4.07.2019

Símbolo de Símbolos, a Rosa



Quando em 325 a hierarquia católica se reuniu para compor o dito "Symbolum de Niceia" (ou 'Credo') que haveria de definir a quase totalidade da crença cristã até hoje, não achou melhor forma de descrever a relação de Cristo a Deus do que o tricolon tautológico de "Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro" (na versão Latina).

Tenho relativamente pouco interesse em seguir a dança histórico-teológica que os fez chegar por fim esta formulação. Tenho mais de apreciar a pujança da imaginação que persuadiu o Espírito de que a melhor forma de identificar o mistério da realidade de Cristo foi a tautologia. Neste que é talvez o último anélito da criatividade cristã antes que esta se embrenhasse nos labirintos da metafísica aristotélica, a diferença de Cristo em relação a Deus é paradoxalmente definida pela sua identidade radical para consigo mesmo.

Lembra-me isto uma conversa que tive com amigo esta semana a propósito de numerologia. Perguntava-me: “O sete, o número 7, é símbolo de quê?” Uma solução académica, resisti, seria obliquar a resposta e começar num elenco de “coisas que aparecem em número 7”, há 7 maravilhas do mundo, há 7 pecados e 7 virtudes, 7 são as colinas de Roma, de Lisboa e de Constantinopla, e, se quisermos continuar, são “7 os Anões” e 7 é a bisca.

Uma forma ainda mais desesperada de fugir à pergunta passaria por entrar pelo caminho da perdição da numerologia ou da gematria, e listar as possíveis combinações geo-aritméticas que nos reconduzem ao número. 7 é a soma de 3 mais 4, números de si perfeitos, ou de 6 mais 1, ou de 10 menos 3, e assim por diante. Em todas essas quero focar-me naquela que me parece mais fascinante: de que o 7 é um número sacral porque é a multiplicação de 1, a unidade, pelo 7, um número perfeito.

1 x 7 = 7

O Borges tem um poema sobre a 'rosa':
A rosa,
a imarescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que resurge da ténue
cinza pela arte da alquimia*,
a rosa dos persas e de Ariosto,
a que está sempre só,
a que é sempre a rosa das rosas,
a jovem flor platónica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inalcançável.
Neste poema ele alude a vários momentos da literatura ocidental (inclusive, em *, a um conto dele próprio “A Rosa de Paracelso”), mas o cerne é o verso "a que é sempre a rosa das rosas". Quando perguntaram ao Umberto Eco porque é que ele chamou ao seu livro “O Nome da Rosa”, tendo em conta que não há nenhuma rosa a ocupar um lugar primeiro no livro, ele respondeu que queria um “título neutro”, e mais tarde, "porque a rosa é uma figura simbólica tão rica em significado que já quase que nem lhe resta nenhum sentido próprio".

O juízo do Umberto Eco parece-me injusto. O Borges percebeu melhor. Há uma harmonia entre o Símbolo de Niceia, entre o número 7, e entre a rosa, que é que todos eles são símbolos de si mesmos, o que é a mesma coisa que dizer que são símbolos do símbolo. A rosa simboliza um símbolo, e o seu esvaziamento de sentido é programático: retivesse ainda a rosa alguma réstia de sentido, não poderia simbolizar a recorrência perpétua e a inalcançabilidade própria do Símbolo.

Da mesma forma, o 7, longe de simbolizar a união destes números ou daqueles, simboliza acima e primeiro que tudo a capacidade numérica para acolher sentido e, transformando-se num referente de sentido que atira todo o sentido para fora de si, representa a força persuasiva e o poder espiritual da numerologia.

Partilham um campo semântico então, a rosa, o 7, o Cristo. Não certamente a triste rosa, reduzida a que dela seja dita “que quer dizer amor”, ou o 7 “que quer dizer o número dos chakras”, ou o Cristo “que quer dizer a união do humano ou do divino”. Aqui toda a resolução avilta. Antes, rosa da rosa, 7 do 7, deus de deus, símbolo do símbolo, simbolizam todos a capacidade simbólica, que, sendo recorrente, se esgota na sua própria circularidade, mas ao mesmo tempo aflui nas demais províncias da linguagem, e, desaguando nos demais símbolos, alimenta-os e confere-lhes a eles e a nós a sua capacidade de se referirem a outras coisas, de nos lançarmos para fora de nós próprios


Imagem:
Ambrosius Bosschaert (1618) @ Londres Johnny van Haeften

3.29.2019

Abu ‘Abdullah Moḥammad al-Thānī ‘Ashar



أبو عبد الله محمد الثاني عشر

Vulgo Boabdil (corruptela de ‘Abu Abdullah), último rei de Granada e último monarca muçulmano da Península. Encarna simbolicamente o fim da história ancestral do Islão na nossa península. Devido à lenda de que, ao partir para o exílio para Fez, olhou uma última vez para a cidade de Granada e suspirou , tornou-se numa figura central para a mitologia da saudade. O Fernando Pessoa dedicou-lhe vários poemas, entre os quais esta quadra:
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil . . .
Não tenho ilusões nem romantismos quanto às fortunas ou infortúnios duns pobres monarcas e das suas autocracias que vêm e vão. Mas sei de que lado não estou: a 31 de Março de 1492, menos de 3 meses após a queda de Granada a 2 de Janeiro do mesmo ano, gloriosos da conquista final da Península, os Reis Católicos Isabel e Fernando proclamam o Edito de Alhambra que ordena a expulsão das populações judaicas dos seus domínios.

