10.12.2010

Amazon e Portugal

bárbaros. bárbaros!

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Fonte.
 

10.05.2010

Duas Esperanças

O facto de não conseguirmos jamais deixar de esperançar das gerações futuras é simultaneamente o nosso grande erro e a nossa única possibilidade de esperança. O que torna a esperança o nosso grande erro, sim, mas isso já Zeus e Pandora sabiam quando esta se apercebeu que, do jarro dos males, apenas a esperança restou segura e pronta. Pronta significa: prestes a dar-se, prestes a oferecer-se como positiva. Ninguém, a não ser num leibnizianismo por vezes tão engenhoso quanto aparentemente tonto, se atreveria a dizer que a guerra é boa porque trará eventualmente consequências --ou resultados matematicamente apurados-- positivas. Ou as doenças, ou as traições. Mas a esperança é a auto-ilusão que permite a nobre mentira de ser auto-causada: a nobre mentira que é a ilusão tão maior quanto mais necessária. Há duas noções de esperança. Uma é a noção latina de esperança enquanto sperantia. A noção grega, a élpis, é helein-pístis, no sentido de tomar a fé enquanto um tomar duplo: eu não me limito a esperar que as coisas aconteçam, tomo também uma acção. Nascemos todos com a maior promessa da humanidade presa dentro de nós. Élpis significa: retirar essa promessa de dentro de nós, assumir a impossibilidade de dela tomarmos conta, de a ela fazermos justiça, e pergar-lhe, transformá-la na fé de quem pega em sementes de mão aberta e espera que a respiração divina as espalhe pelo mundo. Mas este é um dia de verão, e a terra está demasiado quente, não há vento que as leve nem água que as regue se as deixar cair. A élpis é saber que esta terra não dá, mas que talvez outras dêm; é saber que eu não posso chegar a essas terras porque sou apenas humano e não posso atravessar oceanos. Posso apenas ir passado as sementes em sucessão para as aproximar duma terra desconhecida que nem eu sei onde é, mas chegará uma altura em que a mais vindoura das gerações terá de esperar, de mão aberta ao espírito, para que ele espalhe pelo mundo a possibilidade da geração. Os deuses precisam de nós, mais até do que nós precisamos deles. A humanidade pode viver sem esperança, era alguma da humanidade desacreditou esse truísmo, e por muito que os filósofos condenem este estado meramente apetitoso de se Ser humano não há nada que eles possam oferecer como verdadeiro fundamento para uma outra acção -- se somos humanos, tanto podemos ser bestas quanto sobrehumanos, tanto se nos dá, e não é a arrogância do profeta que pode absolutizar: o humano é a extrema liberdade para o auto-inferno ou para o paraíso adiado para além do limite da nossa morte. Mas o deus não pode reagir assim. O deus sem um ser huamano a quem dar futuro é como a palavra de que não nos conseguimos lembrar no momento oportuno da conversa, aquela palavra exacta que traria o logos a bom porto. O deus precisa do ser humano porque precisa de destruir o ser humano para oferecer um novo ser à terra, uma geração futura de criações. Mas a semente dessa nova geração jaz nas mãos do ser que neste momento jaz no meio do deserto com um punhado de sementes dentro da mão cerrada, como um conceito positivo. A ele cabe o futuro do deus. Pode continuar no deserto para sempre, em cujo caso o deus provavelmente morrerá, ou pode ficar no deserto com a mão aberta, como um sacerdote de Athos-- esta é a esperança enquanto sperantia, benevolente e perfeitamente suficiente para uma época que ainda cria na omnipotência de deus; Deus precisaria apenas que o ser humano quisesse que a humanidade fosse salva para que Ele quisesse providenciar. O nosso tempo já não crê nessa omnipotência; quer isso se deva a essa omnipotência ter desaparecido ou nunca ter sequer existido é irrelevante. Agora, o ser humano pode ainda caminhar numa qualquer direcção para tentar ajudar o deus. Claro que não há qualquer garante que esteja sequer a andar numa direcção benfazeja para com os desígnios desse espírito, as pegadas podem até até estar a afastá-lo do oceano, daquele que dá memória do deus e oferece promessas do humano. Mas esse tomar-fé, essa élpis, é também tomar fé de que pode estar a ir na direcção certa, que quando o espírito soprar esse talvez possa até usar as pegadas do caminhante do deserto para se orientar a ele mesmo. Esta é a esperança mais difícil, é a esperança da virtude da dádiva do humano ao deus para a salvação deste e para a destruição de si. Ambas são pesadas como uma respiração ofegante.

10.04.2010

Há piores metáforas

Martin Heidegger é o grande mestre do espanto, o homem cujo assombro perante o facto concreto de que somos em vez de não sermos, instalou um obstáculo radiante no caminho do óbvio. O seu pensamento é um pensamento que torna imperdoável a condescendência, mesmo momentânea, para com o facto da existência. Na clareira da floresta a que conduzem os seus caminhos circulares, embora não a alcancem, postulou Heidegger a unidade do pensamento, da poesia, e desse acto qe é o acto mais elevado de orgulho mortal e de celebração, que é o dar graças. Há piores metáforas segundo as quais podemos viver.

