12.14.2009

Poesia, Linguagem, Deus, e Morte



Alguns textos que exploram a construção mútua destas ideias.

Em conclusão, queria voltar ainda por uma última vez à ideia central que desenvolvi nestas páginas. O Nome de Deus é o "Nome essencial", que constitui a origem de todas as línguas. Qualquer que seja o nome pelo qual Deus possa ser chamado ou invocado é sempre ligado a uma actividade determinada, como mostra a etimologia dos nomes bíblicos; apenas este Nome único não se refere a actividade nenhuma. Para os cabalistas este não tem um "significado" na acepção comum, não tem um significado concreto. O facto de que o Nome de Deus não tenha um significado indica a sua posição no centro da revelação, que é nele mesmo fundada. Por detrás de qualquer revelação do sentido na linguagem e, ainda, como notaram os cabalistas, na Torah, há um elemento que vai para além desse mesmo sentido e que, sozinho, o torna possível, um elemento que, sem ter ele mesmo sentido, confere sentido a todas as outras coisas. A palavra de Deus, que nos fala da criação e da revelação, é infinitamente interpretável e reflecte-se na nossa linguagem. Os raios - ou os sons - que nós recebemos dela são menos comunicações do que apelos. Não é a própria palavra a possuir significado, sentido e forma, mas sim a tradição da palavra, o seu mediar-se e reflectir-se no tempo. Esta tradição, que tem a sua própria dialéctica, pode ainda transformar-se e reduzir-se a um leve, imperceptível sussurro, e podem até haver épocas, como a nossa, nas quais nada mais possa ser transmitido, e onde a tradição se silencia.

A grande crise da linguagem que vivemos consiste portanto no facto de que o último pedaço deste mistério - o mistério que em tempos teve morada na linguagem - nos ilude completamente. Os cabalistas insistiam que a língua pudesse ser falada em virtude do Nome que nela está presente. Mas qual será a dignidade de uma linguagem da qual Deus se retirou? Esta é a pergunta que deve ser posta por quem ainda acredita entender na imanência do mundo o eco da palavra da criação, por esta altura já desaparecida. É uma pergunta à qual, no nosso tempo, podem responder talvez apenas os poetas, que não partilham do desespero nutrido por quase todos os místicos nos seus confrontos com a linguagem. Uma coisa, porém, resta necessariamente aos mestres da Qabbalah, até quando lhe recusam as formulações teológicas por serem ainda demasiado explícitas: a fé na linguagem como um absoluto, mesmo que esteja já dialecticamente cortado, a fé naquele mistério que na linguagem se tornou inaudível.

-1

A afirmação escondida é a que afirma a impossibilidade de escrever poesia depois de Auchswitz. Paul Celan faz um esforço consciente para a refutar. A poesia torna-se uma elegia à própria linguagem. À luz de continuidade temática, cito a este respeito um poema dedicado a Hölderlin.

Tübingen, Janeiro

Olhos con-
vertidos à cegueira.
A sua -- "são
um enigma as puras
origens" --, a sua
memória de
torres de Hölderlin flutuando no esvoaçar
de gaivotas.

Marceneiros afogados visitando
estas
palavras a afundarem-se:

Se viesse,
se viesse um homem,
se viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
patriarcas: só poderia,
se falasse deste
tempo, só
poderia
balbuciar balbuciar
sempre, sempre,
só só

("Pallaksch. Pallaksch.")

-2

Mas Celan não foi o único, obviamente, a questionar-se acerca da possibilidade da linguagem, da poesia, e por conseguinte do papel dos poetas: aliás Heidegger é famoso por se lançar fortemente ao tema. Aqui um excerto dum seu ensaio sobre Hölderlin, “Hölderlin e a Essência da Poesia”. Juntos formam uma trindade inevitável neste tema.

Hölderlin escreve poesia acerca da essência da poesia - mas não no sentido de um conceito válido intemporalmente. Esta essência da poesia pertence a um tempo determinado. Mas não num modo tal que se conforme meramente a este tempo, como a um tempo que está já em existência. O que se passa é que Hölderlin, no acto de estabelecer a essência da poesia, determina primeiro um novo tempo. É o tempo dos deuses que fugiram e do deus que vem. É o tempo indigente, porque jaz sob uma ausência dupla e sobre um Não duplo: o Já-não dos deuses que fugiram e o Ainda-não do deus que vem.

