FOGO, FOGO
Adam Zagajewski
(Marco Bruno trad.)
Fogo de Descartes, fogo de Pascal,
cinza, centelha.
Durante a noite arde uma invisível fogueira,
um fogo que ao arder não destrói
mas cria, como se quisesse devolver
num só momento tudo aquilo que as chamas
subtraíram em vários continentes,
a biblioteca de Alexandria, a fé
dos Romanos e a angústia duma rapariguinha
algures na Nova Zelândia.
O fogo como os exércitos
Mongóis assola as cidades feitas de madeira
e de pedra, e em seguida ergue
casas arejadas e palácios nunca vistos,
impõe a Descartes
que destrua a filosofia e construa outra nova,
metamorfoseia-se numa sarça-ardente,
desperta Pascal, põe os sinos a repicar
e derrete-os com o excesso de fervor.
Já reparaste na maneira como ele lê
os livros? Folha a folha, devagar,
como alguém que mal aprendeu
a soletrar.
Fogo, fogo, eterno
fogo de Heraclito, voraz mensageiro,
rapaz com a boca negra de bagas.
(In 'sombras de sombras', Tinta da China, 2018)
4.20.2018
4.17.2018
Abraão Monoteísta e Iconoclasta no Judaísmo e no Islão
O Qurão, como todos os textos, é fruto do espaço e tempo onde é composto. Surge entre os séculos VI e VIII, algures entre a Península Arábica e a região do Sul da Jordânia e da Palestina, num contexto perfeitamente reconhecível como a Antiguidade, à qual nos habituámos a chamar "Antiguidade Tardia". Isto designa os séculos em que a Antiguidade adquire várias características que a distinguem das séculos anteriores, das quais entre as mais notáveis será talvez um crescimento sem paralelos dos vários movimentos monoteístas (sejam estem cristãos, pagãos, judaicos, ou finalmente islâmicos).
Quando falamos em religiões abraâmicas referimo-nos ao facto de nelas Abraão ser considerado não só o fundador das gerações subsequentes até algum evento futuro, mas também por ser o fundador do próprio monoteísmo. O mesmo papel desempenha no Cristianismo, no Judaísmo e no Islão. É impossível sobrestimar a sua importância. No chamado "Rabba do Génesis", um midrash (comentário judaico a textos da Bíblia, datado entre 300 e 500 AD), lemos que:
Talvez segundo a ordem própria das coisas devesse ter sido Abraão o primeiro homem a ser criado, não Adão. Deus, porém, havia previsto a queda do primeiro homem, e se Abraão tivesse sido o primeiro homem e tivesse caído, não teria havido mais ninguém depois dele que restaurasse a justiça ao mundo; sendo que depois da queda de Adão veio Abraão, que fundou no mundo o conhecimento de Deus. Tal como um construtor põe a viga mais forte no centro do edifício, para apoiar a estrutura de ambos os lados, assim também Abraão foi a forte viga que sustentou o peso das gerações que existiram antes dele e das que vieram depois dele.
Uma das coisas que na Bíblia Hebraica fica por explicar desta fábula é como é que Abraão adquire esta relação específica para com o culto de um deus único, e como é que adquire este estatuto imponente a ponto de conquistar o epíteto de "Abraão, o Amigo de Deus" - إبراهيم خليل الله - Ibrahīm Khalīlu llāhi (-- este "Khalīl"/amigo é o mesmo do nome árabe contemporâneo para a cidade de Hebron na Palestina Ocupada, assim chamada por ser o lugar onde o sepulcro de Abraão tradicionalmente se identifica).
Várias obras surgiram para explicar esta ausência. Tal como acontece no Cristianismo, com várias obras apócrifas a contarem a história da juventude de Jesus, e como mais tarde acontecerá no Islão, com as "sunas" a contar a história da vida de Maomé e dos seus companheiros, também estas obras narram a história da infância de Abraão.
Mais exactamente, narram histórias concretas, episódios específicos. Talvez o mais famoso seja aquele que inaugura o jovem Abraão não só como o primeiro monoteísta mas também como o primeiro iconoclasta - destruidor de ídolos, de estátuas de falsos deuses. Estas histórias existem em várias versões (a mais famosa a sobreviver de forma independente será um texto extante apenas em Eslavónico Eclesiástico chamado 'O Apocalipse de Abraão'). Um ponto interessante a notar é que nenhuma delas sobrevive nos textos canónicos do Judaísmo ou Cristianismo, a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento Cristão - mas sobrevivem no Qurão. Isto é apenas mais um testemunho, se ainda deles precisarmos, de como o Qurão está perfeitamente inserido no mundo religioso da Antiguidade e do pensamento judaico-cristão.
Citadas abaixo podem ler duas versões dessa mesma história: como Abraão, deparando-se com uma verdadeira colecção de ídolos mudos, os quebra a todos menos ao maior de todos. Quando confrontado pela população, acusa o ídolo maior de ter sido ele a quebrar os demais. Os acusadores encontram-se no dilema de admitir que os ídolos não poderiam ter feito tal coisa porque ídolos não têm qualquer poder, e reconhecer a impotência da sua própria crença.
