5.14.2018

Sir Gawain and the Green Knight

Sir Gawain and the Green Knight 199-202
He loked as layt so lyȝt,
So sayd al þat hym syȝe
Hit semed as no mon myȝt
Vnder his dyntteȝ dryȝe.

5.13.2018

um poema mesopotâmico

inquieto e simultâneo
arqueou as asas e poisou, deus,
na muralha da cidade, nos tijolos açafrão.

ele que vira as profundezas,
chilreou e aninhou a cabeça
na curvatura do próprio pescoço.

e tu quando virás, estrela da Véspera?
e quando lustrará
seu canto o teu sono?

Enfin la beauté


5.11.2018

𒅴𒂠

Gonzalo Rubio, Shulgi and the Death of Sumerian, in "Studies in Sumerian Literature" (2006) Brill

5.04.2018

O Sacrifício de Isaac

Génesis 22:1-19. Tradução do Hebraico minha

para a Teresa, que pediu 
[22.1] E aconteceu depois destas coisas, e Elohim testou Abraão, e disse-lhe, Abraão, e disse, Aqui estou eu. [2] E disse, Vá, pega no teu filho, no único, aquele que amaste, em Isaac, e vai até à terra de Mória*1, e sobe-o até lá, para o imolares naquele dos montes que eu te direi. [3] E madrugou Abraão de manhã e pôs a sela no seu jumento e pegou em dois dos seus rapazes consigo e em Isaac seu filho, e cortou lenha da imolação, e levantou-se, e foi até ao lugar que lhe disse Elohim. [4] No terceiro dia Abraão ergueu os seus olhos e viu o lugar na distância. [5] E disse Abraão aos seus rapazes, Andem, fiquem aqui com o jumento, e eu e o rapaz vamos ali, e adoraremos, e regressaremos até vós. [6] E pegou Abraão na lenha da imolação e pô-la sobre Isaac seu filho e pegou com sua mão no fogo e na faca, e foram os dois juntos. [7] E disse Isaac a Abraão seu pai, e disse, Meu pai, e disse, Aqui estou eu, meu filho, e disse, Aqui está o fogo e a lenha, e onde está o cordeiro para a imolação? [8] E disse Abraão, Elohim verá do cordeiro para a imolação, meu filho, e foram os dois juntos. [9] E chegaram ao lugar que Elohim lhe tinha dito, e construiu lá Abraão o altar e dispôs a lenha e amarrou Isaac seu filho e pô-lo sobre o altar de sobre a lenha. [10] E estendeu Abraão a sua mão e pegou na faca para matar o seu filho. [11] E clamou-lhe um anjo de Yahweh dos céus e disse Abraão, Abraão, e disse, Aqui estou eu. [12] E disse, Não estendas a tua mão sobre o rapaz, e não lhe faças o que quer que seja, pois agora soube que tu tens medo de Elohim, e não poupaste o teu filho, o teu único, de mim. [13] E ergueu Abraão os seus olhos e viu que ali atrás estava um carneiro preso nos arbustos pelos chifres, e Abraão foi e pegou no carneiro e imolou-o numa imolação pelo seu filho. [14] E proclamou Abraão o nome do monte: Yahweh-Verá*2, tal como se diz hoje no monte, Yahweh verá. [15] E clamou um anjo de Yahweh a Abraão uma segunda vez dos céus. [16] E disse, Por mim jurei - palavra de Yahweh - pois vi que fizeste esta coisa e não poupaste o teu filho, o teu único. [17] Por isso abençoar-te-ei uma grande benção, multiplicarei multiplamente a tua semente como as estrelas do céu e como a areia na língua do mar, e possuirá a tua semente a porta dos seus inimigos. [18] E serão abençoadas na tua descendência todas as nações da terra, visto que ouviste a minha voz. [19] E voltou Abraão aos seus rapazes, e levantaram-se, e foram juntamente para Ber-Sheva, e morou Abraão em Ber-Sheva.