A essência da poesia, que Hölderlin estabelece, é histórica ao mais alto nível, na medida em que antecipa um tempo histórico; mas como uma essência histórica é a única essência essencial.

O tempo é indigente e portanto o seu poeta é extremamente rico - tão rico que muitas vezes preferiria relaxar nos pensamentos daqueles que já foram e preferiria apenas dormir neste aparente vazio. Mas mantém-se firme no Nada desta noite. Enquanto o poeta permanece assim por ele mesmo no isolamento supremo da sua missão, modela a verdade, indirectamente e portanto verdadeiramente, para o seu povo. A sétima estrofe da elegia "Pão e Vinho" fala-nos disto. O que até agora só nos foi permitido analisar intelectualmente, é nela expresso poeticamente.

-3

Mas nós, amigo, chegamos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem,
Mas acima de nós, lá em cima, noutro mundo.
Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar
Se estamos vivos, tanto nos querem poupar.
Pois nem sempre pode um frágil vaso contê-los,
O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina.
Depois toda a nossa vida é sonhar com eles. Mas os erros,
Tal como o sono, ajudam, e a necessidade e a noite fortalecem,
Até que haja suficientes heróis, criados em berço de bronze,
De coração corajoso, como dantes, semelhantes aos Celestiais.
Depois eles chegam, trovejantes. Entretanto penso por vezes
Que é melhor dormir do que estar assim sem companheiros,
Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,
Nem que dizer, pois para que servem poetas em tempo de indigência?
Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho
Que em noite santa vagueavam de terra em terra.

- 4

e um outro poema,

Os Poetas Hipócritas

Vós frios hipócritas, não falai dos deuses!
Vós sois racionais! Não acreditais em Helios,
Nem no Trovejante, nem no Deus do Mar;
Morta está a Terra, o que temos nós a agradecer-lhe?

Confiai, ó deuses! Vós dais beleza ao canto
mesmo quando do vosso nome a alma já fugiu e se dispersou.
E quando se precisa duma grande palavra,
Mãe Natureza, ainda se pensa em ti.

- 5

Noutro ensaio, “Para que servem poetas?”, Heidegger refere-se uma vez mais ao papel da poesia, embora por um ângulo diferente, mas chegando essencialmente à mesma conclusão.

Os poetas são mortais que, cantando ardentemente o deus do vinho, se apercebem das marcas dos deuses fugitivos, que lhes seguem os vestígios, e que portanto traçam aos restantes mortais o caminho para a viragem. O éther, porém, apenas no qual os deuses são deuses, é a sua divindade. O elemento deste éther, aquele no qual até a própria divindade está presente, é o sagrado. O elemento do éther para o qual a vinda dos deuses fugitivos, o sagrado, são os vestígios dos deuses fugitivos. Mas quem tem o poder de se aperceber, de traçar tal vestígio? Os vestígios a maior parte das vezes não chamam à atenção, e são sempre o legado duma directiva que quase não é adivinhada. Ser poeta em tempo de indigência quer dizer: tratar, cantando, dos vestígios dos deuses fugitivos. É por isso que o poeta no tempo da noite do mundo pronuncia o sagrado.

- 6

E é tudo.


1 - Gershom Scholem, Il nome di Dio e la teoria cabbalistica del linguaggio, Adelphi, tradução para o italiano de Adriano Fabris, para o português minha.

