7.16.2015

Xenofonte sobre Segunda-feira 13

O tirano nem sequer se alegra juntamente com a sua cidade em tempos de prosperidade e de abundância, pois conclui que se pode servir dos seus cidadãos melhor se eles forem pobres e passarem necessidade.
 Xenofonte. Hierão. V.4
ἀλλὰ μὴν οὐδ' ἂν εὐετηριῶν γενομένων ἀφθονία τῶν ἀγαθῶν γίγνηται, οὐδὲ τότε συγχαίρει ὁ τύραννος. ἐνδεεστέροις γὰρ οὖσι ταπεινοτέροις αὐτοῖς οἴονται χρῆσθαι.

7.15.2015

Sebastianismo à Grega


Θά'ρθεις σαν ἀστραπή
θά'χει ἡ χώρα γιορτή
θάλασσα γῆ και οὐρανός
στο δικό σου φῶς!

7.14.2015

um poema do Cavafis para a decisão da Cimeira Europeia [segunda-feira 13]

INTERRUPÇÃO

A obra dos deuses interrompemo-la nós,
os apressados e inexperientes seres do instante.
Nos palácios de Elêusis e da Ftia,
Deméter e Tétis iniciam belas obras
entre as chamas altas, e no fumo espesso. Mas
sempre corre Metanira de dentro do quarto
do rei, descomposta e aterrorizada,
e sempre Peleu teme e intervém.


Constandinos Cavafis. 
Tradução minha


ΔΙΑΚΟΠΗ

Τὸ ἔργον τῶν θεῶν διακόπτομεν ἐμεῖς,
τὰ βιαστικὰ κι ἄπειρα ὄντα τῆς στιγμῆς.
Στῆς Ἐλευσῖνος καὶ στῆς Φθίας τὰ παλάτια
ἡ Δήμητρα κ' ἡ Θέτις ἀρχινοῦν ἔργα καλὰ
μὲς σὲ μεγάλες φλόγες καὶ βαθὺν καπνόν. Ἀλλὰ
πάντοτε ὁρμᾶ ἡ Μετάνειρα ἀπὸ τὰ δωμάτια
τοῦ βασιλέως, ξέπλεγη καὶ τρομαγμένη,
καὶ πάντοτε ὁ Πηλεὺς φοβᾶται κ' ἐπεμβαίνει.

um poema do Cavafis [ἐπῆγα]

Não me contive. Larguei-me por completo e parti.
Para os prazeres que eram meio reais,
Meio a girar na minha mente.
Parti para a noite iluminada.
E bebi dos mesmos vinhos potentes
De que bebem os destemidos do prazer.


Constandinos Cavafis.
Tradução minha.


Δὲν ἐδεσμεύθηκα. Τελείως ἀφέθηκα κ' ἐπῆγα.
Στὲς ἀπολαύσεις, ποῦ μισὸ πραγματικές,
μισὸ γυρνάμενες μὲς στὸ μυαλό μου ἦσαν,
ἐπῆγα μὲς στὴν φωτισμένη νύχτα.
Κ' ἤπια ἀπὸ δυνατὰ κρασιά, καθὼς
ποῦ πίνουν οἱ ἀνδρεῖοι τῆς ἡδονῆς

7.13.2015

Epitáfio de um Tirano

Perfeição, dum certo tipo, era o que ele desejava,
E a poesia que ele inventava era fácil de entender;
Ele conhecia a loucura humana como a palma da sua mão,
E estava sempre muito interessado em exércitos e frotas;
Quando ele se ria, senadores respeitáveis desmanchavam-se a rir,
E quando ele chorava as criancinhas morriam nas ruas.


W.H. Auden. Tradução minha


Perfection, of a kind, was what he was after,
And the poetry he invented was easy to understand;
He knew human folly like the back of his hand,
And was greatly interested in armies and fleets;
When he laughed, respectable senators burst with laughter,
And when he cried the little children died in the streets.

