1.29.2010

Dois livros

#1
Kazantzakis: Politics of the Spirit, por Peter Bien

"Beginning with Kazantzakis's early career in fin-de-siècle Paris and his discovery of William James, Nietzsche, and Bergson, the book continues by describing his experiments with communism in turbulent Greece, his visits to Soviet Russia, and the publication of his epic Odyssey in 1938. Bien demonstrates that politics and religion cannot be separated in Kazantzakis's development. His major concern was personal salvation, but the method he employed to win that salvation was political engagement. Did deliverance lie in nationalism? Communism? Fascism? He eventually rejected each of these possible solutions as morally appalling. Abused by both left and right, he insisted on an "eschatological politics" of spiritual fulfillment." - do comentário da Amazon

Este deve ser mesmo muito bom. Mas vem lá das Novas Zelândias ou da Austrália ou de coisa parecida, portanto parece-me que ainda vai demorar um bocado até o começar a ler. Um facto curioso, a minha cópia (usada) da Odysseia deste senhor também veio da Nova Zelândia. O que é que aquelas pessoas têm pelo Kazantzakis? Quem dera que tivéssemos também nós. Mandei-o vir por um site que descobri há pouco tempo, Better World Books, que, vejam vocês mesmos, não parece mau de todo.

#2
Nihilism: A Philosophical Essay, por Stanley Rosen

"Nietzsche defines nihilism as the situation which obtains when "everything is permitted." If everything is permitted, then it makes no difference what we do, and so nothing is worth anything. We can, of course, attribute value by an act of arbitrary resolution, but such an act proceeds ex nihilo or defines its significance by a spontaneous assertion which can be negated with equal justification. More specifically, there is in such a case no justification for choosing either the value originally posited or its negation, and the speech of "justification" is indistinguishable from silence. For those who are not gods, recourse to a creation ex nihilo, whether disguised by the intricacies of the axiomatic method or onto-poetic integrity, reduces reason to nonsense by equating the sense of significance of speech with silence." do Prefácio

Um dos meus comentadores-filósofos favoritos, se não mesmo o favorito, contra o meu filósofo favorito. Sim, estou-me a testar. Isto vai ter a sua piada. Por favor liguem daqui a duas semanas para se certificarem que ainda estou vivo.

1.26.2010

Sócrates e Zarathustra





"Fico continuamente espantado com quão mal conheço Platão e com o quanto Zarathustra platonizei!"
- Nietzsche

Que Zarathustra é uma máscara de Nietzsche é um facto tão básico que dificilmente valeria a pena apontar. Por máscara é importante que se perceba que o que está em jogo é uma distanciação da personagem poiética do poiêtes enquanto actor do mundo. Interessa também que a revelação total, o desmascaramento completo, ou é absolutamente destrutivo ou absolutamente impossível. Camadas sobre camadas que dão forma cósmica à personalidade, como se no fundo não encontrássemos nada mais que aquele Eu kantiano ou, o que é o mesmo, o Espírito de Hegel, ambos desprovidos da ordenação e da distinção que só Apolo é capaz de conceder.

Zarathustra é então uma máscara, então, mas é apenas a máscara dominante. Não é a única, sendo a primeira aquela que se impõe entre a personalidade e a capacidade de expressão dessa mesma personalidade. E cada vez mais à medida que se mergulha no poço da expressão escrita, e ainda mais naquele que é o mais alienante das técnicas de expressão, a mais obscura, a poesia. Assim também com Platão é um erro de sobremaneira descobrir em Sócrates um caminho progressivo de uma representação do Sócrates histórico na direcção de uma purificação platonizante deste. O Sócrates dos diálogos seria portanto o Sócrates histórico inicialmente tal qual (assim como surge nos diálogos aporéticos da juventude platónica com o famoso " que é...? (τι εστίν...?"), que provavelmente seria o comportamento histórico de Sócrates, a mosca que espicaça os atenienses. E à medida que o próprio Platão amadurece, transformar-se-ia Sócrates num avatar do próprio Platão, como na República, a expor as ideias que Platão exporia. Falo disto porque desejo atacar. Porque também Sócrates é apenas o avatar dominante, mas de maneira nenhuma o único. E fala tanto Platão, nas suas dúvidas e nas suas incertezas, nas suas convicções alternativas, e até nos seus triunfos contra si (pensemos no Parménides, onde o parricídio do mestre se conjuga com o suicídio).

