1.29.2011

Revolt of the Elites

Embora todo o artigo valha a pena, a última parte, por não se focar na realidade Norte-Americana, é de particular nota.

Tradução do provençal

A tradução é cantabile, tanto métrica como fonèticamente.




Can vei la lauzeta mover
De joi sas alas contral rai,
Que s'oblid' e.s laissa chazer
Per la doussor c'al cor li vai,
Ai tan grans enveya m'en ve
De cui qu'eu veya jauzion,
Meravilhas ai, car desse
Lo cor de dezirer no.m fon.

Ai, las tan cuidava saber
D'amor, e tan petit en sai,
Car eu d'amar no.m posc tener
Celeis don ja pro non aurai.
Tout m'a mo cor, e tout m'a me,
E se mezeis e tot lo mon!
E can se.m tolc, no.m laisset re
Mas dezirer e cor volon.



Quand'a cotovia vejo mover
Joiosa as asas contró sol
Alhei-à si y-ópois caída
Pela doçura que lhao peito sób
Ai que grand inveja me vem
Daquele que-eu vejo contente.
Maravilhǽ que disso
Não arda o cor de desejar.

Ai, muit eu julgava saber
Damor, mas tão pouc eu sei
Que qüand amo comagarrarei
Quela q'eu jamais havrei.
Tôd meu peitº'tem, y-a mente
E tem-m'a mim, e tudoo meu.
E ao levar, leixa el nada
Q'o desejar, y-o peit a qrer.


Vou traduzir isto tudo para ver se a Cotovia mo publica por razões de afinidade taxonómica.

1.28.2011

O Bigode de Nietzsche



We could speak about the meaning of life vis-à-vis nonconsequential/deontological theories, apodictic transformation schemata, the incoherence of exemplification, metaphysical realism, cartesian interactive dualism, revised non-reductive dualism, postmodernist grammatology and dicey dichotomies. But we would still be left with NIETZSCHE'S preposterous MUSTACHE, which instills GREAT Anguish and SKEPTICISM in the BRAIN, which LEADS (as it did in his case) to utter MADNESS. I suggest we go to Paris instead.

Prelude to Objects

I
If he will be heaven after death,
If, while he lives, he hears himself
Sounded in music, if the sun,
Stormer, is the color of a self
As certainly as night is the color
Of a self, if, without sentiment,
He is what he hears and sees and if,
Without pathos, he feels what he hears
And sees, being nothing otherwise,
Having nothing otherwise, he has not
To go to the Louvre to behold himself.

Granted each picture is a glass,
That the walls are mirrors multiplied,
That the marbles are gluey pastiches, the stairs
The sweep of an impossible elegance,
And the notorious views from the windows
Wax wasted, monarchies beyond
The S.S. Normandie, granted
One is always seeing and feeling oneself,
That's not by chance. It comes to this:
That the guerilla I should be booked
And bound. Its nigger mystics should change
Foolscap for wigs. Academies
As of a tragic science should rise.

II
Poet, patting more nonsense foamed
From the sea, conceive for the courts
Of these academies, the divine health
Disclosed in common forms. Set up
The rugged black, the image. Design
The touch. Fix quiet. Take the place
Of parents, lewdest of ancestors.
We are conceived in your conceits.


Wallace Stevens, The Collected Poems. Vintage Books: 1990.

1.27.2011

השואה

Necessariamente hesito. Escrever um post, um mero post a lembrar o Dia Internacional de Recordação da Shoah corre o risco de ser demasiado menos, demasiado pouco, e de se transformar num exercício de futilidade narcisística. O que é que exactamente pretendo fazer, posso pretender fazer? Lembrar? Mas lembrar não implica que nos possamos esquecer, pior, que possamos já ter esquecido? Como posso sequer tomar uma acção que implique que tal atrocidade já possa ter sido esquecida? Aceitar o esquecimento como legítimo, talvez até justo, não é isso que faço ao lembrar? Honrar? Mas quem? Prevenir o futuro, um futuro que pareço crer possível de recriar a barbárie? Mera consolação pessoal, como quem manda um desejo de feliz aniversário, a marcar uma data no calendário? É um labirinto onde a morte não está apenas no centro mas sim cujas próprias paredes são a morte. E isto é nada. 

