10.21.2009

Lit Tech




Li hoje este artigo, onde se narra a saga pela autenticidade duma das peças cuja atribuição a Shakespeare (e isto já parece o texto de ontem), The Reign of Edward III, sempre foi duvidosa. Um tal investigador utilizou um programa de captação de plágio para encontrar semelhanças com Shakespeare e Thomas Kyd, encontrando padrões, assinalando-os, atribuindo-os, etc, até chegar a uma conclusão mais-ou-menos definitiva (o artigo explica).

O curioso aqui não é necessariamente a ironia (software de plágio para descobrir Shakespeare!) como é a novidade de ter tecnologia ao serviço da literatura. Enquanto nas ciências naturais de outro modo já não seria de pensar, pelos campos de letras mais "tradicionais" a aplicação de tecnologia sempre se ficou em larga parte pela aceleração de consultas, acesso a bases de dados de textos, dicionários, etc. Uma automatização informática numa área que à partida eu admito que não associaria a nada que não fosse interpretação humana sem auxílio é bem vinda; claro que nada disto substitui um acompanhamento muitíssimo próximo do texto por parte de quem estiver a investigar-- mas isso é igualmente verdade nas ciências naturais. Citando,
You have to go on hunches - you can't just feed in all the numbers on every play and sit back," he says. "But what I'm hoping to do is bring about a marriage between human reading and machine reading. If you distrust computers, you won't advance at all; if you have just computers and know nothing about literature, you're likely to go wrong as well."
e de qualquer modo ele passou "mais de quatro décadas a estudar Shakespeare, e devotou inúmeras horas nos últimos dois anos até chegar ao seu veredicto sobre Eduardo". Tudo em conta, é uma aplicação da tecnologia como todas as outras [sic], e portanto vistas as coisas talvez não deveria ser de surpreender. Mas surpreende. Thumbs up.




PS: Estão a fazer uma coisa parecida com o Homero. Vai na volta e ainda dizem que afinal o tipo existiu.

10.20.2009

Pseudo-Aristóteles




Da Antiguidade chegaram-nos muitos documentos com o autor incerto. Não me refiro aos abundantes fragmentos cujo autor é completamente desconhecido, mas sim àquele grupo muito particular de "Pseudos" que tão desarticuladamente ladeiam o caminho da referência autorial. Pseudo-Aristóteles, Pseudo-Plutarco, Pseudo-Apolodóro, só para nomear uns quantos, frequentemente oscilam na crítica entre a remoção do prefixo e a inclusão. Escritos são avaliados e reavaliados segundo variados critérios de autenticidade até se chegar a uma opinião relativamente consensual relativa à autoria do escrito. Tudo muito giro. Mas bastante mais curioso é a razão para tais escritos de facto não terem um autor fixo. Algumas dessas razões são facilmente compreensíveis à sombra da alma humana: alguém escreve um texto, assina-o através dos meios disponíveis; anos mais tarde, uma de duas coisas acontece: o texto reemerge mas sem qualquer referência ao autor (perdeu-se o início, onde viria o nome, perdeu-se o que quer que fosse que autenticava o texto), e então algum promotor analisa-o e conclui (erradamente) que fora escrito por um outro autor com o qual ele estava já familiar; ou então, para aumentar a disseminação, escreve lá ριστοτέλους e aquilo corre que nem numa Maratona: isso seria de esperar.

