9.30.2009

Ler Latim



Qualquer aluno de Clássicas poderá dizer que ler as línguas Latim e Grego oferece uma miríade de problemas, já para não falar em escrevê-las, comparativamente com outras como o Inglês, Francês, Italiano, etc. Há várias razões para essa disparidade de facilidades (omnipresença do Inglês, semelhanças com outras línguas Romances, etc), mas aqui focar-me-ia em duas. A primeira é a diferença abismal na aproximação passível de ser feita à língua: enquanto o Latim e o Grego exprimem a gramática em grande parte através de flexão verbal e nominal, uma grande parte das línguas modernas substituiu esse sistema por outros em que o sentido da frase é derivado da posição da palavra na frase. Portanto enquanto em português uma frase como "A raposa come a galinha" nunca poderia ser entendida como "A galinha come a raposa", em Latim "Vulpes (raposa) edit (come) pullum (a galinha)" poderia ser organizada numa série de combinações diferentes (vulpes pullum edit, pullum edit vulpes, etc) sem que o sentido da frase seja comprometido. Nisto não à volta a dar, mas a dificuldade de assimilar aquilo que é um aparato tão basilar da língua acaba por ser um dos grandes obstáculos que eu e vários outros enfrentamos.

O outro é o problema do do vocabulário. O tipo de textos lidos e a retenção de palavras fornam um círculo vicioso: não consigo ler textos em extensão porque tenho permanentemente de andar à procura no dicionário, tenho de andar sempre à procura no dicionário porque não consigo ler em extensão e assimilar mentalmente as palavras novas. Va bene, mas muitas vezes não se sai disto. A mim fez milagres um certo livro, os dois volumes da Lingua Latina Per Se Illustrata, que ensinam Latim através duma apresentação gradual do vocabulário, sem  inclusão de línguas "bárbaras" (ie: só há Latim), e que torna (em grande parte) desnecessária a consulta do dicionário. Devo dizer que se o meu Latim está a anos-luz do meu fraquíssimo Grego, é a conta aqui do mister Orberg. Seja como for, há outros utensílios. Por exemplo, o dicionário que por uma larga margem mais frequentemente uso é o Whitaker's Words (versão para download aqui). Não é completo, apesar de ser muito extenso, mas para acelerar a leitura e poupar-me o folhear dum calhamaço de duas mil-ou-quê páginas se não me lembro do que significa um certo advérbio é excelente (além de que tem um, rudimentar, tradutor Latim-Inglês). Claro que por vezes inevitavelmente volta e meia lá saco do Oxford's Latin, mas isso acaba por ser para casos de dúvidas mais complexas do que para problemas didácticos ou esclarecimentos.

E é por isso que achei bastante curioso o anúncio no Latinteach deste site, NoDictionaries, que não faz mais que associar o Whitaker a textos clássicos, mostrando mais ou menos informação conforme se queira, e com a possibilidade de lá colocar outros e ter o mesmo tipo de análise. Ao menos cumpre uma tarefa: torna a leitura mais rápida, e portanto mais fluída, e as interrupções à leitura em extensão diminuir-se-ão (o que  só pode ser bom). Estou decidido a pegar-lhe na próxima vez que me lançar àquele tipo de poesia que por vezes mais parece catálogos de botânica.

Godhead





Godhead


How did we manage to drink up the sea? Who gave us the sponge
to wipe away the horizon? What did we do, when we unchained
this earth from its sun?


Father


I am the dreams you can not have, the crimes
that smuggled words beyond the watershed,
and scripture uttered hiding laity signs
to undermine the young until they're led
to search for lesser feats than parting seas.
I am the gate that keeps the tide at bay—
made dauntless rain that undisputed cleaves
through temples and the unforgiven clay.
So make me yours: trust my fiat will give
you power over throat and gun, a bliss
of everything, and whispers that deceive
away from worlds and from their nothingness.
I, shadow of the shadows you’ve become;
the link that keeps your star aside the sun.


