1.25.2010

Recordação, Hölderlin

O vento de nordeste sopra,
O mais querido dos ventos
Para mim, porque com um sopro de fogo
Uma boa travessia promete aos marinheiros.
Mas agora parte e saúda
O doce Garonne
E os jardins de Bordeaux
Lá, onde pela ladeira íngreme
Conduz o trilho e na corrente
Profunda desagua o riacho, mas daí
Fixa o seu olhar um nobre par
De carvalhos e de choupos brancos.

Ainda me lembro bem de como
As largas copas dos ulmeiros
Se inclinam, sobre o moinho,
Ou como na praça cresce uma figueira.
Nos dias de festa por lá caminham
Mulheres trigueiras
Sobre a terra macia,
Em Março,
Quando iguais são a noite e o dia,
E por vagarosos trilhos,
Pesadas com sonhos dourados,
Balançam e flutuam brizas.

Passem-me porém,
Cheio de luz escura,
O copo fragrante,
Para que eu possa descansar; pois doce
Seria repousar sob as sombras.
Não é bom,
Não ter alma e ter pensamentos
Mortais. Mas bom
É conversar e falar
Do que pensa o coração, e ouvir muito
Dos dias de amor,
E dos actos que acontecem.

Mas onde estão os amigos? Belarmino
E o companheiro? Muitos
Têm medo de ir até à fonte,
Pois a riqueza começa
No mar. Eles,
Como pintores, juntam
A beleza da terra e não desdenham
Da guerra alada, ou
De ficar sozinhos, durante anos, sob
O mastro desgalhado, onde durante a noite não brilham
As festas da cidade,
Nem soam guitarras nem danças populares.

Mas agora ter com Índios
Se foram os homens,
Lá nos picos ventosos
Nas colinas repletas de vinhas, de onde
Desce o Dordogne,
E, junto com o esplêndido
Garonne, largo como o mar,
Aflui na corrente. Mas o mar
Tira e oferece memória,
E o amor também mantém o olho atento,
Mas aquilo que permanece fundam-no os poetas.





Friedrich Hölderlin, tradução minha, original alemão aqui: http://www.literaturwelt.com/werke/hoelderlin/andenken.html

1.24.2010

Cantico del Sole



Cantico del Sole

The thought of what America would be like
If the Classics had a wide circulation
                      Troubles my sleep,
The thought of what America,
The thought of what America,
The thought of what America would be like
If the Classics had a wide circulation
                      Troubles my sleep.
Nunc dimittis, now lettest thou thy servant,
Now lettest thou thy servant
                      Depart in peace.
The thought of what America,
The thought of what America,
The thought of what America would be like
If the Classics had a wide circulation...
                       Oh well!
                       It troubles my sleep.



Pensar no que da América seria
Se os Clássicos tivessem uma grande circulação
      Não me deixa dormir,
Pensar no que da América,
Pensar no que da América,
Pensar no que da América seria
Se os Clássicos tivessem uma grande circulação
      Não me deixa dormir.
Nunc dimittis, agora deixais vós o vosso servo
Agora deixais vós o vosso servo
      Partir em paz.
Pensar no que da América,
Pensar no que da América,
Pensar no que da América seria
Se os Clássicos tivessem uma grande circulação...
       Mas pronto!
       Não me deixa dormir.




- Ezra Pound


(tradução minha)

12.25.2009

Natal

Natal
Fernando Pessoa


Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.



Pois também este blog não resiste ao inevitável poema de Natal.

A Happy Birthday

Um Feliz Aniversário
de Ted Kooser

Esta noite, sentei-me ao lado duma janela aberta
e li até já não haver luz e o livro
se ter tornado nada mais que um pedaço das trevas.
Podia ter ligado facilmente um candeeiro,
mas quis levar este dia até ao fundo da noite,
sentar-me sozinho e acariciar a página ilegível
com o fantasma cinzento pálido da minha mão.


A Happy Birthday
by Ted Kooser


This evening, I sat by an open window
and read till the light was gone and the book
was no more than a part of the darkness.
I could easily have switched on a lamp,
but I wanted to ride this day down into night,
to sit alone and smooth the unreadable page
with the pale gray ghost of my hand.


in Delights and Shadows, Ted Kooser, Copper Canyon Press

12.20.2009

Mitologia Clássica

Deixo este blog muito bom sobre Mitologia Clássica.

Príncipe do Egipto


Esta cena, tirada do filme "Príncipe do Egipto", é uma das mais belas cenas animadas que já vi. Justifico essa afirmação com uma citação da Poética (todo o post condigno tem de ter uma citação da Poética), onde o Mr. Tótles afirma que

"As coisas que observamos ao natural e nos fazem pena agradam-nos quando as vemos representadas em imagens muito perfeitas como, por exemplo, as reproduções dos mais repugnantes cadáveres."

