6.17.2018

Cinco poemas da Ingeborg Bachmann

Dizer o escuro

Como Orfeu eu toquei
na lira da vida a morte,
e à beleza da terra
e dos teus olhos que do céu cuidavam,
eu sei apenas: dizer o escuro.

Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o trevo
dormia no teu coração,
viste o pé escuro
que diante de ti marchou.

Com a corda do silêncio
esticada sobre a onda de sangue,
eu agarrei o teu coração soante.
As tuas tranças mudaram-se
nos cabelos de sombra da noite,
os flocos negros das trevas
cortaram o teu rosto.

E eu não te ouvi.
Agora ambos nos lamentamos.

Mas como Orfeu eu conheço
nas cordas da morte a vida,
e azula-se-me
o teu olho eternamente fechado.



Sombras Rosas Sombras

Sob um Céu estrangeiro
Sombras Rosas
Sombras
sobre uma Terra estrangeira
entre Rosas e Sombras
numa Água estrangeira
minha Sombra



Salmo


1
Cala-te comigo, como todos os relógios se calam!
No pós-parto do terror
o verme procura novo alimento.
Uma mão Sexta-feira Santa suspensa
no firmamento, faltam-lhe dois dedos,
ela não pode jurar que tudo,
que tudo não tenha acontecido e que nada
venha a acontecer. Mergulha no vermelho das nuvens,
arrasta fora o novo assassino,
e vai em liberdade.
De noite nesta terra
agarrar à janela, dobrar os lençóis
para que os segredos do doente se exponham,
uma jura de alimento, dores sem fim
para todos os gostos.
Os talhantes sustêm, de luvas nas mãos,
a respiração dos despidos,
a lua na porta cai até ao chão,
deixa os estilhaços para lá, a pega . . .
Estava tudo orientado para a extrema unção.
(O Sacramento não pode ser completado.)


2
Quão vão é tudo.
Se uma cidade se valsear daqui para fora,
ergue-te do pó desta cidade,
apodera-te duma respiração
e dispõe-te
para te opores a seres exposto.
Cumpre a promessa
diante de um espelho cego na brisa,
diante duma porta fechada ao vento.
São intransponíveis os caminhos pelos penhascos do céu.


3
Ó olhos, queimados pela terra acumuladora de Sol,
carregada do peso da chuva de todos os olhos,
e agora presa em ilusões, presa na teia
da aranha trágica
do passado . . .


4
No fosso da minha mudez
põe uma palavra
e traz bosques muitos para ambos os lados
para que a minha boca
fique toda à sombra.


A Noite dos Esquecidos
O Fim do Amor
[da Nachlass] 
Uma lua, um sol
e o mar escuro.
Agora, tudo escuro.
Apenas porque é de noite
e nada de humano
se entretece neste detalhe trabalhado.
Aquilo de que tu me acusas
E tanta amargura,
Não o faças.
Eu não sabia nada melhor
do que amar-te, eu
não pensei,
que pelo suor da pele
o [--] mundo
e que o centavo caiu

[da Nachlass] 
Não conheço nenhum mundo melhor.
A moral imbecil da vítima não permite ter muita esperança.
Uma pergunta execrável, com sinceridade, sozinha,
chega ao torturado, para lhe mostrar o valor
de ter sobrevivido, ao ser atacado, para baixar a guarda,
para elevar até si a moral imbecil da vítima
mas sem anunciar
aos torturados este chinfrim por uma hora que seja
Para os torturados, quer este chinfrim seja
ainda um Anúncio, para a moral imbecil
da vítima.
As perguntas execráveis vão agora sozinhas
até aos torturados.
Chegam às perguntas execráveis
um dia silenciosas, activas, respostas.
Às perguntas execráveis, não às santas,
que para as santas não há,
os que lá as sofrem
no que de mais execrável há
descobriram uma resposta.
Quem lá sofre deixa-se estar.
A alma bela

Ingerborg Bachmann. Traduções minha. 
in Sämtliche Gedichte. (2010) Piper
in Ich weiß keine bessere Welt: Nachgelassene Gedichte. (2016) Piper



Dunkles zu sagen

Wie Orpheus spiel ich
auf den Saiten des Lebens den Tod
und in die Schönheit der Erde
und deiner Augen, die den Himmel verwalten,
weiß ich nur Dunkles zu sagen.

Vergiß nicht, daß auch du, plötzlich,
an jenem Morgen, als dein Lager
noch naß war von Tau und die Nelke
an deinem Herzen schlief,
den dunklen Fluß sahst,
der an dir vorbeizog.

Die Saite des Schweigens
gespannt auf die Welle von Blut,
griff ich dein tönendes Herz.
Verwandelt ward deine Locke
ins Schattenhaar der Nacht,
der Finsternis schwarze Flocken
beschneiten dein Antlitz.

Und ich gehör dich nicht zu.
Beide klagen wir nun.

Aber wie Orpheus weiß ich
auf der Seite des Todes das Leben,
und mir blaut
dein für immer geschlossenes Aug.