A primeira é uma tradução a partir do Aramaico (que pelo século III tinha há muito substituido o Hebraico como língua de escrita das comunidades judaicas) tirada do mesmo texto que eu já citara acima - Rabba do Génesis 38.13 -, onde o texto rabínico o conta para explicar um pormenor obscuro da história (a saber, porque é que é dito que "Haran morreu diante de seu pai"). A segunda é tirada do Qurão, também tradução do texto Árabe - Sura 21 'Os Profetas' 51-69. As versões são ambas bastante semelhantes, sendo a judaica mais preocupada com a explicação do versículo a propósito do qual a história é citada (relacionando Abraão com várias outras personagens secundárias, como Nimrod, Haran, e Terah), e a versão do Qurão quiçá mais humorista mas também mais críptica, algo que é típico das chamadas "Suras de Meca", tradicionalmente consideradas as primeiras da revelação de Maomé, mais altivas, poéticas, e alusivas. Esta em particular insere o Islão na tradição profética, concatenando-o com vários profetas que "estabeleceram o Islão na terra antes de Maomé, o selo dos profetas", onde Abraão não poderia ter deixado de ocupar um papel central.
A primeira é uma tradução a partir do Aramaico (que pelo século III tinha há muito substituido o Hebraico como língua de escrita das comunidades judaicas) tirada do mesmo texto que eu já citara acima - Rabba do Génesis 38.13 -, onde o texto rabínico o conta para explicar um pormenor obscuro da história (a saber, porque é que é dito que "Haran morreu diante de seu pai"). A segunda é tirada do Qurão, também tradução do texto Árabe - Sura 21 'Os Profetas' 51-69. As versões são ambas bastante semelhantes, sendo a judaica mais preocupada com a explicação do versículo a propósito do qual a história é citada (relacionando Abraão com várias outras personagens secundárias, como Nimrod, Haran, e Terah), e a versão do Qurão quiçá mais humorista mas também mais críptica, algo que é típico das chamadas "Suras de Meca", tradicionalmente consideradas as primeiras da revelação de Maomé, mais altivas, poéticas, e alusivas. Esta em particular insere o Islão na tradição profética, concatenando-o com vários profetas que "estabeleceram o Islão na terra antes de Maomé, o selo dos profetas", onde Abraão não poderia ter deixado de ocupar um papel central.
Tarah era fabricante de imagens. Um dia saiu e deixou Abraão a vendê-las em seu lugar.
Veio um homem e pediu para comprar [uma], e disse-lhe:
Quantos anos tens?
E ele disse-lhe: Cinquenta ou sessenta.
E ele disse-lhe: Desgraçado! Um homem de sessenta anos que quer adorar algo de um dia!
E ele teve vergonha e foi-se embora.
A certa altura veio uma mulher que levava nas mãos um prato de farinha, que disse:
Toma isto e oferece-lhos. [i.e., aos deuses/ídolos]
Então ele tomou um bastão em suas mãos, e destruiu todos os ídolos, e pôs o bastão nas mãos do grande que estava no meio deles. Quando voltou o pai dele, disse-lhe:
Quem é que lhes fez isto?
Disse-lhe: Não te negarei nada! Veio uma mulher que trazia consigo um prato de farinha, e disse-me, “Toma isto e oferece-lhos.” E aproximou-se um [dos ídolos] e disse, “Eu quero comer primeiro!”, e disse outro “Eu quero comer primeiro!” E veio então o maior deles, pegou no bastão, e quebrou-os.
E disse-lhe: Porque é que fazes troça de mim? Então eles hão-de ter raciocínio?
Disse-lhe: Não deveriam ouvir os teus ouvidos o que a tua boca diz?
Então pegou nele e levou-o para Nimrod.
Disse-lhe [Nimrod]: Adoremos o fogo.
Disse-lhe Abraão: Adoremos a água, extingue o fogo.
Disse-lhe Nimrod: Adoremos a água.
Disse-lhe: Nesse caso adoremos as nuvens, que contêm a água.
Disse-lhe: Adoremos as nuvens.
Disse-lhe: Nesse caso adoremos o vento, que dispersa as nuvens.
Disse-lhe: Adoremos o vento.
Disse-lhe: Mas adoremos uma pessoa, já que aguenta com o vento.
Disse-lhe: Estás a brincar com palavras! Não adoraremos nada a não ser o fogo. Vê como te atirarei para o meio dele, e que venha o deus que tu adoras e que te salve dele.
Haran estava lá indeciso. Disse: Que alma é a tua? Se ganhar Abraão, eu digo: Estou com Abraão, e se ganhar Nimrod, eu digo, Estou com Nimrod.
Quando Abraão desceu à fornalha de fogo e foi salvo, perguntou-lhe,
Com quem estás tu?
E disse-lhes: Estou com Abraão.
[Nimrod] tomou-o e lançou-o para a chama, e arderam-lhe entranhas, e Haran morreu na presença de Terah seu pai.
Genesis Rabba 38.13. Tradução do Aramaico minha.
