12.30.2010

100 Reasons not to go to Grad School

Aqui.

Bem, eu de facto escrevi algures na To-Do list to meu caderno "Desistir do Mestrado", portanto já posso pensar que possuo uma intuição apurada em relação ao meu futuro.

Books for Christmas?!? Segunda Parte


That's more like it!

A Primavera do Rei Cosroe


Tenho uma vontade gigantesca de ler este livro.
Ah, quer-mo oferecer? Que gentileza a sua.

tantos, eram tantos

Túmulos de Guerra
-- Na véspera da Festa dos Mortos

Roupas sujas de poeira, lágrimas e sangue,
O triste regresso após anos de guerra.
Varridas pela borrasca: flores de pereira
Passa a véspera da Festa dos Mortos.
São tantos os novos que enlutados
Juntos dos túmulos se lamentam.

Gao Qi. Uma Antologia de Poesia Chinesa. Gil de Carvalho (trad.) Assírio & Alvim. (2010)


E io, che riguardai, vidi una ’nsegna
che girando correva tanto ratta,
che d’ogne posa mi parea indegna;

e dietro le venìa sì lunga tratta
di gente, ch’i’ non averei creduto
che morte tanta n’avesse disfatta.

Dante. Divina Commedia Inferno III.52-57


Unreal City,
Under the brown fog of a winter dawn,
A crowd flowed over London Bridge, so many,
I had not thought death had undone so many.
Sighs, short and infrequent, were exhaled,
And each man fixed his eyes before his feet.

TS Eliot. The Waste Land. The Burying of the Dead. 60-65

sobre as asas de anjos

Entre os ensaios que gostaria de escrever  mas que não sou capaz de escrever  conta-se um sobre a morfologia das asas dos anjos. É um projecto imenso que exigiria uma enorme cultura e uma extraordinária delicadeza e sensibilidade porque, nas asas dos anjos, exprime-se tanto uma complicada cultura teológica como uma liberdade de fantasias e loucura, sem limites nem prescrições. Asas dos anjos de Cavallini em Santa Cecília, no Trastevere, tão multiformes que embrulham e escondem dentro delas a criatura celeste; asinhas desesperadas que batem freneticamente nos anjos de Giotto; trémulas e subtilíssimas asas de Simone Martini que terminam em penas de pavão; asas de borboleta do Beato Angelico; asas cor-de-rosa e azul vivo de Pisabello; imensas asas cor-de-rosa e azul celeste dos anjos de Signorelli, que tocam as trembetas da Ressureição; asas apenas esboçadas de Correggio e Parmigianino; asas que parecem ensanguentadas no anjo músico de Rosso Fiorentino; asas, entre as da pomba e as da águia, no Descanso durante a fuga para o Egipto de Caravaggio; asas escancaradas e tão robustas do Greco... Quantas asas mais teria ainda de acrescentar!

Pietro Citati, Israel e o Isão: as centelhas de Deus. Luísa Feijó. Cotovia. (2003)


Luca SignorelliOs Eleitos no Paraíso. Catedral de Orvieto. 1500-1503

breves notas sobre marionetas

#1
Guido Ceronetti (Andezeno, 24 agosto 1927) è un poeta, filosofo, scrittore, giornalista, traduttore, drammaturgo, teatrante e marionettista italiano. 

#2
Os homens são como crianças que assistem a um espectáculo de marionetas. A cortina misteriosa abre-se; as marionetas de pano agitam-se sobre a mesa de madeira; dançam, falam, gritam, levantam-se e sentam-se, recitando para alegria dos seus pequenos espectadores, a história de Ali Babá e os quarenta ladrões. Os meninos sentados na sala admiram as figuras de pano e pensam que são elas que cantam e dançam, que conhecem o amor e o ódio, a alegria e a dor. Os olhos das crianças são cegos. Na escuridão da tarde não detectam os fios, subtis como cabelos, que o manipulador segura nas suas mãos sábias. Entre eles encontram-se apenas alguns iniciados. Os seus olhos contemplam aqueles fios delicados como teias de aranha que, num dos extremos, estão ligados às figuras de pano -- nós próprios, criaturas de carne e osso -- e cujo outro extremo se perde no céu. Lá em cima, os anjos têm nas mãos os fios invisíveis; e olham para cima à espera das ordens que o caprichoso e omnipotente Manipulador lhes queira transmitir.

Pietro Citati, Israel e o Isão: as centelhas de Deus. Luísa Feijó. Cotovia. (2003)

#3

do Corcunda de Notre Dame

12.23.2010

iKant

Faz-me tanta falta perceber minimamente Kant. Ou melhor: percebo minimamente: o mínimo que não chega a ser funcional, mas que chega para perceber o quão deficiente só pode ser o meu raciocínio por lhe faltarem esses elos da cadeia que sei que existem mas dos quais desconheço a cor & contornos.