2 - Paul Celan, tradução de João Barrento na antologia Sete Rosas Mais Tarde, edições Cotovia

3- Martin Heidegger, Hölderlin and the Essence of Poetry, na tradução de Werner Broch, na antologia Critical Theory since 1965

4 - Friedrich Hölderlin, Pão e Vinho, sétima estrofe, na tradução de Maria Teresa Dias Furtado, em Elegias, da Assírio e Alvim

5 - Friedrich Hölderlin, Die Scheinheiligen Dichter, tradução minha

6 - Martin Heidegger, “What are Poets For?”, na antologia Poetry Language and Thought, traduzido para inglês por Albert Hofstadter e para português por mim

12.12.2009

Ver a linguagem




A Itália é famosa pelo uso abundante da linguagem gestual, por um acompanhamento quase indispensável da palavra falada por parte da linguagem não falada, da linguagem vista, das mãos que acompanham o ritmo, a emoção e o sentido do que nesse momento está dito. Chega-se até a ver livros de "expansão ao dicionário" que contém os abundantes signos, livros esses que, raiando por certo o humorístico não deixam de ter um certo je ne sais quoi de verdade.

A dialéctica Atenas-Jerusalém fundiu-se, não obstante o famoso grito de revolta de Tertuliano, "Mas o que é que Atenas tem que ver com Jerusalém?!", no império Romano, e por consequência manteve, e mantém creio poder dizer até hoje, a cidade de Roma como um misto sobre-reciclado das duas tradições, pagã ou filohelénica, como centro dum império de deuses, e Judaico-Cristã, como lugar do martírio de Pedro e lugar do trono papal durante séculos.

A mística hebraica é uma de som e de voz, de revelação enquanto palavra, que deve ser entendida como união inseparável de letra e do seu som correspondente. Deus cria as letras, imprime nelas toda a vida de toda a criação possível, e só então mais tarde se pode falar do Seu "Fiat Lux!"- o som vem antes da sequer possibilidade de imagem. Na mística grega, concretamente pegando no exemplo de Platão, é o oposto: a revelação do divino faz-se através do silêncio (ou pelo menos do som como meramente contingente), no momento da contemplação última do Sol, verdadeiro e Belo atingido por fim e assimilado através do momento noético em que se a Verdade.

As duas tradições são inerentemente contraditórias. Mas a Itália, e Roma em concreto, com o que a cidade simboliza, tentou por muito tempo concretizar uma união: daí a Europa gerou a Idade Média e o seu Fides et Ratio, daí o comentário do compositor Giacinto Scelsi, "Roma é a fronteira entre Este e Oste. No Sul de Roma, começa o Este, a Norte de Roma, começa o Oeste. A divisão passa exactamente pelo Fórum Romano. Aí fica a minha casa: Isto explica a minha vida e a minha música", daí também a classificação de George Steiner da "herança repartida de Atenas e Jerusalém" como um dos elementos fundadores da Ideia de Europa.

Roma sempre a entendi como a materialização dessa união. Há duas razões extremas para cá vir: para se estar com os pagãos ou para se estar com os cristãos, mas ninguém se fica por apenas um dos lados. E portanto será talvez uma consequência histórico-linguística deveras apropriada que o italiano seja uma língua conhecida por essa mesma linguagem gestual sempre paralela. Como se até no viver da língua estivessem presentes as duas tradições místicas fundentes, ouvir a língua, ver a língua, Φῶς καὶ Φωνή, Lux et Vox.

12.11.2009

Unificou a Normandia




Também não está com cara de quem ache que tenha sido grande coisa.
Faz suspirar um bocadinho, ou então sorrir com um bocadinho de malevolência, conforme a disposição.

Te Rogere potens, tu maxima gloria regum
Graecia te temet et Syria et te Persa veretur
te dignum imperio solum dijudicat orbis.


Poderoso Roger*, és tu o mais glorioso dos reis
És tu, tu, és tu que a Grécia, Síria e Pártia veneram
e o mundo inteiro reconhece-te como seu único senhor.

* Rogério Segundo da Sicília

12.09.2009

Espaço para livros

You say you're out of book space?
Naturally you're out of book space.
Everyone I know is out of book space.
If you're not out of book space,
You're probably not worth knowing.

12.08.2009

Chaucer e os Livros

Parlamento dos Pássaros

Proémio

A vida breve, a arte tão custosa,
O acto duro, a conquista tão aguda,
O alegre terror, que sempre tanto escapa,
Tudo isto é para mim Amor, que o coração
Espanta com o seu funcionamento
E custa tanto mesmo, que quando penso nele,
Nem sei sequer eu bem se bem vigilo ou sonho.

