6.01.2015

um poema-prece do Dietrich Bonhöffer


Em 9 de Abril de 1945, meras horas antes da libertação da prisão onde estava captivo, Dietrich Bonhöffer foi martirizado pelo regime Nazi. Ele não ignorava que esse era o destino que o esperava, o que torna o seguinte poema, a seguinte prece, escrita poucos dias antes da data fatídica, ainda mais espantosa. O texto foi de tal forma celebrado que foi passado para música em numerosos hinos.

Tradução dedicada à Suse, com um obrigado por mo ter mostrado.

Pelas forças do bem constante e calmo envolto,
Consolado e resguardado maravilhosamente,
Quero eu viver convosco nestes dias,
E entrar convosco em um novo ano.

Mas o passado atormenta-nos os corações.
Afunda-nos a pesada carga dos dias do mal.
Ah, Senhor, dá às nossas almas aterrorizadas
A Salvação para a qual nos heis criado.

Passa-nos o pesado cálice de amargo
Sofrimento, cheio até ao rebordo,
Que nós recebê-lo-emos sem estremecer
Da tua doce e bem-amada mão.

Mas se nos quiseres mais uma vez alegrar
Com este mundo e com o seu Sol quente,
Nós vamo-nos lembrar do tempo que passou,
E seremos então teus para todo o sempre.

Faz arder quente e claro as velas
Que tu à nossa escuridão trouxeste.
Conduz-nos, se é que pode ser, de novo juntos.
Nós sabemos que brilha à noite a tua luz.

Agora que o silêncio cresce fundo em nós
É a altura de ouvir o som inteiro
Do mundo invisível, que à nossa volta aumenta
Em alto louvor de toda a criação.

Pelas forças do Bem maravilhosamente abrigados
Esperamos com lealdade o que há-de vir.
Deus está connosco no Crepúsculo e na Manhã
E sem dúvida também em cada novo dia.


Dietrich Bonhöffer. Tradução minha


Von guten Mächten treu und still umgeben,
Behütet und getröstet wunderbar,
So will ich diese Tage mit euch leben
Und mit euch gehen in ein neues Jahr.

Noch will das alte unsre Herzen quälen,
Noch drückt uns böser Tage schwere Last.
Ach, Herr, gib unsern aufgeschreckten Seelen
Das Heil, für das du uns geschaffen hast.

Und reichst du uns den schweren Kelch, den bittern
Des Leids, gefüllt bis an den höchsten Rand,
So nehmen wir ihn dankbar ohne Zittern
Aus deiner guten und geliebten Hand.

Doch willst du uns noch einmal Freude schenken
An dieser Welt und ihrer Sonne Glanz,
Dann wolln wir des Vergangenen gedenken
Und dann gehört dir unser Leben ganz.

Lass warm und hell die Kerzen heute flammen,
Die du in unsre Dunkelheit gebracht.
Führ, wenn es sein kann, wieder uns zusammen.
Wir wissen es, dein Licht scheint in der Nacht.

Wenn sich die Stille nun tief um uns breitet,
So lass uns hören jenen vollen Klang
Der Welt, die unsichtbar sich um uns weitet,
All deiner Kinder hohen Lobgesang.

Von guten Mächten wunderbar geborgen,
Erwarten wir getrost, was kommen mag.
Gott ist bei uns am Abend und am Morgen
Und ganz gewiss an jedem neuen Tag.

5.17.2015

תמשך לויתן בחכה

θεὸς ἅπαν ἐπὶ ἐλπίδεσσι τέκμαρ ἀνύεται,
θεός, ὃ καὶ πτερόεντ' αἰετὸν κίχε, καὶ θαλασ-
σαῖον παραμείβεται
δελφῖνα, καὶ ὑψιφρόνων τιν' ἔκαμψε βροτῶν,
ἑτέροισι δὲ κῦδος ἀγήραον παρέδωκε.

Píndaro. Pítica II 49-53. Tradução minha.

Deus atinge sempre o objecto das suas esperanças.
Deus, que ultrapassa a águia alada, que o mar-
inho golfinho
supera, já derrotou também muitos dos arrogantes mortais,
enquanto que a outros concedeu glória sem idade.

5.14.2015

Hades vs Valhalla


Cattle die, kindred die, 
Every man is mortal: 
But the good name never dies 
Of one who has done well.


Cattle die, kindred die, 
Every man is mortal: 
But I know one thing that never dies, 
The glory of the great dead.

Edda Poética. Ditos do Grande Odin [76-77].



