8.30.2013

Die Strahlen der Sonne vertreiben die Nacht

Laudato sie, mi signore, cun tucte le tue creature,
spetialmente messor lo frate sole,
lo qual'è iorno, et allumini noi per loi.
Et ellu è bellu e radiante con grande splendore,
de te, altissimo, porta significatione.

F.Assis


Sol qui illustras omnia solus. Apollo, carminis author, pharetrate, arcitenens, sagitti-potens, Pythie, lauriger, fatiloque, pastor, vates, augur, et medice. Phœbe, rosee, crinite, pulchricome, flave, nitide, placide, cytharaede, cantor, et veridice. Titan, Milesi, Palatine, Cyrrhaee, Timbraee, Deli, Delphice, Leucadice, Tegæe, Capitoline, Smynthæe, Ismeni, et Latialis. Qui mirabiles impertiris naturas elementis: quo dispensante tumescunt, et sedantur maria: turbantur et serenantur aer et æthera: vivida quoque intenditur, reprimitúrque ignium vis atque potentia. Cujus ministerio viget istius compago universi, inscrutabiles rerum vires ab ideis per animæ mundi rationes ad nos usque deducens et infra, unde variæ atque multiplices herbarum, plantarum cæterarum, lapidumque virtutes, quæ per stellarum radios mundanum ad se trahere spiritum sunt potentes.

G.Bruno


Die Strahlen der Sonne vertreiben die Nacht,
Zernichten der Heuchler erschlichene Macht.

L.dl Ponte
τοιαῦτα έπασχε, τοιαῦτα έλεγεν, επιζητοῦσα τὸ έρωτος όνομα
Longo. Daphnis & Chloe. I.15.1

8.29.2013

Knowledge might pitie winne, and pitie grace obtaine

Loving in truth, and faine in verse my love to show,
That she deare she might take some pleasure of my paine:
Pleasure might cause her reade, reading might make her know,
Knowledge might pitie winne, and pitie grace obtaine,
I sought fit words to paint the blackest face of woe,
Studying inventions fine, her wits to entertaine:
Oft turning others’ leaves, to see if thence would flow
Some fresh and fruitfull showers upon my sunne-burn’d braine.
But words came halting forth, wanting Invention’s stay,
Invention, Nature’s child, fled step-dame Studie’s blowes,
And others’ feete still seem’d but strangers in my way.
Thus great with child to speake, and helplesse in my throwes,
Biting my trewand pen, beating my selfe for spite,
‘Foole,’ said my Muse to me, ‘looke in thy heart and write.’

Philip Sidney

8.27.2013

Pro Lege Manilia

Itaque omnes nunc in eis locis Cn. Pompejum sicut aliquem non ex hac urbe missum, sed de cælo delapsum intuentur. Nunc denique incipiunt credere fuisse homines Romanos hac quondam continentia, quod jam nationibus exteris incredibile ac falso memoriæ proditum videbatur. Nunc imperi vestri splendor illis gentibus lucem adferre cœpit. Nunc intellegunt non sine causa maiores suos, tum quum eâ temperantiâ magistratus habebamus, servire populo Romano quam imperare aliis maluisse. Jam vero ita faciles aditus ad eum privatorum, ita liberæ querimoniæ de aliorum injuriis esse dicuntur, ut is, qui dignitate principibus excellit, facilitate infimis par esse videatur.

Ciceronis Pro Lege Manilia. [41]

8.26.2013

Anti-Naphta

tudo isto do Latim, da cultura clássica, até mesmo da graphia. não é cegueira histórica. não é hyperconservadorismo desorientado e iludido. eu sei perfeitamente o que estou a fazer. mas há dias em que me enterro e me afundo por não poder beijar os antigos nos lábios.

ΑΝΦΦ

8.21.2013

Flaco

É possível que as três primeiras estrofes do Integer vitæ sejam o único lugar onde a civilização Romana foi capaz de atingir os galileus e de se apoderar conquistando daquilo que é mais profundamente deles: a promessa. É nesse sentido que essas estrofas assumem o carácter dum Sermão da Montanha e com isso a santidade.
Haverá algum deus
Mais potente que Diana?
Mais terrível do que Febo?
Mais distante do que Pan?
Mais constante do que Zeus?
Mais injusto do que Athena?
Mais escondido do que Bacco?
Mais brilhante do que Hércules?
Grande és tu, Juno
Lucina. Salve Rainha
Cœlorum. Santo é o teu
Grande Nome.

8.19.2013

nimis

tu mandasti mandata tua custodire nimis 
utinam dirigantur viæ meæ ad custodiendas justificationes tuas 
Ps. CXVIII.4-5

8.17.2013

Unheil als Unheil spurt uns das Heile. Heiles erwinkt rufend das Heilige. Heiliges bindet das Göttliche. Göttliches nähert den Gott.

É a própria Desgraça que nos traça o caminho para a Graça. A Graça acena e chama a Salvação. A Salvação retém o Sagrado. O Sagrado faz com que Deus esteja próximo.

Heidegger. Wozu Dichter? in Holzwege Gesamtausgabe I.5.
Tradução minha — pois. Ainda vos queria ver vocês a tentar.