A esta expulsão Gershom Scholem chama «uma catástrofe de inconcebíveis dimensões, que arrancou e expôs um dos ramos principais do povo Judaico, e que causou mudanças radicais em todas as esferas da vida e da percepção judaicas» (Major Trends in Jewish Mysticism p.244). A maior parte fugiu para Império Otomano, Norte de África, ou para a Eretz Yisrael. Alguns fugiram para Portugal.

Chegados cá foram chantageados pelo nosso rei Manuel I, o Vendido, que comerciou a vida dos refugiados judeus em troca do seu anseio por umas castelhanas bodas. A monarquia em Portugal, ontem como hoje. Quatro anos após chegarem de Castela foram mais uma vez expulsos.

O Catolicismo militante que no século XI e XII chegou à península vindo de Roma foi um projecto imperial do papado, útil para esmagar as tradições religiosas locais -- todas elas, não só o Judaísmo e o Islão mas também o ancestral Catolicismo visigótico e moçárabe, e substituí-las pelo catolicismo romano e cruzado que seria a ruína social, económica, e moral da península, que atiçaria fogo ao globo inteiro e lançaria grilhões sobre milhões e milhões.

3.24.2019

O viajante disse ao viajante: Não regressaremos como...

Maḥmūd Darwīsh. Tradução do Árabe minha.

O viajante disse ao viajante: não regressaremos como . . . 
não conheço o deserto
mas plantei-lhe palavras nas bordas
as palavras disseram suas palavras, e eu parti
como uma mulher divorciada, como o seu esposo quebrado
nada guardei fora o ritmo
ouço-o
e sigo-o
e ergo-o, pombos
no caminho para o céu
o céu do meu canto
eu sou um filho das planícies da Síria
aqui vivo, quando viajo e quando me quedo
junto da gente do mar
mas a miragem força-me para leste
para o beduíno antigo
levo o cavalo à água
e sinto ecoar a pulsação do alfabeto
e regresso, uma janela virada para dois lados
esqueço-me de quem sou para poder ser
plural em um só, ser simultâneo
aos louvores dos marinheiros estrangeiros sob as minhas janelas,
e ser a carta que os combatentes escrevem às suas famílias:
não regressaremos como partimos
não regressaremos, nem fortuitamente
eu não conheço o deserto
por muito que me tenha visitado em inquietude
e no deserto a ausência disse-me:
escreve!
e eu disse: na miragem há já outra a escrever
e a ausência: escreve para enverdeceres a miragem
e eu disse: falta-me a ausência
e eu disse: ainda não aprendi as palavras
e disse-me ela: escreve e ficarás a conhecê-las
e saberás onde estiveste, onde estás
e como chegaste, e quem serás amanhã
põe o teu nome na minha mão e escreve
para saberes quem eu sou, e eu irei, uma nuvem
na distância . . .
e eu escrevi: quem escrever a sua história terá como herança
a terra e as palavras, e possuirá o significado, totalmente!
não conheço o deserto
mas despedi-me dele: Paz
às tribos a leste da minha canção: Paz
às descendentes na sua multiplicidade sobre a espada: Paz
ao filho da minha mãe sob a palmeira: Paz
à ode suspensa que guardou para nós os astros: Paz
aos povos que passam, uma memória para a minha memória: Paz
ao "Que a paz esteja comigo" entre dois poemas:
um poema já escrito
e outro cujo poeta morreu de paixão
serei eu eu?
estarei eu ali . . . estarei eu ali?
em cada "tu": eu,
eu sou tu, a 'segunda pessoa', não é exílio
se eu for tu, não é exílio
se o meu eu for tu, e não é exílio
se o mar e o deserto forem
uma canção de viajante a viajante:
não regressarei como parti,
e não regressarei, nem fortuitamente!


