11.29.2010

Prière sur l'Acropole

»Un immense fleuve d'oubli nous entraîne dans un gouffre sans nom. Ô abîme, tu es le Dieu unique. Les larmes de tous les peuples sont de vraies larmes ; les rêves de tous les sages renferment une part de vérité. Tout n'est ici-bas que symbole et que songe. Les dieux passent comme les hommes, et il ne serait pas bon qu'ils fussent éternels. La foi qu'on a eue ne doit jamais être une chaîne. On est quitte envers elle quand on l'a soigneusement roulée dans le linceul de pourpre où dorment les dieux morts.»

Ernest Renan, Prière sur l'Acropole

11.28.2010

vive o que leste com a dor & qualidade
do pensamento que tudo destrói
até que os mortos trespassem a tua vida
os irmãos ou os pais
ou aqueles antigos
com vozes de prata

Silent Monks Singing Halleluia


And He shall reign for ever and ever.

11.23.2010

O Génio em Chamas - Thomas Bernhard e O Náufrago


Três pianistas encontram-se e estudam juntos em Viena. Um deles é Glenn Gould, os outros dois não interessam, porque um deles é Glenn Gould. A natureza humana tem o limite da técnica, o do suor até às 4 da manhã, o do isolamento obcedado de quem tudo sacrifica em prol de um pouco mais de virtuosismo; e o do génio, que potencia todo o esforço que lhe é dedicado mil níveis além e que condena todo aquele que não é génio —mesmo que à arte tenha dedicado quatro vidas, mesmo que lhe tenha sacrificado o amor, a família, a humanidade— o génio que condena todo o não-génio à mediocridade. E a única opção solenemente possível para o artista autêntico, autêntico e medíocre, é destapar-se do véu tonto e retirar-se da arte.

Um desses pianistas é destruido pela acusação passageira de Glenn Gould, que lhe chama "náufrago", e que lhe toca as Variações de Goldberg de maneira veramente sobrehumana. A semente da arte de Glenn Gould não é vida para os seus antigos companheiros, não os potencia à sobrevivência, alimenta-lhes obcedamente a sua própria potência, corrompe-os, e é o delírio auto-destructivo que acaba por ser a manifestação última da influência do génio naqueles cuja alma era humana demasiado humana para conter sequer a possibilidade da existência dum génio daquela estatura. Um suicida-se. O outro passa o resto da vida a escrever um suposto mega-ensaio "Sobre Glenn Gould".

Suspeitamos que é o livro que lemos. Tal como nos promete, é menos sobre Glenn do que sobre a influência superlativa e quase hierática que a mera existência dele significa para o mundo. É um projecto falhado, tal como a Eneida d'A Morte de Vergílio é um projecto falhado, tal como a própria Morte de Vergílio é um projecto falhado, um alcance que contém em si o podre da própria inconsistência ontológica da arte que não pode existir, que não deve mortalmente existir. As Variações de Goldberg de Gould são aqui esse verme gigantesco, uma Medusa que aqueles não fadados a destruí-lo só podem olhar de relance e mesmo assim o risco é gigantesco. O autor não pode mais tocar piano, pode apenas, e rasteiramente, tentar chegar a alguma distância visível da interpretação das Variações, mas tal pode apenas ousá-lo projectando-se através da literatura, deste livro que é ele mesmo "Variações", numa falsidade e cobardia que só poderia ter uma saída. Poderíamos dizer, "Variações de Glenn Gould", ou mais concrectamente, "Variações sobre o Génio Destruidor de Glenn Gould". Só pode ser apenas mais um projecto falhado, porque não é uma expressão individual do génio em questão, é uma tentativa ressentida de alguém que vive de reflexos e de podre inveja: a única reacção possível, a única reacção humana verdadeiramente humana em confronto com uma perícia heróica que a transcende.

O tema desta "variação literária" é essa tarde em que Wertheimer, o amigo suicida do autor, ouve Glenn a tocar, e a percepção de que toda a sua vida culminará em desgraça. É esse tema diacrónico, trágico, que vai ecoando páginas contínuas do livro como uma sinfonia de morte. Temas menores vão-se desenvolvendo, enquanto a variação  se mantém, a tentativa de Joyce de transpor medidas musicais para a literatura no seu capítulo musical, na sua fuga per canonem, chega aqui a um ponto notável. Virá a morte e será uma variação musical sobre todos os teus falhanços, todas as provas de que terias sempre de ficar aquém, que não poderias jamais ser o melhor —sua, labora, virá a morte e o génio rir-se-á na tua cara.

O Náufrago, Thomas Bernhard. Relógio d'Água. Leopoldina Almeida (trad.)

11.21.2010

Apolo Primitivo

Assim como às vezes através dos ramos
inda sem folhas, a manhã espreita
já toda em primavera: assim na sua fronte
nada há que impedir possa que o fulgor

de todos os poemas venha a ferir-nos
quase de morte; pois não há inda sombra
no olhar; a fronte, fresca de mais, não pede louros,
e só mais tarde se lhe elevará

das sobrancelhas o alto rosal
cujas pétalas, soltas e dispersas,
flutuarão sobre o tremor da boca

que agora inda está calma, e brilhante e nova,
e a beber só gota a gota com o sorriso
como se lhe instilassem o cantar.