וימת הרן על פני תרח אביורבי חייא בר בריה דרב אדא דיפו: תרח עובד צלמים היה, חד זמן נפיק לאתר הושיב לאברהם מוכר תחתיו.הוה אתי בר אינש בעי דיזבן והוה אמר לו:בר כמה שנין את?והוה אמר לו: בר חמשין או שיתין.והוה אמר לו: ווי ליה לההוא גברא דהוה בר שיתין, ובעי למסגד לבר יומי?!והוה מתבייש והולך לו.חד זמן אתא חד איתתא טעינה בידה חדא פינך דסולת.אמרה ליה: הא לך קרב קודמיהון.קם נסיב בוקלסא בידיה, ותבריהון לכולהון פסיליא, ויהב בוקלסא בידא דרבה דהוה ביניהון. כיון דאתא אבוה אמר לו:מאן עביד להון כדין?אמר לו: מה נכפר מינך אתת, חדא איתתא טעינה לה חדא פינך דסולת, ואמרת לי הא לך קריב קודמיהון, קריבת לקדמיהון הוה דין אמר: אנא איכול קדמאי! ודין אמר אנא איכול קדמאי! קם הדין רבה דהוה ביניהון, נסב בוקלסא ותברינון.אמר לו: מה אתה מפלה בי, וידעין אנון?!אמר לו: ולא ישמעו אזניך מה שפיך אומר?! נסביה ומסריה לנמרוד.אמר לו: נסגוד לנורא!אמר לו אברהם: ונסגוד למיא, דמטפין נורא.אמר לו נמרוד: נסגוד למיא!אמר לו: אם כן נסגוד לעננא, דטעין מיא.אמר לו: נסגוד לעננא!אמר לו: אם כן נסגוד לרוחא, דמבדר עננא.אמר לו: נסגוד לרוחא!אמר לו: ונסגוד לבר אינשא, דסביל רוחא.אמר לו: מילין את משתעי! אני, איני משתחוה אלא לאור, הרי אני משליכך בתוכו, ויבא אלוה שאתה משתחוה לו ויצילך הימנו.הוה תמן.הרן קאים פלוג, אמר: מה נפשך, אם נצח אברהם, אנא אמר: מן דאברהם אנא, ואם נצח נמרוד, אנא אמר: דנמרוד אנא.כיון שירד אברהם לכבשן האש וניצול, אמרין ליה:דמאן את?אמר להון: מן אברהם אנא.נטלוהו והשליכוהו לאור ונחמרו בני מעיו ויצא ומת על פני תרח אביו, הה"ד (שם יב) וימת הרן על פני תרח וגו':
Enviámos a Abraão instruções em tempos idos, e foram por obra sua sabedores.E quando disse ao seu pai e ao seu povo:Que imagens são estas a que vós sois devotos?Disseram:Encontrámos os nossos pais a adorá-las.Disse:Já então estáveis vós e vossos pais em erro evidente.Disseram:Vens até nós em verdade, ou és dos que brincam?Disse:Mas o vosso senhor é o senhor dos céus e da terra, os quais criou. E eu sou dos que disso dão testemunho. E por Deus, vou mesmo conspirar contra os vossos ídolos assim que virardes costas.E fez deles estilhaços, excepto o maior deles,Talvez a ele regressem?Disseram:Quem fez isto aos nossos deuses? Quem tiver sido é dos transgressores.Disseram:Ouvimos um rapaz a mencioná-los, chama-se Abraão.Disseram:Tragam-no ao olho do povo, talvez eles dêem testemunho.Disseram:Então tu fizeste isto aos nossos deuses, Abraão?Disse:Quem o fez foi o [ídolo] grande, perguntem-lhes se viram.E retiraram-se em privado e disseram:É certo que fostes vós os transgressores.Então confundiram-se em suas cabeças,Já aprendestes que estes não falam!Disse:Então adorais, à exclusão de Deus, algo que nem vos ajuda nem vos lesa? Ai de vós, e do que adorais à exclusão de Deus! Não aprendeis?Disseram:Queimem-no e ajudem os vossos deuses, se é que quereis fazer o que quer que seja!Dissemos:Fogo, sê frio e cómodo a Abraão.E quiseram contra ele conspirar, e fizemos deles desgraçados.
Qur'ān, Sura 21 'Os Profetas' 51-69. Tradução do Árabe minha.
إِذْ قَالَ لِأَبِيهِ وَقَوْمِهِ مَا هَذِهِ التَّمَاثِيلُ الَّتِي أَنْتُمْ لَهَا عَاكِفُونَ قَالُوا وَجَدْنَا آبَاءَنَا لَهَا عَابِدِينَقَالَ لَقَدْ كُنْتُمْ أَنْتُمْ وَآبَاؤُكُمْ فِي ضَلَالٍ مُبِينٍ قَالُوا أَجِئْتَنَا بِالْحَقِّ أَمْ أَنْتَ مِنَ اللَّاعِبِينَقَالَ بَل رَبُّكُمْ رَبُّ السَّمَاوَاتِ وَالْأَرْضِ الَّذِي فَطَرَهُنَّ وَأَنَا عَلَى ذَلِكُمْ مِنَ الشَّاهِدِينَوَتَاللَّهِ لَأَكِيدَنَّ أَصْنَامَكُمْ بَعْدَ أَنْ تُوَلُّوا مُدْبِرِينَ فَجَعَلَهُمْ جُذَاذًا إِلَّا كَبِيرًا لَهُمْ لَعَلَّهُمْ إِلَيْهِ يَرْجِعُونَ قَالُوا مَنْ فَعَلَ هَذَا بِآلِهَتِنَا إِنَّهُ لَمِنَ الظَّالِمِينَ قَالُوا سَمِعْنَا فَتًى يَذْكُرُهُمْ يُقَالُ لَهُ إِبْرَاهِيمُ قَالُوا فَأْتُوا بِهِ عَلَى أَعْيُنِ النَّاسِ لَعَلَّهُمْ يَشْهَدُونَ قَالُوا أَأَنْتَ فَعَلْتَ هَذَا بِآلِهَتِنَا يَا إِبْرَاهِيمُ قَالَ بَلْ فَعَلَهُ كَبِيرُهُمْ هَذَا فَاسْأَلُوهُمْ إِنْ كَانُوا يَنْطِقُونَ فَرَجَعُوا إِلَى أَنْفُسِهِمْ فَقَالُوا إِنَّكُمْ أَنْتُمُ الظَّالِمُونَ ثُمَّ نُكِسُوا عَلَى رُءُوسِهِمْ لَقَدْ عَلِمْتَ مَا هَؤُلَاءِ يَنْطِقُونَ قَالَ أَفَتَعْبُدُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ مَا لَا يَنْفَعُكُمْ شَيْئًا وَلَا يَضُرُّكُمْ أُفٍّ لَكُمْ وَلِمَا تَعْبُدُونَ مِنْ دُونِ اللَّهِ أَفَلَا تَعْقِلُونَ قَالُوا حَرِّقُوهُ وَانْصُرُوا آلِهَتَكُمْ إِنْ كُنْتُمْ فَاعِلِينَ قُلْنَا يَا نَارُ كُونِي بَرْدًا وَسَلَامًا عَلَى إِبْرَاهِيمَ وَأَرَادُوا بِهِ كَيْدًا فَجَعَلْنَاهُمُ الْأَخْسَرِينَ
Imagem: Ilustração de uma haggadah de 1737
4.13.2018
Livro de Jonas
Livro de Jonas.