Schatten Rosen Schatten

Unter einem fremden Himmel
Schatten Rosen
Schatten
auf einer fremden Erde
zwischen Rosen und Schatten
in einem fremden Wasser
mein Schatten



Psalm 
1
Schweigt mit mir, wie alle Glocken schweigen!
In der Nachgeburt der Schrecken
sucht das Geschmeiß nach neuer Nahrung.
Zur Ansicht hängt karfreitags eine Hand
am Firmament, zwei Finger fehlen ihr,
sie kann nicht schwören, daß alles,
alles nicht gewesen sei und nichts
sein wird. Sie taucht ins Wolkenrot,
entrückt die neuen Mörder
und geht frei.
Nachts auf dieser Erde
in Fenster greifen, die Linnen zurückschlagen,
daß der Kranken Heimlichkeit bloßliegt,
ein Geschwür voll Nahrung, unendliche Schmerzen
für jeden Geschmack.
Die Metzger halten, behandschuht,
den Atem der Entblößten an,
der Mond in der Tür fällt zu Boden,
laß die Scherben liegen, den Henkel ...
Alles war gerichtet für die letzte Ölung.
(Das Sakrament kann nicht vollzogen werden.) 
2
Wie eitel alles ist.
Wälze eine Stadt heran,
erhebe dich aus dem Staub dieser Stadt,
übernimm ein Amt
und verstelle dich,
um der Bloßstellung zu entgehen.
Löse die Versprechen ein
vor einem blinden Spiegel in der Luft,
vor einer verschlossenen Tür im Wind.
Unbegangen sind die Wege auf der Steilwand des Himmels. 
3
O Augen, an dem Sonnenspeicher Erde verbrannt,
mit der Regenlast aller Augen beladen,
und jetzt versponnen, verwebt
von den tragischen Spinnen
der Gegenwart ... 
4
In die Mulde meiner Stummheit
leg ein Wort
und zieh Wälder groß zu beiden Seiten,
daß mein Mund
ganz im Schatten liegt.


DIE NACHT DER VERLORENEN
DAS ENDE DER LIEBE 
Ein Mond, ein Himmel
und das dunkle Meer.
Nur, dunkel alles.
Nur weil es Nacht ist
und nichts Menschliches
dies feingewirkte auch durchwebt.
Was wirfst du mir noch vor
und solche Bitterkeit,
Tu's nicht.
Ich hab nichts Besseres gewußt
als dich zu lieben, ich hab
nicht gedacht,
daß durch den Schweiß der Haut
die [– –] Welt
und daß der Groschen fiel

Ich weiß keine bessere Welt.
Die schwachsinnige Moral der Opfer läßt wenig hoffen.
Eine verruchte Frage, auf Ehre, allein,
kommt dem Gefolterten, dies Überlebens
sich wert zu zeigen, im Angriff, abzulegen
die schwachsinnige Moral der Opfer
sich zu erheben, dieses Geröchel
nicht mehr zu werben um eine Stunde.
an die Gefolterten, ob dies Geröchel noch
Werbung ist, für die schwachsinnige Moral
der Opfer.
Die verruchten Fragen gehn jetzt allein
an die Gefolterten
Auf die verruchten Fragen kommt sie
eines Tages, die lautlose, tätige Antwort.
Auf verruchte Fragen, nicht die seligen,
gibt es nicht auf die seligen,
der die da leiden
auf die verruchtesten
finden sich eine Antwort.
der die da leiden, lassen sich stellen.
Die schöne Seele

6.15.2018

!نور على نور

Deus é a luz dos céus e da terra. A parábola da sua luz é como se houvesse uma reentrância com uma candeia lá dentro, e a candeia está num vidro, e o vidro é como uma estrela cor de pérola acendido pela árvore abençoada da oliveira que não se inclina nem para oriente nem para ocidente, e cujo óleo brilharia mesmo se nenhum fogo a tocasse. Luz sobre Luz! Deus guia até à sua luz quem quer, e cunhou parábolas para a Humanidade - e Deus é de tudo sabedor. 
Qurão, Sura da Luz [24.35] Tradução minha. 
اللَّهُ نُورُ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ مَثَلُ نُورِهِ كَمِشْكَاةٍ فِيهَا مِصْبَاحٌ الْمِصْبَاحُ فِي زُجَاجَةٍ الزُّجَاجَةُ كَأَنَّهَا كَوْكَبٌ دُرِّيٌّ يُوقَدُ مِن شَجَرَةٍ مُّبَارَكَةٍ زَيْتُونِةٍ لَّا شَرْقِيَّةٍ وَلَا غَرْبِيَّةٍ يَكَادُ زَيْتُهَا يُضِيءُ وَلَوْ لَمْ تَمْسَسْهُ نَارٌ نُّورٌ عَلَى نُورٍ يَهْدِي اللَّهُ لِنُورِهِ مَن يَشَاء وَيَضْرِبُ اللَّهُ الْأَمْثَالَ لِلنَّاسِ وَاللَّهُ بِكُلِّ شَيْءٍ عَلِيمٌ

5.31.2018

O Erro de Sócrates

László Krasznahorkai. War and War. George Szirtes trad. (2016) Tuskar Rock Press
. . . this was the point, he said, especially in the way it came to him in all its banality, vulgarity, at a sickening ridiculous level, but this was the point, he said, the way that he, at the age of forty-four, had become aware of how utterly stupid he seemed to himself, how empty, how utterly blockheaded he had been in his understanding of the world these last forty-four years, for, as he realized by the river, he had not only misunderstood it, but had not understood anything about anything, the worst part being that for forty-four years he thought he had understood it, while in reality he had failed to do so, and this in fact was the thing of all that night of his birthday when he sat alone by the river, the worst because the fact that he now realized that he had not understood it did not mean that he did understand it now, because being aware of his lack of knowledge was not in itself some new form of knowledge for which an older one could be traded in, but one that presented itself as a terrifying puzzle the moment he thought about the world, as he most furiously did that evening, all but torturing himself in the effort to understand it and failing, because the puzzle seemed ever more complex and he had begun to feel that this world-puzzle that he was so desperate to understand, that he was torturing himself trying to understand was really the puzzle of himself and the world at once, that they were in effect one and the same thing, which was the conclusion he had so far reached, and he had not yet given up on it, when . . .