I shall leave my scrolls, like the potter's cup and the sculptor's marble, for what they're worth. Marble can break, the cup is a crock thrown in the well; paper burns warm on a winter night. I have seen too much pass away. So when they come to me, as they do from King Hieron down, asking about the days before they were begotten, I tell them what deserves remembrance, even if it keeps me up when I crave for bed. The true songs are still in the minds of men.

Mary Renault. The Praise Singer.The Pitman Press (1979)

5.04.2015

Destino: o mito grego.

Neste momento releio o Hipérion de Hölderlin, o esquizofrénico. Que fervor na condução da luz pessoal! Destino: o mito grego. A correria do preceptor por todos os lados da incandescência! E a passagem por casa do banqueiro Gontard desenha o trágico tumulto luminoso que é o trânsito do poeta pelos círculos da treva. Da casa, do banco, da noite — dos arraiais pequeninamente contentes, com suas assustadas iluminações de castiçal — emerge a cabeça fulgurante e mortal de Diotima. Entretanto, Hipérion entrega-se obsessivamente aos trabalhos de recuperação da unidade, ele (Hölderlin), que «a miséria espiritual do mundo ocidental moderno» empurrou para trinta e sete anos de Grécia completa interior, também no caso dita esquizofrenia. Morta Diotima, quem o acompanha na viagem a tais Grécias excessivamente centrais? Digo que o mundo não estaria louco se houvesse afinação nervosa para decifrar esses fundos arquipélagos da escrita hölderliniana.
Herberto Helder. Photomaton & Vox. Porto Editora (2015).

5.03.2015

A pessoa gramatical de Deus

The action and development of that mysterious force which is the seed of all creation is, according to the Zohar's interpretation of the Scriptural testimony, none other than speech. "God spoke — this speech is a force which at the beginning of creative thought was separated from the secret of En-Sof." The process of life in God can be construed as the unfolding of the elements of speech. This is indeed one of the Zohar's favorite symbols. The world of divine emanation is one in which the faculty of speech is anticipated in God. Varying stages of the Sefiroth-Universe represent, according to the Zohar, the abysmal will, thought, inner and inaudible word, audible voice, and speech, i. e. articulated and differentiated expression. 
The same conception of progressive differentiation is inherent in other symbolisms of which I should like to mention only one, that of the I, You and He. God in the most deeply hidden of His manifestations, when he has as it were just decided to launch upon His work of creation, is called He. God in the complete unfolding of his Being, Grace and Love, in which He becomes capable of being perceived by the "reason of heart," and therefore of being expressed, is called "You." But God, in His supreme manifestation, where the fullness of His Being finds its final expression in the last and all-embracing of his attributes, is called "I." This is the stage of true individuation in which God as a person says "I" to Himself. This divine Self, this "I", according to the theosophical kabbalists —and this is one of their most profound and important doctrines— is the Shekhinah, the presence and immanence of God in the whole of creation. It is the point where man, in attaining the deepest understanding of his own self, becomes aware of the presence of God. And only from there, standing as it were at the gates of the Divine Real, does he progress into the deeper regions of the Divine, into His "You" and "He" and into the depths of Nothing. To gauge the degree of paradox implied by these remarkable and very influential thoughts one must remember that in general the mystics, in speaking of God's immanence in His creation, are inclined to depersonalize him: the immanent God only too easily becomes an impersonal God-head. In fact, this tendency has always been one of the main pitfalls of pantheism. All the more remarkable is the fact that the Kabbalists and even those among them who are inclined to pantheism managed to avoid it, for as we have seen the Zohar identifies the highest development of God's personality with precisely that stage of His unfolding which is nearest to human experience, indeed which is immanent and mysteriously present in every one of us.
Gershom Scholem. Major Trends in Jewish Mysticism. Schoken Books (1974)

5.02.2015

Breve nota sobre os usos da cultura

Goebbels não tinha ingressado no exército por ser coxo, e tinha-se doutorado em Filologia em 1922 em Heidelberga [...]. Era um leitor apaixonado dos clássicos gregos e, no que dizia respeito ao seu pensamento político, preferia o estudo dos textos marxistas e todos os escritos contra a burguesia. Admirava Friedrich Nietzsche, recitava poemas de memória e escrevia textos dramáticos.
Fernando BáezHistória Universal da Destruição dos Livros (2004), Texto Editores. Maria da Luz Veloso (trad.)