Tradução de 'Killing the European Project' de Paul Krugman


Uma tradução deste texto.
Vamos assumir que tu achas que o Tsipras é um palhaço incompetente. Vamos assumir que desejas ardentemente que o Syriza saia do poder. Vamos mesmo até assumir que ficas feliz com a possibilidade de fazer com que aqueles Gregos irritantes saiam do euro. 
Mesmo se tudo isso for verdade, a lista de exigências do Eurogrupo é pura loucura. A crescente hashtag #ThisIsACoup (Isto É Um Golpe) descreve a situação perfeitamente. Isto vai bem para além de ser uma posição dura, para se tornar numa posição puramente vingativa, numa destruição completa da soberania nacional, sem qualquer esperança de recuperação. Supõe-se que tenha sido proposta para ser uma oferta que a Grécia não possa aceitar, mas mesmo assim é uma traição grotesca de tudo aquilo que o projecto Europeu deveria simbolizar. 
Será que há alguma coisa que possa puxar a Europa para longe do precipício? Ouve-se dizer que o Mario Draghi está a tentar reintroduzir alguma sanidade, que o Hollande está finalmente a mostrar a resistência ao teatro de moralismo económico alemão que tão evidentemente lhe esteve em falta no passado. Mas muito do dano já foi feito. Quem é que alguma vez poderá voltar a confiar nas boas intenções da Alemanha? 
Num certo sentido, a economia tornou-se um assunto secundário. Mas ainda assim, diga-se que aquilo que aprendemos nestas duas semanas é que ser um membro da zona euro significa que os credores podem destruir a tua economia se não te portares bem. Isto não tem qualquer ligação com as medidas económicas de austeridade que estão em questão. O facto é que, agora como sempre, impor uma austeridade severa sem alívio da dívida é uma medida condenada à partida, independentemente do facto de o país estar ou não estar disposto a acatar essa austeridade. E por sua vez o que isso significa é que mesmo que a Grécia se renda a toda a linha estará à mesma num beco sem saída. 
Será que a Grécia conseguirá sair? Será que a Alemanha vai tentar impedi-la de recuperar? (Peço desculpa, mas neste momento é esse o tipo de perguntas que temos de fazer.) 
O projecto Europeu — um projecto que eu sempre elogiei e defendi — acabou de receber um golpe terrível e talvez fatal. E penses o que pensares do Syriza, ou da Grécia, não foram os Gregos que o desferiram.

Paul Krugman.
Tradução minha

7.11.2015

um poema do Rilke

O Vizinho

Violino desconhecido, acaso persegues-me?
Em quantas cidades é que a tua
Solitária noite falou com a minha?
Tocam-te centenas? Toca-te um só?

Haverá em todas as grandes cidades
Pessoas que, sem ti,
Já se teriam perdido nos rios?
E por que razão é que vens sempre ter comigo?

Por que razão sou eu sempre o vizinho daqueles
Que te aterrorizam até que tu cantes
E digas: A vida é mais pesada
Que o peso de todas as coisas.



R.M. Rilke. em O Livro das Imagens [Das Buch der Bilder]. Tradução minha



Der Nachbar

Fremde Geige, gehst du mir nach?
In wieviel fernen Städten schon sprach
deine einsame Nacht zu meiner?
Spielen dich hunderte? Spielt dich einer?

Giebt es in allen großen Städten
solche, die sich ohne dich
schon in den Flüssen verloren hätten?
Und warum trifft es immer mich?

Warum bin ich immer der Nachbar derer,
die dich bange zwingen zu singen
und zu sagen: Das Leben ist schwerer
als die Schwere von allen Dingen.

7.10.2015

φιλεῖσθαι

αὐτόματα τἀγαθὰ τῷ φιλουμένῳ [γίγονται] καὶ παρὰ θεῶν καὶ παρὰ ἀνθρώπων.

Xenofonte. Hierão.II.5. Tradução minha.

Αs bençãos dos homens e dos deuses chegam espontaneamente a quem é amado.

7.09.2015

Alusões aos poetas

William Empson formulated a crucial principle when he commented on another kind of allusion, that to classical mythology. In ‘The Nymph complaining for the death of her Faun’, Andrew Marvell writes exquisitely:

The brotherless Heliades
Melt in such Amber Teares as these.

Empson’s elucidation has its own beauty in acknowledging Marvell's:
It is tactful, when making an obscure reference, to arrange that the verse shall be intelligible even when the reference is not understood. Thus many conceits are prepared to be treated as subdued conceits, though in themselves they have been fully worked out. Consider as the simplest kind of example
The brotherless Heliades
Melt in such amber tears as these.
(Marvell, The Nymph complaining)
If you have forgotten, as I had myself, who their brother was, and look it up, the poetry will scarcely seem more beautiful; such of the myth as is wanted is implied. It is for reasons of this sort that poetry has so much equilibrium, and is so much less dependent on notes than one would suppose. But something has happened after you have looked up the Heliades; the couplet has been justified. Marvell has claimed to make a classical reference and it has turned out to be all right; this is of importance, because it was only because you had faith in Marvell’s classical references that you felt as you did, that this mode of admir-ing nature seemed witty, sensitive, and cultured. If you had expected, or if you had discovered, that Marvell had made the myth up, the couplet might still be admired but the situation would be different; for instance, you would want the brother to be more relevant to the matter in hand.
Empson imagines responsibly the responsibility of the poet who alludes, and he is at once speculative and precise when it comes to matters of learning. A poem, without being dependent on our knowing certain things, may yet benefit greatly from our doing so. For to say that poetry ‘is so much less dependent on notes than one would suppose’ is not at all to demean that which can be supplied by notes, those necessary evils.

Christopher Ricks. Allusion to the Poets. OUP (2002)

Génesis, do Geoffrey Hill

Génesis

I
Lançando-me contra o ar emproado
Gritei os milagres de Deus.

