4.30.2013

Poema de Amor

sofremos e não aprendemos,
aprendemos que o sofrimento
nada ensina. depois do fim,
& depois do fim do fim há o Amor.

4.29.2013

A Virgem bilingue

Um hymno à Virgem composto no século XVI em Latim e em Inglês.
(Þ lê-se th.)

For on þat is so feir ant brist
Velud maris stella,
Bristore þen þe daiis list,
Parens et puella,
I crie þe grace of þe,
Levedi, priie þi sone for me,
Tam pia,
Þat I mote come to þe,
Maria.

Levedi, best of alle þing,
Rosa sine spina,
Þou bere Jhesu, hevene King,
Gratia divina.
Of alle þou berest þat pris,
Heie quen in Parais
Electa,
Moder milde ant maidan ec
Effecta.

In car ant consail þou art best
Felix fecundata,
To alle weri þou art rest,
Mater honorata.
Bihold tou him wid milde mod
Þat for us alle scedde is blod
In cruce,
Bidde we moten come to him
In luce.

Al þe world it wes furlorn
Þoru Eva peccatrice
Toforn þat Jhesu was iborn
Ex te genitrice;
Þorou Ave e wende awei
Þe þestri nist ant come þe dai
Salutis.
Þe welle springet out of þe
Virtutis.

Wel þou wost he is þi sone
Ventre quem portasti;
He nul nout werne þe þi bone
Parvum quem lactasti.
So god ant so mild e is,
He bringet us alle into is blis
Superni;
He havet idut þe foule put
Inferni.

4.28.2013

Boa noite, meus senhores, minhas senhoras, lindas flores


Boa noite, meus senhores
Minhas senhoras, lindas flores
Que aqui estais neste salão;
Eu p’ra todos vou cantar
E a todos quero saudar
Do fundo do coração
Do fundo do coração

4.26.2013

Beethoven

Beethoven é a música do levantar-se: a música de se estar sentado, calmo, e de repente, não sabemos porquê, mas finalmente tomamos a decisão há tanto tempo adiada, a decisão certa, e levantamo-nos. A música da certeza assumida e da responsabilidade. Toda a 8ª nos diz isto (a 9ª dá-nos as razões para queremos tomar essa decisão). Mas o locus classicus é o primeiro andamento da 7ª.


(o Thielemann está até longe de ser o meu favorito, mas temos de vez em quando de dar descanso ao Furtwängler)

4.25.2013

... rumoreja a fonte [Paul Celan]

Vós a prece, a blasphémia, a
prece afiada da Faca
do meu
Silêncio.

Vós comigo as minhas es
tropiadas palavras, vós
minhas endireitadas.

E tu:
tu, tu, tu
meu diariamente vero e mais veramente
torturado Mais Tarde
das Rosas -:

Tanto, mas tanto
mundo. Tantos
Caminhos.

Tu muletas, asas. Nós -

Nós cantaremos a lengalenga das crianças que,
consegues ouvir, que
com os Ho, com os Mens, com os Homens, sim essa que
com o bosque e com
o par de olhos, a que estava lá pronta como
Lágrima-e-
Lágrima.

Paul Celan. Tradução minha. Texto original.

4.24.2013

... rauscht der Brunnen


Ihr gebet-, ihr lästerungs-, ihr
gebetscharfen Messer
meines
Schweigens.

Ihr meine mit mir ver-
krüppelnden Worte, ihr
meine geraden.

Und du:
du, du, du
mein täglich wahr- und wahrer-
geschundenes Später
der Rosen -:

Wieviel, o wieviel
Welt. Wieviel
Wege.

Krücke du, Schwinge. Wir --

Wir werden das Kinderlied singen, das,
hörst du, das
mit den Men, mit den Schen, mit den Menschen, ja das
mit dem Gestrüpp und mit
dem Augenpaar, das dort bereitlag als
Träne-und-
Träne.

Paul Celan.

4.21.2013

die Götter sind da!

A primeira parte da partilha é citada do Laudator Temporis Acti.
That emotion which inspired the hearts of men long dead must live again in our hearts. We must feel with them that awe and that rapture whose source they worshipped in their gods. We must learn to believe as they believed. Be it in the quiet of our chamber, when we read the verses of some religious poet, be it on the floor of some ancient temple which to the historical sense still preserves its sanctity, we must feel in our own lives the epiphany of the god. (Wilamowitz: 1908)
ὡπόλλων οὐ παντὶ φαείνεται, ἀλλ' ὅτις ἐσθλός·
ὅς μιν ἴδηι, μέγας οὗτος· ὃς οὐκ ἴδε, λιτὸς ἐκεῖνος·
ὀψόμεθ’, ὦ Ἑκάεργε, καὶ ἐσσόμεθ’ οὔποτε λιτοί.