Notas sobre a Academia

Todos os temas têm recebido pouca atenção apesar da conjectura história muito necessitar que se discutam,  todas as obras dos grandes autores practicamente não têm recebido nenhuma atenção em comparação com todas as outras, e todos os autores são uma das maiores autoridades [sic] dos seus respectivos campos.

1.26.2011

este blog é alimentado à base de Geoffrey Hill

[Q] Do you have strong feelings about the function of art and poetry, or do you feel that when we look to art for consolation, sublimation or transcendence we should remain sceptical about its value?

[A] What is wrong with accepting both parts of that proposition? To succeed totally in finding consolation in art would be to enter a prelapsarian kingdom. Father Chirstopher Devlin has a very fine phrase to define the themes of Hopkins's sermons -- "the lost kingdom of innocence and original justice", which is a lovely resonant phrase; and without in any way aligning myself hubristically with Hopkins, I would want to avail myself of Devlin's phrase, because I think there's a real sense in which every fine and moving poem bears witness to this lost kingdom of innocence and original justice. In handling the English language the poet makes an act of recognition that etymology is history. The history of the creation and the debasement of words is a paradigm of the loss of the kingdom of innocence and orignal justice.

roubado daqui

1.25.2011

Uma Seta de Fogo

Formosura Que Excedeis!

   Formusura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
   Oh, laço que assim juntais
duas coisas tão díspares!
não sei porquê vos soltais,
pois atado força dais
pra ter por bem os pesares.
   Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar acabais,
e sem ter que amar amais,
engrandeceis vosso nada.


¡Oh hermosura que excedéis!

   ¡Oh hermosura que excedéis
a todas las hermosuras!
Sin herir, dolor hacéis,
y sin dolor deshacéis
el amor de las criaturas.
    ¡Oh ñudo que ansí juntáis
dos cosas tan desiguales,
no sé por qué os desatáis,
pues atado fuerza dais
a tener por bien los males!
   Juntáis quien no tiene ser
con el Ser que no se acaba;
sin acabar acabáis,
sin tener que amar amáis,
engrandecéis vuestra nada.

Santa Teresa de Ávila. Seta de Fogo - 22 poemas (José Bento, trad). Assírio & Alvim: 2011.


Ao colar o texto original deste poema, resolvi procurar online para não ter de o transcrever por completo, e depois comparei as duas edições para estabelecê-lo pela edição da A&A. Até aqui nada de novo. Porém: não terá escapado ao leitor do poema que, por bom que o poema seja, não se justificaria se não fosse pela absolutamente brilhante última estrofe. O ser mortal com o Ser divino, a unificação de um com o outro; a redução de Deus (cf: Isaac Luria) pela pedra de toque do ser já reduzido dos mortais, conciliado com a negação do amor (ou, melhor dizendo, o amor negativo) da tradição mística, culminando tudo no paradoxo da glorificação do nada: "engrandecéis vuestra nada": um vazio glorioso (Ein Sof), glorificado pela memória do antigo deus evanescido. Tudo isto é maravilhoso: mas há muitas edições (algo que qualquer pessoa pode comprovar) que reduzem a maravilha do última verso a um "nuestro nada". O Nada de Deus é desintegrado na visão tradicional do Nada do humano: a visão do Ecclesiastes etc, que por humana que seja, porquanto transforma o humano na inconsequencialidade cósmica à qual apenas o Divino pode dar razão e justificação, não só translada o poema para a esfera do pensamento religioso 'tradicional', como também coloca a teologia negativa à mercê das consequências destructivas da morte de Deus, ao invés de, indo ao encontro dessa morte, florescer.

1.18.2011

Tom Waits a ler Bukowski



the taughing heart
Charles Bukowski

your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.

1.13.2011

of itself / The Soul should stand in Awe—

The Soul unto itself
Is an imperial friend—
Or the most agonizing Spy—
An Enemy—could send—

Secure against its own—
No treason it can fear—
Itself—its Sovereign—of itself
The Soul should stand in Awe—

Emily Dickinson

1.12.2011

Zizek, Wikileaks, e Álvaro Cunhal.

Zizek, Wikileaks, e Álvaro Cunhal.