*1 מוריה/Moryáh :: Nome composto teofórico, "Visto/ordenado por Yahweh"
*2 Yahweh-yir'eh


Imagem: Sacrifício de IshmaelAntologia Timurid, Shiraz, 1410-1411 @ Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa

A tradição islâmica, comemorada no Eid Al-Adha, afirma que fora Ishmael, o filho de Abraão com Hagar, e não Isaac, o filho de Abraão com Sarah, o alvo da ordem de Deus.

4.24.2018

Πίστις Σοφία

A primeira coisa que Deus criou foi a Razão, e disse-lhe: "Avança!", e avançou. E disse-lhe: "Recua!", e recuou. E disse-lhe: "Não criei para mim nada mais belo do que tu, nem nada que eu ame mais do que a ti. Por ti hei eu de tirar, e por ti hei eu de dar."

Ḥadith qudsī. Tradução do Árabe minha.

ان اول ما خلق الله العقل فقال له 《اقبل》 فاقبل وقال له 《ادرب》 فادرب فقال 《ما خلقت شيئا احسن الى منك احب الى منك. بك آخذ وبك اعطى》

4.22.2018

um poema primaveril do Oswald von Wolkenstein

Oswald von Wolkenstein. Tradução do Alto-alemão Médio minha. Texto original aqui.





Vil lieber grüesse süesse
sich erheben, streben,
frölich zölich yetten,
tretten in das pfat
drat. frue und spat
hört man dringen,
singen, klingen,
voglin in den ouen.

Durch helle döne schöne,
in den strauhen rauhen
esten glesten, fliegen,
kriegen widerstreit.
breit anger weit
sol man grüenlich
küenlich süenlich
kurzlich ane schouen.

Winder kalt
ungestalt,
dein gewalt
ist entspalt
von den süessen lüfften.
liechten summer
ane kummer
wil ich tummer
als ein frummer
geuden und güfften.

Grüener kle
jagt den snee
jarlang me
inn den see
wilder meres flüete.
nachtigalle,
droschel schalle,
lerchen halle
uns gevalle
für des oftens güete.

Die blumen gele hele,
hübsch geverbet, gärbet,
praune schaune plaue
grau mangerlai.
mai, dein geschrai
sich florieret,
zieret, fieret
kösstlicher gelüsste.

Und hübsche wäsli, gräsli,
sich entsliessen, spriessen
hüglich tüglich, plüede
früede, violspranz,
glanz firlafanz,
aller pame
zame game
zier aus kalder früste.

Stauden stock
machet schock
Rauhen rock
als ain bock
löblichen bedecket
swarzer doren
weiss erkoren.
gar verloren
ist der zoren,
den der winder wecket.

Küeler brunn,
warme sunn
geit uns wunn.
gail dich, nunn,
hinden auss dem kloster,
bei dem Reine
in dem scheine
als ein veine
buelbegeine
raien nach den ostern!

Die swammen stupfen, lupfen
auss der erde herde
würmli türmli wachen,
machen neuen slauch.
gauch, lock uns auch
durch die haide!
raide, ir maide,
suecht der stauden winkel!

Da well wir kosen, losen
mit beslossen, gossen,
warmen armen lieplih
dieblich inn den busch.
dusch, mündlin, kusch!
ob die raine
klaine saine
mir emblösst ein schinkel

An ain knie,
ich wer hie,
des nit lie
und tet, wie
ich das gefüegen kunde,
zue ir rucken,
freuntlich smucken,
lieplich drucken,
biegen, bucken,
ob si mir des gunde!

So wär quitt,
was ich litt.
hielt sis mit,
diesen stritt
müesset ich überwinden,
sunder klifen
tasten, grifen,
manigen lifen
lust vertrifen
bleiben bei dem kinde.
Muitos queridos acenos doces
Se levantam, crescem,
Se mandam alegres e vivos,
Se põem a caminho
Agora! Manhã e noite
Ouvimos espalhados
Os pássaros no prado
A cantar e a soar.