Apollon não a todos aparece, só a quem é bom.
Quem o viu é grande. Quem o não viu é banal.
Ver-te-emos, deus da distância, e não seremos banais.
(tradução minha de Kallimakhos, Hymnos 2.9-11)

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O grande porém herdeiro deste tipo de pensamento, excluindo naturalmente Nietzsche (cuja influência aqui é de notar), é o alemão Walter Friedrich Otto, em particular no Die Götter Griechenlands (1929) e no Theophania (1959), a meu ver a única pessoa, quiçá de sempre, a tentar respeitar o paganismo grego nos seus próprios termos:  pois que os antigos seus verdadeiros cultores nunca se preocuparam em fazer algo semelhante a uma "theologia do paganismo", e quando mais tarde isso foi tentado foram tentativas de reacção e por conseguinte falhadas de por um lado o mystificar à maneira do Neo-Platonismo da Antiguidade Tardia, de o cristianizar à maneira Renascentista, ou de o contemplar apenas como tema de estudos de Anthropologia, à maneira contemporânea. O Otto (como o Wilamowitz neste passo e noutros) consegue fazê-lo porque não ousa não aceitar o que dizem os poetas e os escritores: enquanto não lidarmos com o facto (die Tatsache) de que die Götter sind da — os deuses estão aí — («Die Götter sind da. Daß wir dies als gegebene Tatsache mit den Griechen erkennen und anerkennen, is die erste Bedingung für das Verständnis ihres Glaubens und ihres Kultes.» Wilamowitz) não como metáphoras, não como ideias ou noções, ou forças ou sentimentos, mas como presenças tão reais quanto qualquer outra coisa no mundo, que Apollo cavalga o carro do céu e que Hermes nos espreita na esquina da pedra, enquando insistirmos em desistir disso o nosso entendimento da Literatura e da Religião antigas será fatalmente manco. Violências deste género levaram a que chegassem a perguntar-lhe «se ele achava que devíamos fazer sacrifícios a Zeus», de tal forma estava o seu pensamento imbutido dos deuses antigos. A resposta dele foi um não, mas um não pesado e relutante, e muito mais complexo do que uma mera rejeição, completamente justificada, do teatro de ditas práticas reconstructivistas do paganismo contemporâneo. Se tivesse eu que aventurar uma resposta para esse não, com o qual contudo a toda a linha concordo, diria que tal rejeição se prenderá ao facto de os deuses serem ἀθάνατοι e os mortais, até mesmo os Gregos antigos, serem βροτοί, e que por conseguinte termos perdido até a memória de como reagir à theophania, a ponto de a solução hellénica já não nos servir. É coisa terrível cair na mãos de deuses vivos: desengane-se quem pensa que poderá aprender antecipadamente como lidar com a sua aparição.

4.20.2013

Fá, Si, Ré♯, Sol♯

The Prelude [of the Tristan und Isolde] is an overwhelming evocation of longing, which nothing can appease. It is hard, listening to it, to believe that the body of the opera will sustain the same level of tension and intensity, but that is what it manages to do. The secret of the Prelude, which none of its innumerable imitators has grasped, is that its fabulous climax both clinches everything that precedes it and yet still manages to be a non-fulfilment. It is yearning, not consumation, taken to its ultimate point, and so if we are not to feel merely exhausted by it we need the whole opera. While we are still living, passion can lead only to ever increased demands to achieve satisfaction, so the only possible resolution is death. These are things the lovers work out for themselves during the action, but they are evidently what the Prelude adumbrates, with its harmonies that never resolve. Wagner had to revolutionise music in order to express states of being and consciousness into which no previous artist had dared enter.

Michael Tanner. Wagner, Faber & Faber (2010).

