inquieto e simultâneo
arqueou as asas e poisou, deus,
na muralha da cidade, nos tijolos açafrão.
ele que vira as profundezas,
chilreou e aninhou a cabeça
na curvatura do próprio pescoço.
e tu quando virás, estrela da Véspera?
e quando lustrará
seu canto o teu sono?
5.13.2018
5.11.2018
5.04.2018
O Sacrifício de Isaac
Génesis 22:1-19. Tradução do Hebraico minha
*1 מוריה/Moryáh :: Nome composto teofórico, "Visto/ordenado por Yahweh"
*2 Yahweh-yir'eh
para a Teresa, que pediu
[22.1] E aconteceu depois destas coisas, e Elohim testou Abraão, e disse-lhe, Abraão, e disse, Aqui estou eu. [2] E disse, Vá, pega no teu filho, no único, aquele que amaste, em Isaac, e vai até à terra de Mória*1, e sobe-o até lá, para o imolares naquele dos montes que eu te direi. [3] E madrugou Abraão de manhã e pôs a sela no seu jumento e pegou em dois dos seus rapazes consigo e em Isaac seu filho, e cortou lenha da imolação, e levantou-se, e foi até ao lugar que lhe disse Elohim. [4] No terceiro dia Abraão ergueu os seus olhos e viu o lugar na distância. [5] E disse Abraão aos seus rapazes, Andem, fiquem aqui com o jumento, e eu e o rapaz vamos ali, e adoraremos, e regressaremos até vós. [6] E pegou Abraão na lenha da imolação e pô-la sobre Isaac seu filho e pegou com sua mão no fogo e na faca, e foram os dois juntos. [7] E disse Isaac a Abraão seu pai, e disse, Meu pai, e disse, Aqui estou eu, meu filho, e disse, Aqui está o fogo e a lenha, e onde está o cordeiro para a imolação? [8] E disse Abraão, Elohim verá do cordeiro para a imolação, meu filho, e foram os dois juntos. [9] E chegaram ao lugar que Elohim lhe tinha dito, e construiu lá Abraão o altar e dispôs a lenha e amarrou Isaac seu filho e pô-lo sobre o altar de sobre a lenha. [10] E estendeu Abraão a sua mão e pegou na faca para matar o seu filho. [11] E clamou-lhe um anjo de Yahweh dos céus e disse Abraão, Abraão, e disse, Aqui estou eu. [12] E disse, Não estendas a tua mão sobre o rapaz, e não lhe faças o que quer que seja, pois agora soube que tu tens medo de Elohim, e não poupaste o teu filho, o teu único, de mim. [13] E ergueu Abraão os seus olhos e viu que ali atrás estava um carneiro preso nos arbustos pelos chifres, e Abraão foi e pegou no carneiro e imolou-o numa imolação pelo seu filho. [14] E proclamou Abraão o nome do monte: Yahweh-Verá*2, tal como se diz hoje no monte, Yahweh verá. [15] E clamou um anjo de Yahweh a Abraão uma segunda vez dos céus. [16] E disse, Por mim jurei - palavra de Yahweh - pois vi que fizeste esta coisa e não poupaste o teu filho, o teu único. [17] Por isso abençoar-te-ei uma grande benção, multiplicarei multiplamente a tua semente como as estrelas do céu e como a areia na língua do mar, e possuirá a tua semente a porta dos seus inimigos. [18] E serão abençoadas na tua descendência todas as nações da terra, visto que ouviste a minha voz. [19] E voltou Abraão aos seus rapazes, e levantaram-se, e foram juntamente para Ber-Sheva, e morou Abraão em Ber-Sheva.
*1 מוריה/Moryáh :: Nome composto teofórico, "Visto/ordenado por Yahweh"
*2 Yahweh-yir'eh
Imagem: Sacrifício de Ishmael, Antologia Timurid, Shiraz, 1410-1411 @ Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa
A tradição islâmica, comemorada no Eid Al-Adha, afirma que fora Ishmael, o filho de Abraão com Hagar, e não Isaac, o filho de Abraão com Sarah, o alvo da ordem de Deus.
4.24.2018
Πίστις Σοφία
A primeira coisa que Deus criou foi a Razão, e disse-lhe: "Avança!", e avançou. E disse-lhe: "Recua!", e recuou. E disse-lhe: "Não criei para mim nada mais belo do que tu, nem nada que eu ame mais do que a ti. Por ti hei eu de tirar, e por ti hei eu de dar."
ان اول ما خلق الله العقل فقال له 《اقبل》 فاقبل وقال له 《ادرب》 فادرب فقال 《ما خلقت شيئا احسن الى منك احب الى منك. بك آخذ وبك اعطى》
4.22.2018
um poema primaveril do Oswald von Wolkenstein
Oswald von Wolkenstein. Tradução do Alto-alemão Médio minha. Texto original aqui.