. . . قال المسافر للمسافر : لن أعود كما
،لا أعرف الصحراء
. . . لكني نبت على جوانبها كلا
ماقال الكلام كلامه، ومضيت
،كامرأة مطلقةٍ مضيت كزوجها المكسور
لم أحفظ سوى الإيقاع
أسمعه
وأتبعه
وأرفعه يماما
،في الطريق إلى السماء
،سماء أغنيتيأنا ابن الساحل السوري،
أسكنه رحيلاً أو مقاما
،بين أهل البحر
لكن السراب يشدني شرقاً
،إلى البدو القدامى
،أورد الخيل الجميلة ماءها
،وأجس نبض الأبجدية في الصدى
. . . وأعود نافذة على جهتين
أنسى من أكون لكي أكون
جماعة في واحدٍ، ومعاصراً
،لمدائح البحارة الغرباء تحت نوافذي
:ورسالة المتحاربين إلى ذويهم
لن نعود كما ذهبنا
!لن نعود . . . ولو لماما
،لا أعرف الصحراء
،مهما زرت هاجسها
:وفي الصحراء قال الغيب لي
!أكتبفقلت: على السراب كتابة أخرى
فقال: أكتب ليخضر السراب
فقلت: ينقصني الغياب
وقلت: لم أتعلم الكلمات بعد
فقال لي: أكتب لتعرفها
وتعرف أين كنت، وأين أنت
،وكيف جئت، ومن تكون غداً
ضع اسمك في يدي وأكتب
لتعرف من أنا، واذهب غماما
. . .  في المدىفكتبت: من يكتب حكايته يرث
!أرض الكلام، ويملك المعنى تماما
،لا أعرف الصحراءلكني أودعها: سلاما
للقبيلة شرق أغنيتي: سلاما
للسلالة في تعددها على سيفٍ: سلاما
لابن أمي تحت نخلته: سلاما
للمعلقة التي حفظت كواكبنا: سلاما
للشعوب تمر ذاكرة لذاكرتي: سلاما
:للسلام علي بين قصيدتينقصيدة كتبت
!وأخرى مات شاعرها غراماأأنا أنا؟
أأنا هناك . . . أنا هنا؟
,في كل "أنت" أنا
أنا أنت المخاطب, ليس منفى
أن أكونك. ليس منفى
أن تكون أناي أنت. وليس منفى
أن يكون البحر والصحراء
:أغنية المسافر للمسافر
,لن أعود, كما ذهبت!
!ولن أعود . . . ولو لماما

3.16.2019

algumas notas sobre e lógica do conservadorismo & sobre as consequências políticas a tirar da mesmidade horrível da História

Para surpresa de alguns amigos, eu costumo definir-me, meio a brincar, como conservador. A clarificação é que me defino assim com base na ideia lata de que estou interessado em conservar tudo o que está bom, e mudar apenas aquilo que está mau.

A diferença entre essa definição lata de "conservador" e o movimento político contemporâeo de "Conservadorismo" é contudo bastante marcante. O estudo da história presenciou a combinação dupla da emergência por um lado da historiografia marxista, e pelo outro da viragem anti-filológica do século XIX que transformou as "Litterae humaniores" em "Altertumswissenschaften" (ou seja, "Ciências da Antiguidade"). Deixámos de estudar apenas textos para passarmos a estudar culturas, sociedades, pessoas de todas as classes (a historiografia feminista, que nasce da perplexidade de, até então, a história mundial ser apenas a história de 50% da população humana, é uma conclusão lógica e necessária desta orientação).

O Conservadorismo, enquanto movimento (por oposição a ser apenas “conservador”), não é algo “maligno”. Algo que muitas vezes escapa à atenção das pessoas da esquerda é que ser conservador não implica, de todo, um “ódio” a ninguém. Nasce sim da crença, responsável, de que as coisas podem estar mal, mas se lhes formos tocar ficam ainda pior. Nesse sentido é uma posição que pode ser entendida num sentido quase trágico: seria mais satisfatório, segregaria mais endorfinas, se Agisse, mas escolho não agir para não tornar a vida pior para ninguém.

Para mim essa posição auto-sacrificatória tem as sementes de algo nobre. Aquilo que penso que está em falta na atitude Conservadora é uma consciência histórica.

Isto pode parecer paradoxal. Afinal de contas, o conservadorismo deriva muito do seu élan da suposta digestão da história mundial e da descoberta de padrões de comportamento humano. Uma pessoa conservadora poderá dizer algo como: a raça humana sempre foi reles e horrível, nunca outra coisa buscou que o seu próprio interesse. Olhem para a história antiga, para os Gregos e para os Romanos, para a Idade Média e Moderna, para o Napoleão e para a Guerra Fria, etc: Tudo Igual. Daí que o conceito do pecado original seja algo espiritualmente muito frutífero, até mesmo dentro dos conservadores não cristãos.

Nesse sentido, graças a essa consciência histórica, é do espírito conservador negar o potencial revolucionário. Afinal de contas, se nada há de novo debaixo do sol, que revolução há para fazer? Ou, se houver alguma mudança, terá de ser sob a alçada de um Estado que sirva de dique e de barreira aos nossos piores impulsos, e que vá trazendo a cabo mudanças graduais e cuidadosamente ponderadas. Mudança radical pode operar-se ao nível espiritual (o "Homem Novo" do São Paulo), mas nunca político.

Daqui deriva que um desafio ao conservadorismo que pretenda ter o mínimo de sucesso não se pode pautar apenas por uma adesão a um ideal revolucionário de algum tipo. Aí a resposta virá, certa como o nascer do sol, de que “Isso é muito lindo, mas a natureza humana é inabalável.”

Mais eficiente parece ser confrontar as pessoas com a realidade da história. O Conservadorismo tem, como o nome indica, a premissa fundamental de que toda a acção humana tem o signo resignado de inevitavelmente, ou quase (esta imprevisibilidade é parte do sistema), redundar em planos arruinados e num lucro de sofrimento humano.

O corolário disso é que as coisas não estão assim tão más, ou pelo menos não tão más que não possam ficar piores. É aqui que carecemos de dois instrumentos. Em primeiro lugar duma análise sociológica feminista, descolonizada etc. -- em suma, interseccional. Essa análise sociológica do mundo contemporâneo mostra-nos um planeta à beira do colapso ambiental, racial, político, acossado por todas as trevas do ódio e do fanatismo — “A time of extremism.”