4.19.2013

δοξοlogία

Uma doxologia sem Glória é apenas isso — λόγος. («restores the broken themes of praise») This takes me back ("isto vale para tudo"), um hymno a Pan, o inglório.

dóxa

studium Antiquitatis tem os seus fundamentos colocados na crença de que pelo menos uma parte da doxologia é verdadeira. Mas que não haja confusões: como bem sabiam Dante e os Padres, a razão leva hucusque nec ultra.

sicut erat in principio
et nunc

et semper

4.17.2013

Saudades do Strauss

Há muito que me convenci da verdade, em termos absolutos, do atheísmo - ou do seu irmão synónimo, do pantheísmo. Cheguei a uma conclusão relativamente estável em relação às suas proposições, e, ao contrário de tempos passados, deixei de crer na possibilidade (embora sem totalmente a negar, como é evidente) de que ver essa minha opinião refutada. O problema é que qualquer uma dessas proposições leva a um desencanto inevitável do mundo no que diz respeito à poesia do intelecto; o desencanto está tão intrinsicamente presente na posição atheia quanto na pantheísta na medida em que a arte implica uma noção de presença, e a compreensão da presença implica uma aparição, e em sítio algum ou momento algum da vida sou capaz de concretizar a tal nível a experiência do espelho a ponto de me poder tornar um espelho para mim mesmo: que eu seja divino de nada me serve, pois nessa divinização do tudo estou impedido de me presenciar a mim mesmo como divino. Ou melhor ainda, sou capaz de me presenciar a mim mesmo como divino, mas apenas no instante exstático e mýstico (o momento da compreensão do todo, do pan em pantheísmo), mas nesse instante deixa de haver um eu cuja divindade eu possa presenciar. Caímos no mesmo ponto. No que à poesia do intelecto diz respeito, portanto, tanto o atheísmo quanto o pantheísmo têm o mesmo resultado frustrado. Esta conclusão leva-me frequentemente e ponderar tomar a via æstheticista e completar o sacrificium intellectus. Seria certamente a via mais artisticamente estimulante; também a via mais chic, pois que raras vezes se leva a fé a sério para além do dandyismo. Mas de cada vez que o faço ouço retomba-me nos ouvidos a voz calma e severa daquele Sócrates de Chicago, mais a sua philosophia «sustained and elevated by eros, graced by nature's grace»: Volto atrás, consciente simultaneamente da heróicidade dos heróis anglo-saxónicos e da minha incapacidade para os atingir (incapacidade essa que, não obstante, são antes um argumento do que um contra-argumento para uma possível assimilação espiritual a eles; ver Leverkühn), e regresso à conclusão atingida pela razão criativa; por muito que não a mereça e fique aquém, pois de outro modo este passo seria um passo único e singular, e não algo iterativo, necessariamente penitente, arrependido, e regressado. Ainda assim, por estar lá sempre na minha fraqueza, por não se cansar de dizer as palavras, a um nível muito pessoal devo-lhe talvez tanto quando devo à Weil e ao Hölderlin, e isto é dizer muito. Tenho saudades de o ler e de o ouvir. Sofro por não o ter conhecido.

4.16.2013

Terrível palavra é um NON.


Terrível palavra é um non. Não tem direito, nem avesso; por qualquer lado que a tomeis, sempre soa e diz o mesmo. Lede-o do princípio para o fim, ou do fim para o princípio, sempre é non. Quando a vara de Moisés se converteu naquela serpente tão feroz, que fugia dela por que o não mordesse, disse-lhe Deus que a tomasse ao revés, e logo perdeu a figura, a ferocidade e a peçonha. O non não é assim: por qualquer parte que o tomeis, sempre é serpen­te, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno consigo. Mata a esperança, que é o último remédio que deixou a natureza a todos os males. Não há corretivo que o modere, nem arte que o abrande, nem lisonja que o adoce. Por mais que confeiteis um não, sempre amarga; por mais que o enfeiteis, sempre é feio; por mais que o doureis, sempre é de feno.

Padre António Vieira. Sermão da terceira quarta-feira da Quaresma.
Citado em: Manoel de Oliveira, Non, ou a vã glória de mandar (1990)

4.15.2013

fabula de homine

quando para evitar blasfemar a língua
monta figurinos de fábulas e parábolas isso
então é dogma? serás tu portanto a chama
que arde de fora para dentro a fazer-me
crer. tu, mais a tua erudição
polidamente barroca e a tua ironia
contrapontista. veste-te de preto,
porque disse uma vez um sábio:
veste-te de preto. relembro que no teatro
memorizar as falas é importantíssimo
ou irrelevante. e será preciso chamarmo-nos
HUMANISTAS para percebermos isto?
será preciso invocarmos a retórica
ibérica de Vives para escrevermos aos deuses
as didascálias? improvisação, ata-te
a uma pedra. desata-te: liberta-te
da tirania das deixas. evita pensar demasiado
na crítica, na prima filosófia, no que há e vai voltar a haver.
várias divindades em cena mas nenhuma
mais livre que o homem
atado à sombra da rocha.

