6.29.2012

Lichtsohn du, leicht gefügter!

Nietzsche pretendia fazer de nós deuses, e conseguiu-o. Mas alemão como era, sabia para onde nos enviava, não para o Olympo mas para o Ragnarök — Zarathustra als Heimdall.

6.27.2012

Blasphema! Blasphema!

Nota Introductória: Heróstrato foi um grego de Épheso que, para atingir adquirir imortalidade para o seu nome, incendiou o famoso Templo de Diana. Apesar de os cidadãos ficarem proibidos de jamais o voltarem a mencionar, o seu feito e o seu nome ficaram para a história.


There are only two types of constant mood with which life is worth living — with the noble joy of a religion, or with the noble sorrow of having lost one. The rest is vegetation, and only a psychological botany can take interest in such diluted mankind (so general a fungus).

§

Yet it is admissible to think that there is one sort of greatness in Erostratus — a greatness which he does not share with lesser crashers into fame. He, a Greek, may be conceived as having that delicate perception and calm delirium of beauty which distinguishes still the memory of his giant clan. He may therefore be conceived as burning Diana’s temple in an ecstasy of sorrow, part of him being burnt in the fury of his wrong endeavour. We may fitly conceive him as having overcome the toils of a remorse of the future, and facing a horror within himself for the stalwartness of fame. His act may be compared, in a way, to that terrible element of the initiation of the Templars, who, being first proven absolute believers in Christ — both as Christians, and in the general tradition of the Church, and as occult Gnostics and therefore in the great particular tradition of Christianity, had to spit upon the Crucifix in their initiation. The act may seem no more than humanly revolting from a modern standpoint, for we are not believers, and, when, since the romantics, we defy God and hell, defy things which for us are dead and thus send challenges to corpses. But no human courage, in any field or sea where men are brave with mere daring, can compare with the horror of that initiation. The God they spat upon was the holy substance of Redemption. They looked into hell when their mouths watered with the necessary blasphemy. Thus we may conceive Erostratus, save that the stress of the love of beauty is a lesser thing than the conviction of a sentimental truth. Thus let us conceive him, that we may justify the remembrance.

For if Erostratus did this, he comes at once into the company of all men who have become great by the power of their individuality. He makes that sacrifice of feeling, of passion, of [_] which distinguishes the path to immortality. He suffers, that his name may enjoy, like Christ who dies as the man, that he may prove himself the Word.

Pessoa. Erostratus in Heróstrato e a Busca da Imortalidade. Assírio & Alvim (2000)

6.26.2012

Tempro la cetra



Tempro la cetra, e per cantar gli onori
Di Marte alzo talor lo stil e i carmi.
Ma invan la tento e impossibil parmi
Ch'ella già mai risoni altro ch'amore.

Così pur tra l'arene e pur tra' fiori
Note amorose Amor torna a dettarmi,
Né vuol ch'io prend' ancora a cantar d'armi,
Se non di quelle, ond'egli impiaga i cori.

Or umil plettro a i rozzi accenti indegni,
Musa, qual dianzi, accorda, in fin ch'al canto
De la tromba sublime il Ciel ti degni.

Riedi a i teneri scherzi, e dolce intanto
Lo Dio guerrier, temprando i feri sdegni,
In grembo a Citerea dorma al tuo canto.

Monteverdi. Librettista Giambattista Marino.

6.25.2012

para além das colunas de Hércules


Depois de quinze dias de combate, a batalha de Muquedém (Fevereiro-Março de 1905) dá a vantagem aos Japoneses. Os Russos são obrigados a abandonar a Manchúria meridional. Resta uma derradeira esperança aos Russos: voltar a conseguir a supremacia naval para cortar as linhas japonesas de abastecimento. A frota do Báltico, comandada pelo almirante Rojestvesnky, recebe, em Outubro, ordens para navegar para o Extremo-Oriente. Tarefa homérica! Quando passavam pelo Dogger Bank, na noite de 21 para 22 de Outubro, um comandante de torpedeiro que tinha bebido vodka a mais, julgou ver navios de guerra japoneses e assinalou a posição deles ao almirante. A frota russa abre fogo... Sobre inofensivos barcos de pesca britânicos. Imagine-se a estupefacção do governo de Sua Majestade. Quando a frota russa atraca em Vigo, em Espanha, os britânicos querem detê-la e foi preciso uma intervenção vigorosa do governo francês para que aceitassem deixá-la continuar viagem. Mas o almirante russo teme novas dificuldades na passagem pelo Suez; não há problema, contorna-se a África! É portanto depois de um périplo de sete meses que a frota do Báltico chega, em maio, a águas japonesas. Com falta de carvão, Rojdestvesnky decide ir a Vladivostock, passando pelo Estreido da Coreia. É lá que o espera a frota do almirante Togo. A 27 de Maio, dá-se a batalha, perto das ilhas Tsu-Shima: a frota russa, esgotada devido à longa viagem e equipada com um armamento menos moderno, é completamente esmagada.