Agora é preciso dizer que ninguém realmente põe isso em questão. O colapso da ordem mundial, ambiental e social, é um facto reconhecido por quase todo o mundo, e isso inclui certamente conservadores. A diferença, mais uma vez, é que alguém conservador estará naturalmente mais propenso a dizer que medidas drásticas acabarão por causar danos ainda maiores do que aqueles em que de outra forma naturalmente incorreríamos.

Que acontece à história do mundo quando a analisamos através dessas mesmas lentes? Por mesmas lentes aqui queremos dizer apenas: Preocupando-nos com a totalidade da raça humana, com a totalidade absoluta das pessoas. A alternativa, que temos de rejeitar em nome da dignidade humana, seria preocuparmo-nos com a história artística ou literária sem nos preocuparmos com a história económica, com a história política ou militar sem nos apoquentarmos com a história dietária, etc.
Em suma, uma história que pelo menos aspire a ser holística, e que tenha a noção de que falar apenas das glórias artísticas ou literárias de meia dúzia de pessoas é altamente miópico. Não estou a sugerir que deixemos de estudar a história da literatura, mas as sociedades que lhe deram origem, como eram?

Uma vez formulada a pergunta assim, uma consciência minimamente honesta chegará a uma conclusão que embate frontalmente com a crença de que haja muito para conservar. Não há dúvida de que há coisas belas e nobres, dignas de ser guardadas, preservadas, a ser feitas em todas as épocas históricas. Que não são (argumento eu) apenas “monumentos à barbárie”. Mas olhando para o grosso, para a esmagadora linha da história do mundo, o que vemos é um conto horrífico de exploração, de vidas expostas e manipuláveis, de sofrimento humano a preço da chuva, de opressão económica, social, sexual, cultural, que parece não ter fim e quase não ter princípio.

A pergunta surge, portanto, conservar o quê? Voltar a quando? Parece que logo que, ou pouco depois de a civilização urbana que ainda nos define ter início na Mesopotâmia, na Suméria, podemos já testemunhar isso: o surgimento de uma classe sacerdotal que controla o produto da lavoura da vasta população, reduzida a uma esperança média de vida baixíssima e a trabalhar para alimentar "os deuses". O Egipto faraónico foi em vários seus momentos talvez a sociedade mais autocrática alguma vez atestada. A Atenas clássica, que tanta beleza imortal nos valeu, pautou-se por uma opressão indizível não só sobre escravos como também mulheres, e as suas afirmações sobre a dignidade do humano embatem frontalmente contra a constatação de que foi certamente das sociedades mais totalitárias e dominadoras de que há memória.

Não seria uma questão de dar mais exemplos, pois estes são apenas impressionísticos: a verdade é que quando olhamos para aquilo que queremos "conservar" na História, não me vem à mente nenhuma instância em que não estejamos apenas a falar de "conservar o estilo de vida de que desfrutava 0.1% da população". Claro que todos gostaríamos de ser aristocratas gregos, trocando poemas em symposia. Já as flautistas sexualmente agredidas nesses mesmos banquetes, ou os escravos que trabalhavam nas nossas minas para nos pagar o jantar, isso já passamos.

Tudo isso continua, e exacerba-se com o passar dos séculos. A Era Moderna e o capitalismo industrial aumentaram e expandiram ainda mais um sistema que se pensaria que não fosse mais expansível. A exploração racial por meio da escravatura veio dar um fundamento pseudo-científico (e, lamentavelmente, muito mais duradouro enquanto conceito) àquilo que já era "a lei do mundo": que um pequeno grupo exploraria até à exaustão, até à aniquilação e à sujeição da alma um outro grupo incomparavelmente maior do que este e o exploraria.

A explicação tradicional deste status quo é, evidentemente, a do Marx. De que se trata duma questão de luta de classes, de confronto inevitável entre quem tem tudo e quem não tem nada. Pessoalmente partilho dessa explicação e subscrevo-a em vários pontos (evitando-a noutros, nomeadamente na noção hegeliana de inevitabilidade e de "direcção" da história). Mas não é a única, e neste texto não me interessa tanto sugerir uma teoria quanto desnudar aquilo que este estado das coisas significa para uma visão conservadora.

Como escrevia acima, simpatizo e respeito o ideal conservador. Considero adulto e louvável a forma como quem se vê como conservador muitas vezes escolhe o caminho mais moralmente complicado, que é efectivamente não fazer nada, graças à sua forte convicção de que a acção, nesse momento, traria mais males às pessoas que efectivamente sofrem, do que alguma acção política de resistência activa.

Mas visto a uma escala global, mais males do que o quê? Ou seja, queremos conservar o quê? Uma atitude conservadora será lícita quando pretender conservar algo que, respeitando as vidas de grupos minoritários, ainda assim beneficie uma esmagadora maioria da população mundial. Traduzindo: A oposição a alterações climáticas é uma bandeira conservadora. A oposição a manipulação genética é uma bandeira conservadora.