Eu

4.12.2013

μελέτη τοῦ θανάτου

Estava a ouvir a Séptima, e lembrei-me do quão bem-aventurado sou, lembrei-me do quanto já pude conhecer e saber; de que a vida é tão cheia; de que já me foi concedido tanto, tantas graças. Amei e fui amado, ouvi Sóphokles, Hölderlin, Beethoven na língua original. Se morrer amanhã já terei vivido. Não sei se escrever estas palavras à maneira de epitáphio é hybrístico ou lucrèciano, mas foi no espírito do último (»O vento sopra e leva à paz«).

4.10.2013

Antes as tuas tormentas do que todas as revoltas.

Cubismo do intelecto. Agirei após tudo ter de todos os lados contemplados. Antes as tormentas da dilaceração interior, a angústia da incerteza, do que a possibilidade da injustiça implícita na revolta: desejamos o acto puro, incorrupto. O tenebroso é que a justiça se veste de cobardia e o inverso é também verdade. Não pararei de pensar nunca, o turbilhão do pensamento não cessará jamais, esse autismo não é ideal, sabê-lo, mas antes a dor que daí advirá do que revoltar-me e ajudar a hastear um tyranno. É o grito de paralysia que a philosophia toa sobre a vida, e deve ser derrotado por ser ele própria a maior tyrania pois auto-imposta, pior que grilhões pois grilhões do espírito. Mas é força preservemos sempre a memória de como começámos, do início, e que a nossa revolva seja sempre atormentada e dúbia. Quando ganharmos confiança perdemos.

A alegria é o sol inteiro e a sombra a meio.

A alegria é o sol inteiro e a sombra a meio.
Doze parece pouco equilibrado, não há dúvida —
malditos pais da cidade! Mas o desequilíbrio

está por toda a parte. Nas placas tectónicas
a rasgar a Islândia aos pedaços, só para começar.
Não sou um tipo muito de Fortuna, por muito que adore

Boécio. E a ironia tem limites.
Se considerassem isto senequiano sentir-me-ia honrado.
Na orgulhosa e amargurada justa de Surrey, na sua elegia

sem tretas ao Wyatt, consigo encontrar forças.
com ou sem ironia. Nem | tudo o resto
é igual. Não é nem nunca o será.

Geoffrey Hill. Scenes from Comus [3.13]. Penguin (2005). Tradução minha.


Joy is the full sun and the half shadow.
Twelve sounds unbalanced, no doubt of that —
blasted city fathers! But imbalance

is everywhere. In the tectonic plates
ripping Iceland apart, to cite you basics.
I'm no Fortuna-type, though, much as I love

Boethius. And irony has its limits.
If this were adjudged Senecan I'd be honoured.
Surrey's bitter proud jousting, his straight-up

elegy for Wyatt, I can find strength in,
ironic or not. Nót | all óther thíngs
being equal. They áren't and never wíll be.

4.09.2013

Árvores de Natal


esta tradução é dedicada ao Príncipe Myshkin.

‘ÁRVORES DE NATAL’

Bonhoeffer pela clarabóia da sua cela
desviçado pela queda candescente dos relâmpagos,
deambulando pela sua própria cidadela,

restora os temas quebrados do louvor,
encoraja os nossos dias emprestados,
pela lógica do seu sacrifício.

Contra a selvagem razão do estado
as suas palavras são calmas mas não demasiado calmas.
Ouvimos demasiado tarde ou não demasiado tarde.

Geoffrey Hill



‘CHRISTMAS TREES’

Bonhoeffer in his skylit cell
bleached by the flares’ candescent fall,
pacing out his own citadel,

restores the broken themes of praise,
encourages our borrowed days,
by logic of his sacrifice.

Against wild reasons of the state
his words are quiet but not too quiet.
We hear too late or not too late.

schöner Götterfunken

O cristianismo é mais humano que o paganismo. A superioridade do paganismo está nisso.
Ricardo Reis

Ihr stürzt nieder, Millionen?
Diesen Kuss der ganzen Welt!

4.06.2013

tal como fica bem aos mortais, bons pedreiros, eu trato os deuses por tu mais último nome. por último entenda-se: pelo seu gentilício, eskhatológico, & mephistophélico nome de gato.

4.05.2013

Tornou-se-me tudo em vento


Tornou-se-me tudo em vento
Após tormento e tormento,
Que eu passei cuidando em al.
Enfim veio cedo o mal
E tarde o conhecimento.
Eu assim desenganado,
Vejo vir males maiores:
O tempo a que sou chegado!
Que posso doer às dores
E dar cuidado ao cuidado.

Sá de Miranda. [4] Poesias. Angelus Novus (2001).

ΚΥΡΙΕ ΕΛΕΗϹΟΝ