Love your body; only with it may you fight on this earth and turn matter into spirit.
Love matter. God clings to it tooth and nail, and fights. Fight with him.
Αγάπα το σώμα σου· μονάχα με αυτο στη γης ετούτη μπορείς να παλέψεις και να πνεματώσεις την ύλη.
Αγάπα την ύλη· απάνω της πιάνεται ο Θεός και πολεμάει. Πολέμα μαζί του.
Nikos Kazantzakis. Salvatores Dei, Kimon Friar (trad).
15/02/2011
Pensar Metaphýsica
"Portanto, para esta cadeira é suposto que, para perceberem [este] livro do Heidegger, 'Kant e o Problema da Metafísica', releiam a primeira metade da Crítica da Razão Pura do Kant, releiam também [estas] secções do Ser e Tempo, assim como os 4 livros da Metaphýsica de Aristóteles que vos vou indicar." - A.S.
Philosophia ora me mete medo, ora me faz feliz, ora me faz feliz mesmo enquanto se me surge vastamente mais do que eu alguma vez poderia pensar, um tipo de pensamento que é tão cliché considerar abstracto que não posso se não por vezes temer o contágio desse preconceito, até porém ao momento em que me apercebo da sua importância última, do quão fundamental ele é, e do quão reclama o meu fascínio ingénuo, mesmo enquanto compreendo que possivelmente nunca o captarei sequer no mínimo sábio. A última vez que me aventurei nestas profundidades da ontologia foi numa altura da minha vida em que a minha cabeça estava de tal modo metida água, emocionalmente e não só, que levar a sério metaphýsica tão árida, ou ária pelo menos para alguém que em tudo isto se principiava, era uma questão impossível. Entretanto cresci, e parecendo que não passaram três anos desde então, quando começava a estudar Philosophia ao mesmo tempo que fazia o meu curso de Clássicas. Se penso que é muito? Pelo contrário, sei que é nada. Mas mesmo estando perdido ao menos penso que posso, pela primeira vez, por uns instantes parar - e olhar: Agora volto às paisagens escondidas. Sic sic juvat ire sub umbras: talvez seja a hora — vão-se lixar, que se para alguma coisa serve a universidade é pra isto.
Convergência lexical
Acabei de me aperceber de que uso as palavras saudável, espiritual, e humano todas com um significado essencialmente idêntico.
João Barrento Sem Qualidades
João Barrento a falar sobre o Homem Sem Qualidades de Robert Musil.
Sexta-feira, 25 de Fevereiro. Na sala 12 às 11.30 da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Eu estou tão lá.
Sexta-feira, 25 de Fevereiro. Na sala 12 às 11.30 da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Eu estou tão lá.
11/02/2011
As Rosas amo dos jardins de Adónis
Em honra do Jardim de Adónis.
As Rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.
Ricardo Reis. Poesia. Assírio & Alvim: 2000.
As Rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.
Ricardo Reis. Poesia. Assírio & Alvim: 2000.
10/02/2011
Was ist das? Was? Tot.
— Die Frau heute, was hat sie gehabt?
— Welche Frau? Ach so! Die war tot.
— Welche Frau? Ach so! Die war tot.
— Was ist das?
— Was?
— Tot.
— Was tot ist? Ach Gott! Was ist das für eine Frage! Das ist, wenn jemand nicht mehr lebt. Wenn er aufgehört hat, zu leben.
— Und wann hört jemand auf, zu leben?
— Wenn er ganz alt ist oder sehr krank.
— Und die Frau?
— Die hat einen Unfall gehabt.
— Einen Unfall?
— Ja, das ist wenn du dich sehr, sehr Weh tust.
— So wie Papa!
— Ja, aber viel schwerer. Zu schwer, dass das Körper nicht aushält.
— Und dann ist man tot?
— Ja, aber die meisten Leute haben keinen Unfall.
— Sie sind nicht tot.
— Nein, sie sterben viel später.
— Wann?
— Eben später, wenn sie ganz, ganz alt sind.
— Müssen alle sterben?
— Ja.
— Wirklich alle?
— Ja, alle Menschen müssen sterben.
— Aber du doch nicht, Annie!
— Ich auch, alle.
— Aber der Papa doch nicht!
— Auch der Papa.
— Und ich auch?
— Du auch, aber erst in langer Zeit. Wir alle erst in langer Zeit.
— Und man kann gar nichts dagegen tun? Es muss kommen?
— Ja, aber jetzt noch lange nicht.
— Und die Mama, die ist gar nicht verreist. Ist die auch tot?
— Ja, ist auch tot. Aber das ist schon lange her.