κανείς δεν ήξερε πως είναι τόσο ωραία

4.30.2015

Notas Práticas sobre Misticismo e Sincretismo Religioso


A realidade fáctica de que os diversos tipos de misticismo existem sempre ancorados num tipo particular de religião faz ainda mais urgir ao tipo de sincretismo religioso de que havemos anteriormente falado – pode-se falar de sincretismo antropológico – entendendo-se por isso o sincretismo que combina elementos de diversos tipos de religiões numa só, e em que, na maior parte das vezes por conseguinte, o todo é menor do que as partes. Mas por sincretismo aqui refiro-me a algo psicológico e quiçá mais incoerente ainda. Claro que esta incoerência aparentemente bizarra e estilhaçadora é derivada dum escalão profundamente conservador e tradicional: parte do princípio de que as diversas tradições religiosas foram no mais das vezes capazes de chegar a uma síntese completa das suas partes e que, onde falham, se falham, é ao nível axiomático e filosófico (o Pico tentará aproveitar este recesso). Assim sendo, procurar combiná-las, na medida em que tal deturpa o seu carácter consistente, é um crime contra a tradição não em si mas apenas porque é um crime contra a coerência interna de cada uma – e.g., não posso acrescentar a história da paixão, tão fulcral para a devoção cristã, ao Judaísmo, sem com isso o everter. Ao caminho que resta àqueles que desejariam não obstante ter acesso directo às várias correntes do pensamento religioso globais não serve nem a mono-religiosidade nem o sincretismo. Como obedecer então à injunção do Pessoa de “aumentar sem combater nunca”? Urge uma psicologia diversa da que temos até agora. As camadas de consciente e inconsciente legadas pelo Freud são inúteis, pois outra coisa não fazem que colocar as esferas do inconsciente fora do nosso domínio – é preciso sim, num primeiro momento, uma divisão do consciente em duas camadas, aquela que poderíamos chamar activa e a outra latente. A camada latente, ou camadas, seria onde estaria repousante toda a recolecção das nossas predilecções religiosas – onde jaz o meu xamanismo, o meu politeísmo, os meus monoteísmos, acessíveis mas fundamentalmente inoperantes. A camada activa do consciente será aquela detentora das crenças no momento cridas. Esta exposição e proposição coloca problemas por duas frentes. A primeira diz respeito á activação e desactivação da fase consciente. Relacionado com isto está também o valor da realidade ou ficção das crenças esposadas enquanto neste estado, e portanto da relevância deste projecto e deste texto propriamente ditos.

קדוש קדוש קדוש יהוה צבאות
קדוש קדוש קדוש יהוה צבאות
קדוש קדוש קדוש יהוה צבאות

O problema da activação e da desactivação diz naturalmente respeito ao problema da manutenção duma crença verdadeira nos princípios de fé em questão. Sendo o nosso objectivo final a aspiração à experiência mística particular às várias religiões, e não apenas uma humana empatia com os seus princípios, servir-nos-ia de pouco uma mera familiaridade e simpatia para com eles que estivesse não obstante constantemente consciente da sua caducidade. O princípio de fé tem de se tornar nesses instantes tão sólido e inamovível como os princípios do mais fervoroso dos crentes monolíticos. Isto obriga ao esquecimento da sua (hipotética) limitação temporal – consciente activo, ou seja eu, não posso saber que os meus princípios são desligáveis. O problema renasce portante pela desactivação: se os princípios são inabaláveis, então o seu desligamento é certamente uma forma de violência extrema infligida por (já vamos ver) sobre o consciente activo. Ao arrancar violento das crenças espirituais mais profundas não erraríamos muito se déssemos o nome de suicídio espiritual.