Pierre Milza. As Relações Internacionais de 1871 a 1914, Rosa Carreira (trad). Edições 70, (2007).

6.24.2012

Ora, Lege, Lege, Lege, Relege, Labora nec Invenies

O cordeiro desapareceu e com ele as rosas. Probus continuava ajoelhado, de mãos postas, diante do banco com as cabeças de Pã; as lágrimas escorriam-lhe pelas faces. Aquela voz, aquelas palavras haviam-nos mergulhado na mais profunda emoção. Aspirou, sôfrego, o ar, em busca de um resto do perfume das rosas; durante momentos pareceu-lhe sentir vestígios da onda perfumada, logo absorvidos pelo cheiro do loureiro.

— O que me aconteceu? Tive uma visão —  a primeira na minha vida, porque o meu temperamento não se inclina a misticismos. Faltónia costuma dizer que sou muito terra-a-terra; é certo ser dotada de muito mais espiritualidade do que eu; estuda com todo o fervor Orígenes, embora as suas teorias tenham sido condenadas. Todavia, nunca lhe aconteceu algo semelhante, a ela.

Thomas Mann. O Eleito. Maria Osswald (trad). Vega (2010).

6.21.2012

Tant est subtil.

A Etienne du temple

Tant est subtil, et de grande efficace
Le tien esprit, qu'il n'est homme qui fasse
Chose qui plus honneur et los conserve.
Et ce qu'as fait, roi, seigneur, serf ne serve
Ne le fit onc: je mets Raison en face.

Qui veut descendre en la vallée basse,
Monté doit être avant en haute place:
Mais ton esprit tout le contraire observe,
Tant est subtil.

Descendu es des Temples, quant à race:
Et puis monté au temple, quant à grâce,
Je dis au temple excellent de Minerve.
Bref, ton descendre est d'antique réserve,
Et ton monter le ciel cristallin passe,
Tant est subtil.

Clément MarotAqui.

6.20.2012

Angelo Poliziano

alguém lhe escreveu
no seu túmulo aqui
jaz alguém que foi mestre
a escrever nas três divinas
línguas da Europa
e que quis resurgir a Athenas de Péricles
na Florenza do seu Magnífico Mas
foi realmente por ele que eu vim?
o cinzel agrava
a morte, se o Policiano
soubesse isso não se teria apaixonado
nem eu como ele
pelo mesmo jovem
que não nos ama que olha
alheio de nós
para Platão para Plotino
para aqueles nomes que nos fazem a nós
amá-lo a ele
a sua saliva de prata
a sua memória de deus
que não se lembrará de nós
e em suma sei o que é
meu amigo meu rival
ter amado e amar para além da morte
não o seu rosto ou os longos cabelos
não o seu nome belo de murmurar de manhã
mas aquela tradição de fantasia
ali está Pico está nu e sussura
e esqueceu-se de nós cobriu-se
de sabedoria enterrou-se
nas sombras e antes do tempo
mandaste-lhe cartas
daquelas que trazem
a morte a quem as envia
e nelas punhas os poemas
que ele escreveu aqueles poemas
que tu lias
todos os dias
em vulgar e em latim
discutias com ele
com as teses dele
absurdas
e quando morreste
foste enterrado aos pés dele
e como em vida
deixaste que os seus cabelos compridos te tapassem
o rosto e a luz do sol