George Steiner, Heidegger. João Paz (trad), Dom Quixote. 1990.

9.27.2010

o rei vai nu #2

"It's a battle between the gods, giants, mortals, over gold."

erudita descrição do Der Ring des Nibelungen. Aqui.

9.26.2010

O rei vai nu, sim, mas tem uma figura gira.

european men, stay put. seriously, nothing good ever happens to you when you leave whatever small european town you are from and venture into the wider world. whether it is gide and tunisia, conrad and the congo, robbe-grillet with wherever that was, various graham greenes; statistically, there will be temptations which you are not equipped to resist and you will either succumb or drive yourself to humiliation and despair with the wanting to succumb. and i totally get it - different surroundings, absence of judgmental peer group, it's vacation morality. when i was in prague, i totally stole a guinness mug from the irish pub i fell in love with. so i am no stranger to a wild life of crime and transgression. i left the children alone, though...
(for the record, lawrence durrell is totally exempt from this advice, although since he is dead, it doesn't really matter.)
and just so we're clear - i only read death in venice. the other seven stories can go screw for now - this is just book club fare, and if i have time in my life to read more troubled intellectual germans, i will know where to turn. but for now, i must bake book club cake and enjoy my free snow day.

Duma crítica a uma edição d' A Morte em Veneza e Outros Contos. Hah!

9.23.2010

A Rainha da Noite

A ópera é sincronização de tudo o que nela entra: o drama complemente o texto que complementa a música (que no entanto assume o papel preponderante, são "As Bodas de Fígaro" de Mozart e não de Lorenzo della Ponte, por exemplo). Quando isso não acontece, poderíamos dizer que a falha em algum aspecto: o equilíbrio que une os elementos deixa de existir, a colagem torna-se frágil, e a música passa a tornar-se uma simples desculpa para o teatro, ou o teatro uma simples desculpa para a música coral. Quando Verdi recebeu a notícia de que uma cantora sua favorita iria estrear o papel de Lady Macbeth, escreveu até uma carta a protestar, "ela canta demasiado bem [...] Lady Macbeth é maléfica, devia cantar mal, até não cantar de todo".

—//

A Flauta Mágica tem apenas uma vilã significativa, a Rainha da Noite. Que quando não está a enviar cavaleiros incautos para servir inconscientemente os seus desígnios está a ordenar à filha que assassine o pai: este paragono do mal que não pode ser refutado: Como é que se poderia ser pior que isto?

A vingança infernal arde no meu peito,
Morte e desespero incendiam-se à minha volta!
Se Sarástro não sentir graças a ti a dor da morte,
Deixarás para sempre de ser a minha filha
Deserdada serás para sempre
Abandonada serás para sempre
Destruída serás para sempre
Todos os laços da natureza
Se não fizeres Sarástro empalicer!
Ouvi, deuses da Vingança, ouvi o juramento duma mãe!

Apresentada aqui, a partir de 2:02


O culminar da ária está entre a linha 4 e 5 (a linha que ela repete é "So bist du meine Tochter nimmermehr", "Deixarás para sempre de ser a minha filha", mas aqueles Sis não são verbalmente articulados), ou seja, precisamente na linha onde se condensam todos os pecados dramáticos da Rainha, que mete lá para o meio satanismo, parricídio, filicídio, e sei lá eu mais o quê, Mozart (à revelia claro do texto do libretto) escreve uma profunda elevação musical. O mal aqui é redimido pela sua beleza estética, e sendo esteticamente superior é portanto moralmente superior.

Não se pode ler a ópera toda a partir deste passo  de qualquer modo, logo a seguir à saída da Rainha entra Sarastro, que consola a filha explicando-lhe quão maléfica a mãe é  mas se Mozart pretendeu escrever a música para um mundo de bem/mal (e seríamos levados a crer que sim), o seu génio traiu-o: se a invocação às divindades da Rainha da Noite é de este poder, o de Sarastro, um hino a Ísis e a Osíris, a torcer pelo lado da iluminação e do esclarecimento [maçónico], apesar de majestoso, não pode deixar de ser um bocadinho pãozinho sem sal quando comparado. Até na memória duma civilização, a Rainha vencida triunfou sobre o seu luminoso vencedor.

8.21.2010

Geoffrey Hill 1 Camões 0

Pavana Dolorosa

Loves I allow and passions I approve:
Ash-Wednesday feasts, ascetic opulence,
the wincing lute, so real in its pretence,
itself a passion amorous of love.

Self-wounding martyrdom, what joys you have,
true-torn among this fictive consonance,
music's creation of the moveless dance,
the decreation to which all must move.

Self-seeking hunter of forms, there is no end
to such pursuits. None can revoke your cry
Your silence is an ecstasy of sound

And your nocturnals blaze upon the day.
I founder in desire for things unfound.
I stay amid the things that will not stay.

Geoffrey Hill, Tenebrae