Vil lieber grüesse süesse
sich erheben, streben,
frölich zölich yetten,
tretten in das pfat
drat. frue und spat
hört man dringen,
singen, klingen,
voglin in den ouen.
Durch helle döne schöne,
in den strauhen rauhen
esten glesten, fliegen,
kriegen widerstreit.
breit anger weit
sol man grüenlich
küenlich süenlich
kurzlich ane schouen.
Winder kalt
ungestalt,
dein gewalt
ist entspalt
von den süessen lüfften.
liechten summer
ane kummer
wil ich tummer
als ein frummer
geuden und güfften.
Grüener kle
jagt den snee
jarlang me
inn den see
wilder meres flüete.
nachtigalle,
droschel schalle,
lerchen halle
uns gevalle
für des oftens güete.
Die blumen gele hele,
hübsch geverbet, gärbet,
praune schaune plaue
grau mangerlai.
mai, dein geschrai
sich florieret,
zieret, fieret
kösstlicher gelüsste.
Und hübsche wäsli, gräsli,
sich entsliessen, spriessen
hüglich tüglich, plüede
früede, violspranz,
glanz firlafanz,
aller pame
zame game
zier aus kalder früste.
Stauden stock
machet schock
Rauhen rock
als ain bock
löblichen bedecket
swarzer doren
weiss erkoren.
gar verloren
ist der zoren,
den der winder wecket.
Küeler brunn,
warme sunn
geit uns wunn.
gail dich, nunn,
hinden auss dem kloster,
bei dem Reine
in dem scheine
als ein veine
buelbegeine
raien nach den ostern!
Die swammen stupfen, lupfen
auss der erde herde
würmli türmli wachen,
machen neuen slauch.
gauch, lock uns auch
durch die haide!
raide, ir maide,
suecht der stauden winkel!
Da well wir kosen, losen
mit beslossen, gossen,
warmen armen lieplih
dieblich inn den busch.
dusch, mündlin, kusch!
ob die raine
klaine saine
mir emblösst ein schinkel
An ain knie,
ich wer hie,
des nit lie
und tet, wie
ich das gefüegen kunde,
zue ir rucken,
freuntlich smucken,
lieplich drucken,
biegen, bucken,
ob si mir des gunde!
So wär quitt,
was ich litt.
hielt sis mit,
diesen stritt
müesset ich überwinden,
sunder klifen
tasten, grifen,
manigen lifen
lust vertrifen
bleiben bei dem kinde.
|
Muitos queridos acenos doces
Se levantam, crescem,
Se mandam alegres e vivos,
Se põem a caminho
Agora! Manhã e noite
Ouvimos espalhados
Os pássaros no prado
A cantar e a soar.
Com claros belos tons
Nas folhas dos arbustos
Comem, brilham, voam
Lutam cá e lá.
Longe, extensos, muitos,
Dá para os ver
Alegres, amigáveis,
Juntos uns dos outros.
Inverno frio,
Descomposto,
O teu poder
Desmorona-se
Face às doces brisas.
À leveza do verão
Quero entregar-me
Sem cuidados
Lançar-me a ela
Simples e ousado.
O trevo verde
Afugenta a neve
Deste ano
Até ao mar,
Às bravas ondas do oceano.
Os Rouxinóis
De canto límpido,
A voz das cotovias,
Agradam-nos bem mais
Que estar à braseira!
As flores brilham amarelas,
Ostentam-se lindas, vestidas
De castanho, dourado, azul
E aqui e lá cinzento.
Maio, o teu grito
Floresce,
Explode em beleza, persegue
Prazeres sem preço.
E belos tufos de relva,
Soerguem-se, brotam
Felizes, fortes,
Frescos, cobertos de violetas,
O brilho exuberante
De todas as árvores
Deleita o olhar,
Explode da geada fria.
Os arbustos crescem
Ramos floridos,
E folhas espessas
Como a barba do bode -
É um espanto como se cobrem
De negros espinhos
E brancos botões.
Porque desapareceu
O ódio
Que o inverno despertara.
Nascentes frias,
Sol quente,
Gostamos disto.
Freira, pisga-te
Do teu convento!
[E aparece] junto ao Reno
À luz do dia,
E como uma nobre
Que não fez votos
Ama após a Páscoa!
Os cogumelos saem, espremem-se
Dos montes de terra,
As serpentitas acordam aos tropeços,
E voltam a alimentar-se.
Cuco, guia-nos
Pelo prado!
Rápido, meninas,
Procurem um espaço nos arbustos!
Para trocarmos murmúrios, brincarmos,
Derramarmos um sobre o outro os braços Apertados quentes de amor
Às escondidas entre as plantas.
Chiu, lábios - beijem-me!