Próxima paragem: Crítica da Auto-crítica
A mim o que mais me interessa na filosofia é o que nela há de teologia, e o que mais me interessa na teologia é o que nela há de poesia.

Books for Christmas?? What the heck is that??

12.18.2010

Orestes & Christo, secundum la Weil


Cristo comporta-se como o herói da tragédia, como o salvador de Argos, não só da maneira contada na mitologia de Simone Weil ("veja-se o caso da sua interpretação do diálogo entre Electra e Orestes como uma conversa entre Cristo e a alma") mas também como o atormentado salvador divino da desgraça. O evangelho é o de Marcos. Orestes dilacera-se entre a culpa que será sua se cometer o maior dos crimes, o matricídio, e, séculos mais tarde, Cristo recua, vacila, tropeça e escorrega de terror até ao instante em que interioriza por completo os desígnios do seu Pai. O grego sabe do que tem de prescindir, mas algo lhe parece tão monstruoso que até a providência  a Vontade de Deus lhe dirigir a palavra, até Pílades lhe comunicar o fiat divino, Orestes não pode matar, Cristo não pode morrer. Ambos acabam por lançar o Ja-sagen por entre lágrimas, e perguntamo-nos se a lâmina de Orestes não são os pregos no corpo do Cristo: são uma única lâmina, a espada de Orestes, a faca de Abrahão, a lança de Longino, são o golpe contra aquele que Deus ama, e, porquanto sabemos que Dieu ne peut aimer que soi. Nous ne pouvons aimer qu’autre chose, é um vero golpe contra o Deus, contra la somma sapienza e 'l primo amore. A todos é necessária a renúncia, o Sim de Nietzsche: mas renúncia não apenas martirífica, como Thomas à Beckett do Murder in the Cathedral, Orestes não pode cometer o pecado se estiver seguro de que será recuperado pelo deus num dia futuro, pelo tribunal das Atenas: se Thomas se lançasse para a morte seguro da graça divina, isso seria "the last temptation [,] the greatest treason: / to do the right deed for the wrong reason": Orestes tem de matar Clytaemestra não por amor a Agamémnon (e isso compreenderam-no Strauss e Hoffmannstahl  melhor que ninguém, ao fazerem um Orestes absolutamente tépido na Elektra), nem por amor à casa dos Atridas, nem pela justiça: Orestes tem de matar por amor à palavra sancrosancta de Apollo; e Orestes é um filho desse deus sanguinário de Délfos, assim como o Cristo é um filho desse deus sanguinário de Sinai: como o filho conhece o pai, o ama por entre os seus erros e não o pretende mudar: quando Orestes mata não espera ser perdoado, quando Cristo morre não espera ser ressuscitado: esperar isso seria tentar a Graça: the greatest treason [o maior acto de piedade, o acto acessível apenas ao Cristo: beatificar com um único acto de absoluto amor Meleto e Judas]. Na tragédia do Mundo Orestes é apedrejado pelos Atenienses, e o Christo não pode sequer ser excepto enquanto Crucified Lord.

12.15.2010

da Constituição Alemã

Pormenores absolutamente espantosos. Daqui. http://en.wikipedia.org/wiki/Streitbare_Demokratie.


The political system of the Federal Republic of Germany is also called wehrhafte or streitbare Demokratie (militant democracy). This implies that the government (Bundesregierung), the parliament (Bundestag) and the judiciary are given extensive powers to defend the freiheitlich-demokratische Grundordnung (liberal democratic order) against those who want to abolish it. The idea behind the concept is the notion that even a majority of the people cannot be allowed to install a totalitarian or autocratic regime, thereby violating the principles of the German constitution, the Basic Law.

[edit]Tools of the 'Streitbare Demokratie'

Several articles of the German constitution allow a range of different measures to "defend the liberal democratic order" .
  • Art. 9 allows for social groups to be labelled "verfassungsfeindlich" ("hostile to the constitution") and to be prohibited by the federal government. Political parties can only be labelled enemies to the constitution by Germany's highest court, the Bundesverfassungsgericht (federal constitutional court), according to Art. 21 II.
  • According to Art. 18, the Bundesverfassungsgericht can restrict the basic rights of people who fight against the "verfassungsgemäße Ordnung" (constitutional order). As of 2008, this has never happened in the history of the Federal Republic.
  • The federal and state bureaucracies can exclude people deemed "hostile to the constitution" from the civil service according to Art. 33. Every civil servant is sworn to defend the constitution and the constitutional order (Berufsverbot).
  • According to Art. 20, every German citizen has the right to resistance against anyone who wants to abolish the constitutional order, though only as a last resort.

