11.30.2016

Geoffrey Hill in memoriam // a poem

Days and times of days have gone,
You interrogate, interrogate,
Then curl your fingers down the locks
Of power, of recited words, of force.

Your voice, your ring, your link,
To me. When you speak you string
The chords and cuts of Gungnir, you string
Them up. You hallow torts and twist Andenken.

Yet we pray for princes, we praise
All prayer, and we protest and burn.
You want it back? You want Saturn's
Golden scythe guillotining optimates?

Good luck. Good speech! Good Lord,
If I have to hear another word,
I swear I will just do it all myself,
I swear I will just say it all myself —

The fruit of mercy rolls unsteady
Down the tongue, rashing
Regret, down by Amnon's
Known outrage — We are ready,

So let us sit. And let us now break bread,
Slice it cuneiform. I know you want to say,
If peace is at all possible, then we must engage,
Win and lose at once. If only I could get a gett

From all the tripe of Jewish Christianity.
Yet God is the husband,
And we'd be husbandry. Grab him by the wrists.
Fight him again. Get your damn name back — Hinneni.

11.15.2016

contra tyrannos


Of the personality as a mask;
of character as self-founded, self-founding;
and of the sacredness of the person.

Of licence and exorbitance, of scheme
and fidelity; of custom and want of custom;
of dissimulation; of envy

and detraction. Of bare preservation,
of obligation to mutual love;
and of our covenants with language

contra tyrannos.


Sobre a personalidade como uma máscara;
sobre o carácter como auto-fundado, auto-fundador;
e sobre a sacralidade da pessoa.

Sobre a licença e a exorbitância, sobre esquema
e fidelidade; sobre hábito e falta de hábito;
sobre a dissimulação; sobre a inveja

e a detracção. Sobre a nua preservação,
sobre a obrigação ao amor mútuo;
e sobre as nossas alianças com a linguagem

contra tyrannos.


Geoffrey Hill. Scenes from Comus. Penguin: 2005. (Tradução minha.)


Neste texto, verossimilmente a abertura mais arriscada e exposta dum livro de poesia que jamais li, voltamos ao modo épico - frontalmente opondo-se ao coro demótico de Speech! Speech! que denunciava "heroic verse a non-starter, says PEOPLE". (Haverá invocação? Numa República que se queira de seres humanos a esperança posta em deuses é a maior das traições, é a farça na tragédia.) O propósito é o mesmo, porém, que em Speech! Speech!, como aliás talvez seja sempre o propósito em toda a poesia do Geoffrey Hill, principalmente naquela que achamos após a 'derrocada' que lhe cinde a obra em dois: Denunciar todo o falar rendido, traidor, através da honestidade cáustica que é o direito e a licença da poesia, comburir as simplificações e lugares comuns que que faz a própria voz pública metamorfosear-se em tyrannia cíclica ("language / is the energy of decaying sense; / that sense in this sense means sensus communis"), isto é, o new-speech que nos ocupa refolgadamente e que nos rouba da aliança entre dignidade humana e palavra, desolando ambas uno ictu. A rememoração do Auden, que em September 1939 assume a mesma missão ("All I have is a voice / to undo the folded lie, / The romantic lie in the brain / Of the sensual man in the street"), rememoração essa do famoso verso famosamente mudado ("We most love one another or die", aqui mudado em "obligation to mutal love"), revela que o Hill seguirá os vestígios desse outro guerrilheiro da honestidade incondicional. Auden creu naqueles instantes em que "o justos trocam as suas mensagens". O Hill acredita também que nem toda a palavra está já podre. "Common sense bids me add: not / all language", ousará ele poucos poemas adelante.

Mas condenara esse exacto senso comum linha apenas uma acima: Será esta expectativa assente apenas em mais uma mentira, uma esperança plantada, uma distração? Será a poesia um isco para poetas e seus leitores se iludirem, como acontece com a personagem de 1984, pensando que estão a lutar e a fazer a revolução? Há versos como "That this is no reason for us to despair. The tragedy of things is not conclusive; rather, one by which the spirit moves. That it moves in circles need not detain us." que nos trespassam da convicção de que todo o cerco montado a esta estirpe de prophecia - que é a mesma da de Amós, da de Jeremias -, não fará outra coisa que torná-la mais perigosa por isso. Esta é a arma, a única talvez que não seja devorada ou contagiável, para restituir a rem publicam: ope vocis, contra tyrannos.


Marvel at our contrary orbits. Mine
salutes yours, whenever we pass or corss,

which may be now, might very well be now.


(texto de 2012)

11.03.2016

Mahmoud Darwish & Paul Celan

أأنا أنا؟
أأنا هنالك ... أنا هنا؟
في كل "أنت" أنا,
أنا أنت المخاطب, ليس منفى
أن أكونك. ليس منفى
أن تكون أناي أنت. وليس منفى
أن يكون البحر والصحراء
أغنية المسافر للمسافر:
لن أعود, كما ذهبت,
ولن أعود ... ولو لماما

Mahmoud Darwish
(do poema قال الُسافر للمسافر - لن تعود كما, "Um viajante disse a outro: Não regressaremos como...")

Am I me?
Am I there . . . or here?
In each "You" — I.
I am you, the second person. It is no exile
for me to be you. It is no exile
for my I to be you. And it is no exile
If the sea and the desert
are a song from traveller to traveller.
I will not return as I went.
I will not return, no, not even in secret.

Schwärzer im Schwarz, bin ich nackter.
Abtrünnig erst bin ich treu.
Ich bin du, wenn ich ich bin.

Paul Celan
(do poema Lob der Ferne, "Elogio da Distância")

Blacker in black, I am more naked.
In betrayal alone can I keep faith.
I am you when I am I.

Traduções minhas.