Os cabalistas cá da terra


Castro Daire é a terra de Isaac Aboad da Fonseca que aqui nasceu em 1605. Foi filho de David Aboad e de Isabel da Fonseca, bisneto do gaon de Castela que deixara a Espanha em 1492 e procurara refúgio em Portugal, na cidade do Porto. E nesta cidade, na Rua de S. Miguel, vive com a família, mediante um pagamento ao rei de 50 maravedis. Os seus pais, cristãos novos mas judaizantes, mudaram-se para Castro Daire que abandonaram quando Isaac Aboad tinha apenas 6 ou 7 anos de idade. Em 1612 a família instala-se em Amsterdão onde o filho mais ovo estuda o Talmud com Uriel da Costa, tendo como colega e companheiro Menasseh ben Israel, filho de pais portugueses,oriundos da ilha da Madeira. Isaac Aboad da Fonseca, com apenas trinta e um anos, é nomeado hakham da Congregação Beth Israel de Amsterdão e em 1638 é o judeu mais novo da Talmud Tora. Em 1641 vai para o Recife como Rabi e acompanha o ensino dos jovens na escola da Sinagoga.

De regresso à Holanda, Aboad da Fonseca, com o seu pendor místico, traduz obras cabalísticas do espanhol para o português e em 1665 impulsiona o movimento de apoio ao falso Messias, Sabbatai Zevi. Grande comentador do Pentateuco, autor de várias elegias fúnebres, o seu nome é uma referência na literatura sagrada dos judeus. No Brasil, foi amigo de Padre António Vieira que muito apreciava a sua vasta erudição.

Isabel Monteiro, a quem muito me gabo posso chamar avó, Os Judeus na Região de Viseu. Região de Turismo Dão Lafões: 1997.

a isto acrescento:

In 1642, Aboab da Fonseca was appointed rabbi at Kahal Zur Israel Synagogue in the Dutch colony of Pernambuco (Recife), Brazil. [...] By becoming the rabbi of the community, Aboab da Fonseca was the first appointed rabbi of the Americas. [...] Members of his community immigrated to North America and were among the founders of New York City. Back in Amsterdam, Aboab da Fonseca was appointed chief rabbi for the Sephardic community. In 1656, he was one of several scholars who excommunicated the famous philosopher Baruch Spinoza. Fonte.




Naturalmente, não há absolutamente nada cá em Castro Daire a apontar a vida deste homem, nem nada que lhe reclame a herança. Tropecei nele unicamente devido ao livro.

1.08.2011

To make the Ancients Speak

Para amar a Antiguidade é preciso tratar os antigos como amigos. Não como relíquias sarcofagizadas nos seus túmulos de métrica, nem como meras curiosidades cujos pormenores it just so happens alguns idiotas academicamente úteis resolveram fazer copy-paste para as suas obras, as quais posso portanto agora estudar (ou: no jargão, posso 'estudar a recepção'). Como amigos amá-los-ei mesmo enquanto discordo deles na mais profunda das nossas cisões, e o concordar não me dará a satisfação bajuladora, mas sim a satisfação agitada de haver mais um degrau fime onde possamos desenvolver alguma estória. Dão-me prendas, tantas, portanto que mais posso eu fazer se não dar-lhes também eu as prendas que os séculos lhes foram compondo e adiando. A vantagem desta estranha filologia em relação à, say, Filosofia, mostraram-no os grandes exemplos culturais, é o laço não jazer num amor da sabedoria deferida mas sim num amor mais histórico, ou tanatológico, o laço é então a própria sabedoria dum amor condenado. É uma declaração de aliança com os mortos que morreram bem, sem esperança nem arco-íris, irrequieta com o que o futuro poderá destruir do passado.
O patriotismo da Grécia é o patriotismo da guerra civil.

Love. I,

Percepções duas me perturbam. Um: isso de haver tanta palavra, tanto pensamento, tanto mundo fora de mim; isso, digamos, a monstruosidade disso, a quantidade leviatânica alquando concebida por alguém- Que significa? Que de articular me defrustro? Assim como eu me esvaio em pensar, e do pouco sangrar esse algum transmorfo em verbo; assim também todos os outros pelos séculos mortos dos séculos. Mais que eu penso, pensam todos. Não à qualidade: A Quantidade. É por aí, pelo confronto com o tanto.