5.21.2018

Rhyme or Reason

Leo Spitzer, Classical and Christian Ideas of World Harmony: Prolegomena to an Interpretation of the Word "Stimmung". 1963. The John Hopkins Press
To the traditional interpretation of the new rhyme technique as due to the decay of ancient quantity and the rise of stress in the Romance languages, I should like to add a further explanations based on the different function of phonetic consonance in the ancient and modern languages respectively: The device of homoioteleuton was used in the ancient languages to express intellectual correspondences: nect- , flect- , plect- , or, especially, in the endings of the declension: omnia praeclara rara; abiit, fugit, evasit. A language which has established the principle of rhyme as a basis of grammatical accord can draw from it little poetic effect (in French the scant remainders of grammatical consonance , -er, -ais are never poetic). Rhyme as a poetic device has originated in our modern languages because it is no longer used for grammatical concordance: it serves to link words which precisely are not easily connected, and therein lies its charms. The Latin sequence quoted above appears in modern languages without grammatical rhyme (toutes les belles choses sont rares), and we may assume that the decay of the Latin nominal and verbal declension system must have contributed to the development of rhyme as a poetic device. While the inflectional system was still in full vigor, the poetic flavor of language could be enhanced only by quantitative prosody. That the disappearance of grammatical rhyme opened the way to poetic rhyme is also suggested by the fact that in late antiquity (and later, through the Middle Ages in the so-called Reimprosa) rhyme was used, in prose alone, as a device for underlining intellectual parallelism (cola). It was employed by Tertullian (according to Vossler) because it belonged to the “sophistical and rhetorical apparatus of Greco-Latin artistic prose” —and Christian propaganda should not show a style inferior to that of the heathen. It is well known that Augustine, although in his discussion of metrics (De musica) he fails to mention rhyme as a “musical phenomenon”, was the first to use the rhyme form in a poem; it is to be found in a psalm, reminiscent of later Romance tirades, contra Donatianum, which is somewhat in the middle between poetry and dogmatic propaganda. I would suggest that, in the rescue of rhyme from its prosaic commitments, nothing was more influential (in a Latin which had freed itself from the quantitative system and which —at least in the case of the spoken form, Vulgar Latin— was about to lose its declension system) that was the idea of (the musical) world harmony. With the Romans, the expression consonantia vocum (which, as we have already seen, was a by-product of their world harmony) was applied to grammatical accord, but now we find “consonance” used as the name for the rhyme ([con]sonans, acordans in the old Provençal Leys d’Amors, etc.), since this, likewise, is an echo of the world harmony (the German word for rhyme meant originally “order” and may render the idea of the numeri. Rhyme as a musical device is in line with Ambrose’s addition of oriental music to the text of his hymns in praise of world harmony —oriental music that would have sounded as barbarous to the nice ear of the Greeks as the rhyme. The tremendous development of music is not thinkable without the Christina idea of world harmony: as Ambrose says in his History of Music (quoted by Vossler), music was “freed from the shackles of metrics”: in the alleluias, or in the final lines of psalms, music went its own way, apart from the text. Now rhyme itself is perhaps of a parallel “barbaric,” oriental original (Lydian according to Vossler, but Syrian according to W. Meyer aus Speier); it is also a typically Christian device (“In the first six centuries there is hardly a single rhymed poem to be found in Latin that is not inspired by Christian sentiment” —Vossler). Is it, then, too bold to assume, along with the introduction of a music joined with words and expanding beyond the range of words the introduction also of a second music within the words themselves, i.e., rhyme, used as a devise in unison with the idea of world harmony and possessed of all the emotional, unintellectual impact of this idea? The Gesamtkunstwerk technique implies generally synesthetic devices: the “musicalization of poetry”  by the rhyme would be only another feature of the conception of art as musical art. The polyphony in which the manifoldness of the universe is brought to unity, is echoed within the poem by a device which holds together words that strive apart. Both polyphony and rhyme are Christina developments, patterned on world harmony; in the ambiguity of the word consonantia in the Middle Ages (“chord” or “rhyme”) we may grasp the fundamental kinship of the two meanings. Rhyme is now redeemed from intellectualism, it is an acoustic and emotional phenomenon responding to the harmony of the world.

Xadrez e Filosofia Política


5.14.2018

Sir Gawain and the Green Knight

Sir Gawain and the Green Knight 199-202
He loked as layt so lyȝt,
So sayd al þat hym syȝe
Hit semed as no mon myȝt
Vnder his dyntteȝ dryȝe.

5.13.2018

um poema mesopotâmico

inquieto e simultâneo
arqueou as asas e poisou, deus,
na muralha da cidade, nos tijolos açafrão.

ele que vira as profundezas,
chilreou e aninhou a cabeça
na curvatura do próprio pescoço.

e tu quando virás, estrela da Véspera?
e quando lustrará
seu canto o teu sono?