Son


Start by asking for company. Memorize the names.
Your hand protean and our roaring world shames
soldiers into wells of words, cattle into bags of swords
and blue-blood flasks that tinkle into meniality. You
have the burden to return, and change submissive chests
into an accolade of songs, liberty into a child that longs
for home but sails alone and willingly,
and cracks the bones of fiends in ornament,
in mantles and in memories, in individual violet; and the death
that sticks you so away that your voice enfeebles, and keeps
the news afar that the wind is random, that the lees
are human and transmutation maturation only.


Holy Ghost


skin neath red light, godfright, fistfight
deitying we lay and if we keep it this way
we might just climb up all the way there to a jealous holy,
a sinking folly of fasting and fast prayer, of layer upon layer
of cicatrices taken for relic wood, sepulchral food and monuments that indent the sky,
rye cathedrals of cartilage, spit-drenched mithraistic mysteries,
statues of fat apostles that all their life kept from their poultry's view
that they knew all about when flesh
and marble mesh

Keats





Four seasons fill the measure of the year;
   There are four seasons in the mind of man:     
He has his lusty Spring, when fancy clear
   Takes in all beauty with an easy span:
He has his Summer, when luxuriously
    Spring's honey'd cud of youthful thought he loves
To ruminate, and by such dreaming high
    Is nearest unto heaven: quiet coves
His soul has in its Autumn, when his wings
    He furleth close; contented so to look
On mists in idleness- to let fair things
     Pass by unheeded as a threshold brook.
He has his Winter too of pale misfeature,
    Or else he would forego his mortal nature.

John Keats.

Ao comentar com alguém, pouco tempo depois de terminar a leitura de À Sombra das Raparigas em Flor, que Em Busca do Tempo Perdido seria talvez o único livro a que ao deleite mental e intelectual da leitura se associava um deleite verdadeiramente físico, que como se Proust tivesse a capacidade de conjurar as descrições pelas páginas fora e trazê-las lado a lado para que cercassem os ouvidos, as narinas, a pele dos leitores, disse-me essa pessoa que concordava; e que conhecia apenas um outro autor com o qual tal o mesmo acontecesse. Eu já antes me tinha lançado em leituras de Keats — uma de memóriaa fora quando, numa exposição de obras clássicas no Porto (não me lembro do nome do Museu) – estava citada na íntegra a Ode on a Grecian Urn, aquele belíssimo louvor da ofuscação, e cujos versos, por meio das suas outras virtudes, heard melodies are sweet, but those unheard / are sweeter permanecem dos meus favoritos alguma vez escritos — mas apenas após repto desta pessoa para que eu me despachasse a acabar o Proust para tratar de "educate yourself in the literary tradition you purport to write poetry in", soube que era uma questão de tempo até pegar nisto a sério. Bem, ainda não acabei o monsieur Proust, mas peguei numa edição da Poesia de Keats, e lancei-me a sério. E ainda bem que o fiz. Penso que vai custar não continuar a volta-e-meia colar poemas dele aqui.

9.29.2009

Don Carlos

FILIPE
É verdade que fui traído?
LERMA (chocado) 
Majestade 
FILIPE (amargo e irónico)
Majestade, Majestade e de novo Majestade!
Será que não há resposta que me chegue
aos ouvidos que não seja só o eco vazio de quem sou?
Bato na pedra para obter água, compreendeis?
Água para saciar a minha sede febril.
E a pedra em vez de água dá-me ouro,
ouro e mais ouro!


Friedrich Schiller, Don Carlos, recriação poética de Frederico Loureço, Livros Cotovia

Hamlet e a Justiça




Muito embora não seja de esperar aqui um longo ensaio discutindo a famosa peça. Trago em vez disso este link, em que, apesar de já velhino as far as the internet goes, se decide avançar a cena uns 400 anos e julgar Hamlet pelos homicídios. O mais semelhante a isto que me lembro é God on Trial. O giro teria sido também terem gravado o julgamento aqui do príncipe.

