7.21.2013

Injustiça & impossibilidade do christianismo; (ou: Orígenes)

A injunção christã de não escandalizar as crianças pode apenas ser entendida como aquilo que em linguística chamamos um complemento qualificativo. Escandalizemos todos, menos as crianças. Porque a mensagem christã, longe de ser um evangelho, uma boa nova, é antes de mais talvez o maior escândalo alguma vez cometido contra a humanidade. Ao contrário da filosofia antiga, que evitada escândalos (o texto mais escandaloso que dela nos chegou, a República, dá-se a muito trabalho para qualificar as suas afirmações). Os grandes filões da contemporânea ou  fazem a delação da realidade comote injusta porque sectária, partidária, violenta, hierárquica (Nietzsche); ou na apotheose de ideias duma justiça secularizada triunfante ou triunfatura sobre os injustos— pois como dizia um dos melhores professores que já tive, «falar da superação dialéctica da burguesia é um grande eufemismo».

Mas o Christianismo é a religião da injustiça universal. A parábola da ovelha perdida, do filho pródigo, são o eixo. Lembro-me de quando em criança a discutia não a conseguia compreender, não a aceitava, e lembro-me de a catequista fazer o ar enfadado de quem não está para aturar um puto que insiste em não perceber a coisa mais óbvia. Se alguma vindita posso daí tirar é que eu tinha razão, a lógica é algo que é naturalmente, profundamente justa: operações onde as proporções são sempre asseguradas, onde as leis são salvaguardadas, e onde é apenas possível o desvio dessas mesmas leis para evitar o erro do literalismo, e finalmente para assegurar a operação das mesmas leis que são apenas ostensivamente violadas.

Mas o Christianismo joga para fora. Não há inferno. Não há condenação. O pecado é um dano mais ao pecador do que a Deus, da mesma forma que eu me leso muito mais a mim do que ao capitalismo se queimar as notas que tenho. O amor, sabiam-no já os gregos, é a força mais injusta do mundo. E o Christianismo é a religião não da Justiça mas do Amor. Os dois opõem-se: não posso ser justo para com quem amo porque o amo, o problema é que a falta de justiça pode dar origem quer a desvantagens quer a vantagens. Como humanos que somos não podemos amar todos, aqui Freud percebeu bem o problema de S. Francisco. Querer amar todos é falso, o amor alimenta-se do ódio: quantos mais amamos mais odiamos, porque a balança tende a equilibrar-se: é o problema dos nacionalismos. Mas Deus é infinito, é summo amor: Deus pode a todos amar sem ter que o contrabalançar com ódio. Deus é profundamente injusto para com todos: é injusto porque a todos assegura a salvação quando ninguém fez o suficiente para a merecer (isto percebeu Luthero), e é ainda mais injusto porque assegura a salvação a quem fez tudo para não a merecer (isto percebeu Orígenes): a injustiça e o amor é a verdadeira dicotomia.

A beleza também é injusta. A herança clássica greco-latina de ad verum, justum, rectum, pulchritudinem fez uma passagem nefasta pela theologia cristã. A apropriação dos termos não era apropriada. O que o Christianismo nos tenta ensinar há séculos é a beleza, verdade, e rectitude da injustiça. Porque não o consegue? Porque somos humanos, e essa injustiça, ao ser praticada por humanos, levará inevitavelmente à destruição, à nossa sectarização e aniquilação mútua. Por isso é que o christianismo é impossível, por isso é que Christo pregou o Reino e veio a Igreja — tinha que ser. Por isso é que o Grande Inquisidor do big D tinha toda razão. Mas não deixa de ser a maior promessa que alguém alguma vez nos fez — mas cuidai que não entendais isso como um fechar em comédia: o facto de isso ter sido a maior promessa que alguém nos fez talvez não deva ter outro efeito do que fazer-nos suspeitar das promessas.