Mas pouco, mesmo muito pouco mais. À cabeça de tudo, o capitalismo, a força mais destruidora alguma vez inventada, e na qual estamos tão entranhados que dificilmente alguma vez nos soltaremos. Nada, nada no mundo há menos conservador do que o capitalismo. A opressão económica que este causa não se limita apenas a impedir que os salários mínimos cresçam com dignidade em Portugal, ao mesmo tempo que permite aos executivos da EDP lucrar milhões em bónus avulsos em anos de crise prejuízo. Não, porque em realidade ele opera de tal maneira que ou se transforma em fonte e origem de toda a desigualdade, ou coopera com outras para as magnificar exponencialmente. Se há opressão racial, é porque há interesses económicos em que haja opressão racial. Se há desigualdade sexual, é porque há uma lógica económica que lhe subjaz. Se uma lógica imperial e colonial dita a nossa política internacional, em vez de uma lógica cooperativa, é porque há países que tentam estar na mó de cima para explorar outros países, e para os sugar em benefício não dos próprios cidadãos mas das próprias grandes empresas, das modernas Companhias da Índia Oriental.

Sempre foi assim. Nunca foi diferente. Mesmo apesar dos nossos pruridos em tomar acções concretas, para não perdermos aquilo que tê— mas temos o quê mesmo? E queremos conservar o quê? Isto só faz sentido se houver empatia. Claro que eu, europeu homem branco, até posso estar relativamente bem. Mas olhando para a escala mundial, ou seja, não olhando apenas para mim-- quero conservar o quê? A premissa da mudança é algo que parte sempre dum exercício extremo de empatia, que é uma palavra sinónima de amor absoluto pela raça humana. «Eu vim para deitar fogo à terra, e quem me dera que estivesse já a arder!» (Lucas 12:49)

Conservar, mas conservar o quê mesmo? O que é que há que se salve?




imagem: Serpente à volta do mundo @ Livro das Maravilhas do Mundo, séc. xvii-xviii. Damiri, Damamini, Qazwini.

2.08.2019

Respice stellam, voca Mariam

No fim do verso diz, "E o nome da Virgem Maria." Falemos um pouco sobre este nome, que quer dizer "Estrela do Mar", e que convém tão bem à Virgem Mãe. Não há comparação que mais se adeque a ela do que a dum astro, visto que, tal como os astros emitem os seus raios sem se corromper, assim também a Virgem dá à luz o Filho sem qualquer dano para si. 
O raio não diminui a claridade do astro, nem o Filho diminui a perfeição da Virgem. Porque é ela aquela nobre estrela de Jacob, cujo raio ilumina todo o planeta, cujo esplendor tanto refulge nas alturas quanto penetra nos infernos. Percorre as terras, e aquece as mentes ainda mais do que os corpos, prepara as virtudes e purga os defeitos.
É ela, insisto, é ela aquela brilhante e exímia estrela que se ergue sobre este mar vasto e extenso, que cintila com os méritos e encandesce com bons exemplos. 
Ó tu que te apercebes que na corrente deste mundo fluctuas entre tempestades e intempéries mais do que caminhas sobre a terra, não desvies os olhos do fulgor deste astro, se não desejas ser acometido pelas tempestades. Se os ventos da tentação se insurgem contra ti, se és projectado contra os escolhos das tribulações, olha para estrela, chama Maria. 
Se és arremetido pelas ondas da arrogância, da ambição, da calúnia, da inveja, olha para a estrela, chama Maria. Se a a ira, a avarícia, ou as seduções da carne te abalarem a barca da mente, olha para Maria. Não desapareça jamais dos teus lábios, não desapareça nunca do teu coração, e, para atingires a intercessão da sua oração, não abandones nunca o exemplo da sua vida. 
Se a seguires não perderás o rumo, se a chamares não cairás no desespero, se pensares nela não errarás. Se ela te segurar não ruirás, se ela te proteger não temerás, se ela te guiar não te cansarás, se ela te for propícia chegarás ao teu destino, e desta forma provarás aquilo que com razão se diz: "E o nome da Virgem Maria." 
Chega já a hora porém de parar um pouco, para que não nos ofusque a claridade desta tão grande luz. Para citar as palavras do Apóstolo: "É bom estarmos aqui" (Mat. xvii, 4), e é suave também contemplar em silêncio aquilo que nem a expressão verbal mais elaborada conseguiria alguma vez descrever. Dessa forma, por via da contemplação devota deste astro cintilante, estaremos em condições de elaborar a discussão que se segue de com um fervor ainda maior.»
S. Bernardi Homilia in 'Missus Est' (2.17) Tradução minha.
In fine autem versus, Et nomen, inquit, Virginis Maria. Loquamur pauca et super hoc nomine, quod interpretatum maris stella dicitur, et matri Virgini valde convenienter aptatur. Ipsa namque aptissime sideri comparatur; quia, sicut sine sui corruptione sidus suum emittit radium, sic absque sui læsione virgo parturit filium. Nec sideri radius suam minuit claritatem, nec Virgini Filius suam integritatem. Ipsa est igitur nobilis illa stella ex Jacob orta, cujus radius universum orbem illuminat, cujus splendor et præfulget in supernis, et inferos penetrat: terras etiam perlustrans, et calefaciens magis mentes quam corpora, fovet virtutes, excoquit vitia. Ipsa, inquam, est præclara et eximia stella, super hoc mare magnum et spatiosum necessario sublevata, micans meritis, illustrans exemplis. O quisquis te intelligis in hujus sæculi profluvio magis inter procellas et tempestates flucturae, quam per terram ambulare; ne avertas oculos a fulgore hujus sideris, si non vis obrui procellis. Si insurgant venti tentationum, si incurras scopulos tribulationum, respice stellam, voca Mariam. Si jactaris superbiæ undis, si ambitionis, si detractionis, si æmulationis; respice stellam, voca Mariam. Si iracundia, aut avaritia, aut carnis illecebra naviculam concusserit mentis, respice ad Mariam. Non recedat ab ore, non recedat a corde; et ut impetres ejus orationis suffragium, non deseras conversationis exemplum. Ipsam sequens non devias: ipsam rogans non desperas: ipsam cogitans non erras. Ipsa tenente non corruis; ipsa protegente non metuis; ipsa duce non fatigaris; ipsa propitia pervenis: et sic in temetipso experiris quam merito dictum et, Et nomen virginis Maria. Sed jam modice pausadum est, ne et nos in transitu claritatem tanti luminis intueamur. Ut enim verbis apostolicis utar, Bonum est nos hic esse (Mat. xvii, 4): et libet dulciter contemplari in silentio, quod laboriosa non sufficit explicare locutio. Interim autem ex devota scintillantis sideris contemplatione, ferventior reparabitur in his quæ sequuntur, disputatio.