9.24.2009

Gregos Modernos em Tradução



Um dos erros embaraçosos mais positivos é aquele causado por uma indignação em defesa de alguma coisa, quando depressa se descobre que a causa dessa indignação não tem razão de ser, e muito pelo contrário é desrespeitosa para louváveis esforços de outrém: quando isso acontece não só razão da indignação se desfaz, como além disso temos o benefício de ver à nossa frente que a realidade da situação é melhor do que se poderia pensar. Escrevo isto no seguimento dum e-mail que recebi a propósito do post sobre Kazantzakis. Escreveu-me Hugo Santos:
"há uma tradução de Yorgos Seferis, publicada pela Relógio D’Água, em tradução de Joaquim Manuel Magalhães, que também traduziu os Poemas de Kavafis, refundição e ampliação de uma tradução anterior, na mesma casa editorial. De Odisséas Elytis, há Louvada Seja, pela Assírio & Alvim, em tradução de Manuel de Resende. De Yannis Ritsos, ou Guiannis Ritsos, como também surge, há uma antologia da Fora do Texto, Antologia, em tradução de Custódio Magueijo. Há, ainda, alguns títulos, integrados nos livrinhos publicados, a propósito dos Encontros da Casa de Mateus: Sombras Oblíquas, de  Demosthenes Agraphiotis, e A Outra Versão, de Rasos Denegris."
Como disse, dessa tradução de Kavafis estava a par, mas nenhuma livraria de Coimbra a tinha em stock. Das outras admito que era infelizmente ignorante: na altura procurei e perguntei, e as respostas foram sempre negativas; portanto agradeço ao Hugo Santos, e tiro o meu chapéu mais uma vez à Relógio D'Água, à Assírio & Alvim, e à Fora do Texto, com as minhas desculpas pelo erro.

Mas continua a faltar o Kazantzakis!

Hegel e a Fenomenologia



"Explicitly, [the Phenomenology of the Spirit] is an exercise in Wissenschaft or "Science", a journey to "the Absolute", but both "Science" and "the Absolute" are little more than obligatory bows to the internal politics of academic professionalism. Not that Hegel didn't indulge in that: the Phenomenology is Hegel's late attempt to enter the philosophical lists of German Idealism, to prove his originality and independence from Schelling and the Romantics, to prove that, at the age of thirty-six, he was capable of something more than academic reviews of his contemporaries. He also pursued the philosophies of Aristotle and Kant, Fichte and Schelling, Spinoza and the pre-Socratics, helped to develop what has since been canonized as "dialectic", (invented by the Greek philosophers and renewed by Kant and Fiche), and tried to portray his philosophy as "Science" -- when what he proved was that philosophy is an art."

Robert Solomon, In the Spirit of Hegel


Folheei o ebook deste excelente comentário, lembrei-me, sei lá porquê, e reli as duas introduções. Fiquei com saudades de estar de novo às voltas com o Hegel, com esse tortuoso, delinquente, excruciantemente brilhante Hegel. Mas alas, não trouxe a minha tradução da Fenomenologia. E mesmo que começasse a ler online, não tenho neste momento tempo nem fôlego para me lançar a esse texto maravilhoso. Mas que deixa vontade deixa, e que ficam saudades ficam. Que raio de livro de filosofia é que tem este efeito?

9.23.2009

Odisseia – Não, a outra



Foi um amigo meu grego que pela primeira vez me falou de Kavafy, mas só anos mais tarde o li, muito embora a completa dificuldade em encontrá-lo traduzido (entre ir a Lisboa comprar uma edição preferi optar pela Amazon. Não sou economicamente patriota) me tenha acordado para uma realidade maior e mais tenebrosa: o número quase raso das traduções presentes de escritores gregos contemporâneos em português. Cafavy ainda fui encontrando (apesar de nenhuma livraria em Coimbra o ter em stock), mas e Seferis? Odysseas Elytis? E isto sem sair dos tipos que ganharam o Nobel, minha gente! Não creio que não exista nenhuma tradução. Mas as traduções que eventualmente existam são por certo insuficientes e difíceis de encontrar. E na boa tradição empirista anglo-saxónica, o que não vejo não existe.