Com claros belos tons
Nas folhas dos arbustos
Comem, brilham, voam
Lutam cá e lá.
Longe, extensos, muitos,
Dá para os ver
Alegres, amigáveis,
Juntos uns dos outros.

Inverno frio,
Descomposto,
O teu poder
Desmorona-se
Face às doces brisas.
À leveza do verão
Quero entregar-me
Sem cuidados
Lançar-me a ela
Simples e ousado.

O trevo verde
Afugenta a neve
Deste ano
Até ao mar,
Às bravas ondas do oceano.
Os Rouxinóis
De canto límpido,
A voz das cotovias,
Agradam-nos bem mais
Que estar à braseira!

As flores brilham amarelas,
Ostentam-se lindas, vestidas
De castanho, dourado, azul
E aqui e lá cinzento.
Maio, o teu grito
Floresce,
Explode em beleza, persegue
Prazeres sem preço.

E belos tufos de relva,
Soerguem-se, brotam
Felizes, fortes,
Frescos, cobertos de violetas,
O brilho exuberante
De todas as árvores
Deleita o olhar,
Explode da geada fria.

Os arbustos crescem
Ramos floridos,
E folhas espessas
Como a barba do bode -
É um espanto como se cobrem
De negros espinhos
E brancos botões.
Porque desapareceu
O ódio
Que o inverno despertara.

Nascentes frias,
Sol quente,
Gostamos disto.
Freira, pisga-te
Do teu convento!
[E aparece] junto ao Reno
À luz do dia,
E como uma nobre
Que não fez votos
Ama após a Páscoa!

Os cogumelos saem, espremem-se
Dos montes de terra,
As serpentitas acordam aos tropeços,
E voltam a alimentar-se.
Cuco, guia-nos
Pelo prado!
Rápido, meninas,
Procurem um espaço nos arbustos!

Para trocarmos murmúrios, brincarmos,
Derramarmos um sobre o outro os braços
Apertados quentes de amor
Às escondidas entre as plantas.
Chiu, lábios - beijem-me!
Se a rapariga
Gentil e hesitante
Me mostrar a perna

Até ao joelho,
Eu vou tentar,
Quanto puder,
Convencê-la
A deixar-me aproximar-me
E a deitá-la de costas
Para lhe tocar gentilmente,
Empurrá-la com amor,
Segurá-la, virá-la -
Isto se ela o quiser!

Se assim for, será recompensado
O meu sofrimento.
Se ela o permitir,
Eu hei-de ganhar
Este combate!
Muitos tipos
De [???] e de apertos
Há a experimentar,
Muitos carícias de paixão
Nos aguardam [? na sua bondade].

4.20.2018

Fogo, Fogo

FOGO, FOGO
Adam Zagajewski
(Marco Bruno trad.)

Fogo de Descartes, fogo de Pascal,
cinza, centelha.
Durante a noite arde uma invisível fogueira,
um fogo que ao arder não destrói
mas cria, como se quisesse devolver
num só momento tudo aquilo que as chamas
subtraíram em vários continentes,
a biblioteca de Alexandria, a fé
dos Romanos e a angústia duma rapariguinha
algures na Nova Zelândia.
                 O fogo como os exércitos
Mongóis assola as cidades feitas de madeira
e de pedra, e em seguida ergue
casas arejadas e palácios nunca vistos,
impõe a Descartes
que destrua a filosofia e construa outra nova,
metamorfoseia-se numa sarça-ardente,
desperta Pascal, põe os sinos a repicar
e derrete-os com o excesso de fervor.
Já reparaste na maneira como ele lê
os livros? Folha a folha, devagar,
como alguém que mal aprendeu
a soletrar.
                  Fogo, fogo, eterno
fogo de Heraclito, voraz mensageiro,
rapaz com a boca negra de bagas.


(In 'sombras de sombras', Tinta da China, 2018)