Rhodos

in

a educação da cidade anuncia
a sua impotência – um povo estrangeiro
oferece-se como metáfora. Athenas
matricida, sofremos tanto contigo
quanto tu connosco? rerum divinarum cognitio
seguida dum intervalo entre parlamentações. note-se
que os trobadores chegavam cantar três
senhores, cada um com a sua exigência
ch'è chiamata amore, isto é
o um só olho de Hermes, que Dantes devorou
sem desejo, sem misericórdia, sem saber
de quem. se te chamo assim então, senhor,
Lady of the Rocks, como o véu ἀκουσματικῶν
geometricamente ordenado pelo teu retrato pintado
na Florença que arde filosoficamente
a bom arder e que naufraga o pensamento – se minto
e não me confesso, quer isso então dizer
que Platão estava errado? e que tal
Alfarabi? também eles largavam
escárnios como nós derramamos sangue
suspenso em estalactites, ou como o tempo que contrai
os nossos ofícios civis, ou os prolonga enquanto esperamos o escurecer
das luzes municipais, da estrela
vespertina. não creio que as volte a adorar assim,
não tanto quanto a ti, ociosa máscara,
por muito que na minha palma segure em vez de ti o deus
que me arranca a cabeça com uma prece
λάθε ἐρασθείς, que quer dizer eu amo-te como um imperador
ama abdicar, ou como quando os monges irlandeses
trocavam nos poemas palavras por outras mais rebuscadas
em busca daquela dificuldade que ama aldrabar
e que ama ainda mais amar. dizem que muitas ilhas mediterrâneas
são inexpugnáveis. dizem ainda nunca construas muralhas
dentro doutras muralhas. quando astrónomos recentemente
indagaram Andrómeda celebraram
porque por uma só noite tinha desaparecido do céu
como um romance do Saramago para alquimistas
mas ao chegar a casa, trocaram finalmente a alegria
pela liberdade, perceberam
que quando um sonho morre outro toma sempre o seu lugar
nas almas dos teus inimigos. não te entristeças
virá o dia em que nem os alexandrinos
nem a etymologia, a ciência do vero,
estarão disponíveis para ti. a alvorada
em Rhodes, a fraqueza que expulsas
para a tornares mais tua, tudo isso existe já
desde a origem, aquele frágil vidro que nos golpeia em segredo
como crianças, e que eu estilhaço contra a rocha.


Miguel Monteiro

De Principiis.

in


Os discípulos disseram a Jesus: "Diz-nos como será o fim."
Jesus respondeu: "Então já conheceis o princípio, para vos questionardes sobre o fim?
Onde o princípio estiver, lá estará também o fim."

Evangelho segundo S. Tomé. 18.1-2.

Sobre os Sacrifícios

in

A expressão consagrada junto dos gregos para designar a oferenda aos deuses é uma que estamos sobejamente familiarizados a encontrar, mas num contexto diferente. Ἀνάθημα, anáthêma (ou ἀνάθεμα anáthema), designa fisicamente a pós-posição, subentendendo-se ao altar ou ao templo. Como adquiriu o nosso sentido de persona non grata? Um animal oferecido ao deus está naturalmente condenado à morte conquanto que anua: deve aceitar ser a oferenda, o bode-expiatório, deve ir voluntário, muy fecunda noção. A língua latina encontra um paralelo semelhante com o homo sacer de Frazer e Agamben, pois o homo sacer, tal como aquele que é declarado anáthêma, passa a ser identificado como um morituro, sendo a sua  morte tributável a quem assim o desejar, pois o dito condenado se encontra já dentro da esfera divina, com o qual a única relação possível é o acto de ofertar a morte. Não percebemos de imediato a natureza desta relação, sendo que a religião que ainda nos poderia ser familiar para o conceito de sacrifício, o Cristianismo, há muito tirou das mãos dos seus crentes o acto directo de derramar sangue, para deixar a contemplação da oferenda e o temor face a actos já feitos. Nenhuma das grandes religiões contemporâneas derrama o sangue de seres vivos num contexto sacrificial. Mas a mim sempre me soou estranho que a acção consagrada a  aplicar àqueles seres colocados nesse mundo paralelo, neste mundo mas não deste mundo, fosse a violência. Há uma perturbação da ordem, uma usurpação: a intelecção da Arendt quando nos lembra de que a presença da Verdade no Mundo desvaloriza este último; segue-se que, a termos que escolher, devemos escolher o último.

Assim compreendemos que a palavra anáthêma perca a sua aura sancta e adquira uma de hostilidade, quase abjecta, ao nomeado. O divino é expulsando, combatendo, pois não há para ele lugar aqui: põe-nos em causa, nomeia um Tudo Sancto em troca sacrificatória pelas pessoas pelas quais apenas poderia fazer sentido; transforma-se numa tentação, a tentação de bajular Deus preferindo-o às suas creaturas: não pode ser feito. O Christo de Ário (talvez também o de Kazantzakis) tenta semelhantes salvações, sacralizações do mundo na sua totalidade estabelecidas pela relação posta entre a totalidade das paixões humanas demasiado humanas e a divindade. Mas Deus é distante, difícil: condenada ao fracasso, pois o marasmo infiltra-se na nossa terra féril como a chuva de Abril. O modelo é Zarathustra, a besta sacrificial voluntária, o anáthêma  que traz consigo outro ainda, e que por "amor ao Homem" lhe entrega a Virtude Que Oferece. O movimento é o mesmo que o Ariano, mas aqui a força é centrípeda e não centrífuga: os sacrifícios  mantém o sangue no mundo, flui este em círculos, de uns para outros. Aqui os anathemata são expulsos deste mundo pela força , mas para nenhum outro vão, pois são deste mundo, e aqui permanecem, pois a entrega à raça humana é total e nada há mais que poderia ter sido dado, a transferência tendo sido osmoticamente completa. A liturgia aqui é incestuosa e autofágica como o ouroboros, mas apenas porque se sacrifica em prol de outros que são como ela mesma, não in nomine Dei, apenas por isso pode desprezar a santidade e desdenhar a faca.

And we shall be changed.

in

A maior ameaça que alguma vez nos prometeram, pois nos disseram também: nescitis diem neque horam. Como um ladrão que nos diz que virá, e que nos obriga a vigiliar para que in the small hours o possamos repelir.

Notas sobre as línguas antigas.

in

  • Não confundir voluntas com voluptas.
  • Não confundir μεγαλοπρεπὲς ἄλλους ἑστιῶ com μεγαλοπρεπὲς ἄλλους ἐσθίω.

Livre Só Zeus

in


Livre Só Zeus

feriuntque summos fulgura montes - Horácio

o teu jejum de promessas
atordoou-te · evitas nomear
porque estás rouca · quem assume
a fiança? esqueces-te que a voz dos mortos
é uma flor na corrente do rio
que a neve tapa
a própria neve
e que o profeta se disfarça sempre
do que diz que não

mas partilhas dos mesmos sonhos justos
do ateador
que espera pelo segundo certo para electrocutar
as nossas palavras até às raízes
pelo momento em que os heresiarchas
naufragados no Adriático da tua expectativa
te rasgam a voz
e te rasgam a luz

no instante pressagiado em que voltamos
como os gregos
a dividir a alma em três
e descobrimos aquele terceiro que nos
persegue demoníaco
protector
no momento em que nos apercebemos que o nada
é feito do mesmo mármore do templo de Aphrodite
em Corintho
a nossa angústia acaba
e renasce


Miguel Monteiro

História das Calamidades - De Deo; De Natura; De Homine

in


§1
há uma palavra —um étymo (do grego: uma verdade)— que surpreende pelas contradições e paroxismos que fazemos depender da forma particular que dela utilizados: τ συμφέρον, o útil, o conveniente, quase como sinónimo de τ φελλον, o beneficiente, prestável, benfazejo. com esta palavra aliamos o verbo temporal συμφέρω, vulgarmente na forma impessoal συμφέρει, auxilia, junta, calha, convém, no sentido de duas coisas que estão bem uma para a outra e que portanto se juntam. desta palavra origem recebe uma outra, συμφορά, que no sentido imediato poderia ser apenas uma mera nominalização do dito συμφέρειν, não se desse o caso de, como qualquer pessoa que já pegou numa tragédia grega na língua original poderá bem atestar, συμφορά obter uma lógica nefasta: imediatamente συμφορά é a desgraça, é a calamidade, o infortúnio, já não aquilo que se junta (συμφέρει) porque πρέπει (porque se adequa) mas sim porque há alguma atração fatal enter o humano e a sua aniquilação, entre a felicidade que atrái a cólera, o magnetismo dos deuses vingadores, para os quais então de facto συμφέρει (é prestável) destruir-nos completamente, até ao último rasgo de sombra. συμφέρει, ajunta, é verdade, mas a quem? tal como a palavra latina simultates, a presença simultânea de dois, não é uma comunhão fraterna mas sim algo destruidor, assim também a συμφορά nos junta a nós e à morte, mas também a nós e aos deuses, na medida em que a nossa excessiva felicidade é o único engodo que temos à disposição para atrair os deuses que fogem, embora bem saibamos que tudo o que temos sacrificamos por esse instante em que nós e eles somos trazidos juntos e eles nos destroem. a desgraça, a συμφορά é o momento nítido do terrível olhar da divindade que já não desdenha destruir-nos.