[1.1] E a palavra de Yahweh foi até Jonas filho de Amitai para
dizer: [2] Levanta-te, vai até Nineveh, a grande cidade, e clama-lhe que o seu
mal chegou até diante de mim. [3] E Jonas levantou-se para fugir de diante de
Yahweh para Tarshisha, e desceu até Jafo, e encontrou um navio que ia para
Tarshisha, e deu o pagamento e desceu até ele para ir com eles de diante de
Yahweh para Tarshisha. [4] E Yahweh largou um grande sopro sobre o mar e houve
uma grande tempestade no mar e o navio presumiu que se iria quebrar. [5] E temeram
os marinheiros e pediram auxílio cada um ao seu deus, e lançaram as posses que
tinham no navio para o mar para que se aliviasse delas, e Jonas desceu à popa
do barco e deitou-se e adormeceu. [6] E achegou-se a ele o capitão marujo e
disse-lhe: como é que foste adormecer? Levanta-te, clama ao teu deus, talvez o
teu deus te tenha em consideração e não morreremos. [7] E disse cada um ao seu
companheiro: ide, tiremos à sorte para sabermos o que é que nos está a causar
este mal. E tiraram à sorte, e a sorte caiu sobre Jonas. [8] E disseram-lhe:
Vá, conta-nos o que é que nos está a causar este mal? Qual é a tua ocupação? De
onde vens? Qual é a tua terra? De que povo és tu? [9] E disse-lhes: Hebreu é o
que eu sou. E temo Yahweh, deus dos céus, que fez o mar e a terra firme. [10] E
os homens temeram um grande temor e disseram-lhe: O que foste tu fazer. Pois
sabiam os homens que de diante de Yahweh ele fugia, porque ele lhes havia
contado. [11] E disseram: O que haveremos nós de fazer contigo para que o mar
se silencie de sobre nós? Porque o mar ia-se tempestuando. [12] E disse-lhes: Peguem
em mim e deitem-me ao mar, e o mar silenciar-se-á diante de vós. Porque eu sei
que é por minha causa esta grande tempestade que está sobre nós. [13] E os
homens remaram para chegar até à terra firme, e não conseguiram, porque o mar
estava a tempestuar-se sobre eles. [14] E clamaram a Yahweh e disseram: Ai!
Yahweh, não queremos morrer pela vida deste homem, e não nos responsabilizes
por um sangue inocente, pois tu, Yahweh, tal como te aprouve assim agiste. [15]
E pegaram em Jonas e largaram-no ao mar, e o mar parou de se enraivecer. [16] E
os homens temeram um grande temor, e sacrificaram sacrifícios a Yahweh e
prometeram promessas.
Tradução minha do original Hebraico.
[2.1] E Yahweh enviou um grande peixe para engolir Jonas, e
Jonas esteve nas entranhas do peixe três dias e três noites. [2] E Jonas rezou
a Yahweh seu deus desde as entranhas do peixe. [3] E disse:
Clamei pela minha perdição a Yahweh, e respondeu.
Da barriga do inferno gritei por auxílio,
Ouviste a minha voz!
[4] E largaste-me para as profundezas
Para o coração dos mares
E a corrente avassalou-me
Todas as tuas ondas e as tuas vagas
Passaram sobre mim.
[5] E eu disse: fui expulso para longe dos teus olhos
E novamente olhei para o templo da tua santidade.
[6] Cercaram-me as águas até à alma
O dilúvio avassalou-me
As algas enredaram-se na minha cabeça.
[7] Aos fundos das montanhas desci
A terra um obstáculo à minha volta para sempre
E levantaste do poço a minha vida,
Yahweh, meu deus!
[8 ] Com a exaustão sobre mim,
De Yahweh lembrei-me.
E foi até ti a minha prece,
Até ao templo da tua santidade.
[9] Os que cuidam dos ídolos da vaidade,
A sua própria aliança abandonam.
[10] E eu, com uma voz de gratidão
Sacrificarei a ti - o que jurei pagarei.
A Salvação pertence a Yahweh.
[11] E falou Yahweh ao peixe, e vomitou Jonas para terra
firme.