Pois mesmo se o amor eu não percebo,
Nem à regra com que dá ao povo a paga,
Eu vi contar meus livros tantas vezes
Seus milagres, e sua cruel raiva;
E como dizem que ele será senhor e dono,
Eu nada ouso e digo, por medo dos seus golpes,
Salvo “Salve Deus um tal Senhor!” E nada mais.

Ora meu hábito é buscar prazer ora saber
Nos livros que leio, como já te disse.
Mas porque conto isto? Não há muito tempo
Atrás, calhou descer-me os olhos
Sobre um certo livro, escrito a letra antiga;
E então nele, na certeza de algo aprender lá,
Passei o dia todo na pressa da leitura.

E como dos campos velhos, como sempre contam,
Nos chega o milho novo chegado cada ano;
Assim dos livros velhos, tem-no em boa fé,
Vem todo o saber novo que os homens se aprendem.
Mas agora para propor o tema disto –
Ler avante maravilhou-me tanto,
Que achei até o dia todo demasiado curto.

[...]



The Parliament of Fowles

The Proem

The lyf so short, the craft so long to lerne,
Thassay so hard, so sharp the conquering,
The dredful Ioy, that alwey slit so yerne,
Al this mene I by love, that my feling
Astonyeth with his wonderful worching
So sore y-wis, that whan I on him thinke,
Nat wot I wel wher that I wake or winke.

For al be that I knowe nat love in dede,
Ne wot how that he quyteth folk hir hyre,
Yet happeth me ful ofte in bokes rede
Of his miracles, and his cruel yre;
Ther rede I wel he wol be lord and syre,
I dar not seyn, his strokes been so sore,
But God save swich a lord! I can no more.

Of usage, what for luste what for lore,
On bokes rede I ofte, as I yow tolde.
But wherfor that I speke al this? not yore
Agon, hit happed me for to beholde
Upon a boke, was write with lettres olde;
And ther-upon, a certeyn thing to lerne,
The longe day ful faste I radde and yerne.

For out of olde feldes, as men seith,
Cometh al this newe corn fro yeer to yere;
And out of olde bokes, in good feith,
Cometh al this newe science that men lere.
But now to purpos as of this matere --
To rede forth hit gan me so delyte,
That al the day me thoughte but a lyte.

[...]

Tradução minha, 1-28

Todas as Almas, vertrunken, verträumt

Allerseelen

Was habe ich
getan?
Die Nacht besamt, als könnt es
noch andere geben, nächtiger als
diese.

Vogelflug, Steinflug, tausend
beschriebene Bahnen. Blicke,
geraubt und gepflückt. Das Meer,
gekostet, vertrunken, verträumt. Eine Stunde,
seelenverfinstert. Die nächste, ein Herbstlicht,
dargebracht einem blinden
Gefühl, das des Wegs kam. Andere, viele,
ortlos und schwer aus sich selbst: erblickt und umgangen.
Findlinge, Sterne,
Schwarz und voll Sprache, benannt
nach zerschwiegenem Schwur.

Und einmal (wann? auch dies ist vergessen):
den Widerhaken gefühlt,
wo der Puls den Gegentakt wagte.



All Souls

What did I
do?
Seminated the night, as though
there could be others, more nocturnal than
this one.

Bird flight, stone flight, a thousand
described routes. Glances,
purloined and plucked. The sea,
tasted, drunk away, dreamed away. An hour
soul-eclipsed. The next, an autumn light,
offered up to a blind
feeling which came that way. Others, many,
with no place but their own heavy centres: glimpsed and avoided.
Erratic boulders, stars,
black, full of language: named
after an oath which silence annulled.

And once (when? that too is forgotten):
felt the barb
where my pulse dared the counter-beat.