Mas a mim interessou-me mais para esta mini-reflexão uma outra direcção. Daqueles casos em que se sabe que foi o próprio autor do texto quem o atribui a outrém. Imagina-te a escrever um livro, um tratado, um poema, e a amá-lo para além de ti mesmo, tanto que encontres na provável imortalidade dele maior mais-valia do que na apenas possível imortalidade que lhe seria dado alcançar caso se tivesse que arrastar consigo ainda mais o peso do teu nome. É preciso um grande amor. Claro que há vários pressupostos questionáveis nesta minha embelização: de que a preocupação da perenidade estava presente; isso em si é muito discutível: já Foucault, naquele brilhante ensaiozito 'O que é um Autor?' (e agora espanquem-me por estar a referir-me ao all-quotable), fala da transição do peso da "função autor" na aurora da Modernidade e no questionamento dos Clássicos. Antes, na era pré-Moderna,

"textos que agora chamamos "literários" (histórias, folclore, épica, tragédias) eram aceites, circulados, e valorizados sem qualquer questão sobre a identidade do seu autor. A sua anonimidade era ignorada porque a sua idade real ou suposta era garantia suficiente da sua autenticidade. Textos, porém, que hoje em dia chamamos "científicos" (tratados cosmológicos ou celestes, médicos ou patológicos, de ciências naturais ou de geografia) eram considerados verdadeiros durante a Idade Média unicamente se o nome do seu autor viesse indicado. Afirmações como "Hipócrates afirma que..." ou "Plínio diz-nos que..." não eram meramente fórmulas para um argumento de apelo à autoridade; assinalavam um discurso comprovado."

Isso pode explicar em certa medida o apagamento voluntário de si. Mas, de qualquer dos modos, o que o monsieur F está a explicar é a aceitação social de um determinado texto na sua posteridade, não a atitude do autor. Regra geral, é de atestar que 'até' na Idade Média os autores, tendo a escolha disponível, deixam o nome registado (a música sacra, cujos autores só bastante tarde começam a deixar os nomes escritos, é uma excepção: mas no que sei pouco não me alongo). Será uma projecção presentista a de tentar inevitavelmente ver uma vontade de imortalidade pela poesia numa época que talvez não a tivesse? Até os versos de Virgílio

[Ille ego, qui quondam gracili modulatus avena
Carmen, et egressus silvis vicina coegi,
Ut quamvis avido parerent arva colono,
Gratum opus agricolis, at nunc horrentia Martis]
Arma virumque cano.

[Eu aquele, que em tempos compus com suave flauta
Poesia, e saí dos bosques até aos campos vizinhos,
Fazendo a terra servir ao ávido agricultor,
Obra de muito valor, e agora os horrores de Marte,]
Armas e o homem canto.

                   nos surgem apócrifos. Por serem de "qualidade inferior", por não se enquadrarem, a verdade é que a única referência do poeta a si mesmo é talhada e obliviada. Que reflecte isso? Que o autor ceda caminho à sua obra? Não me parece, até porque dificilmente o Ocidente honrou mais um poeta que Virgílio. Mas ele sabia já que a sua obra seria imortal (e talvez isso o assustasse). Mas então aqueles para quem essa certeza era tão improvável? Descartar a Ambição por Amor da Poesia? É como se as figuras de Keats nos surgissem à frente, e o resultado da sua intercalação fosse vastamente diferente daquele do que a ele induziram. Qualquer que seja a resposta final da filologia, este possível sacrificar-se em prol da obra é, no mínimo, estonteante.

The first was a fair maid, and Love her name;
    The second was Ambition, pale of cheek,
        And ever watchful with fatigued eye;
The last, whom I love more, the more of blame
    Is heap'd upon her, maiden most unmeek, -
        I knew to be my demon Poesy.




À laia de bónus, há alguns meses atrás deparei-me com uma edição dum suposto "Segredo dos Segredos", de Pseudo-Aristóteles, cuja 'dedicatória' traduzi. Deixo aqui a minha versão.


Quando eu estive em Antioquia ao vosso serviço, encontrei esta preciosíssima pérola de filosofia, e fora então sobejamente conveniente ao vosso serviço que fosse ela traduzida de Arábico para Latim. O que é mais, visto que eu desejava obedecer às vossas ordens com subserviência tal, e servir a vossa vontade tal como é minha responsabilidade, traduzi este livro, que muita falta fazia aos Latinos (e que além disso se encontra junto de apenas um minúsculo número de Árabes), com trabalho árduo e discurso claro tal, da língua Arábica para Latim, tudo para a vossa grandeza e honra, e por vezes desvendando uma letra por outra e por outras vezes o sentido a partir do contexto, visto que há junto dos Árabes um modo de dizer as coisas, e um outro junto dos Latinos.


