10.23.2009

Ulysses — Tennyson



Ulysses

Serve de pouco que, reinando em repouso
À lareira calma, por entre estes penhascos desertos,
Ao lado duma rainha velha, decida e passe
Leis injustas a uma raça de selvagens
Que poupam, e dormem, e comem, e não me conhecem.
Não posso descansar de viajar. Beberei
A vida até à última gota. Em todas as alturas muito
Me alegrei, muito sofri, tanto com aqueles
Que me amavam, e sozinho; na costa, e quando
Por correntes agrestes as Hyades chuvosas
Agitavam o mar ténue. Tornei-me no meu renome.
Pois vagueando sempre de coração faminto
Muito eu vi e conheci — cidades de homens
E costumes, climas, conselhos, governos,
E eu mesmo não por último, mas honrado por todos eles;
E bebi o êxtase da batalha com os meus pares
Lá longe nas planícies soantes da ventosa Ílion.
Sou parte de tudo quanto conheci;
Toda a experiência é todavia um arco por onde
Brilha aquele mundo por viajar, cuja margem se esbate
Para sempre e para sempre quando avanço.
Quão murcho é parar, chegar ao fim,
Enferrujar sem polimento, sem brilhar no uso!
Como se a vida fosse só respirar! Vida amontoada em vida
Não bastaria, e para alguém como eu
Muito pouco resta; mas cada hora é roubada
Àquele silêncio eterno, algo mais,
Portador de novos feitos; e tão vil que seria
Apenas para uns três sóis guardar-me e poupar-me.
E este espírito pálido, ardendo em desejo
De perseguir conhecimento como uma estrela cadente
Para além dos limites últimos do pensamento humano.

É este o meu filho, o meu fiel Telémaco,
A quem eu deixo o ceptro e a ilha —
É-me bem amado, e dedica-se bem
Às suas tarefas, para com cautelosa prudência suavizar
A gente rude, e com decretos gentis
Reduzi-los ao útil e ao bom.
É magnamente incensurável, focado na sua esfera
De deveres partilhados, decente o suficiente para não desapontar
Nos ofícios de ternura, e pagar
Justo respeito aos deuses do meu lar,
Quando estou ausente. É esse o seu trabalho, o meu é outro.

Ali jaz o porto, a nau rebate a vela;
Ali pairam os negros e largos mares. Os meus marinheiros,
Almas que se bateram, sofreram e pensaram comigo —
Que sempre com saudações alegres receberam
Quer trovões quer raios de sol, e se aguentaram
Com corações livres, livres frontes — eu e tu estamos velhos;
Tenha ainda a velhice alguma honra e serviço.
A morte encerra tudo; mas algo antes do fim,
Algum feito de notável memória pode ainda ser feito,
Algo digno de homens que se bateram com deuses.
As luzes já cintilam nos rochedos,
O longo dia põe-se, a lua lenta sobe, as profundezas
Gemem à volta com muitas vozes. Venham, meus amigos,
Não é tarde de mais ainda para perseguir um mundo mais novo!
Ao mar, e sentados em ordem remai
Contra os bancos de areia; pois o meu propósito
Impele-me a navegar para além do sol posto, e do mergulho
De todas as estrelas ocidentais, até morrer.
Pode muito bem ser que o golfo nos submerja no seu banho.
Ou pode muito bem ser que atinjamos as ilhas dos Bem-Aventurados
E vejamos o grande Aquiles, que em tempos conhecemos.

Embora muito esteja tomado, muito resta; e embora
Já não sejamos aquela força que nos velhos tempos
Moveu a terra e os céus, somos aquilo que somos —
Um disposição firme de corações heróicos,
Enfraquecidos pelo tempo e pelo fado, mas com forte vontade
De tentar, perseguir, encontrar e não desistir.

de Alfred Lord Tennyson, tradução minha,  leitura minha aqui.

3 comentários:

  1. Excelente Miguel, excelente tradução. Ainda há uns dias reli isto, queríamos publicá-lo como epígrafe à Ítaca, não encontrámos tradução...

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  2. Obrigado, Tatiana. Por acaso eu já fiz isto há vários meses, agora limitei-me a uns pequenos detalhes. Se tivesse sabido tê-la-ia oferecido de bom grado. É pena por um lado, mas por outro significa que a Ítaca já está para sair, suponho? Que novidades tens (ou terás em breve) dela? Eu quero a minha cópia reservada! ;)

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  3. Lol, está reservadíssima, Miguel. Está quase quase quase. Afinação de últimos detalhes. E ficas convidado para publicar esta tua tradução no nr 2, se quiseres, claro.

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