Platão, tal como Zarathustra responde a Sócrates; pois na altura o que estava em questão era o Zarathustra a transbordar de sabedoria que descia para junto da civilização no início do seu livro. O italiano lá tem "sono sceso". Mas ao ver aqui toda a simbologia e intertextualidade que poderia ter sido preservada se a tradução tivesse permanecido mais fiel ao original (sem sequer com prejuízo de inteligibilidade), mas que é ao invés disso substituida por um pálido "fui", entristeço-me. Tu Marcellus eris. Fiquei sem vontade de ler.

Livros Bilingues

in




Aproprio-me, como ponto de partida, dum post feito há algum tempo atrás no Bibliotecário de Babel, este aqui, que defende que na publicação de livros internacionais, perdendo-se inevitavelmente muita coisa na tradução, especialmente na tradução de poesia, o mínimo que deve ser feito, no que aos textos inclusos diz respeito, seria disponibilizar o texto original paralelo para o leitor poder consultar sempre que quiser. Não poderia estar mais de acordo. O original é uma mais valia sempre, pois mesmo se o leitor não souber nada da língua original, dificilmente “ocupa espaço”, especialmente sendo a poesia um género que não tem por norma ocupar 1000 e tal páginas (A não ser que sejam o Kazantzakis, ou o James Merrill). Quando cheguei a Roma a primeira impressão que me fez o mercado editorial foi ver a grande grande maioria dos livros de poesia traduzidos com o original lá sempre. Não o ter é a excepção, não a regra. Em Portugal há algumas editoras que de vez em quando lá têm a oportunidade de o fazer (que o diga a edição das Elegias de Hölderlin que neste momento leio, cortesia da Assírio e Alvim), mas é muito mais raro. O problema do Bibliotecário de Babel é relevante pegue-se por onde quisermos.

Mas isto é apenas um ponto de partida. Um outro tipo de textos que não perderia nada em ser por norma associado ao original é o dos textos clássicos. Ter por regra bilingues Aristóteles, ou Virgílo, ou Santo Agostinho, seria uma mais valia enorme, mas que em si anda está mais longe do que a poesia (assim de memória lembro-me de alguns volumes da Gulbenkian: as Cartas a Lucílio e a Historia Calamitatum do Abelardo; duma velhinha edição das Nuvens; duma recente tradução da Lex Duodecim Tabularum; do Diálogo sobre a Felicidade do S. Agostinho das Edições 70 · de certeza absoluta que há outras, mas nunca as suficientes para o número ser significativo). Refiro-me unicamente ao texto, sem incluir aparato críticο, sem vastas notas de rodapé, etc (isso sim a reservar para edições mais 'cuidadas'): apenas ao texto grego ou latino posto paralelo à tradução, como se faz com os textos de poesia. Uma direcção que a colecção de Clássicos Gregos e Latinos das Edições 70 ainda vai a tempo de seguir.

Isto traria várias vantagens, a menor das quais não sendo sequer o facto de que esconder (ou não revelar: ληθεν?) uma língua em sítios onde ela deveria estar quase omnipresente ser meio caminho andado para subconscientemente essa língua ser esquecida não existir. E se há, por exemplo, quem estude o filosofia grega ainda no secundário, talvez se tivesse nas mãos uma edição bilingue aquela massa de caracteres gregos não lhe fosse tão alienígena no futuro, com todas as advenientes vantagens; não a ver é meio caminho andado para ela não existir, mas ficar familiarizado com a presença de algo é meio caminho andado para a amar. Isto é um argumento pedagógico, por certo, mas não é, de longe, o único invocando; pela mesma lógica argumentativa do Bibliotecário de Babel, "o que se perde na tradução" é demasiado precioso, e devia estar localizado de modo a chamar à atenção. E nem penso particularmente em textos filosóficos: o que se perde no Updike perder-se-á também e quiçá mais em Propércio ou em Teócrito.

Claro que me dirão que o mercado obedece a regras de procura e que estes textos já não vendem por si, quanto mais com o preço acrescido que estas edições pediriam; que, em última instância, não há mercado para este tipo de edições. Certo. Será verdade. Mas certas edições não se compreendem (qual é a lógica, por exemplo, da selecção de quais serão bilingues feita pela Gulbenkian?), e outras poderiam muito bem ter suportado o texto paralelo, por exemplo a Poesia Grega traduzida pelo Frederico Lourenço (o azulzinho da Cotovia): não foi o Paradise Lost na mesma colecção publicado bilingue? Por ser Inglês e ter mais público? Talvez precisamente por isso o Grego devesse também ter sido incluído. Dir-me-ão que seria os editores e tradutores estarem a arranjar sarna para se coçarem; que é estar a puxar a brasa à minha sardinha, e que fazer isso com os Clássicos exigiria que se fizesse o mesmo com todos os textos de todas as línguas (embora não me parece que esse argumento pegasse, por razões um pouco partidárias). Mas vá, necessariamente este meu argumento será emocional. Estando eu porém fora das contingências do mercado editorial tenho uma habilitação certificada para mandar bitaites, e uso esse direito: e parece-me que haveria muito muito mais a ganhar que os custos e dificuldades incorridos. Mas caveat venditor. Etcetera. Valete.




PS: Um poema para quem adivinhar donde é o texto da imagem.