12.27.2018

Consolação a Vergílio [Horácio, Odes I.24]

Conter ou moderar a saudade de alguém
Tão querido. Larga o teu lúgubre
Canto, Melpómene, com a voz líquida
     E a lira que o Pai te deu.

Um sopor eterno arrasta Quintílio
Consigo. O Decoro, e a Lealdade
Pura, irmã da Justiça, e a Verdade austera,
     Procuram-lhe igual e não acham.

Caiu chorado por tantos homens bons.
Ninguém o chorou mais que tu, Vergílio,
Foste pio em vão. De nada serve agora
     Cobrar aos deuses saldo algum.

Tocaste a tua lira mais doce que o Orfeu
Da Trácia. E depois, de que é que te serviu?
Regressará o sangue ao rosto pálido
     Depois de Mercúrio lhe tocar

Com seu bastão absurdo, e cumprir o destino
Para o encurralar na multidão das trevas?
Sofre. Nada há que alivie o que
     Não nos é dado corrigir.


Horácio, Odes I.24. Tradução minha.


Quis desiderio sit pudor aut modus
tam cari capitis? Præcipe lugubris
cantus, Melpomene, cui liquidam pater
     vocem cum cithara dedit.

Ergo Quintilium perpetuus sopor               5
urget? Cui Pudor et Justitiæ soror,
incorrupta Fides, nudaque Veritas
     quando ullum inveniet parem?

Multis ille bonis flebilis occidit,
nulli flebilior quam tibi, Vergili.               10
Tu frustra pius, heu, non ita creditum
     poscis Quintilium deos.

Quid si Threicio blandius Orpheo
auditam moderere arboribus fidem?
Num vanæ redeat sanguis imagini,               15
     quam virga semel horrida,

non lenis precibus fata recludere,
nigro compulerit Mercurius gregi?
durum: sed levius fit patientia
     quicquid corrigere est nefas.

10.21.2018

um poema árabe

قلبي غرفةُ أصنام
إلهي لا يريد ان ادره
,الى إله مدنٍ فارغة
,وبدلا منه اسماء
اصنام, من دون كل صوت كلها


 لانّه الهي يمشي بنفسه في مدينتي
الّتي لم امشِ انا فيها
إن كانت مدينتك
— التي يمشون فيها

بل يمكن أن
ليست هي مدينتي
فانا أنتظر انتظاراً طويلاً
فماذا انتظر؟ ومن ينتظر معي,
لو لم انتظر بنفسي؟
إلهي الصبر 
إلهي يمشي
مع أطفال الماضي
فخزانة وعود هو

فمدينتي لمن؟
الإلهي؟
لنّتظر ايضا
نحن, يعني
نحن الاثنان

! ادرب, يا عقل! اقبل, يا وعد
كثير, يا ماضي,
كثير من الحيان سمعت عنك
لكن العقل ليس
يجر من العيون
فمثل صورة صورة بعيد هو
مثل اسم بلا صوت
وإلهي غير مسمى
— في وقت الاسماء

اعطيني صوت على اصوات 
اعطيني اصواتي 
ومعها انفس الاصوات كلها

الّتي تقف مثلثٌ
بين الماضي, بين المستقبل,
فبين الوقت الواعد
وقتنا الممنوع

10.16.2018

A ideia de progresso

Ludwig Edelstein orna o seu livro 'A Ideia de Progresso na Antiguidade Clássica' (1967) com um prefácio sobre a forma como os estudos do século XIX e da primeira metade do século XX olharam para a questão da existência ou ausência do conceito de progresso no mundo Greco-Romano. Segundo ele, estes estudiosos falharam por completo na sua leitura errónea das passagens de escritores que tocam no assunto.