Platão é, como Nietzsche, um poeta. São ambos filósofos-poetas, certo, os maiores de sempre, mas por muito que sejamos tentados quando os vemos nas prateleiras de Filosofia, pergunto-me por vezes quão mais justamente não seria dada a sua preeminência na outra, na Poesia. Os poetas que se dividem em mil nomes. A diferença é que Platão fá-lo abertamente de modo dramático: mil personagens que surgem que falam, que combatem umas com as outras na arena da filosofia-que-é-poesia. Nietzsche fá-lo de outra maneira, recuando, contradizendo-se, desfazendo o seu próprio nome em paroxismos que atacam a própria posição.

Mas não nos iludamos: o jogo é o mesmo. Até o próprio avatar dominante, como vimos Zarathustra num caso, Sócrates no outro, tantas vezes se confundem nas suas agendas e nas suas coincidências parecem revelar a chave para a necessidade de todo este vitral de luzes que se batem. Pois as figuras são como idênticas, dois mestres, nenhum deles profeta, e ambos estilhaçadores de dogmas. Zarathustra sabe que apenas quando os seus discípulos o conseguirem renegar a sua doutrina se completará. Sócrates apela ao poder persuasivo da verdade mesmo em sacrifício daquilo que ele oferece: a ordenação por mérito de Zarathustra é o equivalente possível depois da morte de Deus à dialéctica socrática; é pouco de surpreender que sejam ambas noções profundamente apolíneas. E ambos são os sacerdotes do Deus-Sol, ambos metaxu: Sócrates, o daemon a meio caminho entre a humanidade e o divino; Zarathustra, a meio caminho entre humano e sobrehumano. E as suas lições assentam-se sempre sob hipóteses dianoéticas: os “e se…” desenvolvidos como possibilidades constructivas nas quais a verdade se construirá; para além dessas hipóteses, que Sócrates chama por exemplo as potencialidades matemáticas que na República demonstra serem bases falsas sobre as quais construir um conhecimento, isto é, que em última instância são humanamente feitas, que é o mesmo que dizer que são poesia, e que no caso de Sócrates só poderão ser substituídas no momento da contemplação final da verdade, que proporcionará o conhecimento absoluto; e que no caso de Zarathustra, que, como moderno que é, sabe já que essa contemplação aniquila, permanecem o ponto de partida suficiente, o que explica a sua afirmação na Vontade de Poder que a arte vale mais que a verdade: porque a arte é constructiva, enquanto que a verdade destrói pois encontra o vazio do Divino, que tem portanto que ser mascarado. Porém convergem ainda, pois no momento em que a educação ainda é possível, ambos ensinam a o valor imprescindível das mentiras nobres, pois são os corifeus do theatrum mundi.

E isto mantém-se verdade mesmo quando as máscaras oficiais começam a cair. Pois a máscara só funciona na perfeição quando se confunde com a potencialidade da personagem que esconde. E é assim que Sócrates vai decaindo, e os estrangeiros entram em cena; é assim também que Nietzsche pode escrever, após terminar o Assim Falava Zarathustra, "Preciso de falar. Chegou a minha vez, e basta de Zarathustra!"

Mas certamente iludir-nos-íamos caso acreditássemos verdadeiramente que toda a produção de Nietzsche a partir do excerto que se precedeu se possa fazer coincidir numa visão coerente e unitária. Tal afirmação é de novo de tal modo ludibriosa que dificilmente careceria de constatação. Basta lembrar que, mesmo descontando Para Além do Bem e do Mal como uma reelaboração do Zarathustra, temos ainda que contar com a produção daquele ano explosivo de 1888, onde Nietzsche faz uso dum estratagema semelhante a Platão, que parece desfazer a máscara quando nas Leis põe em cena o Estrangeiro Ateniense: falar com a própria voz é apenas mais uma ilusão, como famosamente nos surge o mais misterioso dos heterónimos de Pessoa, a saber o ortónimo.

Porque esta voz una não faz mais que ser a mais coberta de máscaras, e deste modo a mais humana, na medida em que ironicamente não utiliza o recurso literário da máscara propriamente dita. O Estrangeiro Ateniense pretende mostrar-se como a identificação de Platão, assim como Nietzsche pretende falar pela boca de Nietzsche. Mas nenhum pode ser a realidade profunda, pois essa só pode ser acedida mediante essas máscaras. As máscaras caem apenas com a morte. Antes disso, sob elas há o caos inescrutável, e o total dionisíaco: Platão chamar-lhe-ia o fluxo e a physis que, dada preeminência na convivência e no discurso humano, acabaria por destruir a possibilidade de exibir uma realidade coerente, e daí a sua guerra eterna contra Heraclito e os seus herdeiros cosmológicos, os sofistas. A diferença então entre esta aproximação é que Nietzsche é mais está disposto a dar um passo à frente, na medida em que para ele não há um Logos a proteger, a partir do momento em que oscilação entre o Cosmos e o Chaos deixa de ser uma opção onde escolher um Logos ordenador seja uma escolha ética, como o fora para Platão, e passar a ser uma escolha estética. Por Logos ordenador entendo a faculdade apolínea da ordenação por mérito necessária pela Vontade de Poder. Nietzsche compreende a importância de aceitar essa faculdade apolínea como uma máscara, e compreende também a sua função na ordenação da Vontade de Poder como aquilo que esconde a Verdade física de fluxo, o Chaos. Entra portanto no jogo do mundo.