E primeiro o peso morto
Do mar contra a terra empurrei.
Orei e as ondas abriram em flor,
Os rios geraram areia.

E lá onde os rios salgados se enchem
O salmão rijo e bronco esforçou-se,
Golpeando as águas, contra a corrente,
Para no cume chegar ao repouso.


II
No segundo dia parei e olhei
Para o mergulho afiado da águia-pesqueira,
Que raiava sangue costa fora
Ao exibir a carne viva do tendão.

E no terceiro dia gritei: ‘Atenção
Ao arrulhar da coruja, ao furão sorridente,—
À calculista vénia do falcão,
Olhos frios, e corpos cingidos a aço,
Sempre na presa fincados.'


III
E renunciei no quarto dia,
A esta feroz e obstinada argila,
Ao construir em mito imenso à raça humana
O aquático Leviathã,

E fiz com que albatroz de asa enorme
Limpasse ao mar as cinzas
Onde Zero se cruza a Capricórnio,
Uma imortalidade pensativa —
Tal como a que tem a fénix assombrosa
Na árvore imarcescível.


IV
A fénix arde fria como a geada
E, como um fantasma das histórias,
A ave-espectral dá em louca e desvaira
Arremessada pelo oceano à toa.

Então no quinto dia eu de novo avancei
Para a carne e para o sangue e para a dor do sangue.


V
No sexto dia enquanto me apressava
A cavalgar pelas obras de Deus,
Com esporas colhi o sangue do cavalo.

Pelo sangue vivemos, o frio, o quente,
Para despojar e redimir o mundo:
Não há mito exangue que aguente.

E pelo sangue de Christo podem-se os homens libertar
Mesmo que os seus corpos jazam em sudários rentes
Sob o couro áspero do mar;

Mesmo tendo a Terra feito do seu peso embrulho
Aos ossos que não aguentam a luz.



Geoffrey Hill. Tradução minha.



Genesis

I
Against the burly air I strode
Crying the miracles of God.

And first I brought the sea to bear
Upon the dead weight of the land;
And the waves flourished at my prayer,
The rivers spawned their sand.

And where the streams were salt and full
The tough pig-headed salmon strove,
Ramming the ebb, in the tide’s pull,
To reach the steady hills above.


II
The second day I stood and saw
The osprey plunge with triggered claw,
Feathering blood along the shore,
To lay the living sinew bare.

And the third day I cried: ‘Beware
The soft-voice owl, the ferret’s smile,—
The hawk’s deliberate stoop in air,
Cold eyes, and bodies hooped in steel,
Forever bent upon the kill.’


III
And I renounced on the fourth day,
This fierce and unregenerate clay,
Building as a huge myth for man
The watery Leviathan,

And made the long-winged albatross
Scour the ashes of the sea
Where Capricorn and Zero cross,
A brooding immortality —
Such as the charmed phoenix has
In the unwithering tree.


IV
The phoenix burns as cold as frost;
And, like a legendary ghost,
The phantom-bird goes wild and lost,
Upon a pointless ocean tossed.

So, the fifth day, I turned again
To flesh and blood and the blood’s pain.


V
On the sixth day, as I rode
In haste about the works of God,
With spurs I plucked the horse’s blood.

By blood we live, the hot, the cold,
To ravage and redeem the world:
There is no bloodless myth will hold.

And by Christ’s blood are men made free
Though in close shrouds their bodies lie
Under the rough pelt of the sea;

Though Earth has rolled beneath her weight
The bones that cannot bear the light.

7.05.2015

um poema do Cavafis para o referendo grego

Che fece ... il gran rifiuto

A algumas pessoas acontece que um dia
têm o grande Sim e o grande Não
e é preciso de dizer um deles. Reconhece-se imediatamente aquele
que está pronto para o Sim, e que ao pronunciá-lo dá um

passo adiante na sua honra e na sua convicção.
Mas aquele que negou não se arrepende. Se lhe voltassem a perguntar,
voltaria a dizer não. Continuará a ser moldado
pelo seu não — tão acertado — durante toda a sua vida.

Constandinos Cavafis. Tradução minha

Σε μερικούς ανθρώπους έρχεται μια μέρα
που πρέπει το μεγάλο Ναι ή το μεγάλο το Όχι
να πούνε. Φανερώνεται αμέσως όποιος τόχει
έτοιμο μέσα του το Ναι, και λέγοντάς το πέρα

πηγαίνει στην τιμή και στην πεποίθησί του.
Ο αρνηθείς δεν μετανοιώνει. Aν ρωτιούνταν πάλι,
όχι θα ξαναέλεγε. Κι όμως τον καταβάλλει
εκείνο τ’ όχι — το σωστό —  εις όλην την ζωή του.

Aufklärung

Athen will eben immer wieder neu aus Alexandrien zurückerobert sein.

Atenas precisa de estar sempre a ser reconquistada de novo a Alexandria.

Aby Warburg, numa carta a T.S. Eliot.Tradução minha