Se a rapariga
Gentil e hesitante
Me mostrar a perna
Até ao joelho,
Eu vou tentar,
Quanto puder,
Convencê-la
A deixar-me aproximar-me
E a deitá-la de costas
Para lhe tocar gentilmente,
Empurrá-la com amor,
Segurá-la, virá-la -
Isto se ela o quiser!
Se assim for, será recompensado
O meu sofrimento.
Se ela o permitir,
Eu hei-de ganhar
Este combate!
Muitos tipos
De [???] e de apertos
Há a experimentar,
Muitos carícias de paixão
Nos aguardam [? na sua bondade].
|
4.20.2018
Fogo, Fogo
FOGO, FOGO
Adam Zagajewski
(Marco Bruno trad.)
Fogo de Descartes, fogo de Pascal,
cinza, centelha.
Durante a noite arde uma invisível fogueira,
um fogo que ao arder não destrói
mas cria, como se quisesse devolver
num só momento tudo aquilo que as chamas
subtraíram em vários continentes,
a biblioteca de Alexandria, a fé
dos Romanos e a angústia duma rapariguinha
algures na Nova Zelândia.
O fogo como os exércitos
Mongóis assola as cidades feitas de madeira
e de pedra, e em seguida ergue
casas arejadas e palácios nunca vistos,
impõe a Descartes
que destrua a filosofia e construa outra nova,
metamorfoseia-se numa sarça-ardente,
desperta Pascal, põe os sinos a repicar
e derrete-os com o excesso de fervor.
Já reparaste na maneira como ele lê
os livros? Folha a folha, devagar,
como alguém que mal aprendeu
a soletrar.
Fogo, fogo, eterno
fogo de Heraclito, voraz mensageiro,
rapaz com a boca negra de bagas.
(In 'sombras de sombras', Tinta da China, 2018)
Adam Zagajewski
(Marco Bruno trad.)
Fogo de Descartes, fogo de Pascal,
cinza, centelha.
Durante a noite arde uma invisível fogueira,
um fogo que ao arder não destrói
mas cria, como se quisesse devolver
num só momento tudo aquilo que as chamas
subtraíram em vários continentes,
a biblioteca de Alexandria, a fé
dos Romanos e a angústia duma rapariguinha
algures na Nova Zelândia.
O fogo como os exércitos
Mongóis assola as cidades feitas de madeira
e de pedra, e em seguida ergue
casas arejadas e palácios nunca vistos,
impõe a Descartes
que destrua a filosofia e construa outra nova,
metamorfoseia-se numa sarça-ardente,
desperta Pascal, põe os sinos a repicar
e derrete-os com o excesso de fervor.
Já reparaste na maneira como ele lê
os livros? Folha a folha, devagar,
como alguém que mal aprendeu
a soletrar.
Fogo, fogo, eterno
fogo de Heraclito, voraz mensageiro,
rapaz com a boca negra de bagas.
(In 'sombras de sombras', Tinta da China, 2018)
4.17.2018
Abraão Monoteísta e Iconoclasta no Judaísmo e no Islão
O Qurão, como todos os textos, é fruto do espaço e tempo onde é composto. Surge entre os séculos VI e VIII, algures entre a Península Arábica e a região do Sul da Jordânia e da Palestina, num contexto perfeitamente reconhecível como a Antiguidade, à qual nos habituámos a chamar "Antiguidade Tardia". Isto designa os séculos em que a Antiguidade adquire várias características que a distinguem das séculos anteriores, das quais entre as mais notáveis será talvez um crescimento sem paralelos dos vários movimentos monoteístas (sejam estem cristãos, pagãos, judaicos, ou finalmente islâmicos).
Quando falamos em religiões abraâmicas referimo-nos ao facto de nelas Abraão ser considerado não só o fundador das gerações subsequentes até algum evento futuro, mas também por ser o fundador do próprio monoteísmo. O mesmo papel desempenha no Cristianismo, no Judaísmo e no Islão. É impossível sobrestimar a sua importância. No chamado "Rabba do Génesis", um midrash (comentário judaico a textos da Bíblia, datado entre 300 e 500 AD), lemos que:
Talvez segundo a ordem própria das coisas devesse ter sido Abraão o primeiro homem a ser criado, não Adão. Deus, porém, havia previsto a queda do primeiro homem, e se Abraão tivesse sido o primeiro homem e tivesse caído, não teria havido mais ninguém depois dele que restaurasse a justiça ao mundo; sendo que depois da queda de Adão veio Abraão, que fundou no mundo o conhecimento de Deus. Tal como um construtor põe a viga mais forte no centro do edifício, para apoiar a estrutura de ambos os lados, assim também Abraão foi a forte viga que sustentou o peso das gerações que existiram antes dele e das que vieram depois dele.