Mas mais que a deles, incomoda-me a ausência de Nikolas Kazantzakis (este não teve Nobel nenhum), apesar de nunca ter lido nenhum dos seus romances(working on it). Mas li partes da sua obra magistral, uma Odisseia, traduzida para Inglês como "The Odyssey: A Modern Sequel", em que Kazantzakis narra o que acontece a Ulisses -- numa sequência quase se não mesmo imediata à Odisseia antiga, como se fosse possível colar os dois poemas juntos -- depois da chegada a Ítaca, numa trama relativamente semelhante ao Ulisses de Tennyson, cuja proposição e invocação penso poder afirmar sem erros de maior serem talvez as melhores alguma vez produzidas para um épico. Quanto ao resto da epopeia ainda não sei, estou a ler aos poucos, mas se a qualidade se manter... (e é grande- a sério: 33.333 linhas. para referência, é apenas ligeiramente menor que o Orlando Furioso, 38k; enquanto as nossas bem amadas Ilíada e Odisseia sem ficam à volta das 14k).

Without further ado, o primeiro canto, ou Prólogo, na versão inglesa, que é o que teremos até alguém o verter para a lusa língua.

*must: n, Grape juice before or during fermentation


PROLOGUE
O Sun, great Oriental, my proud mind's golden cap,
I love to wear you cocked askew, to play and burst
in song throughout our lives, and so rejoice our hearts.
Good is this earth, it suits us! Like the global grape
it hangs, dear God, in the blue air and sways in the gale,
nibbled by all the birds and spirits of the four winds.
Come, let's start nibbling too and so refresh our minds!
Between two throbbing temples in the mind's great wine vats
I tread on the crisp grapes until the wild must boils
and my mind laughs and steams within the upright day.
Has the earth sprouted wings and sails, has my mind swayed
until black-eyed Necessity got drunk and burst in song?
Above me spreads the raging sky, below me swoops
my belly, a white gull that breasts the cooling waves;
my nostrils fill with salty spray, the billows burst
swiftly against my back, rush on, and I rush after.
Great Sun, who pass on high yet watch all things below,
I see the sun-drenched cap of the great castle-wrecker:
let's kick and scuff it round to see where it will take us!
Learn, lads, that Time has cycles and that Fate has wheels
and that the mind of man sits high and twirls them round;
come quick, let's spin the world about and send it tumbling!
O Sun, my quick coquetting eye, my red-haired hound,
sniff out all quarries that I love, give them swift chase,
tell me all that you've seen on earth, all that you've heard
and I shall pass them through my entrails' secret forge
till slowly, with profound caresses, play and laughter,
stones, water, fire, and earth shall be transformed to spirit,
and the mud-winged and heavy soul, freed of its flesh,
shall like a flame serene ascend and fade in sun.
You've drunk and eaten well, my lads, on festive shores,
until the feast within you turned to dance and laughter,
love-bites and idle chatter that dissolved in flesh;
but in myself the meat turned monstrous, the wine rose,
a sea-chant leapt within me, rushed to knock me down,
until I longed to sing this song—make way, my brothers!
Oho, the festival lasts long, the place is small;
make way, let me have air, give me a ring to stretch in,
a place to spread my shinbones, to kick up my heels,
so that my giddiness won't wound your wives and children.
As soon as I let loose my words along the shore
to hunt all mankind down, I know they'll choke my throat,
and when my full neck smothers and my pain grows vast
I shall rise up—make way!—to dance on raging shores.
Snatch prudence from me, God, burst my brows wide, fling far
the trap doors of my mind, let the world breathe awhile.
Ho, workers, peasants, you ant-swarms, carters of grain,
I fling red poppies down, may the world burst in flames!
Maidens, with wild doves fluttering in your soothing breasts,
brave lads, with your black-hilted swords thrust in your belts,
no matter how you strive, earth's but a barren tree,
but I, ahoy, with my salt songs shall force the flower!
Fold up your aprons, craftsmen, cast your tools away,
fling off Necessity's firm yoke, for Freedom calls.
Freedom, my lads, is neither wine nor a sweet maid,
not goods stacked in vast cellars, no, nor sons in cradles;
it's but a scornful, lonely song the wind has taken . . .
Come, drink of Lethe's brackish spring to cleanse your minds,
forget your cares, your poisons, your ignoble profits,
and make your hearts as babes, unburdened, pure and light.
O brain, be flowers that nightingales may come to sing!
Old men, howl all you can to bring your white teeth back,
to make your hair crow-black, your youthful wits go wild,
for by our Lady Moon and our Lord Sun, I swear
old age is a false dream and Death but fantasy,
all playthings of the brain and the soul's affectations,
all but a mistral's blast that blows the temples wide;
the dream was lightly dreamt and thus the earth was made;
let's take possession of the world with song, my lads!
Aye, fellow craftsmen, seize your oars, the Captain comes;
and mothers, give your sweet babes suck to stop their wailing!
Ahoy, cast wretched sorrow out, prick up your ears—
I sing the sufferings and the torments of renowned Odysseus!