Isso é terrivelmente ético. A Grécia falou assim: anagnarósisreconhecimento. que acontece no momento de mudança da fortuna do herói. Isto: no momento em que reconhecemos naquele estranho o nosso irmão, nesse segundo devemos somos levados -a bem ou a mal, ça veut dire dans l'enthousiasme- somos convencidos da certeza da bondade desta destruição: Édipo é ainda bem destruído. deve igualmodo morrer a Antígona Sua. Seja! Aceitar a destruição, amar a aniquilação. Mas a minha? Não [esta é Segunda]: aceitar a das palavras essas todas.

Escondidas nas palavras, mascaradas de palavras, há outras palavras: por detrás dos ditos há a memória, a infância, profundamente ainda mais: a desgraça absolutamente individual que religiosamente se poderia talvez em tempos dizer merecer caridade mas hoje tem de merecer o Sim piedoso e destruidor: como o imperador que manda matar, é esse o Sim que tem de ser dado às lágrimas de todo o Tempo. Poderia não o fazer: mas ressuscitaria ele, teria ele o poder da ressurreição? Não: tê-lo-ias tu?

Então não o condenes: não te condenes. Mais do que eu já te tenho de condenar às tuas lágrimas, e tu às minhas inditas palavras. Que pode a política? Esconder as lágrimas sob a máscara da felicidade. A honestidade? Aquela honestidade que as palavras únicas infazem? O olhar de compaixão no rosto da humanidade eterna? Qual é o rosto da caveira?

Como Cícero de todos os mortos que nunca o saberiam: Assim: como fazer de todas as palavras já ditas apagadas? Isto nada de nada tem de ético: é invejǒssocrático: é uma experiência comparável à de Longino: ver o morto deus e sentir-se longe: um número tão desaritmético de ideias, de profundos pessoais pensamentos porventura desprezíveis. Esta quadra é a mística imanente possível. Esta quadra resume aquele dever-eu-ser que sinto que devo genesthai oios eimi mathon. Contra esta quadra talvez eu seja anti-trágico. Seja< Por agora)

I have learned one thing: not to look down
So much upon the damned. They, in their sphere,
Harmonize strangely with the divine
Love. I, in mine, celebrate their threnody.
A Grécia é um espondeu.

1.05.2011

Jerusalém

Jerusalém:

Em hebraico diz-se יְרוּשָׁלַיִם, isto é Yerushalayim.

Em grego transliterou-se em Ἱερουσαλήμ, isto é Hierousalém. Pergunto-me, mas nos meus parcos conhecimentos filológicos não posso ter resposta, mesmo se me parece muito provável, se o jogo de palavras com o termo grego ἱερός/hierós (santo) era comum.

Em latim por sua vez transliterou-se em Hierusalem.

O adjectivo português relativo à cidade é portanto hierosolomitano.

Mas o nome da cidade transforma-se naturalmente: a aspiração (H) deixa de ser pronunciada, e o I transforma-se em J:

Jerusalém.

Em Ceres anoitece.

Em Ceres anoitece.

Em Ceres anoitece.
Nos píncaros ainda
      Faz luz.
Sinto-me tão grande
Nesta hora solene
      E vã
Que, assim como há deuses
Dos campos, das flores
      Das searas,
Agora eu quisera
Que um deus existisse
      De mim.


Ricardo Reis

1.03.2011

a sésame dita por acaso

"[...] a inspiração — segredo que ninguém falou, a sésame dita por acaso, o eco em nós do encantamento distante."

Fernando Pessoa. Na apresentação da revista Athena.


Mais aqui.

1.02.2011

das minhas notas

o esplendor é dispensado por um deus
o esplendor é mística
o espendor é poesia
(assumindo que há algo de verdade nesta verdade)
curiosamente
falar de paul celan
píndaro diz "alla"

1.01.2011

Este post lembrou-me o comentário de como a literatura e as artes floresceram em Atenas particularmente enquanto a Guerra do Peloponeso devastava a Grécia, ou como Cícero levou a retórica ao que de mais sublime ela vai mesmo nos anos sangrentos do fim da república. Portantes. Literatura portuguesa, não me desiludas!

Go Away, I'm Reading

João Barrento, you da man


Hoje acordei a pensar que o João Barrento é provavelmente dos portugueses mais fixes que existem.