Uma das coisas que na Bíblia Hebraica fica por explicar desta fábula é como é que Abraão adquire esta relação específica para com o culto de um deus único, e como é que adquire este estatuto imponente a ponto de conquistar o epíteto de "Abraão, o Amigo de Deus" - إبراهيم خليل الله - Ibrahīm Khalīlu llāhi (-- este "Khalīl"/amigo é o mesmo do nome árabe contemporâneo para a cidade de Hebron na Palestina Ocupada, assim chamada por ser o lugar onde o sepulcro de Abraão tradicionalmente se identifica).
Várias obras surgiram para explicar esta ausência. Tal como acontece no Cristianismo, com várias obras apócrifas a contarem a história da juventude de Jesus, e como mais tarde acontecerá no Islão, com as "sunas" a contar a história da vida de Maomé e dos seus companheiros, também estas obras narram a história da infância de Abraão.
Mais exactamente, narram histórias concretas, episódios específicos. Talvez o mais famoso seja aquele que inaugura o jovem Abraão não só como o primeiro monoteísta mas também como o primeiro iconoclasta - destruidor de ídolos, de estátuas de falsos deuses. Estas histórias existem em várias versões (a mais famosa a sobreviver de forma independente será um texto extante apenas em Eslavónico Eclesiástico chamado 'O Apocalipse de Abraão'). Um ponto interessante a notar é que nenhuma delas sobrevive nos textos canónicos do Judaísmo ou Cristianismo, a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento Cristão - mas sobrevivem no Qurão. Isto é apenas mais um testemunho, se ainda deles precisarmos, de como o Qurão está perfeitamente inserido no mundo religioso da Antiguidade e do pensamento judaico-cristão.
Citadas abaixo podem ler duas versões dessa mesma história: como Abraão, deparando-se com uma verdadeira colecção de ídolos mudos, os quebra a todos menos ao maior de todos. Quando confrontado pela população, acusa o ídolo maior de ter sido ele a quebrar os demais. Os acusadores encontram-se no dilema de admitir que os ídolos não poderiam ter feito tal coisa porque ídolos não têm qualquer poder, e reconhecer a impotência da sua própria crença.
A primeira é uma tradução a partir do Aramaico (que pelo século III tinha há muito substituido o Hebraico como língua de escrita das comunidades judaicas) tirada do mesmo texto que eu já citara acima - Rabba do Génesis 38.13 -, onde o texto rabínico o conta para explicar um pormenor obscuro da história (a saber, porque é que é dito que "Haran morreu diante de seu pai"). A segunda é tirada do Qurão, também tradução do texto Árabe - Sura 21 'Os Profetas' 51-69. As versões são ambas bastante semelhantes, sendo a judaica mais preocupada com a explicação do versículo a propósito do qual a história é citada (relacionando Abraão com várias outras personagens secundárias, como Nimrod, Haran, e Terah), e a versão do Qurão quiçá mais humorista mas também mais críptica, algo que é típico das chamadas "Suras de Meca", tradicionalmente consideradas as primeiras da revelação de Maomé, mais altivas, poéticas, e alusivas. Esta em particular insere o Islão na tradição profética, concatenando-o com vários profetas que "estabeleceram o Islão na terra antes de Maomé, o selo dos profetas", onde Abraão não poderia ter deixado de ocupar um papel central.
A primeira é uma tradução a partir do Aramaico (que pelo século III tinha há muito substituido o Hebraico como língua de escrita das comunidades judaicas) tirada do mesmo texto que eu já citara acima - Rabba do Génesis 38.13 -, onde o texto rabínico o conta para explicar um pormenor obscuro da história (a saber, porque é que é dito que "Haran morreu diante de seu pai"). A segunda é tirada do Qurão, também tradução do texto Árabe - Sura 21 'Os Profetas' 51-69. As versões são ambas bastante semelhantes, sendo a judaica mais preocupada com a explicação do versículo a propósito do qual a história é citada (relacionando Abraão com várias outras personagens secundárias, como Nimrod, Haran, e Terah), e a versão do Qurão quiçá mais humorista mas também mais críptica, algo que é típico das chamadas "Suras de Meca", tradicionalmente consideradas as primeiras da revelação de Maomé, mais altivas, poéticas, e alusivas. Esta em particular insere o Islão na tradição profética, concatenando-o com vários profetas que "estabeleceram o Islão na terra antes de Maomé, o selo dos profetas", onde Abraão não poderia ter deixado de ocupar um papel central.
Tarah era fabricante de imagens. Um dia saiu e deixou Abraão a vendê-las em seu lugar.
Veio um homem e pediu para comprar [uma], e disse-lhe:
Quantos anos tens?
E ele disse-lhe: Cinquenta ou sessenta.
E ele disse-lhe: Desgraçado! Um homem de sessenta anos que quer adorar algo de um dia!
E ele teve vergonha e foi-se embora.
A certa altura veio uma mulher que levava nas mãos um prato de farinha, que disse:
Toma isto e oferece-lhos. [i.e., aos deuses/ídolos]
Então ele tomou um bastão em suas mãos, e destruiu todos os ídolos, e pôs o bastão nas mãos do grande que estava no meio deles. Quando voltou o pai dele, disse-lhe:
Quem é que lhes fez isto?