§2
quando Thrasýmaco diz que τ δίκαιον τ το κρείττονος συμφέρον, não percebe o que diz e percebe. a justiça é a conveniência do mais forte. a justiça é o momento de encontro do mais forte consigo próprio, o momento em que tem o que merece, mesmo enquanto excluímos a helenicamente bizarra paixão pelo Juízo Final e pela novíssima aniquilação das almas. τ συμφέρειν é o momento em que os poderosos são postos à prova, e no qual contemplam nos olhos o deus do gesto. o momento em que ousamos arriscar tudo assentando sobre o nosso próprio valor é simultaneamente o instante da nossa glória máxima, da humanidade, e da virtude — dos vitia splendida – e ao mesmo tempo da συμφορά, do esmagamento por necessidade justo da nossa condição face à face ardente do deus que vive e é a Morte. os gregos conheceram-no sob muitas faces, sob sempre máscaras dúplices de esperança e de violência. conheceram-no sob a máscara da βρις, essa maior das helénicas ρεταί, esse amor erga vitam que apenas honra a mesma vita condenável, essa adpaixão que é a do Príncipe de Marrocos que ousa escolher o cofre do qual “Who chooseth me shall get as much as he deserves”, que se lança de cabeça para a frase de Unamuno, “se é preciso que morramos, temos ao menos que fazer com que isso seja injusto”, isto é, aceitar a συμφορά com olhos de quem percebe que isso não συμφέρει, aceitar o fogo na face de Deus e não desviar o olhar. conheceram-na ainda pela máscara de Sócrates, o demónio do Amor, o terror dos injustos — e convirá aqui lembrar que já no pensamento platónico e clássico os demónios são os entes que mediam entre “a outra terra e o outro céu”, sendo o amor a obra demoníaca por excelência, que dois entes liga, e que esta demonologia pagão de mensagem foi mantida até ao século IV, onde a sua cristianização por Pseudo-Dionísio Aeropagita transformou estes συμφέροντες, estes mediadores, estes demónios do espaço, naquilo que o cristianismo chamará anjops, anjos portanto que συμφέροντες τν συμφορν φέρουσιν, que juntam o que deve estar junto, a desgraça ao desgraçado · a intuição de Rilke já se entende: todo o anjo é terrível. E Sócrates do outro lado, unificador, criatura do silêncio e deus-patrono da adequação, que nunca hesita em pronunciar as aquém-palavras de maneira demasiado inaudível, apenas o bastante para se vislumbrar a catástrofe e pressentir a συμφορά prometida da justiça terrena, do mundo a ferro e fogo, da imanentização da calamidade das palavras para as almas. 

§3
há alguma coisa de inerentemente contraditório na existência de escritos mýsticos. como diz John Caputo, “tendo em conta que passam tanto tempo a dizer que o que narram é indizível, os mýsticos realmente falam que se fartam.” seja qual for a profissão de fé da mýstica em questão, todas aparentam almejar a uma tendência máxima, à qual nos habituámos a chamar unio mystica, experiência que seria a conjunção suprema entre o experimentador e o divino, em que se assemelhariam de tal forma um ao outro que deixaria de zer sentido falarmos de nós verbalmente: a unio mystica é também the annihilation of the self, em que a adequação gigantesca funde os dois num, de tanto que συμφέρουσιν um com o outro: isto sim é justo, isto sim é belo, e o summo bem talvez. o que implica esta união porém, o que fazemos com o comungar da alma — o comunicar da alma com o divino? destruimo-nos é certo, e isso poderia ser a temer, não fosse precisamente isso que buscássemos, o prescindir de nós para nos centrifugarmos em Deus. mas há que prescindir da amizade e da beneficiência em prol da faculdade de ver mais claramente. destruimo-nos a nós mesmos, é vero, mas destruimos de igual forma o deus que nos recebe, o qual violentamos até que nos aceite como a si: o deus, o mar imenso, é obrigado à força a aceitar-me como em si, e eu nele: mas já não sou em que vivo; nem vive ele.  no meio, onde nós somos e éramos, um Vazio. foi esse συμφέρειν que levou à maior possível das συμφοραί, como se apercebeu Nietzsche, que esse maior dos ateus Eckhart percebeu quando falou da mýstica suprema para além do êxtase, para além e depois daquele momento em que atingimos o Pai e o Filho, e em que neles somos já Um, e ousamos corajosamente ainda mais seguir virtute e canoscenza, mesmo que para isso tenhamos que prescindir do próprio deus para que o lançarmo-nos contra o o mundo, suas criaturas e criador, seja tão imenso que dele demos mão, e no desprezar amoroso de tudo o que se adequa por excelência completemos a nossa historia calamitatum.

Nathaniel

in


Nathaniel
Ian McLachlan
in Mimesis 2 Summer 2007

Part 1

i

Nathaniel, acrobat,
Zen student, poet,
spiritual warrior,
perhaps. Some say
angel. Let us see.

ii

January.
Hunting Nathaniel.
In the snow I find foot-prints.
His?

iii

There. He inhales,
bends, raises
a hidden weight,
breathing out,
lowers it. In
a nearby barrel's
liquid depths,
the moon.

iv

My cell phone chimes.
Jean. Where am I?
I lie. Watch him
raising the moon.

v

Back late, he
takes a shower,
does Mantis press-
ups, fixes a snack,
meditates. These
in no special order.

Part 2

i

In their concrete tower
Shell's directors inspect
a map, wish to turn his
back yard into a mall,
gym in the basement
for city drones. Now,
Nathaniel, atop a wall,
180 Cats to a ledge,
his muscles, packed.

ii

Taken from Nathaniel's journal ...

Fundamentals:

1)
2)
3)

iii

A glow in the city,
Nathaniel, in white
trainers, enters
a throbbing club.

I heard
he never sleeps
with the same girl
twice.

iv

Cue chalked,
he rolls up
a chequered sleeve,
takes a long pot.

Hush.

On his arm,
new scars.

Part 3

i

Down Cat Alley,
easy-limbed, alone,
he runs.

May morning,
London, his.

Boats tied up
on the Thames'
bank creak –
a rusty lullaby.

He passes
a Starbuck's.

Nothing on
his mind
but running.

Reaching
a flight of steps

he leaps.

ii

Who is Nathaniel?
Who does he see
when he jerks off,
fold his arm round
before sleep?

iii

Top deck, sweet-
flowered cannabis,
misted windows,
worn seats. No
stars tonight.

Part 4

i

Three perch
on a branch.
More below,
sun-bathing,
sharing cider,
weed. An I-
Pod wired to
speakers hums:
Time Will Tell.
To the youngest,
the one who
wants to join in,
isn't sure how,
he speaks.

ii

It's said the closer you come
to God, the more it hurts.

He tramps the summer street,
in a sleeveless vest. Big cat,

small town. He brushes past
strangers, whistling. How much

does he hurt? Now, slipping
by him, we make eye contact,

I think. His sunglasses flash.
He's gone. He's smoke.

iii

'Try this,' he says –
a one-handed hand-stand.
The world upside down.
A rush of blood to the head.
Nathaniel, you bastard!
How did you get so free?

iv

A park sit-up bench,
staring up at blue sky.
He curls a hand round
the bench's cool iron
bar and busts clouds.

Part 5

i

Urban myth, I want you
dead. Your perfection is

my crucifix. Nathaniel,
you've stolen too much

airtime. How can I exist
where you are?

ii

Both lanes blocked
on the escalator.
By the handrails,
barriers. Nathaniel,
confined, losing
his cool. Why think
we'll let you by?

iii

At the gig,
Nathaniel,
downing JDs.
Girls want him,
but he didn't
get where he is
by taking easy
bets. Besides,
someone told me
he wasn't that
way inclined.

iv

Cocaine, cut
in the bathroom,
loosens tongues.
Fallen into a well,
he's speechless.

Part 6

i

Delicate as rice paper,
easily torn,
he comes unfixed
from a hoped-for love.

I watch it happen.