Então Aristóteles o habilíssimo Príncipe dos Filósofos compôs este livro por mando do rei Alexandre, o seu pupilo, que lhe houvera pedido que se encontrasse com ele e lhe revelasse o segredo das artes quadripartidas, nomeadamente o movimento, os procedimentos e o poder dos poderes celestiais na astronomia, na arte da alquimia, na natureza, e na capacidade de compreender as essências, e como tratar as incantações aeromânticas e geomânticas. 


E embora ele tivesse tentado por todos os meios esconder os segredos das sabedorias acima mencionadas, ainda assim, opor-se à vontade e ao mando de um tão grande senhor era algo que ele nem ousava fazer nem devia sequer ter feito. Querendo portanto por um lado agradar ao seu imperador, e por outro querendo esconder os segredos dessas artes, compôs ele este livro através de adivinhas, exemplos, e sentidos figurados, ensinando na aparência das suas palavras a doutrina filosófica que dizia respeito àquele senhor dos senhores, de como preservar a saúde do corpo, e como adquirir a inefável utilidade e conhecimento dos corpos celestes. No interior, porém, no centro mais profundo da sua obra, deixou a Alexandre, enigmaticamente e em segredo, a mensagem principal que ele houvera tão veementemente insistido.

10.07.2009

Sartre contra Proust

Meknès. Como é que era então aquele montanhês que nos meteu medo numa ruela, entre a mesquita Berdaïne e aquela praça encantadora à sombra duma amoreira? Ele vinha na nossa direcção, a Anny estava à minha direita. Ou era à minha esquerda?

Aquele sol e aquele céu azul não eram mais que enganos. É a centésima vez que me deixo prender. As minhas memórias são como pistolas na bolsa do diabo: quando se abre só lá se encontram folhas mortas.

Do montanhês, não vejo mais que um grande olho apagado, leitoso. Mas este olho serve-lhe? O médico que me explicou em Bakou o princípio dos abortos do Estado também era vesgo, e quando me quero lembrar do seu aspecto, é também aquele globo esbranquiçado que aparece. Estes dois homens, como os Nornes, têm apenas um olho, que usam à vez.

Quanto a esta praça de Meknès, onde eu ia todos os dias, é ainda mais simples: já não a vejo de todo. Resta-me a sensação vaga de que era encantadora, e estas cinco palavras indissoluvelmente ligadas: uma praça encantadora em Meknès. Sem dúvida, se fechar os olhos ou se fixar o tecto com atenção, consigo reconstituir a cena: uma árvore ao longe, uma forma sombria e compacta que se inclina para mim. Mas tudo isto eu invento pelas exigências do meu argumento. Aquele Marroquino era grande e seco, e além disso reparei nele apenas no momento em que me tocou. Assim, eu sei ainda que ele era grande e seco: certas cognições abreviadas demoram-se na minha memória. Mas não vejo nada: tenho um belo folhear do passado do qual não retiro mais que farelos de imagens, e já não sei muito bem o que é que eles representam, nem se são recordações ou ficções.

Noutras ocasiões há ainda muitos casos em que até esses farelos desapareceram: não resta nada a não ser as palavras: eu poderia ainda contar histórias, contá-las demasiado bem (nas anedotas não temo ninguém, salvo os oficiais da marinha e os profissionais), mas não são mais que carcassas. Há para aí um tipo que faz isto ou aquilo, mas não sou eu, eu não tenho nada que ver com ele. Ele passeia por países sobre os quais eu estou tão informado como se nunca lá tivesse estado. Por vezes, no meu discurso, ele chega mesmo a pronunciar uns belos nomes lidos num Atlas, Aranjuez ou Canterbury. Fazem nascer em mim imagens completamente novas, como acontece, ao lê-los, às pessoas que jamais viajaram: eu sonho sobre as palavras, e isso é tudo.


in JP Sartre, Le Nausée, tradução minha

10.02.2009

Ir a Roma e não ver o Papa...