Disse-lhe: Não te negarei nada! Veio uma mulher que trazia consigo um prato de farinha, e disse-me, “Toma isto e oferece-lhos.” E aproximou-se um [dos ídolos] e disse, “Eu quero comer primeiro!”, e disse outro “Eu quero comer primeiro!” E veio então o maior deles, pegou no bastão, e quebrou-os.
E disse-lhe: Porque é que fazes troça de mim? Então eles hão-de ter raciocínio?
Disse-lhe: Não deveriam ouvir os teus ouvidos o que a tua boca diz?
Então pegou nele e levou-o para Nimrod.
Disse-lhe [Nimrod]: Adoremos o fogo.
Disse-lhe Abraão: Adoremos a água, extingue o fogo.
Disse-lhe Nimrod: Adoremos a água.
Disse-lhe: Nesse caso adoremos as nuvens, que contêm a água.
Disse-lhe: Adoremos as nuvens.
Disse-lhe: Nesse caso adoremos o vento, que dispersa as nuvens.
Disse-lhe: Adoremos o vento.
Disse-lhe: Mas adoremos uma pessoa, já que aguenta com o vento.
Disse-lhe: Estás a brincar com palavras! Não adoraremos nada a não ser o fogo. Vê como te atirarei para o meio dele, e que venha o deus que tu adoras e que te salve dele.
Haran estava lá indeciso. Disse: Que alma é a tua? Se ganhar Abraão, eu digo: Estou com Abraão, e se ganhar Nimrod, eu digo, Estou com Nimrod.
Quando Abraão desceu à fornalha de fogo e foi salvo, perguntou-lhe,
Com quem estás tu?
E disse-lhes: Estou com Abraão.
[Nimrod] tomou-o e lançou-o para a chama, e arderam-lhe entranhas, e Haran morreu na presença de Terah seu pai.
Genesis Rabba 38.13. Tradução do Aramaico minha.
וימת הרן על פני תרח אביורבי חייא בר בריה דרב אדא דיפו: תרח עובד צלמים היה, חד זמן נפיק לאתר הושיב לאברהם מוכר תחתיו.הוה אתי בר אינש בעי דיזבן והוה אמר לו:בר כמה שנין את?והוה אמר לו: בר חמשין או שיתין.והוה אמר לו: ווי ליה לההוא גברא דהוה בר שיתין, ובעי למסגד לבר יומי?!והוה מתבייש והולך לו.חד זמן אתא חד איתתא טעינה בידה חדא פינך דסולת.אמרה ליה: הא לך קרב קודמיהון.קם נסיב בוקלסא בידיה, ותבריהון לכולהון פסיליא, ויהב בוקלסא בידא דרבה דהוה ביניהון. כיון דאתא אבוה אמר לו:מאן עביד להון כדין?אמר לו: מה נכפר מינך אתת, חדא איתתא טעינה לה חדא פינך דסולת, ואמרת לי הא לך קריב קודמיהון, קריבת לקדמיהון הוה דין אמר: אנא איכול קדמאי! ודין אמר אנא איכול קדמאי! קם הדין רבה דהוה ביניהון, נסב בוקלסא ותברינון.אמר לו: מה אתה מפלה בי, וידעין אנון?!אמר לו: ולא ישמעו אזניך מה שפיך אומר?! נסביה ומסריה לנמרוד.אמר לו: נסגוד לנורא!אמר לו אברהם: ונסגוד למיא, דמטפין נורא.אמר לו נמרוד: נסגוד למיא!אמר לו: אם כן נסגוד לעננא, דטעין מיא.אמר לו: נסגוד לעננא!אמר לו: אם כן נסגוד לרוחא, דמבדר עננא.אמר לו: נסגוד לרוחא!אמר לו: ונסגוד לבר אינשא, דסביל רוחא.אמר לו: מילין את משתעי! אני, איני משתחוה אלא לאור, הרי אני משליכך בתוכו, ויבא אלוה שאתה משתחוה לו ויצילך הימנו.הוה תמן.הרן קאים פלוג, אמר: מה נפשך, אם נצח אברהם, אנא אמר: מן דאברהם אנא, ואם נצח נמרוד, אנא אמר: דנמרוד אנא.כיון שירד אברהם לכבשן האש וניצול, אמרין ליה:דמאן את?אמר להון: מן אברהם אנא.נטלוהו והשליכוהו לאור ונחמרו בני מעיו ויצא ומת על פני תרח אביו, הה"ד (שם יב) וימת הרן על פני תרח וגו':