Michael Haneke. Das weiße Band (2009)
Michael Haneke. Das weiße Band (2009)
07/02/2011
An uncertain time after Patmos
we heard and remained: the islands
won't come they won't
wait at the light-blue
twilight
you step your foot
on culture dry as milk
we wait and we drink
to dance, spirits and lose the snow
hiding our purpose. if you had the dead
flowers in your hairskin rendezvous
with the past, if you wait
and it comes with the golem
we wrote, some giotto
criminal with the word
no one speaks– eleven stars
from marburg, each god
pathetic, just like schubert
would have wanted it.
who is the third, the false
beginning? sometimes in seas
of ghosts turned athletes
a fire flows downwards, graceful.
Miguel Monteiro
won't come they won't
wait at the light-blue
twilight
you step your foot
on culture dry as milk
we wait and we drink
to dance, spirits and lose the snow
hiding our purpose. if you had the dead
flowers in your hairskin rendezvous
with the past, if you wait
and it comes with the golem
we wrote, some giotto
criminal with the word
no one speaks– eleven stars
from marburg, each god
pathetic, just like schubert
would have wanted it.
who is the third, the false
beginning? sometimes in seas
of ghosts turned athletes
a fire flows downwards, graceful.
Miguel Monteiro
06/02/2011
Liras ao Vento
Nas copas dos salgueiros
E como podíamos nós cantar
com o pé estrangeiro sobre o coração,
por entre o mortos abandonados nas praças
pela erva dura da geada, ao lamento
de cordeiro dos meninos, ao berro negro
da mãe que andava às voltas do filho
crucificado no poste do telégrafo?
Nas copas dos salgueiros, como oferenda,
também as nossas cítaras estavam penduradas,
oscilavam leves ao triste vento.
Salvatore Quasimodo. Poesie. Newton Compton: 1996.
(tradução minha)
Ode to the West Wind. V.
Make me thy lyre, even as the forest is:
What if my leaves are falling like its own?
The tumult of thy mighty harmonies
Will take from both a deep autumnal tone,
Sweet though in sadness. Be thou, Spirit fierce,
My spirit! Be thou me, impetuous one!
Drive my dead thoughts over the universe,
Like wither'd leaves, to quicken a new birth;
And, by the incantation of this verse,
Scatter, as from an unextinguish'd hearth
Ashes and sparks, my words among mankind!
Be through my lips to unawaken'd earth
The trumpet of a prophecy! O Wind,
If Winter comes, can Spring be far behind?
Percy Bysshe Shelley. Ode to the West Wind and Other Poems. Dover Thrift: 1993
E como podíamos nós cantar
com o pé estrangeiro sobre o coração,
por entre o mortos abandonados nas praças
pela erva dura da geada, ao lamento
de cordeiro dos meninos, ao berro negro
da mãe que andava às voltas do filho
crucificado no poste do telégrafo?
Nas copas dos salgueiros, como oferenda,
também as nossas cítaras estavam penduradas,
oscilavam leves ao triste vento.
Salvatore Quasimodo. Poesie. Newton Compton: 1996.
(tradução minha)
Alle fronde dei salici
E come potevano noi cantare
Con il piede straniero sopra il cuore,
fra i morti abbandonati nelle piazze
sull’erba dura di ghiaccio, al lamento
d’agnello dei fanciulli, all’urlo nero
della madre che andava incontro al figlio
crocifisso sul palo del telegrafo?
Alle fronde dei salici, per voto,
anche le nostre cetre erano appese,
oscillavano lievi al triste vento.
Ode to the West Wind. V.
Make me thy lyre, even as the forest is:
What if my leaves are falling like its own?
The tumult of thy mighty harmonies
Will take from both a deep autumnal tone,
Sweet though in sadness. Be thou, Spirit fierce,
My spirit! Be thou me, impetuous one!
Drive my dead thoughts over the universe,
Like wither'd leaves, to quicken a new birth;
And, by the incantation of this verse,
Scatter, as from an unextinguish'd hearth
Ashes and sparks, my words among mankind!
Be through my lips to unawaken'd earth
The trumpet of a prophecy! O Wind,
If Winter comes, can Spring be far behind?
Percy Bysshe Shelley. Ode to the West Wind and Other Poems. Dover Thrift: 1993
04/02/2011
Imitando as Donzelas
Hoje num seminário comentei o problema da possibilidade de existência dum mundo sem arte. Para responder falei sobre culturas anteriores onde a divisão ou separação de outros existenciais culturais como a religião ou ciência ainda não estariam separadas da arte, mas que, conquanto assimilada a essas outras realidades humanas, existia ainda assim aquilo que precipita a necessidade humana da arte, a saber a necessidade humana de permanência. Concluí portanto que Não, um mundo sem arte não só não seria possível como seria também uma contradição.