O seu argumento é que existia de facto uma noção de progresso que pode ser estudada à luz duma análise de história das ideias. Como bom colega, em casa no mais amplo território dos estudos humanísticos e da investigação científica, faz a seguinte ressalva: "Se naquilo que estou prestes a dizer encontrarem mais críticas do trabalho prévio de colegas do que encontrarão louvores, note-se que nunca perdi o horizonte daquilo que até mesmo os autores antigos favoráveis à noção de progresso reconheceram: que estamos em dívida para com os que nos precederam tanto por aquilo que nas suas opiniões aceitámos quanto por aquilo que rejeitámos."

Insere neste ponto uma nota de rodapé indicando a Metafísica de Aristóteles (II,1, 933[993]b 11-14). Ora essa indicação leva à seguinte passagem: "É justo que não estejamos gratos apenas para com aqueles cujas opiniões partilhamos, mas também para com os que se ficaram pela superfície [do assunto]. Também estes contribuíram alguma coisa: deram-nos a oportunidade de exercitar o nosso engenho."*

Lembrando que a afirmação é feita num contexto duma discussão sobre o conceito de progresso. Por conseguinte, o que ele está a fazer é citar uma passagem que, pela sua mera existência (e pelo facto de falar de implicitamente de avanços científicos sem precisar de se justificar) afirma a existência do conceito de progresso, ao mesmo tempo que classifica o trabalho dos seus antecessores como 'superficial'. Deve ser raro farpas deste género conseguirem ser simultaneamente tão bem espetadas e tão mesquinhinhas.

* οὐ μόνον δὲ χάριν ἔχειν δίκαιον τούτοις ὧν ἄν τις κοινώσαιτο ταῖς δόξαις, ἀλλὰ καὶ τοῖς ἐπιπολαιότερον ἀποφηναμένοις: καὶ γὰρ οὗτοι συνεβάλοντό τι: τὴν γὰρ ἕξιν προήσκησαν ἡμῶν

10.14.2018

Como traduzir a destruição do Dilúvio?

Na narração do dilúvio, Yahweh refere várias vezes que tipos de animais devem ser recolhidos. Começa por dizer (Gen 6:20) que devem ser recolhidos dois animais de cada espécie. Mais tarde (Gen 7:2) aprendemos que afinal são sete pares de cada espécie pura -- em antecipação do gigantesco churrasco que acontecerá aquando dos sacrifícios de Génesis 8:20 -- enquanto que das espécies impuras bastará apenas um par, visto que não precisarão de ser sacrificados e não é preciso portanto haver suplentes.

A certa altura (Gen 7:4) Yahweh explica que destruirá as demais criaturas da terra. A palavra que aqui é utilizada é uma palavra muito rara, yequm [יְקוּם]. Esta palavra está relacionada com a raiz semítica que indica "levantar-se"; os leitores do Novo Testamento lembrar-se-ão de já a ter encontrado no famoso episódio da filha de Jaíro (Marc 5:41), onde Jesus diz em Siríaco-aramaico Talitha qumi!, "Talitha, levanta-te!"

É uma palavra intrigante. As línguas semíticas têm raízes que indicam o verbo "ser", apesar de este ser prescindível na vasta maioria das circunstâncias. Em Hebraico a raiz é HWH (possivelmente a mesma raiz que aparece no nome de Deus, YAHWEH). Não é a que é usada aqui. O que salta porém à mente é que o uso da palavra "levantar" para querer dizer "ser" traz à mente tanto a língua grega quanto a latina, onde é precisamente de raízes semelhantes que se constroem palavras como, em Latim, substantia e, em Grego, ὑπόστασις/hypostasis (leitores com alguma inclinação teológica precisarão talvez de desaprender algumas coisas, pois apesar de a palavra hypostasis ter adquirido em uma carta teológica específica, referindo-se às 'pessoas' da trindade, a verdade é que essa é uma clarificação cristã que a língua grega até então não suportava).

Isto porque "stare" em Latim quer dizer "estar de pé", enquanto que histánai (a raíz em hypostasis) pode querer dizer "estar de pé" ou então "pôr de pé". De igual forma, sub- e hyp- são a mesma palavra pronunciada de formas diferentes. Consequentemente, substantia e hypostasis são palavras que se ecoam uma à outra de perto. 

A palavra yequm lembra, portanto, as duas palavras acima referidas, mas não se confunde com elas. Para começar, não tem (nem podia ter, dada a natureza da língua hebraica) o prefixo sub. Como foi ela traduzida? Aqui temos a nossa tarefa facilitada, pois como dizia é uma palavra rara, atestada apenas em três passagens da Bíblia Hebraica: na passagem do Génesis acima citada e noutra pouco a seguir (Gen 7:4 e Gen 7:23) e no livro de Deuteronómio (Deut 11:6). Na Vulgata Latina de São Jerónimo aparece vertida, todas as três vezes, como substantia.  Dada a polissemia da palavra substantia em Latim (podendo esta significar tanto "substância" como "posses, propriedade material"), não estranhamos.