Part 7

i

Rooftop. Gunshot.
Doves spray upwards.

This close to death.

Nathaniel, swarming
down a drainpipe.

11.23pm.

He's swearing,
spitting teeth.

Did he recognise
the assassin?

ii

He has been to Rome,
questioned
the philosophy students
in their black
trench coats,
talked with the African
street-hawkers
who greet passers-by
with ivory smiles –
'Ciao, bello!'

By the Fall,
he's in LA.

iii

Enough of Nathaniel.
Who am I?

A butterfly catcher.

iv

Bearded, in the ocean,
I watch you play with a child,
carry him up a blonde dune,
spade sand with him, buy
ice creams. Is it true
you have a son?

Part 8

Epilogue

Sun through the blanket,
muted on the white walls
& Marshall amp. Street-
heat, bike, sometimes I fall.
By pale blue sea I remove
my shoes, touch the water.
Look. A skater-girl flips,
flags snap, seagulls stagger
the breeze. Easy to lose
balance, the air half free.
Later, I'll make a fire.

Mediocrity leads no theological life whatsoever.

in

I: " [...] You depend upon my pride's preventing me from the remorse necessary to salvation, yet do not make account of there being a prideful remorse — that of Cain, who was of the fast opinion that his sin was greater than could e'er be forgiven him. Contritio without hope and as utter unbelief in the possibility of grace and forgiveness, as the sinner's deep-rooted conviction that he has behaved too grossly and that even unending goodness will not suffice to forgive his sins — only that is the true remorse, and I would remember you that it is to redemption most proximate, to goodness most irresistible. You will admit that grace can have only a workday concern for the workaday sinner. In his case the act of grace has little impulsion, is but a dull enterprise. Mediocrity leads no theological life whatsoever. A sinfulness so hopeless that it allows its man fundamentally to despair of hope is the true theological path to salvation."

He: "Sly cap! And where will the likes of you find the simpleness, the naive candour of despair that were the presumption for this hopeless path to salvation? Is it not clear to you that purposed speculation on the charm that great guilt exercises upon goodness renders the very act of its grace utterly impossible?"

I: "And yet it is only by means of this non plus ultra that one arrives at the highest enhancement of dramatically theological existence, which is to say: at the most reprobate guilt and, through it, at the last and irresistible provocation of infinite goodness."

He: "Not bad. Truly ingenious. And now I shall tell you that precisely minds of your sort constitute the population of hell. It is not so easy to enter into hell; we would long since suffer a want of space if every Tom and Tib were let in. But your theological type, such an arrant desperado who speculates upon speculation, because speculation is in his blood from his father's side — if he were not the Devil's, why 'twould surely be old craft."

Thomas Mann. Doctor Faustus. John E. Woods (trad). Vintage International: Nova Yorque (1999)

Tyranny and Wisdom

in

The sixth International Forum of Philosophy in Maracaibo, Venezuela, is where philosophers from four continents were invited to discuss "State, Revolution and the Construction of Hegemony". The event was inaugurated by the vice-presidents of Venezuela and Bolivia, televised by several channels, and on the last day, a prize of $150,000 was awarded to the best book presented within the Libertador Award for Critical Thinking of 2011.

Fonte: Aljazeera.

une tentation infiniment pire

in

Ce ne sont plus seulement les tentations qui nous assiègent, mais ce sont les tentations qui triomphent; et ce sont les tentations qui règnent; et c’est le règne de la tentation; et le règne des royaumes de la terre est tombé tout entier au règne du royaume de la tentation; et les mauvais succombent à la tentation du mal, de faire du mal; de faire du mal aux autres; et pardonnez-moi, mon Dieu, de vous faire du mal à vous; mais les bons, ceux qui étaient bons, succombent à une tentation infiniment pire: à la tentation de croire qu’ils sont abandonnés de vous. Au nom du Père, et du Fils, et du Saint-Esprit, mon Dieu délivrez-nous du mal, délivrez-nous du mal.

Charles Peguy. Le Mystère de la charité de Jeanne d’Arc. Aqui.

in

Da verließen ihn alle Jünger und flohen.

in

Wer hat dich so geschlagen,
Mein Heil, und dich mit Plagen
So übel zugericht'?
Du bist ja nicht ein Sünder
Wie wir und unsre Kinder;
Von Missetaten weißt du nicht.

Dia de Outono - Rilke

in

Dia de Outono

Senhor: está na altura. O Verão durou tanto tempo.
Estende as tuas sombras sobre os relógios-de-sol,
E liberta nas pradarias os corredores de vento.

Dá à ordem aos frutos teimosos que cresçam;
Concede-lhes ainda uns dois dias de sol meridional,
Convence-os a amadurecer e então encurrala
No vinho pesado aquela doçura que resta.

Quem ainda não tiver casa, não construa agora nenhuma.
Quem ainda estiver sozinho, sozinho há-de ficar,
E há-de velar, de ler, e há-de escrever longas cartas,
E há-de vaguear pelas alamedas sem rumo
Inquieto, enquanto as folhas revolvem o ar.

Rilke. Tradução minha.


Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren laß die Winde los.

Befiel den letzten Früchten voll zu sein;
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin und jage
die letzte Süße in den schweren Wein.

Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist, wird Es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.

World politics and the revolution in Libya

in

Responsibility

in

Saying that a responsible decision must be taken on the basis of knowledge seems to define the condition of possibility of responsibility (one can't make a responsible decision without science or conscience, without knowing what one is doing, for what reasons, in view of what and under what conditions), at the same time as it defines the condition of impossibility of this same responsibility (if decision-making is relegated to a knowledge that it is content to follow or to develop, then it is no more a responsible decision, it is the technical deployment
of a cognitive apparatus, the simple mechanistic deployment of a theorem).

Jacques Derrida. The Gift of Death (24). David Wills (trad)*. University of Chicago Press (1995)

Este livro, ao qual dedico parcialmente um dos meus fazendos trabalhos, e do qual cito apenas esta inócua passagem porque a quis noutros lados citar, e não o demonstra, é uma obra prima da ética. Não da política, não da justiça. Nem há um único preceito moral em todo o livro. Mas talvez por causa disso possa ser um chamamento.


* O original francês foi roubado da biblioteca. É um bocado irónico.

Análise Artística Rigorosa de Rembrandt

in


Esta pintura claramente ilustra uma espécie de antepassado dum escriptório de advogados ou de banqueiros retratados em conjunto.

1. Este é o chefão. Nota-se logo pelo facto de estar sentado à mesa, e ainda por cima por ser o único que não olha directamente para nós [obrigado João por esta última]. Tem aquele ar de superioridade de quem realmente não tem de aturar ninguém, mas com uma elogiável responsabilidade assumida pelo à vontade com que está perante o livro que inclui os mais importantes detalhes da firma.

2. É o tesoureiro. Não nos deixemos iludir pela ausência a que está do centro, o ar manhoso indica bem que não está para brincadeiras. Segura na bolsa de dinheiro com firmeza e resolução.

3. É o benjamim da firma. Acabadinho de sair fresco da escola, onde alguém (assumimos que o pai ou outro familiar poderoso) o colocou na firma. Mas talvez neste caso o nepotismo funcione, que os traços juvenis dele não o impedem de subir rapidamente para a confiança do chefe, estar aliás sentado ao lado dele, e ainda por mais a pegar no próprio livro com que o chefe se está a retratar.

4. O sicofante. Não usa chapéu. No último plano, por detrás do chefe, como quem olha por detrás do ombro dele, obsequioso.

5. O sénior. Deu muitos anos da vida à firma, e agora, apesar de "reformado", não quer deixar de se sentir ligado a ela agora que há este plano para um retrato de grupo. Nem a senioridade lhe vale poucas vantagens: aparece de lado, é verdade, e no extremo esquerdo da imagem, mas é também a única personagem cuja cadeira, aliás requintada, aparece.

6. O tipo que não faz bem parte da firma.  Que está sentado e não está sentado. Está em segundo plano, atrás do chefe-sénior, mas na realidade o seu tronco inclina-se para a frente de tal forma a que assume na realidade um falso primeiro plano. E o que é mais, basta ver o estilo com que tem o chapéu, de lado sem estar de lado, como um verdadeiro cowboy da finança, para o topar. É o tipo que a firma chama quando tem de resolver algum problema para o qual simplesmente não está pronta. Ele lá recebe a chamada, suspira, e exige o chorudo pagamento que sabe será pago. Sabem o Winston Wolf, do Pulp Fiction? É este gajo.