Intuições greco-christãs

A cruz é um trívio. Há muito que suspeitava da identidade profunda dos meu pantheon pessoal de Hermes, de Diana, e do Christo, mas nunca pensei que a chave fosse tão literal, mas é-o — a cruz T (tau), à qual os condenados eram pregados. E é tudo tão sinnvoll que só posso estranhar nunca o ter encontrado noutro sítio antes. É transparente: Hermes é o deus do Trívio, a quem as Hermas, amontoados de pedras que nas estradas bifurcadas iam sendo acumuladas por pios caminhantes. Também Diana, a Juno Lucina, é chamada a Trívia. Estas são as duas figuras principais da mythologia grega: ambas dão origem, são os irmãos mais importantes e as duas respostas possíveis ao deus padroeiro da Héllas, Apollo: Hermes é a favila de que Apollo é a luz brilhante, Diana é a Lua de que Apollo é o Sol. Em Christo temos também o Terceiro, Diónysos, o crucificado. Assim fazemos a triangulação da Grécia em torno cortante lógos. Christo é também Hércules, algo que os primeiros christãos bem perceberam, é o filho de Dios, também ele o que teve que encontrar um trívio. Os dois braços da cruz são também os dois caminhos em que o trívio se bifurca. A oferenda que Christo trouxe ao mundo jaz aqui: Christo estende os dois braços para os dois assaltantes, Hércules sabe que só pode escolher um dos caminhos. O que o Christo não podia saber era que no fim apenas um deles iria optar pelo arrependimento. Amou demasiado, e de certa forma podemos dizer que Orígenes é o primeiro dos modernos porque é um regresso a Homero. São 3 em 3 em 3. É a triangulação Hermes-Diana-Christo, e pelo menos o Christo contem ele próprio uma outra triangulação Christo-Diónysos-Hércules. Ao centro, gerado não criado, existente enquanto relação (que é o mesmo que dizer: existente enquanto lógos), está o triângulo de Apollo, Zeus, e do Spírito Sancto (Matthæus 18:20). Tudo isto está contido na cruz, na cruz de Diónysos às mãos dos titãns, na lyra de Apollo-Hermes, mas mais fundamentalmente que em qualquer outro sítio na via crucis, literalmente o caminho da cruz, que nada mais é que o trívio que acolhe a seus pés a herma dos hellenos.


se queremos conseguir a união trina e a triangulação no caminho precisamos de atheísmo: apenas ele nos devolve a trigonometria e nos permite começar pela relação em vez de pelo ponto. por isso é que a mýstica só pode ser atheia. a fé dá o princípio. o atheísmo recusa o princípio, escolhe a relação, escolhe o lógos antes da archê (ou, que é dizer o mesmo, escolhe pelo menos um lógos que seja archê, jamais um lógos que esteja na archê): é um fazer-se à estrada sem ter por onde partir, sub o signo hermético dum mundo sem eisagogai. para se chegar a Zeus, a Apollo, para se invocar o santo spirito depois de christo ter sido morto e crucificado é necessário que reunamos primeiro os pontos de contacto, como nos diz o versículo acima citado (embora eu discorde da implicação lá expressa de que bastariam dois: não bastam, aliás, a sugestão é quase pornográfica e um exemplo típico da levitas græcanica, algo que o Tolentino Mendonça bem entendeu no livro da amizade): estabelecermos na nossa mente, dar luz a Hermes, a Diana, e ao Christo é, de certa forma, um ritual invocatório, só que theológico-racional em vez de cúltico — οὐκέτι. a mýstica parte do humano, não do divino. é uma graça concedida nach der Tat nicht zuvor, ou, melhor dizendo, o facto de isto ser assim é prova viva da verdade do atheísmo, visto que o facto de ser o carácter invocatório do pantheão trino a trazer à existência uma trindade que se define enquanto relação através do estabelecimento dessa mesma relação é algo que assume perturbadoramente os contornos duma, como rhetoricamente diríamos, invenção do próprio deus: fazer deus onde ele antes não estava é uma posição perfeitamente atheia, e poderia até mesmo ser cabalística (se bem que duma forma bastante herética, claro) se quiséssemos entender aqui a invocação trina como um shema, mas neste caso um shema, Elohim que é chamar à presença, theourgia theopoiesis theophania.

7.19.2013

Álkman

εὕδουσι δ' ὀρέων κορυφαί τε καὶ φάραγγες...
Álkman

jaz a garça dasas longas
no parapeito dos teus bra
ços. jaz a virtude nova,
e as calçadas que dormem
nos adros da igreja. mas
deuses pequenos velozes
jazem também? sim, deitados
alados massajados pe
las preces que derramamos
antes de comer e dir dor
mir.