Vimos no entretanto nascer também o problema da unidade, ou melhor dizendo da soberania presente no consciente latente. Este tem de possuir várias qualidades. Antes de mais tem de conter em si as outras possíveis configurações de crença a cuja experiência mística se quiser aceder. Quer estas sejam concebidas unitariamente – como “as outras” – ou particuladamente, é irrelevante. Bem mais importante é a necessidade da existência do seguinte facto: o consciente latente tem de querer trocar uma das fases por outra. Ou seja, em maior ou menor grau, tem de as querer a todas, mas tem de ter o auto-domínio necessário para não as querer todas ao mesmo tempo – em cujo caso perderíamos a coerência conservadora que anteriormente louvávamos, e provavelmente cairíamos no sincretismo antropológico que censurámos, ou que pelo menos depusemos. Ademais, tem de saber também durante quanto tempo é que quereria conceder a preeminência a cada uma delas. Não pode deixar essa decisão às fés pois estas, como seria de esperar, quereriam como um perfeita cancro apoderar-se de tudo e viver para sempre. Reflectindo nesta linha arriscaríamos cometer uma grande confusão. Arriscaríamos pensar que esta parte do consciente latente (cuja natureza ainda está por indagar e que se nos aparece cada vez menos como algo latente!) fosse de certa forma o nosso verdadeiro eu, que a identidade pessoal lhe fossem em última instância redutível, que o consciente latente derivasse a sua autoridade e o seu poder de infligir violência ao consciente activo por virtude de lhe ser superior. Essa opinião é necessariamente falsa precisamente pois a sua veracidade refutaria a realidade da experiência mística por parte do consciente activo. Para a ocorrência da unio mystica ou devekut é força pensemos que a parte mais apta para isso fosse a mais preparada, e não uma subalterna – não porque o divino não condescendesse em relacionar-se com um subordinado (pois afirmar isso seria uma afirmação que roçaria o arianismo), mas meramente porque essa parte da alma não estaria concentrada suficientemente para o tolerar. Antes, segundo a mesma lógica, não só é crível que o consciente latente não lhe seja superior, como seria até mesmo perfeitamente concebível que a seria o consciente activo o superior, por ser ele o inaugurador e o sustentáculo da experiência mística. A falsidade desta sugestão fica patente por tudo que foi dito anteriormente.

Resta elaborar duas questões: qual o papel ou a natureza da parte deliberativa do consciente latente, e qual o principium individuationis, o princípio da individuação, nesta salganhada toda. Aquilo que urge dizer em primeiro lugar da parte deliberativa do consciente latente é que é essencial não deixar jamais de a considerar latente. Se por um instante que for lhe for concedida uma simultaneidade operativa com o consciente activo, o poder religioso deste último seria imediatamente diminuído, se bem que não aniquilado, invalidando assim a possibilidade da experiência mística. O que na realidade acontece é que ela está latente mas funcional da mesma forma que um despertador está funcional ou um temporizador. O sono não é minimamente afectado pelo facto de o despertador estar activo, e aliás este poderá estar activo tempos imensos sem que tal tenha o menor impacto no decorrer do sono. Para clarificar a metáfora: dir-se-ia que alguém dormiria de forma diferente se soubesse que haveria um despertador para o acordar, que sentiria o seu sono como condicionado. Mas o despertador pode ter sido programado sem que eu o soubesse, por outra pessoa por exemplo, e a ideia do consciente activo funcionar de maneira análoga como algo estanque é precisamente o argumento que estou a sugerir. Poder-se-ia dizer também que para o despertador funcionar correctamente teria de estar a observar a operação do consciente activo para decidir baseada na vida espiritual deste quando desactivar a presente fé e activar outra. Isso porém é um entendimento deficiente desta realidade: nós impomos a nós mesmos uma certa narrativa das oscilações de crença por que passámos, mas isso não implica de forma alguma que essas transições estivessem determinadas ou sequer articuladas entre si: a ideia de que acontecem pelo nosso melhor interesse é animadora mas antropocêntrica, e a mística tem pouco que ver com isso. Muitas pessoas conhecem várias religiões sem jamais se desligarem da primeira, mesmo que um observador exterior gostasse de dizer que tê-lo feito teria sido a seu favor.

ἅγιος ἅγιος ἅγιος κύριος σαβαώθ
ἅγιος ἅγιος ἅγιος κύριος σαβαώθ
ἅγιος ἅγιος ἅγιος κύριος σαβαώθ

a pergunta principal jaz com o princípio da individuação, a pergunta da qual tudo deriva. Como teremos de a formular para o encontrar? Já sabemos de que forma temos acesso às experiências mística: as religiões. Sabemos de que forma as religiões são escolhidas: violentamente, e arbitrariamente. Mas este tempo todo temos vindo a falar de consciente, e no meio disso, devido em grande parte ao uso da palavra activo e latente, podermos ter parecido dizer que em algum momento não estamos nós em controlo. Ora este texto foi predicado anunciando desde o princípio a oposição às diversas noções de inconsciente, ou pelo menos a sua irrelevância para as matérias em discussão. Só uma coisa escapa, que é a ânsia pelo divino cuja origem não havíamos sido capazes de desvendar. Ela parece de facto ser a raiz, o fundamento que unifica todas as outras. É ela que deseja aceder ao divino, é com esse objectivo que transmite ao consciente latente esse mesmo desejo. Numa outra perspectiva, transmite ao consciente activo a capacidade de pôr em ato o processo extático por meio das religiões. Que nome não lhe daremos? Qualquer que fosse o nome finalmente escolhido esconder-se-ia atrás de mais uma distância e deixar-nos-ia irredutivelmente insatisfeitos. Serão então os deuses, o seu terrível númen, que se esconde dentro do mais fundo eu e que como uma cria abandonada pela mãe nos tenta obrigar, e aliás construi-nos de tal forma que o nosso esqueleto espiritual estivesse de tal forma elaborado que tudo nele se encaminhasse para que a devolvêssemos à sua origem? E se sim, será essa centelha nos mesmos anelantes pelo retorno à realidade do divino? Sempre achei que o gnosticismo era uma fraude.

