5.16.2013

Sobre o Humanismo

A propósito deste poema, por vezes vezes olhamos durante muito tempo para alguma coisa brilhante e deixamos de a conseguir ver nitidamente, mas não sabemos se isso é por ela nos ter finalmente cegado ou por termos finalmente aprendido a ver o lado escuro da luz. Ambas, de facto: «Édipo cego vê mais longe.»

5.10.2013

Little Genesis

A literatura não salvará o mundo, nunca salvou nem aparenta que se imagine numa direcção que sequer tome consciência dessa possível tarefa (pace as anelações da crítica). Nem sequer a filosofia salvará o mundo, por grandes que as suas promessas e esperanças. Só Deus salvará o mundo, problema daí sendo porque Deus não há. Se Deus não hábet, nada é permitido, nem sequer salvar o mundo. Deus foi a liberdade, foi os caminhos. Sem ele isso tudo se faz pó de vidro. Aut inveniam Deum aut faciam. Que Deus também era Amor, e Deus deu-nos esse Amor, e nós ainda o temos. Perdemos o Criador mas temos ainda a Criação. Deus faz-se. Já não o procuramos para o encontrarmos mas para o criarmos. Deus é Amor, Amor é Deus, isso já Platão sabia. Mas o que Platão não sabia era que os deuses também podiam morrer (isso só o Psicopompo soube), e que por isso quando amamos e criamos é preciso amar outra vez para voltarmos a criar. Revela-se-nos o Amor como infinitas criações, infinitos & profanos Géneseis. É a gratidão da criatura que cria o criador (Vorspiel auf dem Theater). É isto que a Orthodoxia Grega percebeu melhor que todos: percebeu que a maior das lôdas é à Theotókos, é à Mãe de Deus: que é aí que está a salvação. Porque Maria dá luz a um Deus que não estava lá antes. Dar à luz Deus é necessário, caso contrário Deus continuará a não existir, e continuará para sempre a não existir. É isto que compreendemos pela mýstika do Eckhart, o do «Pai permanentemente a dar à luz o Filho, e o Filho eternamente a nascer do pai». A Imitatio Christi, Imitatio Dei corrigiria eu, é dar à luz Deus onde Ele antes não havia — a saber, por todo o lado, porque Deus não existe em lado nenhum. Talvez isto seja, como dizia o Nietzsche, por Ele ter morrido, mas eu estou cá por mim que a anthropologia tem mais de verdade: foi a Humanidade que pela primeira vez inventou os Deuses, e que se nossos ancestrais pais e mães não os tivessem inventado, jamais teria havido Palavra fosse de que género fosse: abençoados eles! Mas o Amor é doloroso: Deus sofreu, e nós sofremos também. Sofremos por amarmos, que as dores d'Amor são em nós simultaneamente a Paixão da Cruz do Christo e as dores de parto de Maria. Umas e as mesmas, e valem a pena porque recriam a Criação a cada instante, permitem que novos mundos nasçam, e porque o nosso Amor libertam. Palavra da salvação.

5.09.2013

Ao tanto com o esforço meu, em esquecer Diadorim, digo que me dava entrante uma tristeza no geral, um prazo de cansado. Mas eu não meditava para trás, não esbarrava. Aquilo era a tristonha travessia, pois então era preciso. Água de rio que arrasta. Dias que durasse, durasse; até meses. Agora, eu não me importava. Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? — desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor — quanta saudade... —; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha, que tiro por tino.

João Guimarães Rosa. Grande Serão: Veredas. Nova Fronteira (2001).

5.04.2013

Poema de Amor II

«tem muito de dantesco» com
e sem inferno. limpa
a voz:
«tem muito de comédia»
enquanto como,
para evitar mýthicos erros e
permanências indesejadas,
deus. acreditas que todas as noites
adormeço com um nome nos lábios
e não é uma prece? a beatitude é muito
menos subtil que uma rocha.