sinto que o meu coração murmura e me trava a pena

A l'égard du droit de faire grâce ou d'exempter un coupable d'une peine portée par la loi et prononcée par le juge, il n'appartient qu'à celui qui est au-dessus du juge et de la loi, c'est-à-dire au souverain; encore son droit en ceci n'est-il pas bien net, et les cas d'en user sont-ils très rares. Dans un État bien gouverné, il y a peu de punitions, non parce qu'on fait beaucoup de grâces, mais parce qu'il y a peu de criminels; la multitude des crimes en assure l'impunité lorsque l'État dépérit. Sous la république romaine, jamais le sénat ni les consuls ne tentèrent de faire grâce; le peuple même n'en faisait pas, quoiqu'il révoquât quelquefois son propre jugement. Les fréquentes grâces annoncent que bientôt les forfaits n'en auront plus besoin, et chacun voit où cela mène. Mais je sens que mon cœur murmure et retient ma plume; laissons discuter ces questions à l'homme juste qui n'a point failli, et qui jamais n'eût lui-même besoin de grâce.

Rousseau. Du contrat social, II.5. Flammarion (2001).

6.19.2012

Bach, a Rússia, e a excomunhão de Kazantzakis

É precisamente isto que eu te dizia, e é inquietante apanhá-lo escrito agora, sobre Bach, sobre as Paixões, sobre a preservação do sofrimento nos oratoria, enquanto que simultaneamente há muito da theologia e do dogma que se perde ou que está apenas implícito. Isto é também verdade pelo facto da maior parte da theologia ser exegése, manifestamente brilhante, mas ainda assim exegése: os evengelhos, principalmente se excluirmos o de João (e não será coincidência que seja sobre esse que se baseie a interpretação do Cacciari do ícon e não a do afresco). O Christianismo continua a fascinar não pela estrutura de super-magnitude, do "simbolismo sempre mais abstracto e formal" mas sim pelo facto de  continuarmos até hoje a ouvir o "grito de abandono" que Christo ruge a seu Pai quando o pregam à cruz. O facto de da natureza humana fazer parte o sentirmos essa violência e essa dor apenas nos torna mais propensos a compreender um deus cuja parousia consista principalmente na sympatheia desse abandono. O triumpho do Christianismo acontece de cada vez que ouvimos a theologia da cruz de S. Paulo, em vez das divagações plotinianos e augustinianas sobre a relativização do mal. O Catholicismo vence, e quer isto dizer, humaniza-se, de cada vez que escolhe o sofrimento e a cruz em lugar da glória e das trombetas. Quando Kazantzakis no seu livro A Última Tentação de Christo mostrou um Christo humano e cheio de dúvidas, o Christo que em Golgotha suplica que se lhe seja retirado o cálice, a Igreja Orthodoxa Grega considerou-o anathema. A Cathólica excomungou-o. Mas é este o perfeito exemplo dos erros de cada uma respectivamente: o dogmatizar que o Filho é cem por cento humano e recusar-se a tirar daí as conclusões. É por causa desse dogma, que ao contrário de muitos outros por geniais que sejam tem provas textuais nos Evangelhos, que continuará a haver christãos muito para além do dia em que a Igreja for derrubada: é uma fé violenta, é aquilo que se ouve quando Deus se recusa a responder ao próprio Deus, ao contrário do ellóquio sublime do ícone do Rublëv, a única portanto experiência possível de Deus para quem não é capaz de ouvir Sua voz: o silêncio.

Dois Ícones

à Ana, que me fez ver a Trinità do Masaccio

Andrei Rublëv, Trindade (1425-27). Galeria Tretyakov, Moscovo.

All'Eterno 'in sé' di Dio, 'prima' di ogni tempo e di ogni creazione, corresponde la sequenza dell'atto di fede. Ed é secondo il suo ritmo che la scena viene articolata. Il primo Angelo, a sinistra di chi guarda, è il Padre; nel mezzo del simbolo trinitario siede il Figlio; alla nostra destra lo Spirito. Il Figlio, dunque, è alla sinistra del padre! 'Inversione' che rende subito visibile la non 'spazialità' delle Persone; nell'ambito del loro rapporto, della loro Relatio sovra-essenziale, le coordinate spaziali non hanno alcun valore e l'icone è chamata a svelarne continuamente la mera conenzionalità. Figlio e Spirito rendono evidente l'identità del Padre piegando il capo verso di Lui. «E il Logos era pròs tòn theón» (Gv, 1, 1): non solo apud, ma anche 'verso', rivolto-a. Il Logos non sta semplicemente accanto al Padre, ma si muove da Lui, inviato da Lui, via da Lui, e proprio in questo movimento procede verso Lui. Nessuna traduziona mai del primo versetto di Giovanni è stata più fedele di questa di Rublëv!