Paul Celan
em Poems of Paul Celan, traduzidos por Michael Hamburger, Persea Books 2002



10.30.2009

Jam, dulcis amica

vem já, mesmo já, meu amor
as batidas do meu coração sou eu a chamar-te;
entra no meu quarto,
todo decorado e belo.

lá há mantas a cobrir os sofás
e toda a bela casa,
há até flores que se espalham
misturadas com ervas aromáticas.

a mesa está posta
com todo o tipo de delícias;
lá o vinho brilha e há tanto,
e há de tudo o que gostas, meu amor, há de tudo.

lá ouvem-se as doces symphonias
e as flautas tocam sempre mais e nunca param;
lá um rapaz e uma ágil rapariga
inventam belos poemas, e inventam-nos para ti.

enquanto ele toca a cítara,
ela vibra canções com a lira;
e os servos trazem os jarros
cheios de vinho doce.

um banquete assim tão grande não me agrada
prefiro a nossa conversas, os nossos surrurros,
nem me agrada toda esta abundância
tanto como as nossas parcas palavras.


por isso vem agora, tu que eu escolhi que mais que minha irmã

amo, mais que todos, mais que todas, acima de tudo
lux branca olhos leucoluzentes
que vêem e iluminam a parte da minha alma que estava ainda escura

eu fui sozinha à floresta mais funda
e descobri clareiras secretas
onde fui tantas vezes para fugir ao tumulto
e evitei a turba

a neve e o gelo já são água
as folhas e as ervas já são verdes
no céu já ouço um pássaro
queimo-me quando chego ao fundo da caverna do meu peito

amore meu, não demores
aprendamos a amar, nós que já somos mestres,
sem ti o que posso aprender? Amorte
traz a hora de desvendar a raiz do amor

porquê demorarmo-nos em horas e dias, meu amor
que não resistiremos a mais tarde recuperar em noites?
depressa apressa-te a próxima hora
é tua, é tua e não minha a demora.


Jam, dulcis amica, venito,
quam sicut cor meum diligo;
Intra in cubiculum meum,
ornamentis cunctis onustum.

Ibi sunt sedilia strata
et domus velis ornata,
Floresque in domo sparguntur
herbeque fragrantes miscentur.

Est ibi mensa apposita
universis cibis onusta:
Ibi clarum vinum abundat
et quidquid te, cara, delectat.

Ibi sonant dulces symphonie
inflantur et altius tibie;
Ibi puer et docta puella
pangunt tibi carmina bella:

Hic cum plectro citharam tangit,
illa melos cum lira pangit;
Portantque ministri pateras
pigmentatis poculis plenas.

Non me juvat tantum convivium
quantum post dulce colloquium,
Nec rerum tantarum ubertas
ut dilecta familiaritas.

Jam nunc veni, soror electa
et pre cunctis mihi dilecta,
Lux mee clara pupille
parsque maior anime mee.

Ego fui sola in silva
et dilexi loca secreta:
Frequenter effugi tumultum
et vitavi populum multum.

Iam nix glaciesque liquescit,
Folium et herba virescit,
Philomena jam cantat in alto,
Ardet amor cordis in antro.

Karissima, noli tardare;
studeamus nos nunc amare,
Sine te non potero vivere;
jam decet amorem perficere.

Quid juvat deferre, electa,
que sunt tamen post facienda?
Fac cito quod eris factura,
in me non est aliqua mora.

http://www.thelatinlibrary.com/iamdulcis.html

Eu de mãos dadas com o Barão de Teive...

... e vá-se a ver, ninguém nos avisou. E até aposto que isto já é antigo. Portanto este post é para aquelas pessoas que são interneticamente analfabetas, ou então pessoanamente analfabetas, o que acaba por ser a mesma coisa.

10.25.2009

Sobre o Romantismo e Mimesis

Os poetas românticos tentaram quebrar com a teoria poética mimética que, em variegadas formas e modulações permaneceu o fundamento principal da criação poética até ao neo-classicismo. Uma teoria de arte que se assuma como imitação foi entendida como se fosse diametricamente oposta à noção completamente individualista que foi seguida pelos poetas românticos: estes acreditavam que ao escrever poesia não estavam a imitar nem a realidade nem os autores clássicos, mas preferiam ao invés disso entender os poetas, os indivíduos que escreviam, como catalizadores, a imagem é de Shelley na Defense of Poetry, o material bruto que, em contacto com o "Espírito", a "Natureza", ou qualquer que fosse o nome atribuído a essa noção de indomável physis, e que gerava a reacção chamada Poesia sem que houvesse qualquer efeito no poeta propriamente dito.