Em Grego deparamo-nos com uma surpresa. Para percebermos o alcance da surpresa é preciso citar a passagem do livro de Deuteronómio integralmente:

E o que fez a Datan e a Aviram, filhos de Eliab, filho de Ruben, quando a terra abriu a sua boca, e os engoliu a eles, às suas casas, às suas tendas, e à totalidade de yequm que estava ao pé deles no meio de todo Israel. 
(Deut 11:6) 
  ואשר עשה לדתן ולאבירם בני אליאב בן־ראובן אשר פצתה הארץ את־פיה ותבלעם ואת־בתיהם ואת־אהליהם ואת כל־היקום אשר ברגליהם בקרב כל־ישראל

A tradução portuguesa de Ferreira de Almeida traduz por "tudo o que subsistia" -- uma tradução segura, que tem as mesmas forças e as mesmas fragilidades que a tradução latina. A Bíblia dos Capuchinhos traduz mal (!), interpretando yequm como uma forma da terceira pessoa do verbo laqum, não percebendo que se trata deste substantivo raro, vertendo por "todos os que se levantaram". Em Latim, São Jerónimo escolhe substantia. Em Grego, a Septuaginta opta por hypostasis, lembrando o que dizia acima. 

Quanto à primeira passagem do Génesis,

Daqui a sete dias, eu vou fazer chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites, e arrasarei todo o yequm que criei sobre a superfícia da terra. 
(Gen 7:4)
כי לימים עוד שבעה אנכי ממטיר על־הארץ ארבעים יום וארבעים לילה ומחיתי את־כל־היקום אשר עשיתי מעל פני האדמה  

Não é assim tão óbvio que se esteja a falar de seres vivos, de criaturas, em nenhuma das duas. É possível, mas incerto. É igualmente possível que estivessemos a falar de objectos ou de qualquer outra coisa. Aliás, nesta segunda passagem, embora São Jerónimo mantenha substantia, todas as demais traduções mudam o termo. O texto grego da Septuaginta diz um mirabolante exanastasis/ἐξανάστασις (!), uma palavra de obscura significação. É utilizada uma única vez no Novo Testamento  (em Fil 3:11) onde parece ser um sinónimo do muito mais comum anastasis/ἀνάστασις ("ressurreição"), mas nas demais atestações parece querer dizer uma espécie de "expulsão" (derivada daquele sufixo ex-). O que estariam a pensar os tradutores quando traduziram yequm por exanastasis? É uma pergunta sem resposta, até porque não faz qualquer sentido neste contexto.

Há uma terceira aparição da palavra, a segunda do livro do Génesis, oferece muitos dos mesmos problemas:
E arrasou todo o yequm que havia à face da terra, desde o homem até ao animal, até ao verme, até ao pássaro dos céus. 
(Gen 7:23) 
 וימח את־כל־היקום אשר על־פני האדמה מאדם עד־בהמה עד־רמש ועד־עוף השמים

Aqui estamos num domínio um pouco mais explícito, pois sabemos que yequm se referirá apenas a seres vivos. Contudo, estaria deslocada qualquer fé de que esta passagem pudesse clarificar o sentido da palavra, e que essa clarificação semântica servisse depois para iluminar as outras passagens. Isto porque apesar de neste caso em particular querer dizer, por enumeração, "seres vivos", as outras passagens contrariam explicitamente essa definição possível. Mais uma vez, o Grego é de pouco auxílio. Pelo menos desta vez fica-se pelo campo semântico de levantar, sem ex- de acréscimo, mas mesmo assim a palavra escolhida é, mais uma vez, perplexante: anastema, que significa algo como "protuberância". É de pouco auxílio a entender o sentido do Hebraico; São Jerónimo mantém-se constante, e traduz mais uma vez por substantia. Na prática, portanto, obtemos desta juxtaposição três definições possíveis:

  • Gen 7:4 -- yequm é de sentido vago e não identificável (Grego :: exanastasis)
  • Gen 7:23 -- yequm quer dizer todos os seres vivos, incluindo seres humanos (Grego :: anastema)
  • Deut 11:6 -- yequm quer dizer propriedade privada de seres humanos, incluindo, será de esperar, animais, mas excluindo tendas e casas. (Grego :: hypostasis)

A tradução mais esperada em Grego não teria sido nenhuma das três. Claro que não seria jamais possível prescindir do hypo- de hypostasis, visto que stasis por si só tem em Grego um sentido completamente diferente, indicando "imobilidade", e significando corriqueiramente "guerra civil". Mas havia outra palavra que teria permitido manter a coerência entre as três passagens, ao mesmo tempo que se mantinha a ambiguidade semântica. A palavra ousia é, famosamente, a nominalização do verbo 'ser' em Grego, algo como "sência". Devido à mesma evolução semântica que levou a que substantia quisesse dizer não apenas "substância filosófica" mas também "propriedade  privada", assim também ousia quer dizer as duas coisas. Teria sido a melhor palavra para traduzir, e nunca saberemos o porquê desta oscilação e insegurança.

PS: A palavra hebraica para o dilúvio é mabul. A palavra grega que a traduz é a palavra kataklysmos, cataclismo, que, visto que klysmos indica "ondas", etimologicamente aponta para algo como inundação.