Enfin la beauté


5.11.2018

𒅴𒂠

Gonzalo Rubio, Shulgi and the Death of Sumerian, in "Studies in Sumerian Literature" (2006) Brill

5.04.2018

O Sacrifício de Isaac

Génesis 22:1-19. Tradução do Hebraico minha

para a Teresa, que pediu 
[22.1] E aconteceu depois destas coisas, e Elohim testou Abraão, e disse-lhe, Abraão, e disse, Aqui estou eu. [2] E disse, Vá, pega no teu filho, no único, aquele que amaste, em Isaac, e vai até à terra de Mória*1, e sobe-o até lá, para o imolares naquele dos montes que eu te direi. [3] E madrugou Abraão de manhã e pôs a sela no seu jumento e pegou em dois dos seus rapazes consigo e em Isaac seu filho, e cortou lenha da imolação, e levantou-se, e foi até ao lugar que lhe disse Elohim. [4] No terceiro dia Abraão ergueu os seus olhos e viu o lugar na distância. [5] E disse Abraão aos seus rapazes, Andem, fiquem aqui com o jumento, e eu e o rapaz vamos ali, e adoraremos, e regressaremos até vós. [6] E pegou Abraão na lenha da imolação e pô-la sobre Isaac seu filho e pegou com sua mão no fogo e na faca, e foram os dois juntos. [7] E disse Isaac a Abraão seu pai, e disse, Meu pai, e disse, Aqui estou eu, meu filho, e disse, Aqui está o fogo e a lenha, e onde está o cordeiro para a imolação? [8] E disse Abraão, Elohim verá do cordeiro para a imolação, meu filho, e foram os dois juntos. [9] E chegaram ao lugar que Elohim lhe tinha dito, e construiu lá Abraão o altar e dispôs a lenha e amarrou Isaac seu filho e pô-lo sobre o altar de sobre a lenha. [10] E estendeu Abraão a sua mão e pegou na faca para matar o seu filho. [11] E clamou-lhe um anjo de Yahweh dos céus e disse Abraão, Abraão, e disse, Aqui estou eu. [12] E disse, Não estendas a tua mão sobre o rapaz, e não lhe faças o que quer que seja, pois agora soube que tu tens medo de Elohim, e não poupaste o teu filho, o teu único, de mim. [13] E ergueu Abraão os seus olhos e viu que ali atrás estava um carneiro preso nos arbustos pelos chifres, e Abraão foi e pegou no carneiro e imolou-o numa imolação pelo seu filho. [14] E proclamou Abraão o nome do monte: Yahweh-Verá*2, tal como se diz hoje no monte, Yahweh verá. [15] E clamou um anjo de Yahweh a Abraão uma segunda vez dos céus. [16] E disse, Por mim jurei - palavra de Yahweh - pois vi que fizeste esta coisa e não poupaste o teu filho, o teu único. [17] Por isso abençoar-te-ei uma grande benção, multiplicarei multiplamente a tua semente como as estrelas do céu e como a areia na língua do mar, e possuirá a tua semente a porta dos seus inimigos. [18] E serão abençoadas na tua descendência todas as nações da terra, visto que ouviste a minha voz. [19] E voltou Abraão aos seus rapazes, e levantaram-se, e foram juntamente para Ber-Sheva, e morou Abraão em Ber-Sheva.

*1 מוריה/Moryáh :: Nome composto teofórico, "Visto/ordenado por Yahweh"
*2 Yahweh-yir'eh


Imagem: Sacrifício de IshmaelAntologia Timurid, Shiraz, 1410-1411 @ Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa

A tradição islâmica, comemorada no Eid Al-Adha, afirma que fora Ishmael, o filho de Abraão com Hagar, e não Isaac, o filho de Abraão com Sarah, o alvo da ordem de Deus.

4.24.2018

Πίστις Σοφία

A primeira coisa que Deus criou foi a Razão, e disse-lhe: "Avança!", e avançou. E disse-lhe: "Recua!", e recuou. E disse-lhe: "Não criei para mim nada mais belo do que tu, nem nada que eu ame mais do que a ti. Por ti hei eu de tirar, e por ti hei eu de dar."

Ḥadith qudsī. Tradução do Árabe minha.

ان اول ما خلق الله العقل فقال له 《اقبل》 فاقبل وقال له 《ادرب》 فادرب فقال 《ما خلقت شيئا احسن الى منك احب الى منك. بك آخذ وبك اعطى》

4.22.2018

um poema primaveril do Oswald von Wolkenstein

Oswald von Wolkenstein. Tradução do Alto-alemão Médio minha. Texto original aqui.





Vil lieber grüesse süesse
sich erheben, streben,
frölich zölich yetten,
tretten in das pfat
drat. frue und spat
hört man dringen,
singen, klingen,
voglin in den ouen.

Durch helle döne schöne,
in den strauhen rauhen
esten glesten, fliegen,
kriegen widerstreit.
breit anger weit
sol man grüenlich
küenlich süenlich
kurzlich ane schouen.

Winder kalt
ungestalt,
dein gewalt
ist entspalt
von den süessen lüfften.
liechten summer
ane kummer
wil ich tummer
als ein frummer
geuden und güfften.