[3.1] E a palavra de Yahweh foi até Jonas uma segunda vez
para dizer: [2] Levanta-te e vai até Nineveh, a grande cidade, e clama-lhe o
clamor que eu lhe falo. [3] E levantou-se Jonas e foi até Nineveh como disse Yahweh,
e Nineveh era uma grande cidade de Deus, uma distância de três dias. [4] E
Jonas começou o seu caminho da cidade na distância de um dia, e clamou: Quarenta
dias mais tarde Nineveh será destruída. [5] E acreditaram os homens de Nineveh
em Deus e proclamaram jejum, e vestiram-se de sacos, do maior de entre eles até ao mais pequeno. [6]
E chegou a palavra ao rei de Nineveh, e levantou-se do seu trono, e depôs longe
de si o seu manto e cobriu-se com um saco e sentou-se sobre a cinza. [7] E clamou
e disse por Nineveh: Por aprovação do rei e dos seus grandes, pessoa, animal,
manada, e rebanho não provarão o que quer que seja, não se alimentarão e água
não beberão. [8] E cubram-se com sacos, a pessoa e o animal, e clamem a Deus agressivamente,
e que o homem volte do seu caminho do mal e da violência que está nas mãos
deles. [9] Quem sabe se Deus não voltará atrás e se arrependerá da
sua cólera feroz, e não morreremos. [10] E viu Deus as acções deles, como voltavam
dos seus caminhos do mal, e arrependeu-se Deus do mal que disse que lhes faria,
e não fez.
[4.1] Isto desagradou a Jonas num grande desagrado, e ardeu-o
de raiva. [2] E rezou a Yahweh e disse-lhe: Então, Yahweh? Não foi isto que eu
disse, quando estava ainda no meu país? Foi por isso que comecei por fugir para
Tarshisha, pois sabia que tu és um deus de compaixão e misericórdia, lento a
enfureceres-te, e abundante em lealdade, e arrependes-te face ao mal. [3]
Agora, Yahweh, leva de mim por favor a minha alma, que a minha morte é melhor
que a minha vida. [5] E disse Yahweh: Será que fazes bem em arder de raiva? [5]
E saiu Jonas da cidade e sentou-se diante da cidade, e fez-se lá uma cabana e
sentou-se debaixo dela à sombra, até ver o que aconteceria na cidade. [6] E enviou
Yahweh Deus um ricínio e cresceu de sobre Jonas para haver sombra sobre a sua
cabeça, e Jonas alegrou-se pelo ricínio com uma grande alegria. [7] E enviou
Deus um verme ao subir da aurora do dia seguinte, e golpeou o ricínio, e definhou.
[8] E assim foi ao aparecer o sol, e enviou Deus um sopro abafado do oriente, e
golpeou a cabeça de Jonas, e começou a desfalecer, e pediu à alma para morrer,
e disse: a minha morte é melhor que a minha vida. [9] E disse Deus a Jonas:
Será que é bom arder de cólera para com o ricínio? E disse: É bom que eu arda de
cólera até à morte. [10] E disse Yahweh: Tu tiveste compaixão do ricínio, que
não foste tu quem o fez, e não foste tu quem o fez crescer, e que foi numa noite, e numa noite pereceu. [11] E eu não hei-de ter compaixão para com
Nineveh, a grande cidade, na qual há mais de cento e vinte mil pessoas que não
conhecem a sua mão direita da sua mão esquerda, e muito gado?
Imagem #1: 1462, @ Lyon, Bibliotheque municipale, 245, fol. 152r
Imagem #2: Século XIV, Karlsruhe, Badische Landesbibliothek, Karlsruhe 3378, p. 109
4.01.2018
Annunciation with zero point field
John Burnside (2005). Annunciation with zero point field in The Good Neighbour. Cape Poetry
Sitting up late in the dark
I think you're about to tell me
that story I've heard before
of a creature pulled from the ice, or prised from a ditch,
its body a hundred years old, but the eyes intact
and hardly a trace of decay
on the frost-white skin;
and later, how they cut along the spine
and found two spurs of cartilage above
the shoulder blades: not wings,
or not quite wings,
but something like a memory of flight
locked in a chamber of bone
it had barely abandoned.
Sitting up late at night, in a clouded room,
I think you have something to tell
that I'd want to believe
no matter how improbable it seemed,
but that was long ago
and anyhow
we have so much that seems improbable:
the household we have in common
but don't quite share,
sub voce songs, the garden's unnamed roses,
this angel that comes to our bed
in a shimmer of light
and hangs there, silent, waiting to be nourished.
You'd think it would choose its moment,
flickering out of the light and assuming a form
or coming to rest for a while
in muscle and tendon.
You'd think it was eager to speak
as if it had come
for no other reason than this, its annunciation
life-size, in human terms - an impending birth,
or something else we understand as grace -
the word in its mouth like a plum that has almost ripened,
the sound it will make when it speaks
like falling rain;
but this is the probable world, this is ourselves,
and the one thing we know for sure is that everything comes
by chance, and is half-unwilling,
memory, love, the angel who cannot announce
the fact that, the moment it speaks,
it will fade to nothing.
I've seen it on occasion, like a bat
flicking from wall to wall, its wings like tar
in the yellowing darkness;
I've heard the creak and whisper of the night's
improbable apparatus, lacewings and frost
and starlight on the rooftops like a veil
but nothing has ever spoken, nothing has come
from the elsewhere I measure out in songs and dreams,
although I glimpse, in spite of what I know,
the guessed-at world where nothing has been said
but everything is on the point of speaking:
you in your chair, looking up from a half-read book
as the angel who cannot exist is replaced by the given,
the sullen gift of everyday events:
the promise of rain, a footfall, the dread of belonging.