[...] il 'miracolo' consiste nel fatto che questo rivolgersi del Divino, in sé e per noi, qui si manifesta in perfetta quete, come da sempre e per sempre risolto, aionicamente contemplato. Questa la Vida divina che è tutto in tutti; ogni storia, ogni evento 'giudicato' in essa, da sempre compreso nel suo pléroma. Ma che cosa è necessario 'cancellare' per pervenire a una tale perfetta presenza del simbolo? L'evento - il volto nella dimensione dell'hic et nunc, il fatto cosè come còlto nel suo divenire, come momentum. Sí, in quel calice, che è il centro del Cerchio divinio, si trova il corpo del Crocefisso, ma non può esservi il suo volo nel momento dell'ultima ora, del grande grido. Vi é la forma del Figlio, 'verso' Dio e Dio «en arché», fin nell'Inizio, incarnato-e-risorto, crocefisso-e-vincitore dell'ultimo nemico. Miracolosa presenza della forma, ripetiamo - ma la presenza dell'evento é 'cancellata'. Plotino lo aveva detto: l'artista che voglia rendere visibile l'Invisibile dovrà 'cancellare tutto', ovvero: purificare al fuoco della Sophia la sua visione da ogni contingenza, da ogni passione.

Masaccio. Santa Trinità (1425). Santa Maria Novella, Firenze.

Ma la passione della Croce può essere considerata momentum? e può il volto del Figlio 'cancellare' tutti i segni della sua passione? L'incarnazione, in tutti i suoi momenti, rimane essenziale all'essenza della Vida divina o si trasfigura risolvendosi in Luce taborica? Tuttavia, l'icona celebra la cena eucaristica, e dunque il rinnovarsi autentico di quel sacrificio. Ma quel sacrificio può rinnovarsi daavvero senza i segni della reale passione? Rublëv sapeva, certo, che lì, al centro dell'altar>e, sta la Croce; ma lo 'sapeva' soltanto. Non vede il grido dell'abbandono; non vede la natura tutta che geme con Lui fino alla fine dei giorni. L'Occidente 'caccia' il proprio sguardo nella tragedia della storia che tontinua, del 'tempo che resta' ma 'conosce' appena la Pace escatologica dell'accoglienza e del colloquio nello spirito. La prima via conduce ad una simbolicitá sempre più astratta, formale e, alla fine, morta; la seconda al completo oblio del senso di quella Pace e della potenza del suo appello. Per restare a questa epoca, tale metafisico contrasto si manifesta già, inesorabile, tra la Trinità di Rublëv e quella del Masaccio. Paradossale coincidentia oppositorum, relazione-pólemos di occidente e Oriente europeo, di Europa e Rus' erede di Bisanzio!

Massimo Cacciari. Tre icone, Adelphi (2008).

Lamentatio Jeremiae Prophetae


É o melhor coro que ouviste esta semana ou o melhor que ouviste este mês?

manibus date lilia plenis!

Há várias maneiras de dizer em grego aquilo que em português chamamos desejo. As que saltam imediatamente à mente são ἵμερος, πόθος, ἔρως. A primeira é aquela subtil favorita da poesia lýrica, assim  como quando Sóphocles diz que "νικᾷ δ᾽ ἐναργὴς βλεφάρων ἵμερος εὐλέκτρου νύμφας". πόθος é aquele desejo que significa Odysseia. ἔρως é o amor, scilicet, erótico. Existe também ὄρεξις, o termo philosóphico por excelência que sói  traduzir o nosso entendimento neutralizado de "propensão", tal como aparece às mãos cheias em Aristóteles e famosamente no início da Metaphysica. Visto porém derivar do verbo ὀρέγω, que apesar de acarretar toda a carga conceptual, a verdade é que significa antes de tudo o mais, estendo as mãos para, como acontece num reencontro. Acontece que nos faz também pensar naquele desejo que Casella sente para com o seu amigo Dante no Purgatorio, quando o tenta por três vezes abraçar mas sem sucesso, após qual fracasso a sua alma sorri pois sabe que a sua pena terá fim e que um dia estarão juntos, mas pode também fazer lembrar a cena da Aeneida quando Aeneas tenta também alcançar o seu pai Anquises, mas aqui o fracasso não traz júbilo mas sim aquela melancholia da qual Vergílio é il duca mio. O estender das mãos para a distância é também aquele desejo que nos arrebata em sonhos, como os cavalos de Álkman.