(e já agora, eu em certos casos sou a favor de piratear livros: aqui)

2666


1. A parte sobre não ler o livro
Quando as referências ao 2666 de Roberto Bolaño começaram a abundar na blogosfera, falava-se de uma nova forma de escrever romances, de um clássico imediato (ou instantâneo), tudo isto ao mesmo tempo que se fazia a contagem decrescente para o lançamento da tradução portuguesa, quando então realmente todos os louvores poderiam já ser efectivamente confirmados com as mãos na massa. A minha primeira reacção foi fazer finca-pé, e, just for spite nem lhe tocar. Pensei eu que, se se tornasse realmente num clássico, ainda cá estaria daqui a 10 anos; caso se revelasse fracassado, não teria perdido nada. Passou-se porém que me deparei com a tradução inglesa numa das La Feltrinelli aqui do sítio. O meu idealismo foi inversamente proporcional ao quanto o preço estava jeitoso, uns meros 9 euros (para um livro cuja tradução portuguesa custará 29). Sucumbi. Trouxe-o, e comecei a ler.


2. A parte sobre ler o livro
Quase uma semana depois, terminei. Parece que muitos apontam a cidade de Santa Teresa, lugar de uma lista infinda de mortes de mulheres, como o ponto convergente da série de histórias que ponteiam o livro, mas a mim parece-me que Santa Teresa não é mais que aquilo que ela representa nas cabeças dos seus habitantes e visitantes: a morte, e em certas alturas a possibilidade duma imortalidade materialista através de um legado, do absurdo desejo de deixar alguma marca no mundo quando na realidade a morte tudo pode. As paisagens que se sucedem saltam de ambiente a um ritmo desconcertante, ao mesmo tempo que as longas discursões e os símiles fazem uma palete verbal do cenário: o primeiro livro, possivelmente o mais erudito, abunda em referências literárias directas, etimologia, etc; o quarto, cercado de mortes como um cemitério de 300 páginas, oferece-nos a secura do deserto macabro pautado pelo desespero sem narrativa e sem fio de Ariadne, sem pathos de que tipo seja, como se todas as mulheres mortas que aparecem descritas ao longo do livro “se tivessem deparado com a morte por puro acaso”. Assim como as personagens, em longas discursões, símiles, e aforismos (toda a personagem de Bolaño é um filósofo existencialista), se deparam com o problema do seu “e-depois”, na maior parte das vezes medíocre, precisamente para mostrar que a Morte não é um mero “por acaso”, mas sim o constituinte inevitável (como dizem por estes lados os italianos, Per pagare e morire c’è sempre tempo). O último livro, na minha opinião o mais belo, e o presente que se oferece, o oásis que se segue ao deserto do quarto, o rapaz que mergulha, e cujas algas se contrapõem aos cactos do deserto, é o único que pensa na sua morte mas não a teme. Talvez por a morte ser o último inimigo a ser destruído, e o combate com ela ser necessário, embora como diz um crítico numa das partes, “as obras-primas sobrevivem. o resto é carne para canhão”, num dos excertos mais brilhantes do livro, e onde Bolaño fala pela boca de um velho tal como em tempos Milton falou pela boca de Satã). Ao longo dos cinco livros que compõem as 900 páginas de 2666, apenas os críticos da primeira secção não parecem viver atormentados pelo fim da vida, vivem em vez disso obcecados com o legado da única personagem que ironicamente rejeita fazer esforços para deixar um legado, que escorre e que foge, cuja morada é desconhecida ao mesmo tempo que vê o seu nome citado para grandes prémios, e que é provavelmente a única que sobrevive. Não é tanto pregar uma espécie de karma do estoicismo como que se Bolaño estivesse a tentar escrever uma confissão, um diário, memórias, epístolas, sonhos e solilóquios.