Ao que o professor me respondeu desmantelando o meu problema histórico, transformando-o num problema político: o problema não era saber o antes antigo, mas sim aquilo que o presente nos ensinou: o contra-exemplo foi, incluindo no tema em questão, a saber a reflexão de Hannah Arendt sobre a obra de arte enquanto fruto do pensamento, sugerir o exemplo histórico dos totalitarismos nos quais, na proporção em que não haveria pensamento, não haveria também obras de arte: sendo que portanto a resposta seria Sim, é possível um mundo sem obras de arte.
Só então reparei na futilidade que é escrever sobre este ou aquele tema se mais tarde não o incorporo nos meus pensamentos. Ao recusar-me a pensar o presente, ao apressar-me em encontrar um fácil Sim nas brumas do passado, ao afirmar a omni-necessidade da Arte, o que faço eu? Aliás, o que faz todo o Sim que implica a necessidade de tal ou tal coisa? Imediatamente desresponsabiliza: o que o meu Sim diz é: «não é preciso fazer valer a arte, não é preciso combater por ela; ela é sempre necessária, e portanto haverá sempre alguém, qualquer pessoa, que por ela lute; eu não necessito fazer nada». Por muito que tenha pensado nelas, acabei, na primeira oportunidade, por me comportar exactamente como as Donzelas do Rheno: na primeira oportunidade afirmei a Incorruptibilidade-Intocabilidade do Ouro-Arte, preparando o caminho para que na primeira oportunidade mo-lo roubem.
O argumento está apenas esboçado, mas outra coisa que interessa notar é que partimos ambos, eu e o professor, para exemplos extremos: pegámos em civilizações estranhas nas quais pudéssemos afirmar que não possuiriam obras de arte como estas foram entendidas a partir da modernidade. O meu exemplo funciona, assim como o dele, mas não pude deixar de passar o resto da aula a auto-analisar-me, apercebendo-me tenebrosamente de que é assim que eu penso: ao confrontar-me com um problema, transporto-me imediatamente para o passado, puxo os limites históricos, primitivizo, ou, para não haver problemas lexicais, vejo as primícias. Isto corre o risco de se tornar saudodismo ou ahistoricidade mais perigosa: ao invés de olhar para os extremos políticos do presente, refugio-me na certeza da estabilidade do passado imperturbável. No Nostalgia do Absoluto, Steiner pensa Lévi-Strauss como aquele que encontra o paradiso no estudo do passado incorrupto, sendo que o presente já estaria de tal maneira podre que nada o poderia resgatar. Eu desdenho tal vista, e desse modo entristece-me aperceber-me de que dou por mim precisamente a pensar de modo semelhante.
03/02/2011
O mundo da arte, o mundo da futilidade
O mundo de coisas feito pelo homem, o artifício humano construído pelo homo faber, só se torna uma morada para os homens mortais, um lar cuja estabilidade suportará e sobreviverá ao movimento continuamente mutável das suas vidas e acções, na medida em que transcende a mera funcionalidade das coisas produzidas para o consumo e a mera utilidade dos objectos produzidos para o uso. A vida no seu sentido não biológico, o tempo que transcorre entre o nascimento e a morte do homem, manifesta-se na acção e no discurso, que têm em comum com a vida o facto de serem essencialmente úteis A «realização de grandes feitos e o dizer de grandes palavras» não deixarão qualquer vestígio, qualquer produto que possa perdurar depois de passar o momento da acção e da palavra falada. Se o animal laborans precisa do auxílio do homo faber para atenuar o seu labor e minorar o seu sofrimento, e se os mortais precisam do seu auxílio para construir um lar na terra, os homens que agem e falam precisam da ajuda do homo faber na sua mais alta capacidade, isto é, a ajuda do artista, de poetas e historiógrafos, de escritores e construtores de monumentos, pois, sem eles, o único produto da sua actividade, a história que eles vivem e encenam, não poderia sobreviver. Para que venha a ser aquilo que o mundo sempre se destinou a ser — uma morada para os homens durante a sua vida na terra — o artifício humano deve ser um lugar adequado à acção e ao discurso, a actividades não só inteiramente inúteis às necessidades da vida, mas de natureza inteiramente diferente das várias actividades da fabricação mediante a qual são produzidos o mundo e todas as coisas que nela existem. Não é necessário que escolhamos aqui entre Platão e Protágoras, nem decidamos se é o homem ou um deus que deve ser a medida de todas as coisas; o que é certo é que a medida não precisa de ser nem a compulsiva necessidade da vida biológica e do labor, nem o «instrumentalismo» utilitário da fabricação e do uso.
Hannah Arendt. A Condição Humana, Roberto Raposo (trad). Relógio d'Água: 2001.
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