    Io vidi una di lor trarresi avante
per abbracciarmi con sì grande affetto,
che mosse me a far lo somigliante.
     Ohi ombre vane, fuor che ne l'aspetto!
tre volte dietro a lei le mani avvinsi,
e tante mi tornai con esse al petto.
     Di maraviglia, credo, mi dipinsi;
per che l'ombra sorrise e si ritrasse,
e io, seguendo lei, oltre mi pinsi.

Dante. Comedìa. Purgatorio II. 76-84


ille autem: 'tua me, genitor, tua tristis imago
saepius occurrens haec limina tendere adegit;
stant sale Tyrrheno classes. da jungere dextram,
da, genitor, teque amplexu ne subtrahe nostro.'
sic memorans largo fletu simul ora rigabat.
ter conatus ibi collo dare bracchia circum;
ter frustra comprensa manus effugit imago,
par levibus ventis volucrique simillima somno.

Vergílio. Aeneida. VI 695-702

6.18.2012

deine Sprache verrät dich


Wahrlich du bist auch einer von denen; denn deine Sprache verrät dich. Da hob er an sich zu verfluchen und zu schwören: Ich kenne diesen Menschen nicht. Uns alsbald krähte der Hahn. Da dachte Petrus an die Worte Jesu, da er zu ihm sagte: "Ehe der Hahn krähen wird, wirst du mich dreimal verleugnen", und ging heraus und weinte bitterlich.

ἀληθῶς καὶ σὺ ἐξ αὐτῶν εἶ, καὶ γὰρ ἡ λαλιά σου δῆλον σε ποιεῖ. τότε ἤρξατο καταθεματίζειν καὶ ὀμνύειν ὅτι οὐκ οἶδα τὸν ἄνθρωπον. καὶ εὐθέως ἀλέκτωρ ἐφώνησεν. καὶ ἐμνήσθη ὁ Πέτρος τοῦ ῥήματος Ἰησοῦ εἰρηκότος ὅτι πρὶν ἀλέκτορα φωνῆσαι τρὶς ἀπαρνήσῃ με· καὶ ἐξελθὼν ἔξω ἔκλαυσεν πικρῶς.

Matthäus 26:71-73

6.16.2012

ecco la primavera


Ecco la primavera
che 'l cor fa rallegrare;
temp'è da 'nnamorare
e star con lieta cera.
No' vegiam l'aria e 'l tempo
che pur chiama allegreza;
in questo vago tempo
ogni cosa ha vagheza.
L'erbe con gran frescheza
e fiori copron prati
e gli alberi adornati
sono in simil manera.

Francesco Landini

Klage, Klage! Ein De profundis, das mein liebender Eifer ohne Beispiel nennt.

A lament, a wailing! A de profundis that with fond fervor I can say has no parallel. But from a creative standpoint, from the viewpoint both of music history and personal fulfillment, is there not something jubilant, some high triumph in this terrible gift for redress and compensation? Does it not imply the kind of "breakthrough", which, whenever we contemplated and discussed the destiny of art, its state and crisis, had so often been a topic for us, as a problem, as a paradoxical possibility? Does it not imply the recovery, or, though I would rather not use the word, for the sake of precision I shall, the reconstruction of emotion, of emotion's highest and deepest response to a level of intellectuality and formal rigor that must first be achieved in order for such an event — the reversal, that is, of calculated coldness into an expressive cry of the soul, into the heartful unbosoming of the create — to occur?

I clothe in questions what is nothing more than the description of a state of affairs whose explanation is found in both objective reality and formal artistry. The lament, you see- and we are dealing here with a constant, inexhaustibly heightened lament, accompanied by the most painful Ecce homo gestures — the lament is expression per se, one might boldly say that all expression is in fact lament, just as the beginning of its modern history, at the very moment it understand itself as expression, music becomes a lament, a "Lasciatemi morire", the lament of Ariadne, softly echoed in the plaintive song of the nymphs. It is not without good reason that the Faustus cantata is stylistically linked so strongly and unmistakably to Monteverdi and the seventeenth century, whose music — again not without good reason — favored echo effects, at times to the point of mannerism. The echo, the sound of the human voice returned as a sound of nature, revealed as a sound of nature, is in essence a lament, nature'se melancholy "Ah, yes" to man, her attempt to proclaim his solitude, just as vice versa, the nymphs' lament is, for its part, related to the echo. In Leverkühn's final and loftiest creation, however, echo, that favorite device of the baroque, is frequently employed to unutterably mournful effect.