Vou apresentar isto como provas de Doutoramento a História de Arte.

na imagem: Síndicos da Guilda dos Trapeiros. Rembrandt (1662) [aqui]

Duas Ékphrases

in

Why sholde I noght as wel eek telle yow al
The portreiture, that was upon the wal
Withinne the temple of myghty Mars the rede?
Al peynted was the wal in lengthe and brede
Lyk to the estres of the grisly place
That highte the grete temple of Mars in Trace,
In thilke colde frosty regioun
Ther as Mars hath his sovereyn mansioun.
First on the wal was peynted a forest
In which ther dwelleth neither man ne best,
With knotty, knarry, bareyne trees olde,
Of stubbes sharpe and hidouse to biholde,
In which ther ran a rumbel and a swough
As though a storm sholde bresten every bough.
And dounward from an hille, under a bente,
Ther stood the temple of Mars Armypotente,
Wroght al of burned steel, of which the entree
Was long and streit, and gastly for to see,
And therout came a rage and suche a veze,
That it made al the gate for to rese.
The northren lyght in at the dores shoon,
For wyndowe on the wal ne was ther noon,
Thurgh which men myghten any light discerne.
The dore was al of adamant eterne,
Yclenched overthwart and endelong
With iren tough, and for to make it strong
Every pyler, the temple to sustene,
Was tonne-greet of iren bright and shene.
Ther saugh I first the dirke ymaginyng
Of Felonye, and al the compassyng,
The crueel Ire, reed as any gleede,
The pykepurs, and eek the pale Drede,
The smylere with the knyf under the cloke,
The shepne brennynge with the blake smoke,
The tresoun of the mordrynge in the bedde,
The open werre, with woundes al bibledde;
Contek, with blody knyf and sharp manace,
Al ful of chirkyng was that sory place.
The sleere of hymself yet saugh I ther,
His herte-blood hath bathed al his heer;
The nayl ydryven in the shode anyght,
The colde deeth, with mouth gapyng upright.
Amyddes of the temple sat Meschaunce,
With Disconfort and Sory Contenaunce.
Yet saugh I Woodnesse laughynge in his rage,
Armed Compleint, Outhees, and fiers Outrage;
The careyne in the busk with throte ycorve,
A thousand slayn, and nat of qualm ystorve,
The tiraunt with the pray by force yraft,
The toun destroyed, ther was nothyng laft.
Yet saugh I brent the shippes hoppesteres,
The hunte strangled with the wilde beres,
The sowe freten the child right in the cradel,
The cook yscalded, for al his longe ladel.
Noght was foryeten by the infortune of Marte,
The cartere overryden with his carte,
Under the wheel ful lowe he lay adoun.
Ther were also, of Martes divisioun,
The barbour, and the bocher, and the smyth
That forgeth sharpe swerdes on his styth.
And al above, depeynted in a tour,
Saugh I Conquest sittynge in greet honour,
With the sharpe swerd over his heed
Hangynge by a soutil twyned threed.
Depeynted was the slaughtre of Julius,
Of grete Nero, and of Antonius;
Al be that thilke tyme they were unborn,
Yet was hir deth depeynted ther-biforn
By manasynge of Mars, right by figure;
So was it shewed in that portreiture,
As is depeynted in the sterres above
Who shal be slayn or elles deed for love.
Suffiseth oon ensample in stories olde,
I may nat rekene hem alle though I wolde.
The statue of Mars upon a carte stood
Armed, and looked grym as he were wood,
And over his heed ther shynen two figures
Of sterres, that been cleped in scriptures
That oon Puella, that oother Rubeus.
This god of armes was arrayed thus:
A wolf ther stood biforn hym at his feet,
With eyen rede, and of a man he eet.
With soutil pencel was depeynt this storie,
In redoutynge of Mars and of his glorie.

Geoffrey Chaucer. The Tales of Caunterbury. The Knightes Tale. 1967-2050






Went Hero thorow Sestos, from her tower
To Venus temple, where unhappilye,
As after chaunc'd, they did each other spye.
So faire a church as this, had Venus none,
The wals were of discoloured Jasper stone,
Wherein was Proteus carved, and o'rehead,
A livelie vine of greene sea agget spread;
Where by one hand, light headed Bacchus hoong,
And with the other, wine from grapes Out wroong.
Of Christall shining faire, the pavement was,
The towne of Sestos cal'd it Venus glasse.
There might you see the gods in sundrie shapes,
Committing headdie ryots, incest, rapes:
For know, that underneath this radiant floure,
Was Danaes statue in a brazen tower,
Jove, slylie stealing from his sisters bed,
To dallie with Idalian Ganimed:
And for his love Europa, bellowing loud,
And tumbling with the Rainbow in a cloud:
Blood-quaffing Mars, heaving the yron net,
Which limping Vulcan and his Cyclops set:
Love kindling fire, to burne such townes as Troy,
Sylvanus weeping for the lovely boy
That now is turn'd into a Cypres tree,
Under whose shade the Wood-gods love to bee.

Christopher Marlowe. Hero and Leander. 121-256

Não dormes sob os cyprestes

in

Love kindling fire, to burne such townes as Troy,
Sylvanus weeping for the lovely boy
That now is turn'd into a Cypres tree,
Under whose shade the Wood-gods love to bee.

esquece-te do século xx; ou: finis pontis

in

When on a summer's day the butterfly
settles on the flower and, wings
closed, sways with it in the
meadow-breeze. . . .


            All our heart's courage is the
                echoing response to the
                first call of Being which
                gathers our thinking into the
                play of the world.

            In thinking all things
                become solitary and slow.

            Patience nurtures magnanimity.

            He who thinks greatly must
                err greatly.


Martin Heidegger. Poetry, Language, Thought. Albert Hofstadter (trad). Perennial Classics: 2001

esquece-te do século xx

in

O interesse no universal ou no geral tende a criar uma espécie de cegueira no que toca ao particular e ao único. As regras políticas provenientes da experiência exprimem as lições que se tiram do que teve sucesso ou do que fracassou até ao momento actual. Por conseguinte, não são aplicáveis às novas situações. Por vezes, surgem novas situações em reacção às mesmas regras que a experiência anterior, que nunca fora refutada, pronunciava como universalmente válidas: o homem é imaginativo no bem e no mal.

Leo Strauss. Direito Natural e História (260). Miguel Morgado (trad). Edições 70: 2009

os teus cabelos de cinza Sulamith

in

A certa altura uma geração parece concentrar em si toda a flama do potencial humano, e consumi-la nas trevas frias da noite. É lícito afirmar: tinham paixão. Martin Heidegger, Leo Strauss, Walter Benjamin, Gershom Scholem, Hannah Arendt, Carl Schmitt, Hans-Georg Gadamer, Eric Voegelin, Alexandre Kojève, Karl Barth, só para vagamente enumerar os que me têm vindo a prender o futuro dos sonhos.

On another note, penso que vou deitar abaixo esta ponte.

Philosophia Analítica No Seu Pior

in

Tirado daqui.

Qualquer filosofia que reduza a fórmulas lógicas e deontológicas a relação antropológica com o divino é um monte de merda. Vão mazé pra casa ler Kierkegaard. É solipsismo ao pior nível. Afirmar que num qualquer momento de epiphania, quer real quer ilusório, iremos estar a calcular logicamente a nossa reacção é claramente a fantasia de quem nunca saiu de casa, nem nunca levou a sério o seu assunto a ponto de o pensar fora da abstracção da nossa folha quadriculada (e tua res agitur). Eu bem que tento não ser dogmático e ir-me espraiando para o lado analítico da nossa disciplina, mas assim tá difícil.

Cavafy

in



Esta photo faz-me lembrar imenso esta descrição do Cavafy.

"a greek gentleman in a straw hat, standing absolutely motionless at a slight angle to the universe" - EM Foster

in

LE jugement est un util à tous subjects, et se mesle par tout. A cette cause aux Essais que j'en fay icy, j'y employe toute sorte d'occasion. Si c'est un subject que je n'entende point, à cela mesme je l'essaye, sondant le gué de bien loing, et puis le trouvant trop profond pour ma taille, je me tiens à la rive. Et cette reconnoissance de ne pouvoir passer outre, c'est un traict de son effect, ouy de ceux, dont il se vante le plus. Tantost à un subject vain et de neant, j'essaye voir s'il trouvera dequoy luy donner corps, et dequoy l'appuyer et l'estançonner. Tantost je le promene à un subject noble et tracassé, auquel il n'a rien à trouver de soy, le chemin en estant si frayé, qu'il ne peut marcher que sur la piste d'autruy. Là il fait son jeu à eslire la route qui luy semble la meilleure : et de mille sentiers, il dit que cettuy-cy, ou celuy là, a esté le mieux choisi. Je prends de la fortune le premier argument : ils me sont egalement bons : et ne desseigne jamais de les traicter entiers. Car je ne voy le tout de rien : Ne font pas, ceux qui nous promettent de nous le faire veoir. De cent membres et visages, qu'à chasque chose j'en prens un, tantost à lecher seulement, tantost à effleurer : et par fois à pincer jusqu'à l'os. J'y donne une poincte, non pas le plus largement, mais le plus profondement que je sçay. Et aime plus souvent à les saisir par quelque lustre inusité. Je me hazarderoy de traitter à fons quelque matiere, si je me connoissoy moins, et me trompois en mon impuissance. Semant icy un mot, icy un autre, eschantillons dépris de leur piece, escartez, sans dessein, sans promesse : je ne suis pas tenu d'en faire bon, ny de m'y tenir moy-mesme, sans varier, quand il me plaist, et me rendre au doubte et incertitude, et à ma maistresse forme, qui est l'ignorance.