Grüener kle
jagt den snee
jarlang me
inn den see
wilder meres flüete.
nachtigalle,
droschel schalle,
lerchen halle
uns gevalle
für des oftens güete.

Die blumen gele hele,
hübsch geverbet, gärbet,
praune schaune plaue
grau mangerlai.
mai, dein geschrai
sich florieret,
zieret, fieret
kösstlicher gelüsste.

Und hübsche wäsli, gräsli,
sich entsliessen, spriessen
hüglich tüglich, plüede
früede, violspranz,
glanz firlafanz,
aller pame
zame game
zier aus kalder früste.

Stauden stock
machet schock
Rauhen rock
als ain bock
löblichen bedecket
swarzer doren
weiss erkoren.
gar verloren
ist der zoren,
den der winder wecket.

Küeler brunn,
warme sunn
geit uns wunn.
gail dich, nunn,
hinden auss dem kloster,
bei dem Reine
in dem scheine
als ein veine
buelbegeine
raien nach den ostern!

Die swammen stupfen, lupfen
auss der erde herde
würmli türmli wachen,
machen neuen slauch.
gauch, lock uns auch
durch die haide!
raide, ir maide,
suecht der stauden winkel!

Da well wir kosen, losen
mit beslossen, gossen,
warmen armen lieplih
dieblich inn den busch.
dusch, mündlin, kusch!
ob die raine
klaine saine
mir emblösst ein schinkel

An ain knie,
ich wer hie,
des nit lie
und tet, wie
ich das gefüegen kunde,
zue ir rucken,
freuntlich smucken,
lieplich drucken,
biegen, bucken,
ob si mir des gunde!

So wär quitt,
was ich litt.
hielt sis mit,
diesen stritt
müesset ich überwinden,
sunder klifen
tasten, grifen,
manigen lifen
lust vertrifen
bleiben bei dem kinde.
Muitos queridos acenos doces
Se levantam, crescem,
Se mandam alegres e vivos,
Se põem a caminho
Agora! Manhã e noite
Ouvimos espalhados
Os pássaros no prado
A cantar e a soar.

Com claros belos tons
Nas folhas dos arbustos
Comem, brilham, voam
Lutam cá e lá.
Longe, extensos, muitos,
Dá para os ver
Alegres, amigáveis,
Juntos uns dos outros.

Inverno frio,
Descomposto,
O teu poder
Desmorona-se
Face às doces brisas.
À leveza do verão
Quero entregar-me
Sem cuidados
Lançar-me a ela
Simples e ousado.

O trevo verde
Afugenta a neve
Deste ano
Até ao mar,
Às bravas ondas do oceano.
Os Rouxinóis
De canto límpido,
A voz das cotovias,
Agradam-nos bem mais
Que estar à braseira!

As flores brilham amarelas,
Ostentam-se lindas, vestidas
De castanho, dourado, azul
E aqui e lá cinzento.
Maio, o teu grito
Floresce,
Explode em beleza, persegue
Prazeres sem preço.

E belos tufos de relva,
Soerguem-se, brotam
Felizes, fortes,
Frescos, cobertos de violetas,
O brilho exuberante
De todas as árvores
Deleita o olhar,
Explode da geada fria.

Os arbustos crescem
Ramos floridos,
E folhas espessas
Como a barba do bode -
É um espanto como se cobrem
De negros espinhos
E brancos botões.
Porque desapareceu
O ódio
Que o inverno despertara.

Nascentes frias,
Sol quente,
Gostamos disto.
Freira, pisga-te
Do teu convento!
[E aparece] junto ao Reno
À luz do dia,
E como uma nobre
Que não fez votos
Ama após a Páscoa!

Os cogumelos saem, espremem-se
Dos montes de terra,
As serpentitas acordam aos tropeços,
E voltam a alimentar-se.
Cuco, guia-nos
Pelo prado!
Rápido, meninas,
Procurem um espaço nos arbustos!

Para trocarmos murmúrios, brincarmos,
Derramarmos um sobre o outro os braços
Apertados quentes de amor
Às escondidas entre as plantas.
Chiu, lábios - beijem-me!
Se a rapariga
Gentil e hesitante
Me mostrar a perna

Até ao joelho,
Eu vou tentar,
Quanto puder,
Convencê-la
A deixar-me aproximar-me
E a deitá-la de costas
Para lhe tocar gentilmente,
Empurrá-la com amor,
Segurá-la, virá-la -
Isto se ela o quiser!

Se assim for, será recompensado
O meu sofrimento.
Se ela o permitir,
Eu hei-de ganhar
Este combate!
Muitos tipos
De [???] e de apertos
Há a experimentar,
Muitos carícias de paixão
Nos aguardam [? na sua bondade].

4.20.2018

Fogo, Fogo

FOGO, FOGO
Adam Zagajewski
(Marco Bruno trad.)