A monumental work of lamentation like this one is, I say, by necessity an expressive work, a work of expression, and as such is a work of liberation in much the same way as the early music to which it is linked across the centuries sought to express liberation.

Thomas Mann. Doctor Faustus. John E. Woods (trad). Vintage International: Nova Yorque (1999)

sibyllæ quidem cantus



Audite quid dixerit:
Judicii signum tellus sudore madescet.

E caelo rex adveniet per saecla futurus
scilicet ut carnem praesens ut judicet orbem.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Unde deum cernent incredulus atque fidelis
celsum cum sanctis aevi jam termino in ipso.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Sic animae cum carne aderunt quas judicat ipse
cum jacet incultus densis in vepribus orbis.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Reicient simulacra viri cunctam quoque gazam
exuret terras ignis pontumque polumque.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Inquirens taetri portas effringet averni
sanctorum sed enim cunctae lux libera carni.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Tradetur sontes aeterna flamma cremabit
occultos actus retegens tunc quisque loquetur.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Secreta atque deus reserabit pectora luci
tunc erit et luctus stridebunt dentibus omnes.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Eripitur solis jubar et chorus interit astris
voluetur caelum lunaris splendor obibit.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Deiciet colles valles extollet ab imo
non erit in rebus hominum sublime vel altum.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Jam aequantur campis montes et caerula ponti
omnia cessabunt tellus confracta peribit.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Sic pariter fontes torrentur fluminaque igni
sed tuba tum sonitum tristem demittet ab alto.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Orbe gemens facinus miserum variosque labores
tartareumque chaos monstrabit terra dehiscens.
Judicii signum tellus sudore madescet.

Et coram hic domino reges sistentur ad unum
reccidet e caelo ignisque et sulphuris amnis.
Judicii signum tellus sudore madescet.

6.15.2012

il phantasma del madrigale





[ Non havea Febo ancora
recato al mondo il dí,
ch'una donzella fuora
del proprio albergo uscí.

Sul pallidetto volto
scorgeasi il suo dolor,
spesso gli venia sciolto
un gran sospir dal cor.

Sí calpestando fiori
errava hor qua, hor là,
i suoi perduti amori
cosí piangendo va: ]

"Amor", dicea, il ciel
mirando, il piè fermo,
"dove, dov'è la fè
ch'el traditor giurò?"

Miserella.

"Fa' che ritorni il mio
amor com'ei pur fu,
o tu m'ancidi, ch'io
non mi tormenti più."

Miserella, ah più no, no,
tanto gel soffrir non può.

"Non vo' più ch'ei sospiri
se non lontan da me,
no, no che i martiri
più non darammi affè.

Perché di lui mi struggo,
tutt'orgoglioso sta,
che si, che si se'l fuggo
ancor mi pregherà?

Se ciglio ha più sereno
colei, che'l mio non è,
già non rinchiude in seno,
Amor, sí bella fè.

Ne mai sí dolci baci
da quella bocca havrai,
ne più soavi, ah taci, 
taci, che troppo il sai."

Sí tra sdegnosi pianti
spargea le voci al ciel;
cosí ne' cori amanti
mesce amor fiamma, e gel.


Testo da Ottavio Rinuccini (1638).

ma la voce non venne

    Qual è colui che sì presso ha 'l riprezzo
de la quartana, c'ha già l'unghie smorte,
e triema tutto pur guardando il rezzo,
     tal divenn'io a le parole porte;
ma vergogna mi fe' le sue minacce,
che innanzi a buon segnor fa servo forte.
     I' m'assettai in su quelle spallacce:
sì volli dir, ma la voce non venne
com'io credetti: «Fa che tu m'abbracce.»

Dante. Commedia. Inferno XVII. 85-93

6.07.2012

O sono da virtude

Se a virtude dormiu, levantar-se-á mais fresca.

Nietzsche. Humano, Demasiado Humano 83. Paulo Osório de Castro (trad), Relógio d'Água (1997).