RilkePaulo Quintela (trad). Ediçõs Asa.




Este é a lembrar a conversa com o João, a Tatiana, e o Zé, precisamente sobre isto, precisamente sobre este poeta. Por vezes a literatura ousa um círculo.

dolce ne la memoria #1

Romanza

Doce na memória
eleva-se a visão.
Sobre o Aventino ardia
lentamente o dia: uma glória

como se de rosas brancas
vertia o céu nas colinas
e cobria com a neve
mole todas as coisas.

Por baixo nuvens ténues
escorriam do rio:
pareciam, na luz ambígua,
riachos volúveis

que traziam nas suas manhas
navios fabulosos.
Diante, grandes e vermelhos
por entre ciprestes, os palácios

sobre as colinas imperiais
pareciam arder com fechados
fogos. Com um confuso
rumor profundo igual,

ruídos de obras humanas
ouviam-se da margem
vizinha; em Santa Sabina
guinchavam os sinos.

A paz serena,
a pia paz que amava
nos teus suaves céus,
ó Cláudio de Lorena,

estendia-se no ocaso,
chovia na alma esquecimento.
Vencido foi o meu ser
por aquele fascínio, e invadido,

e por completo daquele recente
prazer ainda cheio
(ó como, doce senhora,
era ardente a tua boca!),

ao alto ao alto, suspiro,
se lançava, esgotadas todas as guerras.
E parecia como que a terra
iluminasse o céu.


Romanza

Dolce ne la memoria
quella vista si leva.
Su l’Aventino ardeva
lento il giorno: una gloria

come di bianche rose
versava il ciel su ’l colle
e copría de la molle
neve tutte le cose.

A ’l pian nebbie leggere
si spandeano da ’l fiume:
parean, ne ’l dubbio lume,
volubili riviere

traenti in loro ambagi
favolosi navigli.
Dietro, grandi e vermigli
tra i cipressi i palagi

su ’l colle imperiale
parean arsi da chiusi
fochi. In un sol confusi
romor profondo eguale,

suoni d’opere umane
salían da la vicina
ripa; a Santa Sabina
squillavan le campane.

Una pace serena,
la pia pace che amavi
ne’ tuoi cieli soavi,
o Claudio di Lorena,

si spandea ne l’occaso,
piovea su’ cuori oblío.
Vinto l’essere mio
da quel fascino e invaso,

tutto de la recente
voluttà pieno ancora
(come, o dolce signora,
la tua bocca era ardente!),

all’alto all’alto, anélo,
tendea, spenta ogni guerra.
E parea che la terra
illuminasse il cielo.

d'Annunzio
tradução minha

11.17.2010

Vacas

Cows, de TS Eliot. (um poema com uma história especial)

Of all the beasts that God allows
In England’s green and pleasant land,
I most of all dislike the Cows:
Their ways I do not understand.
It puzzles me why they should stare
At me, who am so innocent;
Their stupid gaze is hard to bear —
It’s positively truculent.
I’m very inconspicuous
And scarlet ties I never wear;
I’m not a London Transport Bus,
And yet at me they always stare.
You may reply, to fear a Cow
Is Cowardice the rustic scorns;
But still your reason must allow
That I am weak, and she has horns.
But most I am afraid when walking
With country dames in brogues and tweeds,
Who will persist in hearty talking
And stopping to discuss the breeds.
To country people Cows are mild,
And flee from any stick they throw;
But I’m a timid town bred child,
And all the cattle seem to know.
But when in fields alone I stroll,
Oh then in vain their horns are tossed,
In vain their bloodshot eyes they roll —
Of me they shall not make their boast.
Beyond the hedge or five-barred gate,
My sober wishes never stray;
In vain their prongs may lie in wait,
For I can always run away!
Or I can take sanctuary
In friendly oak or apple tree.

11.15.2010

"I'm convinced your good nuns believed what they preached to you, but faith mustn't ever be more than an hour old! That's the point!"

Herr Musil

11.09.2010

Amo-te: a última palavra

Adorável é o traço fútil de uma fadiga, que é a fadiga da linguagem. De palavra em palavra, afadigo-me em experimentar diversamente o que é próprio da minha Imagem, impropriamente o que é próprio do meu desejo: viagem no termo da qual a minha filosofia última não pode deixar de reconhecer --e de praticar-- a tautologia. É adorável o que é adorável. Ou ainda: adoro-te porque és adorável, amo-te por te amo. O que assim encerra a linguagem de amor é exactamente o mesmo que a instituiu: o fascínio. Pois descrever o fascínio não poderá afinal ultrapassar este enunciado: "estou fascinado". Atingido o termo da linguagem, onde não é permitido repetir senão a última palavra, à maneira de um disco riscado, satisfaço-me com a sua afirmação: não será a tautologia este estranho estado onde se encontrou, confundidos todos os valores, o glorioso final da operação lógica, o obsceno do disparate e a explosão do sim nietzschiano?

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso

quand je suis enamoré je ne parle que français