9.27.2010

o rei vai nu #2

"It's a battle between the gods, giants, mortals, over gold."

erudita descrição do Der Ring des Nibelungen. Aqui.

9.26.2010

O rei vai nu, sim, mas tem uma figura gira.

european men, stay put. seriously, nothing good ever happens to you when you leave whatever small european town you are from and venture into the wider world. whether it is gide and tunisia, conrad and the congo, robbe-grillet with wherever that was, various graham greenes; statistically, there will be temptations which you are not equipped to resist and you will either succumb or drive yourself to humiliation and despair with the wanting to succumb. and i totally get it - different surroundings, absence of judgmental peer group, it's vacation morality. when i was in prague, i totally stole a guinness mug from the irish pub i fell in love with. so i am no stranger to a wild life of crime and transgression. i left the children alone, though...
(for the record, lawrence durrell is totally exempt from this advice, although since he is dead, it doesn't really matter.)
and just so we're clear - i only read death in venice. the other seven stories can go screw for now - this is just book club fare, and if i have time in my life to read more troubled intellectual germans, i will know where to turn. but for now, i must bake book club cake and enjoy my free snow day.

Duma crítica a uma edição d' A Morte em Veneza e Outros Contos. Hah!

9.23.2010

A Rainha da Noite

A ópera é sincronização de tudo o que nela entra: o drama complemente o texto que complementa a música (que no entanto assume o papel preponderante, são "As Bodas de Fígaro" de Mozart e não de Lorenzo della Ponte, por exemplo). Quando isso não acontece, poderíamos dizer que a falha em algum aspecto: o equilíbrio que une os elementos deixa de existir, a colagem torna-se frágil, e a música passa a tornar-se uma simples desculpa para o teatro, ou o teatro uma simples desculpa para a música coral. Quando Verdi recebeu a notícia de que uma cantora sua favorita iria estrear o papel de Lady Macbeth, escreveu até uma carta a protestar, "ela canta demasiado bem [...] Lady Macbeth é maléfica, devia cantar mal, até não cantar de todo".

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A Flauta Mágica tem apenas uma vilã significativa, a Rainha da Noite. Que quando não está a enviar cavaleiros incautos para servir inconscientemente os seus desígnios está a ordenar à filha que assassine o pai: este paragono do mal que não pode ser refutado: Como é que se poderia ser pior que isto?

A vingança infernal arde no meu peito,
Morte e desespero incendiam-se à minha volta!
Se Sarástro não sentir graças a ti a dor da morte,
Deixarás para sempre de ser a minha filha
Deserdada serás para sempre
Abandonada serás para sempre
Destruída serás para sempre
Todos os laços da natureza
Se não fizeres Sarástro empalicer!
Ouvi, deuses da Vingança, ouvi o juramento duma mãe!

Apresentada aqui, a partir de 2:02


O culminar da ária está entre a linha 4 e 5 (a linha que ela repete é "So bist du meine Tochter nimmermehr", "Deixarás para sempre de ser a minha filha", mas aqueles Sis não são verbalmente articulados), ou seja, precisamente na linha onde se condensam todos os pecados dramáticos da Rainha, que mete lá para o meio satanismo, parricídio, filicídio, e sei lá eu mais o quê, Mozart (à revelia claro do texto do libretto) escreve uma profunda elevação musical. O mal aqui é redimido pela sua beleza estética, e sendo esteticamente superior é portanto moralmente superior.

Não se pode ler a ópera toda a partir deste passo  de qualquer modo, logo a seguir à saída da Rainha entra Sarastro, que consola a filha explicando-lhe quão maléfica a mãe é  mas se Mozart pretendeu escrever a música para um mundo de bem/mal (e seríamos levados a crer que sim), o seu génio traiu-o: se a invocação às divindades da Rainha da Noite é de este poder, o de Sarastro, um hino a Ísis e a Osíris, a torcer pelo lado da iluminação e do esclarecimento [maçónico], apesar de majestoso, não pode deixar de ser um bocadinho pãozinho sem sal quando comparado. Até na memória duma civilização, a Rainha vencida triunfou sobre o seu luminoso vencedor.