Também gosto muito da música, e se calhar ainda mais na versão italiana, aqui.

Geoffrey Hill #1

September Song

born 19.6.32 - deported 24.9.42

Undesirable you may have been, untouchable
you were not. Not forgotten
or passed over at the proper time.

As estimated, you died. Things marched,
sufficient, to that end.
Just so much Zyklon and leather, patented
terror, so many routine cries.

(I have made
an elegy for myself it
is true)

September fattens on vines. Roses
flake from the wall. The smoke
of harmless fires drifts to my eyes.

This is plenty. This is more than enough.


Cântico de Setembro

nascida 19.6.32 - deportada 24.9.42

Indesejada talvez tenhas sido, intocável
não foste. Não esquecida
ou ignorada quando o momento chegou.

Como era de prever, morreste. As coisas foram andando,
de modo adequado, para esse fim.
Só que tanto Zyklon e cabedal, patenteado
terror, tantos gritos de rotina.

(Eu compus
uma elegia para mim é
verdade)

Setembro engorda com as vinhas. Rosas
nevam da parede. O fumo
de fogos inofensivos deriva até aos meus olhos.

Isto é tanto. Isto é mais que suficiente.

12.18.2009

Mármore, Vitral

was bleibet aber


estilhaços de uma mente misturada
com um segundo caos. se houvesse quem
me falasse
da torre de Hölderlin,
da cidade destruída. e sozinho sta.
pois caótica é a ordem até que das janelas
os vitrais brilhem com o Sol. a Grécia
é luz velha. colher flores;
adónises, que importa? o fogo do inferno
na aurora, calmo, tocou-me as pálpebras,
e o valor está na lei — aquilo que restará
não bastaria. é um vidro quebrado
que brilha no chão. A grécia
está longe, do arquipélago, temos os nomes da plêiade
apagada no céu. Nomes nus,
se à distância ainda brilham estilhaços
de belo vitral duma mente,
canto adoneus se
houvesse água duma fonte branca,
recusaria. star sozinho,
a memória do Éden, seja mentira.
é mentira a memória quebrada. Conta-se
que houve uma vez um homem
que se salvou a si próprio do pântano
que se puxou pelos próprios cabelos. E quem
não puxará o mais belo dos retornos? A Grécia
é difícil. cantarolar com uma língua
de fogo, o sonho derrete-se gelado e em luz.


eu digo um nome para dizer
o outro. o que é que eu fiz?
começa, vê quem te acompanha.
onde estão os teus amigos?
escavei uma palavra, podei-lhe a palavra,
corri a via negativa. no fundo
sta o divino vitral. mas
de que profundezas virás tu, Deus-Sol,
quando a neve nos cobre os narcisos
e as nuvens são a noite do mundo?
mas com relâmpagos se queimam retinas.
só há um remédio para os equinócios,
deus-da-Páscoa, cantar a beleza de Chartres,
sub-rosa suspiros fixar nas retinas
dos olhos dos mortos que vêem o nada, dos vivos
que vêem a luz
dos seus deuses e cegam,
que viram ideias no eco das rimas e cantam.

12.16.2009

Lawmaking

I speak the stones, and when your tone
is sorrow, I pin the rain all gravity is slain
tomorrow you'll disbelieve the bridge, your hand
enchant my ribs my larynx' ridge, a wall
of orichalcum round the lungs and salt
is treasure, barren measure keeping hazy
tenure my leal margraves tame
and fend off faithful light, and me you slight
to take a less assurance! the given errands
were to keep the sky, the moves of moons,
a distant sight to drain, make war remain
a tale of apparitions, of manure deep you need to dig
and mix, combine the roots. if what I tell are lies
let lies be blue forever, a sequel worthy of the dust
each whisper tessellae and the brain mosaic;
if speaking you unfound the truth, can no more touch
the ground but rather drown in voices, let me they call
the banquet of the evening, the folly of the fountains;
if what you hear's the silence of the temples,
speak stainèd glass till all their darkness echoes.

Desdizendo os cómicos

Correm por aí os boatos que há quem queira contradizer o Aristófanes, e destronar o monsieur Ésquilo. Eh pá, é fácil descobrir o quanto eu gosto do Sófocles (duh), mas façam-me um favor e metam-me uma cópia da Oresteia nas mãos deste rapaz. Até porque ele faz anos, e dizem que até merece. Parabéns, João!



Tríptico inspirado pela Oresteia, de Francis Bacon. (que só para chatear fui ver hoje).