Fogo de Descartes, fogo de Pascal,
cinza, centelha.
Durante a noite arde uma invisível fogueira,
um fogo que ao arder não destrói
mas cria, como se quisesse devolver
num só momento tudo aquilo que as chamas
subtraíram em vários continentes,
a biblioteca de Alexandria, a fé
dos Romanos e a angústia duma rapariguinha
algures na Nova Zelândia.
                 O fogo como os exércitos
Mongóis assola as cidades feitas de madeira
e de pedra, e em seguida ergue
casas arejadas e palácios nunca vistos,
impõe a Descartes
que destrua a filosofia e construa outra nova,
metamorfoseia-se numa sarça-ardente,
desperta Pascal, põe os sinos a repicar
e derrete-os com o excesso de fervor.
Já reparaste na maneira como ele lê
os livros? Folha a folha, devagar,
como alguém que mal aprendeu
a soletrar.
                  Fogo, fogo, eterno
fogo de Heraclito, voraz mensageiro,
rapaz com a boca negra de bagas.


(In 'sombras de sombras', Tinta da China, 2018)

4.17.2018

Abraão Monoteísta e Iconoclasta no Judaísmo e no Islão

O Qurão, como todos os textos, é fruto do espaço e tempo onde é composto. Surge entre os séculos VI e VIII, algures entre a Península Arábica e a região do Sul da Jordânia e da Palestina, num contexto perfeitamente reconhecível como a Antiguidade, à qual nos habituámos a chamar "Antiguidade Tardia". Isto designa os séculos em que a Antiguidade adquire várias características que a distinguem das séculos anteriores, das quais entre as mais notáveis será talvez um crescimento sem paralelos dos vários movimentos monoteístas (sejam estem cristãos, pagãos, judaicos, ou finalmente islâmicos).

Quando falamos em religiões abraâmicas referimo-nos ao facto de nelas Abraão ser considerado não só o fundador das gerações subsequentes até algum evento futuro, mas também por ser o fundador do próprio monoteísmo. O mesmo papel desempenha no Cristianismo, no Judaísmo e no Islão. É impossível sobrestimar a sua importância. No chamado "Rabba do Génesis", um midrash (comentário judaico a textos da Bíblia, datado entre 300 e 500 AD), lemos que:
Talvez segundo a ordem própria das coisas devesse ter sido Abraão o primeiro homem a ser criado, não Adão. Deus, porém, havia previsto a queda do primeiro homem, e se Abraão tivesse sido o primeiro homem e tivesse caído, não teria havido mais ninguém depois dele que restaurasse a justiça ao mundo; sendo que depois da queda de Adão veio Abraão, que fundou no mundo o conhecimento de Deus. Tal como um construtor põe a viga mais forte no centro do edifício, para apoiar a estrutura de ambos os lados, assim também Abraão foi a forte viga que sustentou o peso das gerações que existiram antes dele e das que vieram depois dele.
Uma das coisas que na Bíblia Hebraica fica por explicar desta fábula é como é que Abraão adquire esta relação específica para com o culto de um deus único, e como é que adquire este estatuto imponente a ponto de conquistar o epíteto de "Abraão, o Amigo de Deus" - إبراهيم خليل الله - Ibrahīm Khalīlu llāhi (-- este "Khalīl"/amigo é o mesmo do nome árabe contemporâneo para a cidade de Hebron na Palestina Ocupada, assim chamada por ser o lugar onde o sepulcro de Abraão tradicionalmente se identifica).

Várias obras surgiram para explicar esta ausência. Tal como acontece no Cristianismo, com várias obras apócrifas a contarem a história da juventude de Jesus, e como mais tarde acontecerá no Islão, com as "sunas" a contar a história da vida de Maomé e dos seus companheiros, também estas obras narram a história da infância de Abraão.

Mais exactamente, narram histórias concretas, episódios específicos. Talvez o mais famoso seja aquele que inaugura o jovem Abraão não só como o primeiro monoteísta mas também como o primeiro iconoclasta - destruidor de ídolos, de estátuas de falsos deuses. Estas histórias existem em várias versões (a mais famosa a sobreviver de forma independente será um texto extante apenas em Eslavónico Eclesiástico chamado 'O Apocalipse de Abraão'). Um ponto interessante a notar é que nenhuma delas sobrevive nos textos canónicos do Judaísmo ou Cristianismo, a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento Cristão - mas sobrevivem no Qurão. Isto é apenas mais um testemunho, se ainda deles precisarmos, de como o Qurão está perfeitamente inserido no mundo religioso da Antiguidade e do pensamento judaico-cristão.

Citadas abaixo podem ler duas versões dessa mesma história: como Abraão, deparando-se com uma verdadeira colecção de ídolos mudos, os quebra a todos menos ao maior de todos. Quando confrontado pela população, acusa o ídolo maior de ter sido ele a quebrar os demais. Os acusadores encontram-se no dilema de admitir que os ídolos não poderiam ter feito tal coisa porque ídolos não têm qualquer poder, e reconhecer a impotência da sua própria crença.

A primeira é uma tradução a partir do Aramaico (que pelo século III tinha há muito substituido o Hebraico como língua de escrita das comunidades judaicas) tirada do mesmo texto que eu já citara acima - Rabba do Génesis 38.13 -, onde o texto rabínico o conta para explicar um pormenor obscuro da história (a saber, porque é que é dito que "Haran morreu diante de seu pai"). A segunda é tirada do Qurão, também tradução do texto Árabe - Sura 21 'Os Profetas' 51-69. As versões são ambas bastante semelhantes, sendo a judaica mais preocupada com a explicação do versículo a propósito do qual a história é citada (relacionando Abraão com várias outras personagens secundárias, como Nimrod, Haran, e Terah), e a versão do Qurão quiçá mais  humorista mas também mais críptica, algo que é típico das chamadas "Suras de Meca", tradicionalmente consideradas as primeiras da revelação de Maomé, mais altivas, poéticas, e alusivas. Esta em particular insere o Islão na tradição profética, concatenando-o com vários profetas que "estabeleceram o Islão na terra antes de Maomé, o selo dos profetas", onde Abraão não poderia ter deixado de ocupar um papel central.