8.16.2013

Contra o Espírito Brando na Língua Grega

O espírito brando é a invenção mais inútil em toda a história da língua grega. Serve para indicar que algo não está lá, problemática essa que, por muito lugar que possa ter numa discussão theo-philosóphica, não tem qualquer razão de ser no pragmatismo da legibilidade duma língua. A sua única função, a de distinguir o início da nova palavra na escrita contínua, está há milénios desactualizada. (O que nem sequer foi alguma vez função, visto que toda a gente sabe que não há nenhuma palavra grega que não comece por επι- ou por κατα-.)

Rouba tempo à escrita, basta os caracteres escritos serem um pouco mais pequeno para se confundir com o seu oposto, e dificulta a aprendizagem a níveis inaceitáveis nos primeiros passos da aprendizagem da língua (todos se queixam, e com razão, da irracionalidade dos diacríticos*), precisamente naquela fase em que mais está mais em causa a conquista do coração do novo aluno.

Por estas razões, e na mesma linha do que me levou a reformar a minha grafia do Latim, abandono a partir de hoje às trevas do Orco o espírito brando, chamado em latim lenis e em grego τὸ πνεῦμα τὸ ψιλόν. As primícias.


* Ao qual acresce o facto de toda a gente insistir na escrita do acento agudo e grave mas ninguém se preocupar com a função que este último possa ter. Na vasta maioria das leituras é mais um fóssil, tão antiquado  como o genitivo em -οιο. Aí, porém, tenho a consciência tranquila: sempre me esforcei por os tentar pronunciar distintamente, e foi em não pequena parte graças ao ritmo que a variação dos dois acentos concede à frase que aprendi o pouco que sei da língua grega. 

8.15.2013

Dos Vocativus em -ius e do "i in loco consonantis"

O contexto é: Os vocativus perdem a sílaba (absciditur), e não é o caso de que a declinação tenha sido assim (pois, se fosse, então de facto deveríamos pronunciar estas palavras como esdrúxulas, "quod minine licet, nam pænultimam acuimus"). Os poetas antigos escreviam Mercurie, Virgilie. Foram os "juvenes brevitate gaudentes" que abreviaram, mas abreviando a palavra o acento manteve-se no sítio onde sempre esteve; o fenómeno é paralelo ao da metátese quantitativa dos genitivos gregos da terceira declinação em -ως.

Si enim non esset abscisio, debuerunt huiuscemodi vocativi (id est qui in i desinentes paenultimam correptam habent) antepaenultimam acuere, ut ‘Vírgili’, ‘Mércuri’, quod minime licet, nam paenultimam acuimus. in abscisionibus enim, si ea vocalis, in qua est accentus, integra manet, servat etiam accentum integrum, ut ‘audîvit audît’, ‘nostrâtis nostrâs’, ‘illîce illîc’. de ‘Pompei’ et ‘Vultei’ et ‘Gai’ et similibus vocativis, quae i loco consonantis ante ‘us’ habent in nominativo, dubitatur, utrum i extrema pro vocali an pro consonante sit accipienda, quomodo in aliis casibus, quod magis more antiquo rationabilius esse videtur. nam solebant illi non solum in principio, sed etiam in fine syllabae ponere i loco consonantis, idque in vetustissimis invenies scripturis, quotiens inter duas vocales ponitur, ut ‘eiius’, ‘Pompeiius’, ‘Vulteiius’, ‘Gaiius’, quod etiam omnes, qui de litera curiosius scripserunt, affirmant. nec non etiam metra ostendunt quod dicimus et regulae ipsius ratio in supra dicto vocativo. omnis enim vocativus in i desinens una syllaba minor debet esse suo nominativo, ut ‘Sallustius o Sallusti’, ‘Virgilius o Virgili’, ‘Terentius o Terenti’. ergo si ‘Pompeius’ et ‘Vulteius’ trisyllaba sunt in nominativo, necessario in vocativo disyllaba esse debent, quod non potest fieri, nisi i loco consonantis accipiatur. unde illud quoque possumus scire, quod bene ‘cui’ pro monosyllabo accipiunt metrici et ‘huic’. omnis enim genetivus in ‘ius’ desinens una vult syllaba superare suum dativum: ‘ille illius illi’, ‘ipse ipsius ipsi’, ‘unus unius uni’, ‘alter alterius alteri’. ‘aliius’ quoque per duas i debuit esse genetivus dativi, qui est ‘alii’, sed vel hiatus causa vel quia inter duas vocales i vocalis esse non poterat, dativus autem loco consonantis eam accipi prohibebat, quam ipse duplicat vocalem – et credo differentiae causa, ne ‘ali’ verbum infinitum esse putaretur –, ideo plerique recusaverunt eum frequenti usu proferre. vetustissimi tamen similem genetivum nominativo posuisse inveniuntur, sed accentu differt, quippe circumflectitur in genetivo paenultima.

Prisciano. VII.14.18-20

8.14.2013

Agnósthῳ théῳ

Se nos entregarmos, se não resistirmos, a que demónios não estaremos nós a acidentalmente abrir a porta. Ele chegará, só pode chegar, quando colocares as barreiras mais intransponíveis, mais adamantinas.