3.30.2018
Fayruz e as Sinagogas de Jerusalém
Uma das
canções mais notáveis da notável cantora libanesa Fayruz é aquela chamada 'Flor
das Cidades' - Zahrat Al-Madā'en زهرة المدائن. Lançada pela primeira vez em 1972 com letra
dos irmãos Rahbani, ela é simultaneamente um lamento pela queda de Jerusalém nas mãos do exército israelita, e uma
exortação à sua reconquista. Será impossível saber qual o peso que a canção
terá tido nos esforços desastrosos que levaram à Guerra do Yom Kippur em 1973 -
Abi Samra conta que "as emissões de rádio do mundo árabe tocavam a música
incessantemente" nas vésperas do ataque.
A canção é, inevitavelmente, convictamente, anti-zionista. Mas existem certas ambiguidades respeitantes àquilo que ela advoga.
Simples, e aceitável no abstracto, poderia ser considerá-la simplesmente
na linha de que Jerusalém é uma cidade árabe e, como tal, pertence aos árabes e
não aos judeus. Esta leitura ganha alguma tracção devido aos versos que clamam !القدس لنا, البي لنا - 'Jerusalém é Nossa, Belém
é Nossa!'. Mas quem é o "nós" nesta frase? Não são certamente os
"Muçulmanos" - afinal de contas Fayruz era, como é sabido, parte
importante da poderosa minoria cristã do Líbano, e a canção está repleta de
referências à tradição Cristã - وجهان يبكيان - الطفل في المغارة و أمه مريم - 'a criança na gruta, e a sua
mãe, Maria - duas faces que choram'.
Que estas
referências não dizem respeito apenas aos elementos cristãos do Islão (pois
Maria é mencionada 54 vezes no Corão) é-nos explicitado pelos versos que me
ocupam a escrever este pequeno texto:
عيوننا إليك ترحل كل يوم
تدور في أروقة المعابد
تعانق الكنائس القديمة
وتمسح الحزن عن المساجدos nossos olhos viram-se para ti a cada diavagueiam pelas galerias dos [TEMPLOS]abraçam as igrejas antigase enxugam a tristeza das mesquitas
A tradução
acima citada, ou variações dela, é a versão comummente encontrada quer em
livros académicos quer em traduções amadoras. É com base nela que Clive Holes pode dizer
que a canção retrata "the ethereal, Classical Arabic 'Quds' [Jerusalém em
Árabe], the "Flower of Cities", the city of millennia of Christian
and Muslim history." A referência a igrejas e a mesquitas implicaria a
dupla vertente da identidade árabe - cristã e muçulmana (passando em silêncio
outras minorias da região, como por exemplo os Druze).
O ponto
cego desta leitura é, inevitavelmente, os judeus de Jerusalém. Desde a
destruição da cidade por Tito no século I que os Judeus não eram uma maioria na
cidade. No entanto, mesmo desde essa altura, passando por toda a idade média, e
até aos inícios do zionismo no século XIX nunca deixou jamais de haver uma
comunidade judaica na cidade (a única excepção sendo, obviamente, os anos que
se seguiram a 1099, quando os cruzados vitoriosos trucidaram os judeus e os
muçulmanos de Jerusalém). A esta comunidade presente em toda a Palestina,
pequena mas constante, sói chamar-se o "O Yeshuv Antigo" - são estes que se juntam às comunidades partidas em exílio de outros países do mundo árabe para formar as comunidades judaicas ditas Mizraḫi ou 'Orientais' (مشرقيون ou מזרחי).
O enigma
que resta, porém, é ao que é que se referem os "templos" da tradução
acima citada. A palavra Árabe é معابد
muʿābed, plural de معبد
maʿbad. A raíz é perfeitamente compreensível, com o [ ʿ / b / d ] a significar
"servir, adorar" (presente, por exemplo, em ʿAbd-ullah - 'O Servidor de
Deus'). Com o prefixo "ma-" a significar "lugar", um "معبد
maʿbad" é simplesmente um "lugar de culto", ou seja um templo.
Este é o uso normal e imediato da palavra [Conferir]. Quem opta por esta interpretação
entende que a Fayruz estava a enumerar. Os templos: As Igrejas, e as Mesquitas.
De igual forma, a palavra imediata em árabe para designar sinagoga é
"كنيس kanīs ("lugar de reunião", a mesma raiz do hebraico
Knesset כנסת - por sua vez, 'igreja' repete a raiz, mas no feminino: kanīsa كنيسة).
O interessante é, obviamente, que há outras formas de designar sinagoga, e que
uma delas, consideravelmente mais rara mas certamente atestada (e.g.) é, igualmente,
"معبد maʿbad".
Será que isto é intencional? Que proporção de pessoas é que, ao ouvirem
a canção, pensariam em sinagogas? A vasta maioria das traduções contemporâneas da música - e
dos estudos, não escassos, que lhe são dedicados, parece entender "معبد
maʿbad" como 'templo'. Dos vários textos que encontrei, apenas um (Massad 2005) entende que "the lyrics include reference to Jerusalem's synagogues
as well as to its churches and mosques." É, de resto, incerto se essa
seria a interpretação original da Fayrouz e dos irmãos Rahbani: é inescapável
que a música, como foi dito acima, foi usada, e aparentemente composta, com
motivos propagandísticos. Mas não é a mesma coisa clamar pela retirada do
estado do Israel do que clamar pela expulsão dos judeus: a equação, falsa e
imoral, de anti-zionismo com anti-semitismo é o grande projecto do estado de
Israel contemporâneo.