3. A parte sobre a histeria
É certamente um grande livro grande [sic]. Penso apenas que deveria ter sido precedido de um pouco mais de calma nos louvores e nas comparações. Dizer que é o grande livro do ano não torna 2666 paralelo aos marcos da inovação novelística, e essa comparações excessiva e recorrente foi o que inicialmente me pôs de sobre-alerta para com o livro. Penso que o vocabulário utilizado foi francamente imoderado. Em 2666 podemos falar duma grande evolução na arte de narrar, mas não numa revolução (aí penso que ainda ninguém tomou de assalto o bastião daquele Jano kantiano, essas duas caras do tempo e do espaço que são, correspondentemente, o Em Busca do Tempo Perdido, e Ulysses, cada uma contendo em si a totalidade, uma do tempo, a outra do espaço; Proust conta todo o curso duma vida, Joyce todo o espaço duma cidade, ao ponto de ter afirmado que a partir do seu magnum opus se poderia reconstruir Dublin após um terramoto). Bolaño, como dizem muitos críticos, “mostrou que o romance pode fazer tudo” – sim, mas o romance como já o concebíamos, o modelo de romance que tínhamos disponível: isso não é de todo de menosprezar, mas há que questionar a histeria formada à volta dum deste fantasma. A publicação destes livros corre o risco de se tornar, à escala, claro, o equivalente high-culture da histeria resultante da publicação do próximo Harry Potter ou Guerra das Estrelas (ambos já terminados, eu sei. Bear with me.) E algo que deveria ser uma relação pessoal com um tópico individual e, em última instância, existencial, se torne mediado por todo o aparato dos crachás, das capas individuais, da contagem decrescente, dos VIP a lerem passagens. E se tivéssemos todos passado todo este tempo a ler as outras obras de Bolaño, em vez de andarmos a fetishicizar a data de lançamento? Dizia-se que Napoleão, grande génio de estratégia militar e conquistador da Europa, pouco teria inventado no que diz respeito à estratégia de combate, mas que pelo contrário teria levado à perfeição ou ao apogeu as técnicas então conhecidas. Talvez 2666 seja isso, uma espécie Napoleão dos romances, de evolução nesse sentido. O que me livra da hipocrisia de escrever contra a histeria provocada por ele ao mesmo tempo que me lanço num post de +duas páginas (ou pelo menos assim o espero!).