… é ainda assim melhor que vir a Roma e não ter Latim. O que vale é que este sítio está cheio de inscrições e cenas. Mas a verdade é que nenhuma das cadeiras latinas interessantes cabia. Em contrapartida, vou ter um primeiro semestre cheio disto.


Literatura Alemã
Hölderlin e a "fundação do significado".
Uma grande parte da bibliografia passa pelo modo como os filósofos como Hegel, Heidegger, etc leram Hölderlin. É quiçá a cadeira que mais me entusiasma neste momento.

Questões de crítica e de comparística literária.
História e crítica do Eurocentrismo.
A Doutora Rita Marnoto, que dirig(ia) o Departamento de Românticas, sugeriu-me que tentasse ter este professor. Não só dá no horário, como fui a ver e é o meu coordenador. Também me cheira que não me arrependerei nada.

Filosofia da História
J. P. Sartre e Albert Camus: problemas existenciais em confronto.
Esta é de um ano!

Gramática Histórica das Línguas Clássicas
Perfis históricos de Grego e de Latim. Noções de Indo-Europeu.

Língua e Literatura Grega
Leitura de Homero (livro XVIII da Ilíada e dum livro da Odisseia à escolha do estudante) e duma selecção de fragmentos dos líricos.
Eu já fiz a Literatura Grega III, Homero + Lírica, em Coimbra, mas apenas em tradução; esta é de língua também. Só espero que a Secretaria conimbricense não me mate à queima-roupa quando eu voltar.

9.30.2009

Ler Latim



Qualquer aluno de Clássicas poderá dizer que ler as línguas Latim e Grego oferece uma miríade de problemas, já para não falar em escrevê-las, comparativamente com outras como o Inglês, Francês, Italiano, etc. Há várias razões para essa disparidade de facilidades (omnipresença do Inglês, semelhanças com outras línguas Romances, etc), mas aqui focar-me-ia em duas. A primeira é a diferença abismal na aproximação passível de ser feita à língua: enquanto o Latim e o Grego exprimem a gramática em grande parte através de flexão verbal e nominal, uma grande parte das línguas modernas substituiu esse sistema por outros em que o sentido da frase é derivado da posição da palavra na frase. Portanto enquanto em português uma frase como "A raposa come a galinha" nunca poderia ser entendida como "A galinha come a raposa", em Latim "Vulpes (raposa) edit (come) pullum (a galinha)" poderia ser organizada numa série de combinações diferentes (vulpes pullum edit, pullum edit vulpes, etc) sem que o sentido da frase seja comprometido. Nisto não à volta a dar, mas a dificuldade de assimilar aquilo que é um aparato tão basilar da língua acaba por ser um dos grandes obstáculos que eu e vários outros enfrentamos.

O outro é o problema do do vocabulário. O tipo de textos lidos e a retenção de palavras fornam um círculo vicioso: não consigo ler textos em extensão porque tenho permanentemente de andar à procura no dicionário, tenho de andar sempre à procura no dicionário porque não consigo ler em extensão e assimilar mentalmente as palavras novas. Va bene, mas muitas vezes não se sai disto. A mim fez milagres um certo livro, os dois volumes da Lingua Latina Per Se Illustrata, que ensinam Latim através duma apresentação gradual do vocabulário, sem  inclusão de línguas "bárbaras" (ie: só há Latim), e que torna (em grande parte) desnecessária a consulta do dicionário. Devo dizer que se o meu Latim está a anos-luz do meu fraquíssimo Grego, é a conta aqui do mister Orberg. Seja como for, há outros utensílios. Por exemplo, o dicionário que por uma larga margem mais frequentemente uso é o Whitaker's Words (versão para download aqui). Não é completo, apesar de ser muito extenso, mas para acelerar a leitura e poupar-me o folhear dum calhamaço de duas mil-ou-quê páginas se não me lembro do que significa um certo advérbio é excelente (além de que tem um, rudimentar, tradutor Latim-Inglês). Claro que por vezes inevitavelmente volta e meia lá saco do Oxford's Latin, mas isso acaba por ser para casos de dúvidas mais complexas do que para problemas didácticos ou esclarecimentos.