Venho argumentar que, ao que parece, a intenção original da canção
(abrindo as portas voluntárias a que me acusem de falácia autoral) pretendia
com "معابد muʿābed" indicar as sinagogas de Jerusalém. Fayruz tem, ao
longo da vida, uma relação íntima com a Jerusalém vivida, a Il'uds onde convivem, em
ruas estreitas, os judeus das suas sinagogas tais com os demais cristãos e muçulmanos. E que essa relação é pelo menos tão próxima quanto a que ela tem com a "Alquds do espírito"
são testemunho canções outras que versam sobre essa vivência comum, quotidiana e partilhada, como a Jerusalém Antiga - Al-Quds Al-Atīqa القدس الاتيقة (referindo-se à dita "Cidade Antiga" dividida entre os bairros das várias religiões) significativamente
cantada em árabe coloquial em vez do árabe clássico da "Flor das
Cidades".
Isso leva-me a crer que, ao contrário do que as leituras mais imediatas de 2018 sobre a canção parecem indicar, leituras que asseveram que não há referência a judeus ou sinagogas na canção, estão erradas. A implicação disto é que esta não é uma canção anti-semítica. É, sem qualquer sombra de dúvida, uma canção violenta, e, como dizíamos acima, militantemente anti-zionista. Mas ao encontrarmos interpretações que omitem as sinagogas da letra estamos a aprender, muito menos sobre a música do que sobre quem a está a usar de forma anti-semita - ou pelo menos a aceitar jogar com o baralho deles. A começar, claro, pelo próprio Estado de Israel, o qual, ao equiparando anti-semitismo com anti-zionismo, se tornou efectivamente numa das maiores fábricas de anti-semitas em existência, ao declarar ao mundo que as acções duma ideologia política colonialista devem ser identificadas com as acções de todos os judeus.
Essa ideologia tem de ser combatida. É demasiado útil à injustiça que um ideal nobre e necessário seja associado com o ódio racial mais abjecto. Um dos lugares onde o podemos fazer é precisamente aqui: na tradição de difícil, sempre diferida, mas sonhada convivência que músicas como esta podem na realidade confessar e professar, resgatando a letra e entregando-a a ela mesma.
2.09.2018
Lege Lege Lege Relege
Jeremy Black. Reading Sumerian Poetry p.90 (1998) The Athlone Press
pa-zu an-na sa am3-ši-im-la2-la2-en nu-mu-[…]
ki-še3 umbin-zu am kur-ra immal2 kur-ra ĝišes2-ad!-am3 ba-nu2
murgu8-zu dub sar-sar-re-me-en
ti-ti-zu dniraḫ dar-a-me-en
šag4-sud-zu kiri6 sig7-ga u6-e gub-ba-me-en
Your wings, extending over the sky like a net!
On the ground, your talons are like a trap laid for the wild bulls of the mountains and the wild cows of the mountains!
Your spine - you are one constantly writing tablets!
Your back - you are a green orchard standinf for admiration!
Lugalbana 120-124
The bird's back(bone) is described as like that of 'one who constantly writes tablets'. While the context makes clear that the reference is complimentary, it is frankly uncertain if this means, in effect, straight and rigid, as the spine or one who writes tablets perhaps should be - or curved and slightly hunched, as the spine of one who constantly writes tablets might tend to become. Nor is it clear which of these two shapes might be considered desirable for a monstrous, supernatural raptor bird; one suspects the first.
2.07.2018
Ruinenwert
John Aubrey, An Introduction to the Survey and Natural History of the North-Division of the County of Wiltshire (1671) Aqui.
And as in Prospects, we are there pleased most when something keeps the Eye from being lost, and leaves us Room to guess; so here the Eye and Mind is no less affected with these stately Ruins, that they would have been when standing and entire. They breed in generous Minds a Kind of Pity and sets the Thoughts a-work to make out their Magnifice[nce] as they were taken in Perfection. These Remains are tanquam Tabulata Naufragii, that after the Revolution of so many Years and Governments, have escap'd the Teeth of Time, and (which is more dangerous) the Hands of mistaken Zeal. So that the retrieving of these forgotten Things from Oblivion, in some sort resembles that of a Conjurer, who make those walk and appear that have lain in their Graves many Hundreds of Years, and to represent, as it were to the Eye, the Places, Customs, and Fashions that were of old Time.
hino a Ninḫursaĝ 𒀭, senhora da montanha santa
Ó Templo de Kish 𒀭,
Às fronteiras do deserto,
És leões alados,
És touros brancos que as encaram.
As tuas asas abarcam os meus olhos,
E eu entorno os meus dedos de grão
No teu altar molhado a sangue santo.
Herói, pastor de montanhas,
Emparedas os lábios
De quem não te louvaria.
E a quem te louva,
A esse concedes repastos de pensamentos agitados.
O Santo Tigre e o Santo Eufrates,
As mangas da túnica que Enlil teceu
Quando em transe espasmava o teu grandor,
Nadei e libei e deles bebi.
O teu punhal manchado, que tantos bois perfeitos degolou,
Que fez jorrar de mim o meu sono e a minha vigília,
Banhou para a ceifa as cidades santas de Nippur e de Eridu.
E quem há que não se alegre,
Se governa os céus em poder a sacerdote de Eridu 𒀭?
2.06.2018
O Lords of Limit, training dark and light...