Montaigne. Essais Chapitre 50.

Arte Absoluta

in

A melhor arte é sempre igual. A coragem que é exigida ao kosmos é a coragem da repetição. O Sol tem de ousar nunca se cansar de sempre surgir no horizonte. As galáxias têm de ousar nunca se cansar de umas as outras orbitar. As leis da phýsica têm de ousar nunca variar. A Repetição a maior coragem. Somos platónicos: a nossa melhor arte é sempre igual, igual a si mesma, igual ao kosmos. O que é pois um hino, o que é a apotheose duma symphonia? É a inesgotável auto-fundamentação da eternidade em arte. Quando acaba um hino? Um hino, uma elegia, nunca acaba, não poderia jamais acabar, não pode pois terminar: soa sempre falso: soa sempre humano demasiado humano: quem ousa dizer que o destino da Nona não seria perpetuar-se em crescentes motivações, no volume altíssimo muito para além da audição humana? acercarmo-nos do fim, ouvirmos o estrondo final, é o orgasmo humano, mas tal não faz a Natureza: Que habita o seu culminar incansável. Assim é o Louvor Absoluto: pois que faz Píndaro encerrando uma ode? a carne é fraca, e a certa altura o humano tem de pousar a caneta, descansar os ouvidos (glória a quem o recusou: Musil, Hölderlin). Mas a verdade permanece: o encerrar que nunca encerra, a que em tempos os gregos chamaram ζωή.

human beings the eternally uncreated

in

reluctant to join any living comunity in service, to say nothing of taking the fate of a single living creature upon himself for this purpose, oh, he had always lived with the dead only, among whom he reckoned the living, he had considered human beings as lifeless building blocks with which to erect and create a death-fixed beauty, and therefore human beings as a whole had disappeared for him into the realm of the unaccomplished, into the oblivion of the eternally uncreated

Hermann Broch, The Death of Vergil. Jean Starr Untermeyer (trad). Vintage International: 1995

A graça da filosofia

in

"Men are constantly attracted and deluded by two opposite charms: the charm of competence which is engendered by mathematics and everything akin to mathematics, and the charm of humble awe, which is engendered by meditation on the human soul and its experiences. Philosophy is characterized by the gentle, if firm, refusal to succumb to either charm. It is the highest form of the mating of courage and moderation. In spite of its highness or nobility, it could appear as Sisyphean or ugly, when one contrasts its achievement with its goal. Yet it is necessarily accompanied, sustained and elevated by eros. It is graced by nature's grace."

Leo Strauss

Sobre a Sinagoga e a Igreja

in


O Cristão e o Hebreu são bastante diferentes do Heleno. O Hebreu passa por três fases na sua longa história. A primeira diz respeito ao tempo antes da revelação da Lei a Moisés. Antes de Deus se-lhe revelar, o Hebreu não tem templo, não tem lugar de culto. É apenas a partir do momento em que precisa de descobrir um espaço onde se possa preservar a memória da revelação histórica do Deus eterno é que ele passa a ter um templo, que equivale ao témenos grego: assim é o Tabernáculo, a morada ambulatória do senhor do deserto; e mesmo a sua conversão no Templo em Jerusalém não altera a sua natureza, é a fixação num espaço do cilindro de acesso do céu e da terra: a fixação da presença de Deus. Com a destruição do Templo inicia-se a terceira, e actual fase (pois nem o Estado de Israel ousará construir o Terceiro Templo): a era da sinagoga. Sinagoga é uma palavra grega que significa reunião, e não é um templo. Existiam sinagogas antes da destruição do templo, mas eram unicamente lugares de leitura da Torah e de reunião pública: com a diáspora e a impossibilidade de aceder ao templo, os ritos são transferidos para aquele que se torna o lugar de reunião da comunidade: mas o foco está na comunidade, não na presença imanente do divino. O problema põe-se do acesso à transcendência, visto que o modo de comunicar com Deus sancionado pela Torah, a saber rituais e sacrifícios no Templo em Jerusalém, se torna impossível: o espaço físico é desenraizado, e a resposta é dupla: o estudo da Torah, tarefa santa, e o cumprir da Lei e do ritual de todos os dias, que honra o Senhor e cuida do mundo.

É essencialmente a resposta cristã. A terceira pessoa da Trindade, o Spírito Sancto, oferece-se ao Cristão para que ele não necessite de lugar — assim sendo, o momento essencial da theologia cristã é o Pentecostes: (Mateus 18:20); ou ainda, a Eucaristia: quando o espaço físico é substituido por um espaço temporal: o momento da memória é simultaneamente o momento da presença do deus-vivo na reunião dos fiéis; ou ainda, a mýstica: a introspecção pessoal, sem lugar no mundo, sem área alguma ocupar nem profundidade espacial (não é de esquecer que, muito embora historicamente o Livro de Esplendor da Qaballa, o Zohar, só tenha sido escrito no século XII, a tradição tenta perseguir o seu segredo credivelmente apenas até ao momento da destruição do Templo: antes de então não havia necessidade de Mýstica). Tudo isto entendemos pelo nome do lugar de culto: igreja, do grego ekklesia, assembleia. Tal como a sinagoga hebraica, a ekklesia define-se não pelo seu espaço mas por quem lá se reune: e Deus não lá reside (a igreja não é um naos). Assim, quando em algumas igrejas vemos Mateus 21:13 citado (ou, mais comummente, apenas a primeira metade do versículo), notamos o esquecimento de que tal dito se referia ao Templo em Jerusalém: a Igreja não é a casa de Deus: a Igreja é a reunião dos seus fiéis, e o edifício pouco de sagrado tem.

Da Mesquita nada sei.

Sobre o Templo

in


Os Helenos chamavam aos seus lugares de culto genericamente três nomes: hieronnaos, e temenos. Desta última palavra encontramos um correspondente etimológico latino em templum, que obviamente origina a nossa palavra templo (a palavra igreja é derivada do grego também, mas da palavra ekklesia que significa assembleia). Hieron refere-se à santidade do lugar, pois significa simplesmente 'santo', no sentido de divino. Naos refere-se ao lugar central do templo onde era colocada a imagem do deus, e significa exactamente lugar onde o deus habita. Ora temenos é a etimologia mais curiosa, conquanto célebre: temno em grego significa cortar. O temenon, ou o templum, é o espaço pertencente ao mundo profano que é cortado do céu até à terra, que o sacerdote circunda numa área do mundo de modo a que essa área se erga como um cilindro até aos céus, e o seu espaço correspondente de terra e de horizonte é separado daquilo que a rodeia para passar a fazer parte da realidade celeste. (É por esta via que Heidegger faz a sua leitura n'A Origem da Obra de Arte, o templo enquanto obra de arte que estática se coloca no lugar central que liga o céu e a terra, os mortais e os imortais.) Assim sendo, a popular etimologia para a palavra religião, do latim re-ligo, voltar a ligar, é por uma luz encandescida: participar do templo é ligar-se ao domínio dos deuses, e é a possibilide de contacto; a necessidade de transcendência humana, assim como a do próprio deus, é mitigada, e há pouco espaço para misticismo, pois há pouca necessidade de introspecção e de acesso individual a esse deus, que existe na presença, pois o seu domínio passa a estar na terra: o seu templo permanece um espaço presente e mundano, conquanto cortado deste e portanto é uma casa que não se pode sentir em casa, como um daimon ou um herói cuja sombra passa "indistinta, em passo veloz" (Cavafy); mas a participação do deus é possível ao cultor (o Cristianismo que necessitará da mística vem longe). E por uma luz escura: a ironia da palavra obriga a que a ligação aos céus obrigue o templo, o deus, e o mortal que deles comungue a do mundo se separar: cortar-se, para não mais ser deste mundo: a ligação implica a separação, o golpe de sangue entre dois reinos: não é apenas o deus que não é mais deste mundo, mas também o seu fiel, que oscila entre céu e terra na ambiguidade da pertença: o contágio é o resultado, a sacralização da terra, a humanização do deus, desconfortáveis feridas.

a coisa mais triste do mundo

in

§1

Que vantagem é que tiramos de ouvir um homem dizer que se viu livre do jugo, que não acredita mais que haja um Deus que vele pelas suas acções, que se considera o único mestre da sua conduta, que não presta contas a ninguém a não ser a si mesmo? Será que pensa mesmo que faz com que a partir de agora vamos passar a ter confiança nele, e a pedir-lhe consolação, conselhos, e ajuda em todas as necessidades da vida? Será que pensa que nos alegrou ao dizer-nos que duvida que a nossa alma seja mais do que um pouco de vento e de fumo, e ainda por cima de no-lo dizer com um tom de voz fogoso e satisfeito? É isto então algo a dizer com alegria; e não pelo contrário algo a dizer tristemente, com a maior tristeza do mundo?