Platão, para quem o chaos é algo a conquistar logicamente mais que a reconhecer tapando, paradoxalmente acaba por reconhecer a sua presença quando se recusa à confissão que seria um mostrar-se absoluto. Isto é melhor reconhecido quando substituímos a chamada Questão Socrática por uma suposta Questão Platónica: já não “quando, nos diálogos platónicos, é que Sócrates nos fala?” ou “quem é Sócrates?” mas mais importantemente, “quando, nos diálogos platónicos, é que Platão nos fala?” e “quem é Platão?” A resposta, ontem como hoje, para Platão e para Nietzsche igualmente, é o mais ulíssico Ninguém.

Imagem da esquerda, detalhe de A Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David. Imagem da direita, detalhe de Zarathustra, por Setsuko Aihara.

1.25.2010

Recordação, Hölderlin

O vento de nordeste sopra,
O mais querido dos ventos
Para mim, porque com um sopro de fogo
Uma boa travessia promete aos marinheiros.
Mas agora parte e saúda
O doce Garonne
E os jardins de Bordeaux
Lá, onde pela ladeira íngreme
Conduz o trilho e na corrente
Profunda desagua o riacho, mas daí
Fixa o seu olhar um nobre par
De carvalhos e de choupos brancos.

Ainda me lembro bem de como
As largas copas dos ulmeiros
Se inclinam, sobre o moinho,
Ou como na praça cresce uma figueira.
Nos dias de festa por lá caminham
Mulheres trigueiras
Sobre a terra macia,
Em Março,
Quando iguais são a noite e o dia,
E por vagarosos trilhos,
Pesadas com sonhos dourados,
Balançam e flutuam brizas.

Passem-me porém,
Cheio de luz escura,
O copo fragrante,
Para que eu possa descansar; pois doce
Seria repousar sob as sombras.
Não é bom,
Não ter alma e ter pensamentos
Mortais. Mas bom
É conversar e falar
Do que pensa o coração, e ouvir muito
Dos dias de amor,
E dos actos que acontecem.

Mas onde estão os amigos? Belarmino
E o companheiro? Muitos
Têm medo de ir até à fonte,
Pois a riqueza começa
No mar. Eles,
Como pintores, juntam
A beleza da terra e não desdenham
Da guerra alada, ou
De ficar sozinhos, durante anos, sob
O mastro desgalhado, onde durante a noite não brilham
As festas da cidade,
Nem soam guitarras nem danças populares.

Mas agora ter com Índios
Se foram os homens,
Lá nos picos ventosos
Nas colinas repletas de vinhas, de onde
Desce o Dordogne,
E, junto com o esplêndido
Garonne, largo como o mar,
Aflui na corrente. Mas o mar
Tira e oferece memória,
E o amor também mantém o olho atento,
Mas aquilo que permanece fundam-no os poetas.





Friedrich Hölderlin, tradução minha, original alemão aqui: http://www.literaturwelt.com/werke/hoelderlin/andenken.html

1.24.2010

Cantico del Sole



Cantico del Sole

The thought of what America would be like
If the Classics had a wide circulation
                      Troubles my sleep,
The thought of what America,
The thought of what America,
The thought of what America would be like
If the Classics had a wide circulation
                      Troubles my sleep.
Nunc dimittis, now lettest thou thy servant,
Now lettest thou thy servant
                      Depart in peace.
The thought of what America,
The thought of what America,
The thought of what America would be like
If the Classics had a wide circulation...
                       Oh well!
                       It troubles my sleep.



Pensar no que da América seria
Se os Clássicos tivessem uma grande circulação
      Não me deixa dormir,
Pensar no que da América,
Pensar no que da América,
Pensar no que da América seria
Se os Clássicos tivessem uma grande circulação
      Não me deixa dormir.
Nunc dimittis, agora deixais vós o vosso servo
Agora deixais vós o vosso servo
      Partir em paz.
Pensar no que da América,
Pensar no que da América,
Pensar no que da América seria
Se os Clássicos tivessem uma grande circulação...
       Mas pronto!
       Não me deixa dormir.




- Ezra Pound


(tradução minha)