Enviámos a Abraão instruções em tempos idos, e foram por obra sua sabedores.E quando disse ao seu pai e ao seu povo:Que imagens são estas a que vós sois devotos?Disseram:Encontrámos os nossos pais a adorá-las.Disse:Já então estáveis vós e vossos pais em erro evidente.Disseram:Vens até nós em verdade, ou és dos que brincam?Disse:Mas o vosso senhor é o senhor dos céus e da terra, os quais criou. E eu sou dos que disso dão testemunho. E por Deus, vou mesmo conspirar contra os vossos ídolos assim que virardes costas.E fez deles estilhaços, excepto o maior deles,Talvez a ele regressem?Disseram:Quem fez isto aos nossos deuses? Quem tiver sido é dos transgressores.Disseram:Ouvimos um rapaz a mencioná-los, chama-se Abraão.Disseram:Tragam-no ao olho do povo, talvez eles dêem testemunho.Disseram:Então tu fizeste isto aos nossos deuses, Abraão?Disse:Quem o fez foi o [ídolo] grande, perguntem-lhes se viram.E retiraram-se em privado e disseram:É certo que fostes vós os transgressores.Então confundiram-se em suas cabeças,Já aprendestes que estes não falam!Disse:Então adorais, à exclusão de Deus, algo que nem vos ajuda nem vos lesa? Ai de vós, e do que adorais à exclusão de Deus! Não aprendeis?Disseram:Queimem-no e ajudem os vossos deuses, se é que quereis fazer o que quer que seja!Dissemos:Fogo, sê frio e cómodo a Abraão.E quiseram contra ele conspirar, e fizemos deles desgraçados.
Qur'ān, Sura 21 'Os Profetas' 51-69. Tradução do Árabe minha.
إِذْ قَالَ لِأَبِيهِ وَقَوْمِهِ مَا هَذِهِ التَّمَاثِيلُ الَّتِي أَنْتُمْ لَهَا عَاكِفُونَ قَالُوا وَجَدْنَا آبَاءَنَا لَهَا عَابِدِينَقَالَ لَقَدْ كُنْتُمْ أَنْتُمْ وَآبَاؤُكُمْ فِي ضَلَالٍ مُبِينٍ قَالُوا أَجِئْتَنَا بِالْحَقِّ أَمْ أَنْتَ مِنَ اللَّاعِبِينَقَالَ بَل رَبُّكُمْ رَبُّ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ الَّذِي فَطَرَهُنَّ وَأَنَا عَلَى ذَلِكُمْ مِنَ الشَّاهِدِينَوَتَاللَّهِ لَأَكِيدَنَّ أَصْنَامَكُمْ بَعْدَ أَنْ تُوَلُّوا مُدْبِرِينَ فَجَعَلَهُمْ جُذَاذًا إِلَّا كَبِيرًا لَهُمْ لَعَلَّهُمْ إِلَيْهِ يَرْجِعُونَ قَالُوا مَنْ فَعَلَ هَذَا بِآلِهَتِنَا إِنَّهُ لَمِنَ الظَّالِمِينَ قَالُوا سَمِعْنَا فَتًى يَذْكُرُهُمْ يُقَالُ لَهُ إِبْرَاهِيمُ قَالُوا فَأْتُوا بِهِ عَلَى أَعْيُنِ النَّاسِ لَعَلَّهُمْ يَشْهَدُونَ قَالُوا أَأَنْتَ فَعَلْتَ هَذَا بِآلِهَتِنَا يَا إِبْرَاهِيمُ قَالَ بَلْ فَعَلَهُ كَبِيرُهُمْ هَذَا فَاسْأَلُوهُمْ إِنْ كَانُوا يَنْطِقُونَ فَرَجَعُوا إِلَى أَنْفُسِهِمْ فَقَالُوا إِنَّكُمْ أَنْتُمُ الظَّالِمُونَ ثُمَّ نُكِسُوا عَلَى رُءُوسِهِمْ لَقَدْ عَلِمْتَ مَا هَؤُلَاءِ يَنْطِقُونَ قَالَ أَفَتَعْبُدُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ مَا لَا يَنْفَعُكُمْ شَيْئًا وَلَا يَضُرُّكُمْ أُفٍّ لَكُمْ وَلِمَا تَعْبُدُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ أَفَلَا تَعْقِلُونَ قَالُوا حَرِّقُوهُ وَانْصُرُوا آلِهَتَكُمْ إِنْ كُنْتُمْ فَاعِلِينَ قُلْنَا يَا نَارُ كُونِي بَرْدًا وَسَلَامًا عَلَى إِبْرَاهِيمَ وَأَرَادُوا بِهِ كَيْدًا فَجَعَلْنَاهُمُ الْأَخْسَرِينَ
Imagem: Ilustração de uma haggadah de 1737
4.13.2018
Livro de Jonas
Livro de Jonas.