Mas então e se não somos nós uma centelha de deus, e se é o divino mesmo que fez a sua toca no fundo das nossas profundezas infinitas? O problema primeiro duma afirmação monumental como essa parte do sabotar do princípio da individuação. Como serei eu eu, se no fundo de mim eu sou Deus? Assumamos isto: que carrego Deus em mim como a semente carrega a flor. A primavera é o extático. Mesmo que isso fosse verdade, não estaria a dar como ponto de partida aquilo que deveria ser o objectivo final? Em outras circunstâncias acrescentaria ainda que seria blasfémia afirmá-lo; aqui porém não o é, pois estamos ainda longe das verdades das religiões, face às quais, ou melhor, graças às quais, temos ortodoxia e heresia, magnificat e blasfémia. O que é então esse grande abismo? E por é que ele anseia? Com a repetição da pergunta descobrimos mais uma vez a resposta, agora modulada: se não é uma cria perdida a ansiar pela mãe, então também não pode ser o próprio divino que se esconde. Estaria a ansiar por si mesmo, e nesse caso quase onanístico de amor sui não precisaria de nós que o reconduzíssemos a ele. O grande sábio grego, Plotino, transmite-nos que o Um se desfez devido a um acto de arrogância, mas mesmo que isso fosse verdade, que devido a esse pecado original por parte da própria divindade esta se tivesse tornado incapaz de restabelecer o seu círculo perfeito, longe mesmo assim estaríamos, e nada justificaria o facto de se ter refugiado dentro de cada um de nós apenas para voltar para próprio.

Dentro de nós há um imenso vazio. Podemos imaginá-lo como um grande túnel, de cujas trevas sai a enorme ânsia de ser preenchido. No fundo não há nada; ou, se preferirem, para me apropriar ilicitamente da linguagem dos místicos, no fundo desse infinito túnel está o nada. No momento da união mística o túnel deixa-se preencher pelo óleo de fogo do divino. Apercebemo-nos de que o fosso não ansiava em particular pelo divino, mas só que o divino, como o grande deus Thor, era o único capaz de aguentar, ainda que solamente por brevíssimos instantes, o líquido à superfície antes de escorrer para as profundezas, como água num tubo demasiado estreito para ela. Mas descer ela desce. O motivo pelo qual acedemos às exigências do fosso do nosso íntimo é porque entendemos que estamos simultaneamente a aceder àquilo que há de mais tenebroso e terrível sim, mas também mais nosso, e esse instante da exaustão corresponde a uma, talvez a última, obediência ao império de Delfos. Quanto ao divino, bem, não quero com isto dizer que é unicamente instrumentalizado e utilizado como um pretexto, mas o seu papel é certamente paragonável ao do açúcar no copo amargo do conhecimento de nós mesmos.

Sanctus Sanctus Sanctus Dominus Sabaoth
Sanctus Sanctus Sanctus Dominus Sabaoth
Sanctus Sanctus Sanctus Dominus Sabaoth

Quererá isto ao fim de contas significar uma recantação daquilo que fora dito em torno do conservadorismo das religiões e da especificidade de cada uma delas para a experiência mística, tudo em favor duma exaltação do misticismo anárquico contra o qual eu próprio avisara? Só se pensarmos que a forma é maior que a substância sem compreender que a experiência acima descrita é possível apenas no contexto de cada uma das fés e dos seus preceitos ou lassitudes. A anelação pela unio mystica sem a preparação concedida pelas técnicas tramandadas pela tradição é, como as histórias no-lo recordam constantemente e como a experiência no-lo testemunha, perigosa e possivelmente mortal. Fora isso, a situação acima descrita, embora tenha sempre de se enquadrar numa religião em específico, é finalmente aquilo que dá coerência lexical á palavra misticismo, e que permite que nos entendamos, venhamos seja de que tradição for e sendo cultores de ritos ou técnicas tão díspares como o sufismo ou os mistérios gregos. Tudo isto que disse pode ser também lido numa chave política.