Tarah era fabricante de imagens. Um dia saiu e deixou Abraão a vendê-las em seu lugar.
Veio um homem e pediu para comprar [uma], e disse-lhe:
Quantos anos tens?
E ele disse-lhe: Cinquenta ou sessenta.
E ele disse-lhe: Desgraçado! Um homem de sessenta anos que quer adorar algo de um dia!
E ele teve vergonha e foi-se embora. 
A certa altura veio uma mulher que levava nas mãos um prato de farinha, que disse:
Toma isto e oferece-lhos. [i.e., aos deuses/ídolos]
Então ele tomou um bastão em suas mãos, e destruiu todos os ídolos, e pôs o bastão nas mãos do grande que estava no meio deles. Quando voltou o pai dele, disse-lhe:
Quem é que lhes fez isto?
Disse-lhe: Não te negarei nada! Veio uma mulher que trazia consigo um prato de farinha, e disse-me, “Toma isto e oferece-lhos.” E aproximou-se um [dos ídolos] e disse, “Eu quero comer primeiro!”, e disse outro “Eu quero comer primeiro!” E veio então o maior deles, pegou no bastão, e quebrou-os.
E disse-lhe: Porque é que fazes troça de mim? Então eles hão-de ter raciocínio?
Disse-lhe: Não deveriam ouvir os teus ouvidos o que a tua boca diz?
Então pegou nele e levou-o para Nimrod. 
Disse-lhe [Nimrod]: Adoremos o fogo.
Disse-lhe Abraão: Adoremos a água, extingue o fogo.
Disse-lhe Nimrod: Adoremos a água.
Disse-lhe: Nesse caso adoremos as nuvens, que contêm a água.
Disse-lhe: Adoremos as nuvens.
Disse-lhe: Nesse caso adoremos o vento, que dispersa as nuvens.
Disse-lhe: Adoremos o vento.
Disse-lhe: Mas adoremos uma pessoa, já que aguenta com o vento.
Disse-lhe: Estás a brincar com palavras! Não adoraremos nada a não ser o fogo. Vê como te atirarei para o meio dele, e que venha o deus que tu adoras e que te salve dele. 
Haran estava lá indeciso. Disse: Que alma é a tua? Se ganhar Abraão, eu digo: Estou com Abraão, e se ganhar Nimrod, eu digo, Estou com Nimrod.
Quando Abraão desceu à fornalha de fogo e foi salvo, perguntou-lhe,
Com quem estás tu?
E disse-lhes: Estou com Abraão.
[Nimrod] tomou-o e lançou-o para a chama, e arderam-lhe entranhas, e Haran morreu na presença de Terah seu pai.

Genesis Rabba 38.13. Tradução do Aramaico minha.
וימת הרן על פני תרח אביו 
רבי חייא בר בריה דרב אדא דיפו: תרח עובד צלמים היה, חד זמן נפיק לאתר הושיב לאברהם מוכר תחתיו. 
הוה אתי בר אינש בעי דיזבן והוה אמר לו: 
בר כמה שנין את? 
והוה אמר לו: בר חמשין או שיתין. 
והוה אמר לו: ווי ליה לההוא גברא דהוה בר שיתין, ובעי למסגד לבר יומי?! 
והוה מתבייש והולך לו. 
חד זמן אתא חד איתתא טעינה בידה חדא פינך דסולת. 
אמרה ליה: הא לך קרב קודמיהון. 
קם נסיב בוקלסא בידיה, ותבריהון לכולהון פסיליא, ויהב בוקלסא בידא דרבה דהוה ביניהון. כיון דאתא אבוה אמר לו: 
מאן עביד להון כדין? 
אמר לו: מה נכפר מינך אתת, חדא איתתא טעינה לה חדא פינך דסולת, ואמרת לי הא לך קריב קודמיהון, קריבת לקדמיהון הוה דין אמר: אנא איכול קדמאי! ודין אמר אנא איכול קדמאי! קם הדין רבה דהוה ביניהון, נסב בוקלסא ותברינון. 
אמר לו: מה אתה מפלה בי, וידעין אנון?! 
אמר לו: ולא ישמעו אזניך מה שפיך אומר?! נסביה ומסריה לנמרוד. 
אמר לו: נסגוד לנורא! 
אמר לו אברהם: ונסגוד למיא, דמטפין נורא. 
אמר לו נמרוד: נסגוד למיא! 
אמר לו: אם כן נסגוד לעננא, דטעין מיא. 
אמר לו: נסגוד לעננא! 
אמר לו: אם כן נסגוד לרוחא, דמבדר עננא. 
אמר לו: נסגוד לרוחא! 
אמר לו: ונסגוד לבר אינשא, דסביל רוחא. 
אמר לו: מילין את משתעי! אני, איני משתחוה אלא לאור, הרי אני משליכך בתוכו, ויבא אלוה שאתה משתחוה לו ויצילך הימנו. 
הוה תמן. 
הרן קאים פלוג, אמר: מה נפשך, אם נצח אברהם, אנא אמר: מן דאברהם אנא, ואם נצח נמרוד, אנא אמר: דנמרוד אנא. 
כיון שירד אברהם לכבשן האש וניצול, אמרין ליה: 
דמאן את? 
אמר להון: מן אברהם אנא. 
נטלוהו והשליכוהו לאור ונחמרו בני מעיו ויצא ומת על פני תרח אביו, הה"ד (שם יב) וימת הרן על פני תרח וגו':  