4. A parte sobre a crise pessoal de justiça poética
Quando reflectia nos conteúdos desta parte anterior, e depois durante a sua escrita, vi-me bastantes vezes acossado de problema de consciência. Tal como Zarathustra prega “a virtude que oferece”, e abandona o eremita “para que não lhe tire nada”, atormentei-me muitas vezes com de mortuis nihil nisi bonum, especialmente tendo em conta o carácter de legado final do romance para o escritor, o homem que viveu e que existiu, e que condenou os seus personagens a falar da imortalidade através da abertura e da colonização à força do cânon, tal como o diz Harold Bloom a certa altura no Cânone Ocidental, do fazer-se entrar a si mesmo pelo meio dos milhares ou milhões de escritos menores, do escrever algo que reste e que sobreviva. Não tenho pretensões de que isto que escreva tenha alguma vez algum impacto na recepção de Bolaño, mas aqui trato necessariamente de algo diferente, da continuação-de-si por parte de quem lhe dá alvará, e isso é de novo uma capacidade individual, como se Heidegger tivesse continuado o seu capítulo do Ser e Tempo em que passa por cima das respostas religiosas e espirituais (ou até mesmo artísticas, atrevo-me a dizer) para o que pode acontecer depois da morte, e se foca unicamente na realidade presente e existencial a que o Dasein realmente tem acesso, e portanto não posso deixar de me questionar sobre a sobrevivência de Bolaño-para-mim; e não obstante o próprio sentido negativo que a palavra “crítica” tem para nós (a palavra, não o conceito neste contexto), se por vezes, e neste caso em particular, não deceret um meu presente pessoal, como Ulisses a presentear os mortos com apenas um pouco de sangue, apenas um pouco de vita, para que possam viver de novo? Oferecer uma vitória que a mim nada me custa ofertar, mesmo se não deva por razões críticas, como se mais uma vez houvesse uma suspensão do ético para abrir caminho a um algo outro, desta vez não teologicamente mas sim existencialmente acordado? Aceitar que Bolaño criou uma obra-prima e proustianamente convencer-me a mim mesmo de que realmente é algo a par com os grandes maiores livros? Sobre tudo o que escrevo paira a sombra da morte. E o que pensei já pensei e escrevi, e este parágrafo não sobrevive como menos que os vestígios de um batalha interior travada a campo aberto.


5. A parte sobre as citações
Podia tirar muitas mais. Mas vou ficar-me com uma por cada um dos livros, das que fui marcando ao longo da leitura. A título de curiosidade, fiquei com o quinto livro todo rabiscado, mas penso que copiá-lo na íntegra demoraria tempo demasiado.

I
“Exile must be a terrible thing,” said Norton sympathetically.
“Actually,” said Amalfitano, “now I see it as a natural movement, something that, in its way, helps to abolish fate, or what is generally thought of as fate.”
“But exile,” said Pelletier, “is full of inconveniences, of skips and breaks that essentially keep recurring and interfere with anything you try to do that’s important.”
“That’s just what I mean by abolishing fate,” said Amalfitano. “But again, I beg your pardon.”


II
There was something revelatory about the taste of this bookish young pharmacist, who in another life might have been Trakl or who in this life might still be writing poems as desperate as those of his distant Austrian counterpart, and who clearly and inarguably preferred minor works to major ones. He chose The Metamorphosis over The Trial, he chose Bartleby over Moby-Dick, he chose A Simple Heart over Bouvard and Pécuchet, and A Christmas Carol over A Tale of Two Cities or The Pickwick Papers. What a sad paradox, thought Amalfitano. Now even bookish pharmacists are afraid to take on the great, imperfect, torrential works, books that blaze paths into the unknown. They choose the perfect exercises of the great masters. Or what amounts to the same thing: they want to watch the great masters spar, but they have no interest in real combat, when the great masters struggle against that something, that something that terrifies us all, that something that cows us and spurs us on, amid blood and mortal wounds and stench.