Pascal. Pensées. [194]. Tradução minha.

Quel avantage y a-t-il pour nous à ouïr dire à un homme qu'il a secoué le joug, qu'il ne croit pas qu'il y ait un Dieu qui veille sur ses actions, qu'il se considère comme seul maître de sa conduite, qu'il ne pense à en rendre compte qu'à soi-même? Pense-t-il nous avoir porté par là à en avoir désormais bien de la confiance en lui, et à en attendre des consolations, des conseils, et des secours dans tous les besoins de la vie? Pense-t-il nous avoir bien réjouis de nous dire qu'il doute si notre âme est autre chose qu'un peu de vent et de fumée, et encore de nous le dire d'un ton de voix fier et content? Est-ce donc une chose à dire gaiement; et n'est- ce pas une chose à dire au contraire tristement, comme la chose du monde la plus triste?


§2

«E que faz o santo na floresta?», perguntou Zaratustra.
O santo respondeu: «Faço canções e canto-as. E, quando faço canções, rio, choro e murmuro; portanto, louvo a Deus.
Ao cantar, chorar, rir e murmurar, louvo o Deus que é o meu Deus. Mas que nos trazes tu de presente?»
Quando Zaratustra ouviu estas palavras, despediu-se do santo e disse:
«Que teria eu para vos dar?! Mas deixai-me ir embora depressa, para que não vos tire nada!»
E assim se separaram um do outro, o velho e o homem feito, rindo, tal como riem dois garotos. Mas quando Zaratustra se encontrou só, falou assim no seu íntimo:
«Será, então, possível? Este velho santo ainda nada ouviu dizer, na sua floresta, de que Deus morreu!»

Nietzsche. Assim Falava Zaratustra. Paul Osório de Castro (trad). Relógio d'Água: 1998

»Und was macht der Heilige im Walde?« fragte Zarathustra.
Der Heilige antwortete: »Ich mache Lieder und singe sie, und wenn ich Lieder mache, lache, weine und brumme ich: also lobe ich Gott.
Mit Singen, Weinen, Lachen und Brummen lobe ich den Gott, der mein Gott ist. Doch was bringsts du uns zu Geschenke?«
Als Zarathustra diese Worte gehört hatte, grüßte er den Heiligen und sprach: »Was hätte ich euch zu geben! Aber laßt mich schnell davon, daß ich euch nichts nehme!« - Und so trennten sie sich voneinander, der Greis und der Mann, lachend, gleich wie zwei Knaben lachen.
Als Zarathustra aber allein war, sprach er also zu seinen Herzen: »Sollte es denn möglich sein! Dieser alte Heilige hat in seinem Walde noch nichts davon gehört, daß Gott tot ist!«


Bonus:


Où peut-on prendre ces sentiments? Quel sujet de joie trouve-t-on à n'attendre plus que des misères sans ressource? Quel sujet de vanité de se voir dans des obscurités impénétrables? Quelle consolation de n'attendre jamais de consolateur?


Qu'ils laissent donc ces impiétés à ceux qui sont assez mal nés pour en être véritablement capables: qu'ils soient au moins honnêtes gens, s'ils ne peuvent encore être Chrétiens: et qu'ils reconnaissent enfin qu'il n'y a que deux sortes de personnes ; ou ceux qui servent Dieu de tout leur cœur, parce qu'ils le connaissent; ou ceux qui le cherchent de tout leur cœur, parce qu'ils ne le connaissent pas encore. C'est donc pour les personnes qui cherchent Dieu sincèrement, et qui reconnaissant leur misère désirent véritablement d'en sortir, qu'il est juste de travailler, afin de leur aider à trouver la lumière qu'ils n'ont pas.

El filósofo quejoso

in

ROSAURA
No quise darte parte
en mis quejas, Clarín, por no quitarte,
llorando tu desvelo,
el derecho que tienes al consuelo.
Que tanto gusto había
en quejarse, un filósofo decía,
que, a trueco de quejarse,
habían las desdichas de buscarse.

Pedro Calderón de la Barca, La Vida es sueño. Editorial Espasa: 1997

quando, quando, Quando, meu Sonho e meu senhor

in

§1




Leos Janacek. Da Casa dos Mortos (Abertura).






§2


Screvo meu livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

Fernando PessoaMensagem. Assírio & Alvim: 2002






§3


,

Pieter de GrebberDavid em Meditação. 1635, @ Museum Catharijneconvent, Utrecht





§4

Ao mestre de canto. Com instrumentos de corda. Em oitava. Salmo de David.
Senhor, na vossa cólera não me repreendais,
      no vosso furor não me castigueis.
Tende piedade de mim, Senhor, porque desfaleco;
      curai-me, pois sinto abalados os meus ossos.
A minha alma está muito perturbada;
      vós, porém, Senhor, até quando?...
Voltai, Senhor, livrai a minha alma;
      salvai-me, pela vossa bondade.
Porque no seio da morte não há quem se lembre de vós;
      quem vos glorificará na habitação dos mortos?
Eu me esgoto de tanto gemer;
      todas as noites banho de pranto a minha cama,
      com lágrimas inundo o meu leito.
Turvam-se de amargura os meus olhos,
      esmorecem por causa dos que me oprimem.
Apartai-vos de mim, vós todos que praticais o mal,
      porque o Senhor atendeu às minhas lágrimas.
O Senhor escutou a minha oração,
      o Senhor acolheu a minha súplica.
Que todos os meus inimigos sejam envergonhados e aterrados;
      recuem imediatamente, cobertos de confusão!

Salmos. VI. Editorial Missões.

Fragmento de uma Ode ao Deus Terrível

in

Deus é a luz
e eu pensava
que morreria disso


Mário Rui de Oliveira. Bairro Judaico. Assírio & Alvim: 2003

João Barrento e Paulo Quintela

in

Ia dizer que o João Barrento é uma espécie de Paulo Quintela dos dias de hoje, mas o Paulo Quintela traduziu o Fausto? o Musil? ah pois, ah pois, se calhar o PQ é que era um João Barrento de antigamente.

ou isto já é fanboy demais?

in

que signaliza dizer Sancta Grécia?

Marginalia

in

Sometimes the notes are ferocious,
skirmishes against the author
raging along the borders of every page
in tiny black script.
If I could just get my hands on you,
Kierkegaard, or Conor Cruise O'Brien,
they seem to say,
I would bolt the door and beat some logic into your head.

Other comments are more offhand, dismissive -
"Nonsense." "Please!" "HA!!" -
that kind of thing.
I remember once looking up from my reading,
my thumb as a bookmark,
trying to imagine what the person must look like
why wrote "Don't be a ninny"
alongside a paragraph in The Life of Emily Dickinson.

Students are more modest
needing to leave only their splayed footprints
along the shore of the page.
One scrawls "Metaphor" next to a stanza of Eliot's.
Another notes the presence of "Irony"
fifty times outside the paragraphs of A Modest Proposal.

Or they are fans who cheer from the empty bleachers,
Hands cupped around their mouths.
"Absolutely," they shout
to Duns Scotus and James Baldwin.
"Yes." "Bull's-eye." My man!"
Check marks, asterisks, and exclamation points
rain down along the sidelines.

And if you have manage to graduate from college
without ever having written "Man vs. Nature"
in a margin, perhaps now
is the time to take one step forward.

We have all seized the white perimeter as our own
and reached for a pen if only to show
we did not just laze in an armchair turning pages;
we pressed a thought into the wayside,
planted an impression along the verge.

Even Irish monks in their cold scriptoria
jotted along the borders of the Gospels
brief asides about the pains of copying,
a bird signing near their window,
or the sunlight that illuminated their page-
anonymous men catching a ride into the future
on a vessel more lasting than themselves.