E é por isso que achei bastante curioso o anúncio no Latinteach deste site, NoDictionaries, que não faz mais que associar o Whitaker a textos clássicos, mostrando mais ou menos informação conforme se queira, e com a possibilidade de lá colocar outros e ter o mesmo tipo de análise. Ao menos cumpre uma tarefa: torna a leitura mais rápida, e portanto mais fluída, e as interrupções à leitura em extensão diminuir-se-ão (o que  só pode ser bom). Estou decidido a pegar-lhe na próxima vez que me lançar àquele tipo de poesia que por vezes mais parece catálogos de botânica.

Godhead





Godhead


How did we manage to drink up the sea? Who gave us the sponge
to wipe away the horizon? What did we do, when we unchained
this earth from its sun?


Father


I am the dreams you can not have, the crimes
that smuggled words beyond the watershed,
and scripture uttered hiding laity signs
to undermine the young until they're led
to search for lesser feats than parting seas.
I am the gate that keeps the tide at bay—
made dauntless rain that undisputed cleaves
through temples and the unforgiven clay.
So make me yours: trust my fiat will give
you power over throat and gun, a bliss
of everything, and whispers that deceive
away from worlds and from their nothingness.
I, shadow of the shadows you’ve become;
the link that keeps your star aside the sun.


Son


Start by asking for company. Memorize the names.
Your hand protean and our roaring world shames
soldiers into wells of words, cattle into bags of swords
and blue-blood flasks that tinkle into meniality. You
have the burden to return, and change submissive chests
into an accolade of songs, liberty into a child that longs
for home but sails alone and willingly,
and cracks the bones of fiends in ornament,
in mantles and in memories, in individual violet; and the death
that sticks you so away that your voice enfeebles, and keeps
the news afar that the wind is random, that the lees
are human and transmutation maturation only.


Holy Ghost


skin neath red light, godfright, fistfight
deitying we lay and if we keep it this way
we might just climb up all the way there to a jealous holy,
a sinking folly of fasting and fast prayer, of layer upon layer
of cicatrices taken for relic wood, sepulchral food and monuments that indent the sky,
rye cathedrals of cartilage, spit-drenched mithraistic mysteries,
statues of fat apostles that all their life kept from their poultry's view
that they knew all about when flesh
and marble mesh

Keats





Four seasons fill the measure of the year;
   There are four seasons in the mind of man:     
He has his lusty Spring, when fancy clear
   Takes in all beauty with an easy span:
He has his Summer, when luxuriously
    Spring's honey'd cud of youthful thought he loves
To ruminate, and by such dreaming high
    Is nearest unto heaven: quiet coves
His soul has in its Autumn, when his wings
    He furleth close; contented so to look
On mists in idleness- to let fair things
     Pass by unheeded as a threshold brook.
He has his Winter too of pale misfeature,
    Or else he would forego his mortal nature.

John Keats.