David Lewis-Williams, in The Mind in the Cave (2002). Thames & Hudson
An important reciprocality is implied by these images born of light and shadow. On the one hand, the creator of the image holds it in his or her power: a movement of the light source can cause the image to appear out of the murk; another movement causes it to disappear. The creator controls the image. On the other hand, the image holds its creator in its power: if the creator or subsequent viewer wishes the image to remain visible, he or she is obliged to maintain a posture that keeps the light source in a specific position. If the viewer tires and as a result lowers the light, the image seems to retreat into the realm behind the membrane. Perhaps more than any other Upper Palaeolithic images, these 'creatures' (creations) of light and darkness point to a complex interaction between person and spirit, artist and image, viewer and image. There was a great deal more to Upper Palaeolithic cave paintings than pictures simply to be looked at: some of the images sprang from a fundamental metaphor.
2.02.2018
Praia de Dover - Matthew Arnold
Praia de Dover
de Matthew Arnold
O mar está calmo esta noite.
A maré está cheia, a lua lá ao fundo
Sobre os estreitos; na costa de França a luz
Brilha e desaparece; os penhascos de Inglaterra surgem,
Reluzentos e vastos, de fronte à baía tranquila.
Vem à janela, o ar da noite é doce!
Apenas, da longa linha de salpicos
Onde o mar se depara com a terra tingida de lua,
Ouve! escutas o rosnido a raspar
Dos seixos que as ondas recolhem, e lançam,
Ao voltarem, para a praia alta,
Começa, e cessa, e começa de novo,
Com trémula lenta cadência, e traz
Para dentro a nota eterna da tristeza.
Há muito tempo atrás Sófocles
Ouviu-o no Egeu, e trouxe
À sua mente o turvo fluxo e refluxo
Da miséria humana; nós
Achamos também no som um pensamento,
Ao ouvi-lo neste distante mar do norte.
O Mar da Fé
Esteve também, em tempos, cheio, e cercando a costa da terra,
Jazia como as dobras de um brilhante cinturão desenfaixado.
Mas agora apenas oiço
O seu melancólico, longo, ruído em retirada,
Recuando, ao sopro
Do vento da noite, abaixo as vastas e cinzentas bordas
E os pedregulhos desnudados do mundo.
Ai, amor, sejamos verdadeiros
Um para o outro! pois o mundo, que aparenta
Estender-se diante nós como uma terra de sonhos,
Tão variado, tão belo, tão novo,
Em verdade não tem nem alegria, nem amor, nem luz,
Nem certezas, nem paz, nem socorro à dor;
E nós estamos aqui como numa planície enegrecida,
Arrastados por alarmes confusos de combates e fugas,
Onde ignorantes exércitos se batem de noite.
Tradução minha.
de Matthew Arnold
O mar está calmo esta noite.
A maré está cheia, a lua lá ao fundo
Sobre os estreitos; na costa de França a luz
Brilha e desaparece; os penhascos de Inglaterra surgem,
Reluzentos e vastos, de fronte à baía tranquila.
Vem à janela, o ar da noite é doce!
Apenas, da longa linha de salpicos
Onde o mar se depara com a terra tingida de lua,
Ouve! escutas o rosnido a raspar
Dos seixos que as ondas recolhem, e lançam,
Ao voltarem, para a praia alta,
Começa, e cessa, e começa de novo,
Com trémula lenta cadência, e traz
Para dentro a nota eterna da tristeza.
Há muito tempo atrás Sófocles
Ouviu-o no Egeu, e trouxe
À sua mente o turvo fluxo e refluxo
Da miséria humana; nós
Achamos também no som um pensamento,
Ao ouvi-lo neste distante mar do norte.
O Mar da Fé
Esteve também, em tempos, cheio, e cercando a costa da terra,
Jazia como as dobras de um brilhante cinturão desenfaixado.
Mas agora apenas oiço
O seu melancólico, longo, ruído em retirada,
Recuando, ao sopro
Do vento da noite, abaixo as vastas e cinzentas bordas
E os pedregulhos desnudados do mundo.
Ai, amor, sejamos verdadeiros
Um para o outro! pois o mundo, que aparenta
Estender-se diante nós como uma terra de sonhos,
Tão variado, tão belo, tão novo,
Em verdade não tem nem alegria, nem amor, nem luz,
Nem certezas, nem paz, nem socorro à dor;
E nós estamos aqui como numa planície enegrecida,
Arrastados por alarmes confusos de combates e fugas,
Onde ignorantes exércitos se batem de noite.
Tradução minha.
Dover Beach
by Matthew Arnold
The sea is calm tonight.
The tide is full, the moon lies fair
Upon the straits; on the French coast the light
Gleams and is gone; the cliffs of England stand,
Glimmering and vast, out in the tranquil bay.
Come to the window, sweet is the night-air!
Only, from the long line of spray
Where the sea meets the moon-blanched land,
Listen! you hear the grating roar
Of pebbles which the waves draw back, and fling,
At their return, up the high strand,
Begin, and cease, and then again begin,
With tremulous cadence slow, and bring
The eternal note of sadness in.
Sophocles long ago
Heard it on the Ægean, and it brought
Into his mind the turbid ebb and flow
Of human misery; we
Find also in the sound a thought,
Hearing it by this distant northern sea.
The Sea of Faith
Was once, too, at the full, and round earth’s shore
Lay like the folds of a bright girdle furled.
But now I only hear
Its melancholy, long, withdrawing roar,
Retreating, to the breath
Of the night-wind, down the vast edges drear
And naked shingles of the world.
Ah, love, let us be true
To one another! for the world, which seems
To lie before us like a land of dreams,
So various, so beautiful, so new,
Hath really neither joy, nor love, nor light,
Nor certitude, nor peace, nor help for pain;
And we are here as on a darkling plain
Swept with confused alarms of struggle and flight,
Where ignorant armies clash by night.
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