[1.1] E a palavra de Yahweh foi até Jonas filho de Amitai para
dizer: [2] Levanta-te, vai até Nineveh, a grande cidade, e clama-lhe que o seu
mal chegou até diante de mim. [3] E Jonas levantou-se para fugir de diante de
Yahweh para Tarshisha, e desceu até Jafo, e encontrou um navio que ia para
Tarshisha, e deu o pagamento e desceu até ele para ir com eles de diante de
Yahweh para Tarshisha. [4] E Yahweh largou um grande sopro sobre o mar e houve
uma grande tempestade no mar e o navio presumiu que se iria quebrar. [5] E temeram
os marinheiros e pediram auxílio cada um ao seu deus, e lançaram as posses que
tinham no navio para o mar para que se aliviasse delas, e Jonas desceu à popa
do barco e deitou-se e adormeceu. [6] E achegou-se a ele o capitão marujo e
disse-lhe: como é que foste adormecer? Levanta-te, clama ao teu deus, talvez o
teu deus te tenha em consideração e não morreremos. [7] E disse cada um ao seu
companheiro: ide, tiremos à sorte para sabermos o que é que nos está a causar
este mal. E tiraram à sorte, e a sorte caiu sobre Jonas. [8] E disseram-lhe:
Vá, conta-nos o que é que nos está a causar este mal? Qual é a tua ocupação? De
onde vens? Qual é a tua terra? De que povo és tu? [9] E disse-lhes: Hebreu é o
que eu sou. E temo Yahweh, deus dos céus, que fez o mar e a terra firme. [10] E
os homens temeram um grande temor e disseram-lhe: O que foste tu fazer. Pois
sabiam os homens que de diante de Yahweh ele fugia, porque ele lhes havia
contado. [11] E disseram: O que haveremos nós de fazer contigo para que o mar
se silencie de sobre nós? Porque o mar ia-se tempestuando. [12] E disse-lhes: Peguem
em mim e deitem-me ao mar, e o mar silenciar-se-á diante de vós. Porque eu sei
que é por minha causa esta grande tempestade que está sobre nós. [13] E os
homens remaram para chegar até à terra firme, e não conseguiram, porque o mar
estava a tempestuar-se sobre eles. [14] E clamaram a Yahweh e disseram: Ai!
Yahweh, não queremos morrer pela vida deste homem, e não nos responsabilizes
por um sangue inocente, pois tu, Yahweh, tal como te aprouve assim agiste. [15]
E pegaram em Jonas e largaram-no ao mar, e o mar parou de se enraivecer. [16] E
os homens temeram um grande temor, e sacrificaram sacrifícios a Yahweh e
prometeram promessas.
Tradução minha do original Hebraico.
[2.1] E Yahweh enviou um grande peixe para engolir Jonas, e
Jonas esteve nas entranhas do peixe três dias e três noites. [2] E Jonas rezou
a Yahweh seu deus desde as entranhas do peixe. [3] E disse:
Clamei pela minha perdição a Yahweh, e respondeu.
Da barriga do inferno gritei por auxílio,
Ouviste a minha voz!
[4] E largaste-me para as profundezas
Para o coração dos mares
E a corrente avassalou-me
Todas as tuas ondas e as tuas vagas
Passaram sobre mim.
[5] E eu disse: fui expulso para longe dos teus olhos
E novamente olhei para o templo da tua santidade.
[6] Cercaram-me as águas até à alma
O dilúvio avassalou-me
As algas enredaram-se na minha cabeça.
[7] Aos fundos das montanhas desci
A terra um obstáculo à minha volta para sempre
E levantaste do poço a minha vida,
Yahweh, meu deus!
[8 ] Com a exaustão sobre mim,
De Yahweh lembrei-me.
E foi até ti a minha prece,
Até ao templo da tua santidade.
[9] Os que cuidam dos ídolos da vaidade,
A sua própria aliança abandonam.
[10] E eu, com uma voz de gratidão
Sacrificarei a ti - o que jurei pagarei.
A Salvação pertence a Yahweh.
[11] E falou Yahweh ao peixe, e vomitou Jonas para terra
firme.
[3.1] E a palavra de Yahweh foi até Jonas uma segunda vez
para dizer: [2] Levanta-te e vai até Nineveh, a grande cidade, e clama-lhe o
clamor que eu lhe falo. [3] E levantou-se Jonas e foi até Nineveh como disse Yahweh,
e Nineveh era uma grande cidade de Deus, uma distância de três dias. [4] E
Jonas começou o seu caminho da cidade na distância de um dia, e clamou: Quarenta
dias mais tarde Nineveh será destruída. [5] E acreditaram os homens de Nineveh
em Deus e proclamaram jejum, e vestiram-se de sacos, do maior de entre eles até ao mais pequeno. [6]
E chegou a palavra ao rei de Nineveh, e levantou-se do seu trono, e depôs longe
de si o seu manto e cobriu-se com um saco e sentou-se sobre a cinza. [7] E clamou
e disse por Nineveh: Por aprovação do rei e dos seus grandes, pessoa, animal,
manada, e rebanho não provarão o que quer que seja, não se alimentarão e água
não beberão. [8] E cubram-se com sacos, a pessoa e o animal, e clamem a Deus agressivamente,
e que o homem volte do seu caminho do mal e da violência que está nas mãos
deles. [9] Quem sabe se Deus não voltará atrás e se arrependerá da
sua cólera feroz, e não morreremos. [10] E viu Deus as acções deles, como voltavam
dos seus caminhos do mal, e arrependeu-se Deus do mal que disse que lhes faria,
e não fez.