III
The end had begun somewhere, Charly Cruz didn’t care where, maybe in the churches, when the priests stopped celebrating the Mass in Latin, or in families, when the fathers (terrified, believe me, brother) left the mothers. Soon the end of the sacred came to the movies. The big theaters were torn down and up went the hideous boxes called multiplexes, practical, functional. The cathedrals were felled by the wrecking balls of demolition teams. Then the VCR came along. A TV set isn’t the same as a movie screen. Your living room isn’t the same as the old endless rows of seats. But look carefully and you’ll see it’s the closest thing to it. In the first place, because with videos you can watch a movie all by yourself. You close the windows and you turn on the TV. You pop in the video and you sit in a chair. First off: do it alone. No matter how big or small your house is, it feels bigger with no one else there. Second: be prepared. In other words, rent the movie, buy the drinks you want, the snacks you want, decide what time you’re going to sit down in front of the TV. Third: don’t answer the phone, ignore the doorbell, be ready to spend an hour and a half or two hours or an hour and forty-five minutes in complete and utter solitude. Fourth: have the remote control within reach in case you want to see a scene more than once. And that’s it. After that it all depends on the movie and on you. If things work out, and sometimes they don’t, you’re back in the presence of the sacred. You burrow your head into your own chest and open your eyes and watch, pronounced Charly Cruz.


IV
At the end of September, the body of a thirteen-year-old girl was found on the east side of Cerro Estrella. Like Marisa Hernández Silva and the woman by the Santa Teresa-Cananea highway, her right breast had been severed and the nipple of her left breast had been bitten off. She was dressed in Lee jeans, a sweatshirt, and a red vest. She was very thin. She had been raped numerous times and stabbed, and the cause of death was a fracture of the hyoid bone. But what surprised the reporters most was that no one claimed or acknowledged the body. As if the girl had come to Santa Teresa alone and lived there invisibly until the murderer or murderers took notice of her and killer her.


V
“This country has tried to topple any number of countries into the abyss in the name of purity and will. As far as I’m concerned, you understand, purity and will are utter tripe. Thanks to purity and will we’ve all, every one of us, hear me you, become cowards and thugs, which in the end are one and the same. Now we sob and moan and say we didn’t know! we had no idea! it was the Nazis! we never would have done such a thing! We know how to whimper. We know how to drum up sympathy. We don’t care whether we’re mocked so long as they pity u and forgive us. There’ll be plenty of time for us to embark on a long holiday of forgetting. Do you understand me?”
“I understand,” said Archimboldi.

“I was a writer,” said the old man, “but I gave it up. This typewriter was a gift from my father. An affectionate and cultured man who lived to the age of ninety-three. An essentially good man. A man who believed in progress, it goes without saying. My poor father. He believed in progress and of course he believed in the intrinsic goodness of human beings. I too believe in the intrinsic goodness of human beings, but it means nothing. In their hearts, killers are good, as we Germans have reason to know. So what? I might spend a night drinking with a killer, and as the two of us watch the sun come up, perhaps we’ll burst into song or hum some Beethoven. So what? The killer might weep on my shoulder. Naturally, being a killer isn’t easy, as you and I well know. It isn’t easy at all. It requires purity and will, will and purity. Crystalline purity and steel-hard will. And I myself might even weep on the killer’s shoulder and whisper sweet words to him, words like ‘brother’, ‘friend, ‘comrade in misfortune’. At this moment the killer is good, because he’s intrinsically good, and I’m an idiot, because I’m intrinsically an idiot, and we’re both sentimental, because our culture tends inexorably towards sentimentality. But when the performance is over and I’m all alone, the killer will open the window of my room and come tiptoeing in like a nurse and slit my throat, bleed me dry.”

9.21.2009

Ludovico Einaudi - Nightbook

Fui ontem ao concerto da estreia do novo álbum de um dos meus pianistas favoritos, Ludovico Einaudi (não que eu conheça muitos, diga-se). Mas penso que não o apreciei como deve ser. Penso que o tomei como garantido, como se inconscientemente estivesse convencido de que iria passar o resto da minha vida naquela sala, com aquele piano, com aquela noite a encher-me os ouvidos.


A música chama-se Lady Labyrinth, e está aqui completa.

Incipit Tragœdia



Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
— Mas qual é a pedra que sustém a ponte? — pergunta Kublain Kan.
—A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra — responde Marco, — mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublain Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: — Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.



Italo Calvino, Le cittá invisibili

Começo com Calvino. Penso que começo bem. Gosto do tom.