And you have not read Joshua Reynolds,
they say, until you have read him
enwreathed with Blake's furious scribbling.

Yet the one I think of most often,
the one that dangles from me like a locket,
was written in the copy of Catcher in the Rye
I borrowed from the local library
one slow, hot summer.
I was just beginning high school then,
reading books on a davenport in my parents' living room,
and I cannot tell you
how vastly my loneliness was deepened,
how poignant and amplified the world before me seemed,
when I found on one page

A few greasy looking smears
and next to them, written in soft pencil-
by a beautiful girl, I could tell,
whom I would never meet-
"Pardon the egg salad stains, but I'm in love."

- Billy Collins

Ragnarök - Ere the World Sinks

in


Much wisdom knows the Sybil
I see further ahead
To Ragnarök
And the fighting gods

Brother will fight brother
and slay him
cousins shall their bonds of kinship
Violate
Hard it is in the world, great whoredom

An axe-age a sword-age
shields shall be cloven
A wind-age a wolf-age

ere the world sinks


The Poetic Edda. Carolyne Larrington (trad, alterada por mim). Oxford World's Classics: 1996

Lembro também este vetusto post e este.

Alcestes de Eurípides

in

A Alceste de Eurípides é a peça mais estúpida que alguma vez li. É sobre Admeto, a quem os deuses permitirão evitar a morte se alguém morrer por ele. Ele tenta convencer os pais, eles recusam-se, mas a sua esposa Alcestes aceita. Admeto não se opõe, deixa que ela morra por ele, passa o resto da peça a chorar até que por fim Hércules trá-la do submundo e tudo fica bem. Sei lá, é justo de quem ama oferecer-se para morrer por quem ama, mas é igualmente justo de quem ama de volta recusar-se a que o outro morra. O que vem daqui apenas os fados o sabem,

Mas nesta peça, desde a soap-opera completa, ao anti-trágico que não consegue ser cómico, à completa previsibilidade e antecipação, ao melodrama, às personagens irremediavelmente tontas, é tudo parvoíce. A única coisa que se aproveita em toda a peça é a fala em que o pai do imbecil do Admeto, Feres, lhe atira as mimalhices à cara e o manda deixar de se comportar como um hipócrita. Assim sendo, vou citá-lo.


FERES
Ó filho, a quem te vanglorias tu de injuriar? A algum lídio ou frígio comprado a dinheiro? Não sabes que sou tessálio, filho de pai tessálio e um homem nascido livre? Exageras na insolência e agrides-me. Não será impunemente que me lanças essas palavras pueris. Gerei-te e criei-te para seres senhor desta casa, mas não é meu dever morrer por ti. Essa é lei que não faz parte da tradição da nossa família, que os pais têm de morrer pelos filhos. Isso não é próprio dos Helenos. Feliz ou desgraçado, a vida é tua. Aquilo que tinhas a receber de mim, já tu o conseguiste. São muitos os súbditos que te obedecem, grande a extensão de terras que te hei-de deixar, muitas jeiras, as mesmas que recebi do meu pai. Portanto, em que te prejudiquei? De que te privo? Não morras por este homem que eu sou, que eu também não morro por ti. Gostas de ver a luz do dia? Não te parece que o teu pai também gosta? A vida é curta, mas doce, enquanto o tempo lá em baixo é longo, imagino. Sem sombra de pudor, lutaste para não morrer e continuas vivo, soubeste escapar ao que estava designado pela fortuna, que a matou a ela. E falas da minha cobardia, tu que és um cobarde, vencido por uma mulher que morreu por ti, um belo jovem? Encontraste foi forma de nunca morrer, esperto, se convenceres sempre a mulher que tiveres a morrer por ti. E agora invectivas os teus amigos por não quererem fazê-lo, quando tu próprio és um cobarde? Cala-te! Nota que se amas a tua vida, todos amam as suas. Em troca dessas injúrias que proferes, hás-de ouvir muitas outras similares e verdadeiras.

Eurípides. Alceste, in Obras Completas I. INCM.

Notas sobre o Podre

in

Fere-me constantemente a frequência com que conversas ou linhas de raciocínio assumem perante a literatura alemã, em particular aquela de 1871 a 1939 do Segundo Reich à Segunda Grande Guerra, uma pose melodramática e exterior que se propõe tentar perceber os podres da Alemanha, ou na melhor das hipóteses de condescendentemente tentar compreender os erros da Alemanha, e de que modo uma civilização pôde cometer tamanhos males. Isto dizemos nós, escandalizados, enquanto olhamos de fora para dentro. Urge rememorar, porém, que se trata de algo muito maior, e que essa atitude de pudor ofendido é criminosa. Lembro o poema do Pessoa Eros e Psique "Conta a lenda que dormia / Uma Princesa encantada / A quem só despertaria / Um Infante, que viria / De além do muro da estrada. / [...] / E, inda tonto do que houvera, / À cabeça, em maresia, / Ergue a mão, e encontra hera, / E vê que ele mesmo era / A Princesa que dormia."

Passa-se exactamente o mesmo: não é por qualquer tendência europeísta que eu possa ter que deixa de ser verdade que não foi "A Alemanha" quem fez a Shoah: foi a Europa, ou o ideal cultural a que a Europa almejou sempre, e compreender isso implica aceitar o fardo da culpa (haverá fardo maior? compreenderei o que estou a pedir? ouso um Não silencioso) sem uma tirada melodramática de berros e e culpa auto-atribuída: aliás, a única resposta é não responder (o silêncio: Theresienstadt), saber que ao tentar perceber estou a fazer auto-análise, estou a procurar os meus próprios podres. 

Pois a Alemanha é um macrocosmos da alma de cada pessoa para quem a cultura é considerada um bem maior. É olhar para as nossas maiores esperanças e ver já um dos resultados possíveis: como quem olha para um familiar e não para um estrangeiro. Cabe-nos isso, cabe-nos aceitar ser Allemani, e não practicar essa cisão condescendente para com a história com que temos de lidar quando quer que tocamos no que nos está no coração, tudo o que de nosso é religioso e científico, filosófico e cultural. As grandes obras alemãs não podem ser lidas como fábulas moralizantes enaltecidas, "não faças assim", ao contrário do que frequentemente ouço (e mesmo saindo da literatura, o recente filme Das weiße Band, é um perfeito exemplo do mesmo crime).


Por muito fácil que seja explaining away a Montanha Mágica como uma alegoria Alemanha —que é—, onde muitas opções de futuro se propõem em casamento ao jovem Castorp-Alemanha, aqueles sedutores futuros não se lançam apenas ao jovem alemão, mas sim a qualquer povo que se proponha a si mesmo aquilo que Hans recebe: um mundo à beira de desabar, a paz senescente dum iluminado futuro por-vir; ou a violência do terror, a bondade do mal, a crueldade que conquista o humano. Ou ler o delírio da subjugação da volição artística ao poder estatal, secular e seguro, providencial, da Morte de Vergílio de Hermann Broch principalmente por tal ser tal como aconteceu na Alemanha nazi quão desviado é isto, que possibilidades de crescimento civilizacional isso não recusa? Para perceber basta pensar em Nietzsche como pensar em Nietzsche como um alemão??

Mas tudo isto não aconteceu, então?, as histórias são falsas, e a Alemanha (seja ela o que for), não lhes é central? Claro que é; tal como os seus autores o fizeram. Mas nós estamos mais longe, e sabemos que longe de ser uma "peste germânica", aquilo que a Alemanha sonhara para si mesma não foram os sonhos, ou não foram só, dum povo corrompido pelos «pecados dos pais»; antes pelo contrário, foram talvez os mais grandiosos sonhos de toda a Europa, nossos incluídos. Urge ler-nos a nós mesmos e não "àquele povo germânico, estranho". Teríamos sido a Alemanha se tivéssemos ousado. Como então lidar então com a percepção de que o nosso ideal de ousadia seria talmente podre, como o substituir, como sobreviver ao degenerar absurdo do sonho em psicose?


(Sobre este tema, na minha lista de leitura, que cresce como a peste. Do mesmo autor que a genial secção alemã deste livro.)

Elogio do Φaraó

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Uma das figuras mais fascinantes e que mais me pessoalmente seduzem da narrativa bíblica é o Pharaóh egípcio. Quem é ele, o que o motiva? Em vários outros pontos —o incrédulo Tomé, ou a segunda das Grandes Tentações, em que é proposto ao Christo que se lance do pináculo do Templo para que, demonstrando o poder do Milagre, instantaneamente traga os povos para junto de si— em vários outros pontos parece que a única coisa que realmente falta para trazer a vitória final de Israel, quase que a única coisa que seria necessária para trazer à terra a "Jerusalém celeste" seria que Deus se manifestasse abertamente, que logo todos os povos da terra acorreriam à vera crença.