[4.1] Isto desagradou a Jonas num grande desagrado, e ardeu-o
de raiva. [2] E rezou a Yahweh e disse-lhe: Então, Yahweh? Não foi isto que eu
disse, quando estava ainda no meu país? Foi por isso que comecei por fugir para
Tarshisha, pois sabia que tu és um deus de compaixão e misericórdia, lento a
enfureceres-te, e abundante em lealdade, e arrependes-te face ao mal. [3]
Agora, Yahweh, leva de mim por favor a minha alma, que a minha morte é melhor
que a minha vida. [5] E disse Yahweh: Será que fazes bem em arder de raiva? [5]
E saiu Jonas da cidade e sentou-se diante da cidade, e fez-se lá uma cabana e
sentou-se debaixo dela à sombra, até ver o que aconteceria na cidade. [6] E enviou
Yahweh Deus um ricínio e cresceu de sobre Jonas para haver sombra sobre a sua
cabeça, e Jonas alegrou-se pelo ricínio com uma grande alegria. [7] E enviou
Deus um verme ao subir da aurora do dia seguinte, e golpeou o ricínio, e definhou.
[8] E assim foi ao aparecer o sol, e enviou Deus um sopro abafado do oriente, e
golpeou a cabeça de Jonas, e começou a desfalecer, e pediu à alma para morrer,
e disse: a minha morte é melhor que a minha vida. [9] E disse Deus a Jonas:
Será que é bom arder de cólera para com o ricínio? E disse: É bom que eu arda de
cólera até à morte. [10] E disse Yahweh: Tu tiveste compaixão do ricínio, que
não foste tu quem o fez, e não foste tu quem o fez crescer, e que foi numa noite, e numa noite pereceu. [11] E eu não hei-de ter compaixão para com
Nineveh, a grande cidade, na qual há mais de cento e vinte mil pessoas que não
conhecem a sua mão direita da sua mão esquerda, e muito gado?
Imagem #1: 1462, @ Lyon, Bibliotheque municipale, 245, fol. 152r
Imagem #2: Século XIV, Karlsruhe, Badische Landesbibliothek, Karlsruhe 3378, p. 109
4.01.2018
Annunciation with zero point field
John Burnside (2005). Annunciation with zero point field in The Good Neighbour. Cape Poetry
Sitting up late in the dark
I think you're about to tell me
that story I've heard before
of a creature pulled from the ice, or prised from a ditch,
its body a hundred years old, but the eyes intact
and hardly a trace of decay
on the frost-white skin;
and later, how they cut along the spine
and found two spurs of cartilage above
the shoulder blades: not wings,
or not quite wings,
but something like a memory of flight
locked in a chamber of bone
it had barely abandoned.
Sitting up late at night, in a clouded room,
I think you have something to tell
that I'd want to believe
no matter how improbable it seemed,
but that was long ago
and anyhow
we have so much that seems improbable:
the household we have in common
but don't quite share,
sub voce songs, the garden's unnamed roses,
this angel that comes to our bed
in a shimmer of light
and hangs there, silent, waiting to be nourished.
You'd think it would choose its moment,
flickering out of the light and assuming a form
or coming to rest for a while
in muscle and tendon.
You'd think it was eager to speak
as if it had come
for no other reason than this, its annunciation
life-size, in human terms - an impending birth,
or something else we understand as grace -
the word in its mouth like a plum that has almost ripened,
the sound it will make when it speaks
like falling rain;
but this is the probable world, this is ourselves,
and the one thing we know for sure is that everything comes
by chance, and is half-unwilling,
memory, love, the angel who cannot announce
the fact that, the moment it speaks,
it will fade to nothing.
I've seen it on occasion, like a bat
flicking from wall to wall, its wings like tar
in the yellowing darkness;
I've heard the creak and whisper of the night's
improbable apparatus, lacewings and frost
and starlight on the rooftops like a veil
but nothing has ever spoken, nothing has come
from the elsewhere I measure out in songs and dreams,
although I glimpse, in spite of what I know,
the guessed-at world where nothing has been said
but everything is on the point of speaking:
you in your chair, looking up from a half-read book
as the angel who cannot exist is replaced by the given,
the sullen gift of everyday events:
the promise of rain, a footfall, the dread of belonging.
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