Ao comentar com alguém, pouco tempo depois de terminar a leitura de À Sombra das Raparigas em Flor, que Em Busca do Tempo Perdido seria talvez o único livro a que ao deleite mental e intelectual da leitura se associava um deleite verdadeiramente físico, que como se Proust tivesse a capacidade de conjurar as descrições pelas páginas fora e trazê-las lado a lado para que cercassem os ouvidos, as narinas, a pele dos leitores, disse-me essa pessoa que concordava; e que conhecia apenas um outro autor com o qual tal o mesmo acontecesse. Eu já antes me tinha lançado em leituras de Keats — uma de memóriaa fora quando, numa exposição de obras clássicas no Porto (não me lembro do nome do Museu) – estava citada na íntegra a Ode on a Grecian Urn, aquele belíssimo louvor da ofuscação, e cujos versos, por meio das suas outras virtudes, heard melodies are sweet, but those unheard / are sweeter permanecem dos meus favoritos alguma vez escritos — mas apenas após repto desta pessoa para que eu me despachasse a acabar o Proust para tratar de "educate yourself in the literary tradition you purport to write poetry in", soube que era uma questão de tempo até pegar nisto a sério. Bem, ainda não acabei o monsieur Proust, mas peguei numa edição da Poesia de Keats, e lancei-me a sério. E ainda bem que o fiz. Penso que vai custar não continuar a volta-e-meia colar poemas dele aqui.

9.29.2009

Don Carlos

FILIPE
É verdade que fui traído?
LERMA (chocado) 
Majestade 
FILIPE (amargo e irónico)
Majestade, Majestade e de novo Majestade!
Será que não há resposta que me chegue
aos ouvidos que não seja só o eco vazio de quem sou?
Bato na pedra para obter água, compreendeis?
Água para saciar a minha sede febril.
E a pedra em vez de água dá-me ouro,
ouro e mais ouro!


Friedrich Schiller, Don Carlos, recriação poética de Frederico Loureço, Livros Cotovia

Hamlet e a Justiça




Muito embora não seja de esperar aqui um longo ensaio discutindo a famosa peça. Trago em vez disso este link, em que, apesar de já velhino as far as the internet goes, se decide avançar a cena uns 400 anos e julgar Hamlet pelos homicídios. O mais semelhante a isto que me lembro é God on Trial. O giro teria sido também terem gravado o julgamento aqui do príncipe.

9.24.2009

Gregos Modernos em Tradução



Um dos erros embaraçosos mais positivos é aquele causado por uma indignação em defesa de alguma coisa, quando depressa se descobre que a causa dessa indignação não tem razão de ser, e muito pelo contrário é desrespeitosa para louváveis esforços de outrém: quando isso acontece não só razão da indignação se desfaz, como além disso temos o benefício de ver à nossa frente que a realidade da situação é melhor do que se poderia pensar. Escrevo isto no seguimento dum e-mail que recebi a propósito do post sobre Kazantzakis. Escreveu-me Hugo Santos:
"há uma tradução de Yorgos Seferis, publicada pela Relógio D’Água, em tradução de Joaquim Manuel Magalhães, que também traduziu os Poemas de Kavafis, refundição e ampliação de uma tradução anterior, na mesma casa editorial. De Odisséas Elytis, há Louvada Seja, pela Assírio & Alvim, em tradução de Manuel de Resende. De Yannis Ritsos, ou Guiannis Ritsos, como também surge, há uma antologia da Fora do Texto, Antologia, em tradução de Custódio Magueijo. Há, ainda, alguns títulos, integrados nos livrinhos publicados, a propósito dos Encontros da Casa de Mateus: Sombras Oblíquas, de  Demosthenes Agraphiotis, e A Outra Versão, de Rasos Denegris."
Como disse, dessa tradução de Kavafis estava a par, mas nenhuma livraria de Coimbra a tinha em stock. Das outras admito que era infelizmente ignorante: na altura procurei e perguntei, e as respostas foram sempre negativas; portanto agradeço ao Hugo Santos, e tiro o meu chapéu mais uma vez à Relógio D'Água, à Assírio & Alvim, e à Fora do Texto, com as minhas desculpas pelo erro.

Mas continua a faltar o Kazantzakis!