Ora que faz o Pharaóh? Essencialmente o oposto. O Pharaóh é uma espécie de paragono da anti-fé: que diriam vocês se, à ordem de alguém, o rio se ensanguescece, caísse fogo do céu, e o vosso corpo apodrecesse de peste? Posso facilmente afirmar que a grande maioria se não mesmo a totalidade de nós não tardaria a reconhecer a superioridade da divindade revelada: se os milagres são filosoficamente impossíveis, nada melhor que testemunhar um para comprovar a verdade de quem pode fazer o impossível. 

Mas não o Pharaóh, e eu amo-o por isso: é impossível saber, mas não é improvável que a última pessoa a recusar a partida dos Hebreus tenha sido ele mesmo, que já a restante totalidade do povo egípcio crêsse no poder do Senhor manifesto nas nove anteriores pragas. Ele possui o tipo de fé que apenas o mais poderoso crente pode ter: é o perfeito crente religioso, o perfeito ateu. A vera fé não se esvai com meras contingências como factos comprováveis, o verdadeiro crente não se convence do oposto daquilo que acredita unicamente porque a realidade o contradiz completamente (cf o comentário de Ulrich no Homem Sem Qualidades, «"Que farias, para dar sentido ao mundo?" "Abolir a realidade."»).

Assim como o verdadeiro religioso não se convence do oposto da sua fé com uma tabela científica (as «provas da existência de Deus» são, e as sábias, como a de Santo Anselmo, assumem sê-lo, preaching to the converted), assim também o verdadeiro ateísta não se convence do oposto da sua fé (porque sim, o ateísmo é, epistomológica ou cientìficamente falando, uma fé; a única posição 'lógica' dum ponto de vista estritamente racional é um aborrecido agnosticismo) unicamente porque o Senhor se lhe revela.

Que tipo de força pessoal, que convicção profunda não terá sido necessária para isto, para conceder uma base na qual assentar o poder desta vontade que cria mundos e os destrói? Porque ela Nunca quebra. A décima praga, a morte dos primogénitos. Não. Há um golpe humano, demasiado humano. Eu não creio no Deus dos hebreus, mas meu filho jaz perante meus ungidos braços caído: Partam! abandonem-me à minha dor. Mas não há uma convicção, não há um reconhecimento do poder de Deus: mesmo que a décima primeira praga fosse o engolir na terra de toda a Mênfis, não consentiria o Pharaóh se não fosse tocado pessoalmente: é o facto de lhe morrer o filho que o faz mexer. Deus, Moisés fazem jogo sujo: não conseguem nem conseguirão abalar a fé do pharaóh, portanto remendam o problema desviando-se de lhe mudar a fé e concentrando-se em atingi-lo enquanto um ser humano que também ele ama. 

Mas isso não é quebrá-lo. A fé frágil (a única passível de alguma vez ser quebrada) não sobrevive ao mais pequeno golpe, como um fasce cortado: lembremo-nos de Kierkegaard: se alguma vez creste para ti mesmo que algo está perdido, para ti tudo está para sempre perdido. Não é a fé do Pharaóh que quebra, tanto que o luto faz-se, como todo o luto em tempos de guerra, celeremente: não tardará a recompor-se, e a mandar as suas quadrigas trucidar aqueles escravos fugitivos; e aqui abandonamo-lo, porque sempre será a nossa fé frágil.

O pharaóh é o representante último daquilo que a Weil chama o ateísmo purificador, o ateísmo que purgou a sua crença em Deus por completo até chegar ao ponto de purgar o próprio Deus da sua crença. A convicção absoluta que a fé exige ao humano pode apenas nascer da esfera do transcendental, mesmo que seja um transcendental vazio: o ateísmo que se leve a sério é necessariamente religioso. A diferença é que o ateísmo, depois do confronto com o Christo nado-morto, recusa-se ainda assim a dar-se às contingências do real e a prescindir da sua fé, até chegar mesmo ao ponto de retirar a força para combater as Nove Pragas ao acreditar no vazio do nada, no desaparecimento de Deus,



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Nur wer der Minne
Macht versagt,
nur wer der Liebe
Lust verjagt,
nur der erzielt sich den Zauber,
zum Reif zu zwingen das Gold.

Wagner

love. love. Love. κ Eros [a]nikatos.

in

Love your body; only with it may you fight on this earth and turn matter into spirit.
Love matter. God clings to it tooth and nail, and fights. Fight with him.

Αγάπα το σώμα σου· μονάχα με αυτο στη γης ετούτη μπορείς να παλέψεις και να πνεματώσεις την ύλη.
Αγάπα την ύλη· απάνω της πιάνεται ο Θεός και πολεμάει. Πολέμα μαζί του.

Nikos KazantzakisSalvatores Dei, Kimon Friar (trad).

Pensar Metaphýsica

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"Portanto, para esta cadeira é suposto que, para perceberem [este] livro do Heidegger, 'Kant e o Problema da Metafísica', releiam a primeira metade da Crítica da Razão Pura do Kant, releiam também [estas] secções do Ser e Tempo, assim como os 4 livros da Metaphýsica de Aristóteles que vos vou indicar." - A.S.

Philosophia ora me mete medo, ora me faz feliz, ora me faz feliz mesmo enquanto se me surge vastamente mais do que eu alguma vez poderia pensar, um tipo de pensamento que é tão cliché considerar abstracto que não posso se não por vezes temer o contágio desse preconceito, até porém ao momento em que me apercebo da sua importância última, do quão fundamental ele é, e do quão reclama o meu fascínio ingénuo, mesmo enquanto compreendo que possivelmente nunca o captarei sequer no mínimo sábio. A última vez que me aventurei nestas profundidades da ontologia foi numa altura da minha vida em que a minha cabeça estava de tal modo metida água, emocionalmente e não só, que levar a sério metaphýsica tão árida, ou ária pelo menos para alguém que em tudo isto se principiava, era uma questão impossível. Entretanto cresci, e parecendo que não passaram três anos desde então, quando começava a estudar Philosophia ao mesmo tempo que fazia o meu curso de Clássicas. Se penso que é muito? Pelo contrário, sei que é nada. Mas mesmo estando perdido ao menos penso que posso, pela primeira vez, por uns instantes parar - e olhar: Agora volto às paisagens escondidas. Sic sic juvat ire sub umbras: talvez seja a hora — vão-se lixar, que se para alguma coisa serve a universidade é pra isto.

Convergência lexical

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Acabei de me aperceber de que uso as palavras saudável, espiritual, e humano todas com um significado essencialmente idêntico.

João Barrento Sem Qualidades

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João Barrento a falar sobre o Homem Sem Qualidades de Robert Musil.

Sexta-feira, 25 de Fevereiro. Na sala 12 às 11.30 da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Eu estou tão lá.

As Rosas amo dos jardins de Adónis

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Em honra do Jardim de Adónis.



As Rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

Ricardo Reis. Poesia. Assírio & Alvim: 2000.

Was ist das? Was? Tot.

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— Die Frau heute, was hat sie gehabt?
— Welche Frau? Ach so! Die war tot.
— Was ist das?
— Was?
— Tot.
— Was tot ist? Ach Gott! Was ist das für eine Frage! Das ist, wenn jemand nicht mehr lebt. Wenn er aufgehört hat, zu leben.
 Und wann hört jemand auf, zu leben?
 Wenn er ganz alt ist oder sehr krank.
— Und die Frau?
— Die hat einen Unfall gehabt.
— Einen Unfall?
— Ja, das ist wenn du dich sehr, sehr Weh tust.
— So wie Papa!
— Ja, aber viel schwerer. Zu schwer, dass das Körper nicht aushält.
 Und dann ist man tot?
— Ja, aber die meisten Leute haben keinen Unfall.
— Sie sind nicht tot.
— Nein, sie sterben viel später.
— Wann?
— Eben später, wenn sie ganz, ganz alt sind.
— Müssen alle sterben?
— Ja.
— Wirklich alle?
— Ja, alle Menschen müssen sterben.
 Aber du doch nicht, Annie!
— Ich auch, alle.
 Aber der Papa doch nicht!
 Auch der Papa.
 Und ich auch?
 Du auch, aber erst in langer Zeit. Wir alle erst in langer Zeit.
 Und man kann gar nichts dagegen tun? Es muss kommen?
 Ja, aber jetzt noch lange nicht.
 Und die Mama, die ist gar nicht verreist. Ist die auch tot?
 Ja, ist auch tot. Aber das ist schon lange her.


Michael HanekeDas weiße Band (2009)