Enviámos a Abraão instruções em tempos idos, e foram por obra sua sabedores.
E quando disse ao seu pai e ao seu povo:
Que imagens são estas a que vós sois devotos?
Disseram:
Encontrámos os nossos pais a adorá-las.
Disse:
Já então estáveis vós e vossos pais em erro evidente.
Disseram:
Vens até nós em verdade, ou és dos que brincam?
Disse:
Mas o vosso senhor é o senhor dos céus e da terra, os quais criou. E eu sou dos que disso dão testemunho. E por Deus, vou mesmo conspirar contra os vossos ídolos assim que virardes costas.
E fez deles estilhaços, excepto o maior deles,
Talvez a ele regressem?
Disseram:
Quem fez isto aos nossos deuses? Quem tiver sido é dos transgressores.
Disseram:
Ouvimos um rapaz a mencioná-los, chama-se Abraão.
Disseram:
Tragam-no ao olho do povo, talvez eles dêem testemunho.
Disseram:
Então tu fizeste isto aos nossos deuses, Abraão?
Disse:
Quem o fez foi o [ídolo] grande, perguntem-lhes se viram.
E retiraram-se em privado e disseram:
É certo que fostes vós os transgressores.
Então confundiram-se em suas cabeças,
Já aprendestes que estes não falam!
Disse:
Então adorais, à exclusão de Deus, algo que nem vos ajuda nem vos lesa? Ai de vós, e do que adorais à exclusão de Deus! Não aprendeis?
Disseram:
Queimem-no e ajudem os vossos deuses, se é que quereis fazer o que quer que seja!
Dissemos:
Fogo, sê frio e cómodo a Abraão.
E quiseram contra ele conspirar, e fizemos deles desgraçados. 

Qur'ān, Sura 21 'Os Profetas' 51-69. Tradução do Árabe minha.

 إِذْ قَالَ لِأَبِيهِ وَقَوْمِهِ مَا هَذِهِ التَّمَاثِيلُ الَّتِي أَنْتُمْ لَهَا عَاكِفُونَ قَالُوا وَجَدْنَا آبَاءَنَا لَهَا عَابِدِينَقَالَ لَقَدْ كُنْتُمْ أَنْتُمْ وَآبَاؤُكُمْ فِي ضَلَالٍ مُبِينٍ قَالُوا أَجِئْتَنَا بِالْحَقِّ أَمْ أَنْتَ مِنَ اللَّاعِبِينَقَالَ بَل رَبُّكُمْ رَبُّ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ الَّذِي فَطَرَهُنَّ وَأَنَا عَلَى ذَلِكُمْ مِنَ الشَّاهِدِينَوَتَاللَّهِ لَأَكِيدَنَّ أَصْنَامَكُمْ بَعْدَ أَنْ تُوَلُّوا مُدْبِرِينَ فَجَعَلَهُمْ جُذَاذًا إِلَّا كَبِيرًا لَهُمْ لَعَلَّهُمْ إِلَيْهِ يَرْجِعُونَ  قَالُوا مَنْ فَعَلَ هَذَا بِآلِهَتِنَا إِنَّهُ لَمِنَ الظَّالِمِينَ قَالُوا سَمِعْنَا فَتًى يَذْكُرُهُمْ يُقَالُ لَهُ إِبْرَاهِيمُ قَالُوا فَأْتُوا بِهِ عَلَى أَعْيُنِ النَّاسِ لَعَلَّهُمْ يَشْهَدُونَ قَالُوا أَأَنْتَ فَعَلْتَ هَذَا بِآلِهَتِنَا يَا إِبْرَاهِيمُ قَالَ بَلْ فَعَلَهُ كَبِيرُهُمْ هَذَا فَاسْأَلُوهُمْ إِنْ كَانُوا يَنْطِقُونَ فَرَجَعُوا إِلَى أَنْفُسِهِمْ فَقَالُوا إِنَّكُمْ أَنْتُمُ الظَّالِمُونَ ثُمَّ نُكِسُوا عَلَى رُءُوسِهِمْ لَقَدْ عَلِمْتَ مَا هَؤُلَاءِ يَنْطِقُونَ قَالَ أَفَتَعْبُدُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ مَا لَا يَنْفَعُكُمْ شَيْئًا وَلَا يَضُرُّكُمْ أُفٍّ لَكُمْ وَلِمَا تَعْبُدُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ أَفَلَا تَعْقِلُونَ قَالُوا حَرِّقُوهُ وَانْصُرُوا آلِهَتَكُمْ إِنْ كُنْتُمْ فَاعِلِينَ قُلْنَا يَا نَارُ كُونِي بَرْدًا وَسَلَامًا عَلَى إِبْرَاهِيمَ وَأَرَادُوا بِهِ كَيْدًا فَجَعَلْنَاهُمُ الْأَخْسَرِينَ

Imagem: Ilustração de uma haggadah de 1737