11.15.2010

"I'm convinced your good nuns believed what they preached to you, but faith mustn't ever be more than an hour old! That's the point!"

Herr Musil

11.09.2010

Amo-te: a última palavra

Adorável é o traço fútil de uma fadiga, que é a fadiga da linguagem. De palavra em palavra, afadigo-me em experimentar diversamente o que é próprio da minha Imagem, impropriamente o que é próprio do meu desejo: viagem no termo da qual a minha filosofia última não pode deixar de reconhecer --e de praticar-- a tautologia. É adorável o que é adorável. Ou ainda: adoro-te porque és adorável, amo-te por te amo. O que assim encerra a linguagem de amor é exactamente o mesmo que a instituiu: o fascínio. Pois descrever o fascínio não poderá afinal ultrapassar este enunciado: "estou fascinado". Atingido o termo da linguagem, onde não é permitido repetir senão a última palavra, à maneira de um disco riscado, satisfaço-me com a sua afirmação: não será a tautologia este estranho estado onde se encontrou, confundidos todos os valores, o glorioso final da operação lógica, o obsceno do disparate e a explosão do sim nietzschiano?

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso

quand je suis enamoré je ne parle que français


10.31.2010

Trevas e não Luz

Ai daqueles que desejam ver o dia do Senhor!
Que será para vós o dia do Senhor?
Trevas e não luz.

Como aquele que escapa de um leão,
mas dá de encontro com um urso;
ou que volta para casa,
mas ao tocar com a mão na parede é mordido pela serpente,

sim, o dia do Senhor será trevas e não claridade,
escuridão, e não luz.

Aborreço as vossas festas; elas desgostam-me;
não sinto gosto algum nos vossos cultos;

quando me ofereceis holocaustos e ofertas,
não encontro neles prazer algum,
e não faço caso dos vossos sacrifícios e animais cevados.

Longe de mim o ruído dos vossos cânticos,
não quero mais ouvir a música das vossas harpas;

mas, antes, que jorre a equidade como uma fonte
e a justiça como uma torrente que não seca.

Amós 5.18-24. Editorial Missões.

The lion hath roared

The lion hath roared, who will not fear?
the Lord GOD hath spoken, who can but prophesy?

Amos 3:8, KJV

10.29.2010

Fala-me da Morte e de Veneza

— De lá o homem parte e cavalga três dias entre o gregal e o Levante… — recomeçava Marco, e a enumerar nomes e costumes e comércios de um grande número de terras. O seu repertório podia dizer-se inesgotável, mas agora foi a sua vez de se render. Era de madrugada quando disse: — Sire, já te falei de todas as cidades que conheço.
— Falta uma de que nunca falas.
Marco Polo baixou a cabeça-
— Veneza — disse o Kan.
Marco sorriu. — E de qual julgavas que eu te falava?
O imperador nem pestanejou. — Mas nunca te ouvi dizer o seu nome.
E Polo: — Sempre que descrevo uma cidade digo qualquer coisa de Veneza.
— Quando te pergunto por outras cidades, quero ouvir-te falar delas. E de Veneza, quando te perguntar por Veneza.
— Para distinguir as qualidades das outras, tenho de partir de uma primeira cidade que está implítica. Para mim é Veneza.
— Deverias então começar todos os relatos das tuas viagens pelo princípio, descrevendo Veneza tal como é, toda, sem omitir nada do que dela recordas.
As águas do lago tinham-se encrespado um pouco; o reflexo dos ramos do antigo palácio dos Sung quebrava-se em reverberações cintilantes como folhas a boiar.
— As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se — disse Polo. — Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, já venha a perdê-la pouco a pouco.

Italo Calvino. As Cidades Invisíveis. José Barreiros (trad.) Teorema (1990).


They still avoided him as a topic of conversation, because mere words were liable to detract from what they saw as an exalted feeling in their hearts. This reluctance to talk about him meant that they were gradually forgetting him, though they would never have believed it.

Tolstoy. War and Peace. Anthony Briggs (trad.). Penguin. (2006)


10.27.2010

fanatismo

É nos mais cultos que se encontra o fanatismo, porque o homem é culto a partir do momento em que se interessa pelas coisas espirituais, e este interesse pelo espiritual, se for vivo, é precisamente o fanatismo, e tem de o ser: é um interesse fanático pelo sagrado (fanum*).

* Templo, lugar consagrado a uma divindade.


Max Stirner, O Único e a sua Propriedade. João Barrento (trad.) Antígona. (2004)

junho

não direi da morte o súbito rumor
é mais do que isso o que se sente em junho
o estar e não saber onde nos crescem as raízes
que ao olhar não chegam mas a língua invoca

Diogo Pires Aurélio, a herança de hölderlin. Assírio e Alvim.(1978)

Gonçalo M. Tavares

O GMT é o nosso fuso horário.


Latim Jurídico

Há cerca de 1 ano estive a partilhar um apartamento com um caro colega que estava vindo do Brasil a fazer uma pós-graduação em Direito. Felizmente não nos cruzávamos muitas vezes, mas das poucas em que falámos ficou no ar que ah e tal eu estudava latim e que ele ah e tal me precisava de pedir umas traduções. Tudo muito bem. Assumo eu que se trata de palavras ou expressões técnicas em latim que ele fosse encontrando nos livros. Com o maior gosto. Um dia descubro passada por baixo da porta a seguinte nota (todos os erros são [sic]):


Oi miguel, poderia traduzir essas palavras para o latin?

Grato
[Nome]

Vossa excelência
Peço
Requeiro a vossa/sua excelência
Incontestável
Contestável
Calate!
Obrigado/Desculpa
Amo-te/Odeio-te
Incontestavalmente culpado
Induvidavelmente culpado
Cara a cara
Perguntando lhe a verdade
Que se cumpra a verdade
Verdade acima de tudo


Fiquei assim parvo e durante 2 semanas estive "com algumas dificuldades a traduzir". O que foi excelente, porque depois desse período por alguma razão ele foi-se embora. Não que a ideia de ver um tipo não particularmente inteligente a bradar numa sala de tribunal "FIAT VERITAS" com ar de cólera divina não tenha a sua piada enquanto exercício mental, mas infelizmente o mundo terá de passar sem isso.