7.04.2010

Decadência filológica

Disse Deus a Jesus, E por que hei-de eu saber dos assuntos do Diabo, Sendo Deus, tens de saber tudo, Até um certo ponto, só até um certo ponto, Que ponto, O ponto em que começa a ser interessante fazer de conta que ignoro.

José Saramago, Evangelho Segundo Jesus Cristo, pg366

Sinal de decadência filológica (ou: "There is something in philology that appeals to the worst in man."- Steiner) : estar a ler um texto português, neste caso Saramago, ficar a olhar para a página e por microssegundos pensar, "Isto é genial. Tenho de ir já ver o que é que diz o original grego." E aperceber-me de que é com um sabor a desilusão que compreendo que neste caso "não há" original.

7.03.2010

Sem psalmos à altura

Jerusalém, Jerusalém, gritam os devotos viajantes à vista da cidade, de repente levantada como uma aparição no cimo do morro do outro lado, além do vale, cidade em verdade celeste, centro do mundo, agora despedindo mil centelhas em todas as direcções, sob a luz forte do meio-dia, como uma coroa de cristal, mas que sabemos se tornará em ouro puro quando a luz do poente lhe tocar e será branca de leite sob o luar, Jerusalém, ó Jerusalém. O Templo aparece como se nesse mesmo momento Deus ali o tivesse pousado, e o súbito sopro que percorre os ares e vem roçar a cara, os cabelos, as roupas dos peregrinos e viajantes é talvez o movimento do ar deslocado pelo gesto divino, que, se olharmos com atenção as nuvens co céu, podemos ver a imensa mão que se retira, os longos dedos sujos de barro, a palma onde estão traçadas todas as linhas de vida e de morte dos homens e de todos os outros seres do universo, mas também, é tempo que se saiba, a linha da vida e da morte do mesmo Deus. Os viajantes levantam ao ar os braços que tremem de emoção, as bênçãos saltam, irresistíveis, não já em coro, cada qual entregue ao seu arrebatamento próprio, e alguns, por natureza mais sóbrios nestas místicas expressões, quase não se movem, olham o céu e pronunciam as palavras com uma espécie de dureza, como se neste momento lhes fosse consentido falar de igual para igual ao seu Senhor.

José Saramago, Evangelho Segundo Jesus Cristo. pg72.

6.28.2010

Ezra Pound do Dia #4


Imagens inéditas do novo filme inspirado na obra de JRR Tolkien, The Hobbit, com Pound no papel de Gandalf

6.20.2010

Dois que vão bem juntos

Dei por mim a folhear o meu volume do Paul Celan enquanto esta música tocava nos meus ouvidos. E apercebi-me do quão bem os dois vão juntos.



Tübingen, Janeiro

Olhos con-
vertidos à cegueira.
A sua —«são
um enigma as puras
origens»—, a sua
memória de
torres de Hölderlin flutuando no esvoaçar
de gaivotas.

Marceneiros afogados visitando
estas
palavras a afundarem-se:

Se viesse,
se viesse um homem,
se viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
patriarcas: só poderia,
se falasse deste
tempo, só
poderia
balbuciar balbuciar
sempre,sempre,
só só.

(«Pallaksch. Pallaksch.»)

Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde, João Barrento (trad.), Cotovia (1996)