Deus Te Salve, Rosa :)

Questão

Questão: Lutar pela humanidade, ou representar a humanidade pela qual vale a pena lutar? Não são a mesma coisa.

Questão: Qual das duas é salvífica? Principium individuationis.

Questão: Existe vida para além da literatura italiana? Esta é a mais importante de todas.

6.06.2012

Mihi est propositum

Apercebo-me agora que as minhas figuras tutelares, os meus hegemones, os meus genii, todos dizem a mesma coisa. Deles apenas o Nietzsche e o Platão, malgrado o nosso querido Pico, aparentam manter-se desviados da verdade, coincidentes e reincidentes naquela heresia que é, como diria o Eliot, necessária para manter fresca e atenta aquilo que a orthodoxia defende. Não são menos amados por isso, apenas mais suspeitos, e talvez por isso mais preciosos. Todos os outros, eleitos e escolhidos a dedo, testados a fogo, orientam-me, guiam-me pela mesma estrada, para o mesmo destinho. Partimos do mesmo princípio e precipitamo-nos para e com o mesmo fim. Pelo caminho conversamos em grego.


6.05.2012

a temple of some alien creed

An engagement is so potent a thing that sooner or later it reduces all who speak of it to this state of cheerful awe. Away from it, in the solitude of their rooms, Mr. Beebe, and even Freddy, might again be critical. But in its presence and in the presence of each other they were sincerely hilarious. It has a strange power, for it compels not only the lips, but the very heart. The chief parallel —to compare one great thing with another—  is the power over us of a temple of some alien creed. Standing outside, we deride or oppose it, ot at the most feel sentimental. Inside, though the saints and gods are not ours, we become true believers, in case any true believe should be present.

E.M. Foster. A Room with a View. Project Gutenberg (2001).

Hölderlin

Li os Collected Poems do David Constantine há muito tempo: quando começava a dar os primeiros passos na poesia e, fechado na terrinha, sem ninguém com quem trocar a mínima impressão, me virei para a internet onde os meus interlocutores eram quase exclusivamente anglóphonos. Recomendavam-me os clássicos, e recomendavam-me nomes como Ted Kooser, Mark Doty, Charles Simic, David Constantine. Na altura devo ter passado por um poema como 'Hölderlin' com a maior das indiferenças. Difícil, arriscaria dizê-lo, seria tirar algo dele sem ter uma relação espiritual com ele como apenas um contacto contínuo providenciará: nisto haverá poucos como o próprio David Constantine, extenso tradutor e valete do poeta.

O que dói, rasga no poema é entender que aqui está tudo: está a promessa e a decepção, a mentira chamada assim com todas as sýllabas que Hölderlin anuncia e com a qual nos engana. Hölderlin é um propheta, dum deus que não vem: ele é a tentação de, na noite do mundo, acreditar que o deus virá, embriagado de orvalho e da luz de Naxos. Mas isso é falso, e parece que se queremos construir aqui e agora a República dos Céus temos que prescindir disso. Mas e se a renúncia é ela mesma infrutífera, se nem a realidade não é, como diz a Arendt, miracular, mas sim e apenas realpolitik? Se o juramento que prestamos ao nosso atheísmo não nos concede um pignus, uma garantia de justiça? Apercebemo-nos que dum lado temos uma Grécia atolada por uma dívida  injusta, e que essa não é a Grécia que amamos; e que por outro temos a Grécia do Der Archipelagus, e que essa temos que a sacrificar em favor da primeira, que apesar de tudo é humana, e tem fome: os deuses jamais têm fome. O David Constantine é capaz de dizer "I sided with the liars / Against the disappointed, I wear your name / Emptily, like grief, like vain revolt." Eu não consigo: se preciso será, se a escolha é esta, então que seja: Against the liars / Against the disappointed. Que é tão contraditória quanto a primeira! Pois que o Hölderlin anunciava-nos a esperança do milagre, o sacramento da fé; e não é isso o que queríamos? Existe um espaço entre a esperança sacral e a desilusão mundana? A esperança, sabiam-no os Gregos, é uma desgraça, uma συμφορά, um mal; o abandono à desilusão é uma traição. Abandonamos o  mytho com o cynismo, o deus com o adeus. Como diz o E.M. Foster: "Love felt and returned, love which our bodies exact and our hearts have transfigured, love which is the most real thing that we shall ever meet, reappeared now as the world's enemy, and she must stifle it."