Ele só chegará onde for impossível chegar-se: quando a alma estiver hermèticamente selada a qualquer entrega, ele virá; & chegará até onde nada pode vir, precisamente porque não é nada, isto é, porque não existe.

É isto que significa o atheísmo: aceitar que a entrega é impossível e que por conseguinte se faz apenas Àquele que é impossível. Isto é o primeiro passo.


O segundo passo é nem sequer querer, é não querer que ele venha. Mais do que querer que ele não venha, é preciso querer que ele não exista. Rejeitar a fé, rejeitar a esperança, rejeitar até mesmo a agapê

E o passo mais difícil: rejeitar a graça, & resistir à violência da graça.

E depois, como diz o Sérvio, há um exaggero de luz.

8.13.2013

Burckhardt kannte die Götter Griechenlands, er wußte Tieferes von ihnen als alle andere Menschen seiner Zeit.

Restante texto + Tradução minha aqui: Jacob Burckhardt entre Grandeza e Decadência.

«[Jacob] Burckhardt wußte — sein Sichzurückhalten von Nietzsche und sein beharrliches Schweigen auf dessen immer dringlicher werdende Appelle machen es vollends deutlich —, daß er in der Zukunft nicht mehr würke existieren können. Aber den wirklichen Status seiner Zeit, den Befund der Dekadenz, hat Burckhardt keinen Augenblick übersehen. Und so kommt nicht nur in sein Wesen, sondern auch in seine Studien und seine Neigungen ein schmerzlicher Bruch hinein, daß er, der die Höhen des Kulturlebens und die Gipfel der Weltgeschichte zu durchforschen unternahm, gleichzeitig der Historiker der Dekadenz wurde. So ist es denn nicht nur die „Größe und stille Heiterkeit der Hellenen“, die sein Auge anzog und die den Schönheitssucher geganfennahm, sondern auch der Verfall der griechischen Kultur, dessen Darstellung er gegeben hat. „Auch die Zeiten des Verfalls und des Untergangs haben ihr heiliges Recht auf unser Mitgefühl“, heißt es im „Konstantin“. Und Burckhardt weiß zu tief um den Neid der Götter, um die Todesschatten, die auch über das gewaltigste Leben kommen, eben indem es zu Ende lebt: „Einmal muß es Abend werden.“ Diese melancholische Ahnung wirft ihre Schatten über den niedergehenden Tag, sobald er einmal den höchsten Sonnenstand überschritten hat. Burckhardt kannte die Götter Griechenlands, er wußte Tieferes von ihnen als alle andere Menschen seiner Zeit. Seine Liebe zu den Göttern hatte im Hintergrund noch das Wissen um die Forderung des heiligen Gottes. Man erinnere sich hier an die berühmt gewordenen Sätze, mit denen er am Schlusse eines Vortrages den schmerzvoll melancholischen Ausdruck im leichgesenkten Haupt des vatikanischen Hermes Psychopompos zu deuten sucht: „Ist es nicht, als ob das Bild zu sprechen begönne und zu uns sagte: Ihr wundert Euch, daß ich so traurig bin. Ich, einer der seligen olympier, die in ewiger Heiterkeit und unvergänglicher Lebenslust genießen und schauen. Wir hatten alles: Glanz himmlischer Götterschönheit, ewige Jugend, unzerstörbaren Frohsinn; aber wir waren nicht glüklich, denn wir waren nicht gut. Wir konnten nicht gut sein, weil wir nur ästhetische Ideale, keine ethischen Potenzen waren: Schaut Antigone, die edelste Tochter und Schwester, sie ging jämmerlich zugrunde, weil sie an uns glaubte und unsere Gebote heilig heilt. Schaut die trostlose Niole. Wir haben ihre schuldlosen Kinder erschlagen, nur um der stolzen Mutter unsagbar weh tun zu können. So ist unser Handeln allzeit gewesen. Wir haben nur uns selbst gelebt und allen anderen Schmerz bereitet. Wir waren nicht gut, und darum mußten wir untergehen.“»

Hans-Joachim SchoepsJacob Burckhardt oder auf den Spuren der verlorenen Zeit. in Gesammelte Schriften II.7. Olms (1999)

8.11.2013

Θεέ μου με φώναζες και πως να φύγω;

meu deus chamaste-me e como fugir-te?
Odysseas Elytis

8.02.2013

A ópera

Certamente o melhor texto theológico alguma vez escrito em português.

A ÓPERA
Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. "O desuso é que me faz mal", acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniquidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilónia. As vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto - vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:
— A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...
— Mas, meu caro Marcolini...
— Quê...
E depois, de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prémios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu génio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal género de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu, — compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
— Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
— Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
— Mas, Senhor...
— Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
— Ouvi agora alguns ensaios!
— Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Aden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro génio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
— Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos os escolhidos". Deus recebe eu ouro, Satanás em papel.
— Tem graça...
— Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia. quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...

Machado de Assis. Dom Casmurro. Capítulo IX.