Poetry, in a general sense, may be defined to be “the expression of the imagination”: and poetry is connate with the origin of man. Man is an instrument over which a series of external and internal impressions are driven, like the alternations of an ever-changing wind over an Æolian lyre, which move it by their motion to ever-changing melody.

Mas o que me interessou para isto não foi essa noção da chamada "harpa eólica", que de qualquer modo não é assim tão simples, mas a legitimidade da reacção da teoria mimética. Ora se o Romantismo se desfaz do carácter de imitação como definidor da sua poesia, e se a arte se assume como baseada unicamente em expressão dessa força dæmonica, então chegamos a uma encruzilhada. Temos a possibilidade de assumir que a arte, e a poesia em particular, é consubstancial ao às forças caóticas que possibilitaram essa criação, que a poesia é "os deuses", o que por muito poético que soe não me parece que tenha sido a intenção, pois levanta demasiados problemas, ou então, o que me parece muito mais sensível, a poesia é expressão divina, é o "soar da harpa eólica", é a marca que os deuses deixam no mundo através da mão do poeta. Mas não é isto ainda assim μίμησις? Platão em alguns diálogos rejeita a poesia como sendo imitação do mundo físico, sendo portanto censurável na medida em que estaria duplamente afastada do mundo imaterial das Idéias. A imitação da natureza, como a defende Aristóteles, não faz mais que afastar daquilo que realmente importa. Não será que a a concepção Romântica assume mais paralelos com uma teoria poético-moral platónica do que com a mais bem-sucedida teoria aristotélica? Pois não é o deixar os deuses falar e deixar marcas 'apenas' mais um capítulo da teoria mimética, na medida em que continua a não haver espaço teórico para a criatividade individual, para uma poesia ex nihilo, enquanto a poesia continuar a ser uma expressão mais fiel possível das forças que estão em jogo? A diferença é que o mimêta deixa de ser o poeta, e passam a ser os deuses propriamente ditos, com a ressalva de que agora, em vez de a physis ser imitada por outrém, está a expresar-se e a imitar-se a si mesma, numa mimesis sui que é ainda assim mimesis. Se o poeta não fôr 'reduzido' ao estatuto de "harpa eólica" ou de "catalizador", então a physis está necessariamente a exprimir-se a si mesma. Se assim não fôr, e mesmo que aceitarmos uma poética menos de-autoral que a de Shelley, em que o poeta ainda tenha alguma função activa, então ainda assim é o poeta a 'mimar' aquilo que lhe é confiado pelos deuses.

O que Shelley diz em relação a isso é formidável: se o poeta ao escrever não consegue atingir as alturas que a insuflação divina lhe permitia, é porque existe um vazio temporal gigantesco entre o momento da inspiração e o da escrita: a possessão do humano pelo divino é breve, e no momento em que é passada a poema resta apenas uma sombra pálida; curioso é o modo como prossegue a desmantelar um dos mitos que ainda se ouvem de bocas de poetas (principalmente principiantes, mas não só), de que "aquilo veio no momento, [moralmente] não o posso editar"; o que Shelley diz é que a contínua revisão não só é lícita como aliás é moralmente certa: editar o poema fruto de inspiração divina é dar côr à palidez, é aproximar a sombra do poema inspirado daquela idéia que o Espírito lhe houvera revelado. -- enquanto existe uma força que se fala e que consegue com maior ou menor sucesso ser passada para papel, então o pressuposto é que há algo a atingir, um ideal platónico a tocar, que está a ser imitado. Não é mais a imitação aristotélica, mas continua a ser muito derivativo, parece-me.

Escusado será dizer que tudo isto é uma reflexão, de largo a largo muito básica e muito possivelmente já desmantelada em muitos sítios: quer tenha sido quer não é muito um esboço. Convidaria comentários que me mostrassem como estou completamente errado, ou que me mostrassem livros onde pudesse eu descobrir como estou completamente errado, ou então discussão para continuar esta reflexão a mais cabeças (para descobrirmos o quanto estou errado!).


PS: Noutras notícias, embora tenha sido isso que encorajou este post, o Shelley continua a resistir à tradução.

This dog.