12.14.2010

Carl Schmitt sobre os tais "mercados"

Outside the political [sphere], liberalism not only recognizes with self-evident logic the autonomy of different human realms but drives them toward specialization and even toward complete isolation. [...] The most important example of such an autonomy is the validity of norms and laws of economics. That production and consumption, price formation and market have their own sphere and can be directed beither by ethics nor aesthetics, nor by religion, nor, least of all, by politics was considered one of the few truly unquestionable dogmas of this liberal age. With great passion political viewpoints were deprived of every validity and subjugated to the norms and orders of morality, law, and economics. In the concrete reality of the political, no abstract orders or norms but always real human groupings and associations rule over the other human groupings and associations. Politically, the rule of morality, law, and economics always assumes a concrete political meaning.

Carl Schmitt, The Concept of the Political (der Begriff des Politischen). George Schwab (trad.) University of Chicago Press. (2007)

12.13.2010

Mas o Senhor endureceu o coração do faraó

Moisés disse: "Eis o que diz o Senhor: pela meia-noite passarei através do Egipto, e morrerá todo o primogénito na terra do Egipto, desde o primogénito do faraó, que deveria sentar-se no seu trono, até ao primogénito do escravo que faz girar a mó, assim como todo o primogénito dos animais. Haverá em toda a terra do Egipto um tal clamor tal como nunca houve nem jamais haverá. Quanto aos israelitas, porém, desde os homens até aos animais, ninguém, nem mesmo um cão moverá a sua língua. Sabereis assim como o Senhor fez distinção entre os egípcios e os israelitas. Então todos esses teus servos virão procurar-me e prostrar-se-ão diante de mim, dizendo: vai-te tu e todo o povo te acompanhe! E depois disto partirei". Moisés, grandemente irado, saiu da casa do faraó. O Senhor disse a Moisés: o faraó não vos ouvirá, para que os meus prodígios se multipliquem no Egipto". Moisés e Aarão tinham operado todos estes prodígios na presença do faraó. Mas o Senhor endureceu o coração do faraó, que não permitiu aos israelitas partirem da sua terra.

Êxodo. 11:4-10 Editorial Missões.

aquém do bem e do mal

o cinismo é a máscara do desespero da piedade, a humanidade colossalmente professa sempre esconderá a barbárie.

12.09.2010

Via Negativa

Via Negativa

As a child
     what I loved
most of all

was going out
     at daybreak
in the fog

—stacked mist
     over the marshes
or the white

cathedral
     of the haar —
it barely

mattered
     if the path
I followed there

came to a stop
     in reed beds
or silvered willows

where something
     opened:
something like a gaze

as if the middle-ground
     I could not see were

                    not
that grim
     self-conscious sense
of being seen

the way a child is seen
     by Jesus
and his angels

                    not
the haunting
     we contrive
by going out

to where
     we don't belong
but

something else
     I couldn't say
in words

an evidence
     of grace
that makes

each living
     creature
moving in the world

so much itself
     though
interchangeable

and surely
     what I loved
was not my own

strict presence
     in a pocket
of the fog

but being there
     as everything
is there

at random,
     to be shaped
by what is not.

John Burnside, The Good Neighbour. Cape Poetry (2005)

12.03.2010

haveria um único compasso de Mozart que pudesse exprimir um mal intrínseco?

Para além do verdadeiro e do falso, para além do bem e do mal. Estas dicotomias relacionam-se intimamente, ainda que de formas complexas. A música pode ser usada para maus fins quando é composta e executada para glorificação da tirania política, do kitsch comercial. Pode ser, e já foi, tocada suficientemente alto para abafar os gritos dos torturados. Esses usos, de que é emblemática a exploração da música de Wagner, mas também da Nona de Beethoven (recorde-se o apontamente de Adorno!), são absolutamente contingentes. Não derivam da música em si, não negam a extraterritorialidade ontológica e formal da música relativamente ao bem e ao mal. Avesso a Wagner, Lukács perguntou se haveria um único compasso de Mozart que pudesse ser usado para fins políticos, que pudesse exprimir um mal intrínseco. Quando eu falei deste desafio a Roger Sesssions, o mais gentil dos compositores, este respondeu, sentando-se ao seu piano e tocando a ária ameaçadora da Rainha da Noite na Flauta Mágica. Contudo, acrescentou imediatamente: "Não, Lukács tem razão."

George Steiner, Errata: revisões de uma vida. Margarida Vale de Gato (trad.) Relógio d'Água (1997)