Santo Santo Santo é o Senhor dos Exércitos
Santo Santo Santo é o Senhor dos Exércitos
Santo Santo Santo é o Senhor dos Exércitos

4.29.2015

Occhi miei, se mirar più [Monteverdi]



Occhi miei se mirar piu non debb'io.
La vostra luce a me tanto gradita.
Toglietemi la vita.

Se'l mio cor lasso abandonato resta
Dal tuo bel sol ond'havra lume e vita
Toglietemi la vita.

Se gia son di dolor empio ricetto
Ne pieta mi soccorre o porge aita
Toglietemi la vita.

Ma se pur vive ancor qualche speranza
Di riveder la luce gia smarrita
Conservatemi in vita.


Claudio Monteverdi. Tradução minha.


Olhos meus, se mais não posso olhar
A vossa luz que me é tão grata,
Levem de mim minha vida.

Se o meu coração cansado foi abandonado
Plo teu belo sol onde teria luz e vida,
Levem de mim minha vida.

Se me tornei num ímpio refúgio da dor
E nem piedade me acode ou dá ajuda,
Levem de mim minha vida.

Mas se vive ainda alguma esperança
De ver de novo a luz perdida
Sustenham a minha vida!

4.28.2015

Filosofia & Mythologia

Um caso paradigmático do bom uso do mito é o do Thomas Mann, que encarou o mito como um símbolo. Enquanto símbolo, o mito é capaz de se tornar transparente & de potenciar uma realidade à escolha a um nível inefável. Aquilo que o torna digno, aquilo que o torna num "Homem em tempos sombrios" (ein Mensch in finsteren Zeiten) é a escolha corajosa de ter tornado essa realidade simbólica em algo que é anti-irracional.

Não digo racional, pois isso iria essencialmente contra a escolha de a) o fazer por meio da literatura e b) de o fazer por meio de um símbolo, ou seja, de um mito. Mas anti-irracional porque escolheu fazer com que esse símbolo fosse uma contra-força contra si mesmo. Escolheu fazer do simbolizado uma resistência contra o mito propriamente dito. Assim o mito torna-se um acto de resistência, antes de mais política. A dignidade e a integridade da natureza humana são preservadas pelo facto de, precisamente por essa escolha dos meios (a literatura e o símbolo), ele estar implìcitamente a reconhecer o estatuto fundamental do elemento mítico no espírito humano.

Mas a transformação do mito em mitologia sabota o gesto totalitário & obscurantista, e concede-nos a possibilidade de auto-crítica, de profanação do mito, que de outra forma seria algo exclusivamente sagrado (e com o qual nos seria portanto permitido ligar através da adoração ou da violência — tanto uma como a outra destructivas, a uma de si mesmo, a outra de todos).

A transformação do mito em mitologia inaugura a possibilidade da discussão aberta dos pressupostos simbólicos da natureza humana ao mesmo tempo sem os fortalecer nem debilitar em excesso. Settembrini, o humanista da Montanha Mágica, triunfa inesperadamente, mas também José (de José e os Seus Irmãos) transforma-se no Providenciador (der Ernäher). A interpretação dos sonhos, comunicados por linguagem, traduz-se em conselhia política pautada pela mediação entre onirologia e sagacidade; não, urge dizê-lo, por vaticínio. Numa escala maior, a descida aos Infernos (Höllenfahrt, o primeiro capítulo do José e os seus irmãos) é contraposta ao Prólogo nos Graus Maiores (Vorspiel in oberen Rängen, o último).

O argumento final extrai-se da escolha propriamente dita dos argumentos dos romances, como seja o Fausto (no Doktor Faustus), São Gregório/Édipo (no Der Erwählte [O Eleito]), a lenda bíblica de José (em José e os Seus Irmãos). Face ao poder do mito entendeu que o melhor era encará-lo numa pose combativa, com as suas próprias armas: virar o mito racional contra o mito irracional, pois só o primeiro aceita o ser humano na sua natureza dupla, e antes de mais, só o primeiro lhe concede armas de auto-defesa e não o deixa exposto à manipulação — que é, especialmente quando aparenta ser meramente filosófica, ou artística, sempre e implacàvelmente manipulação política.

A ausência do tipo de coragem necessária para aceitar a razão como uma virtude, a disponibilidade para aceitar as trevas da inteligência como uma medalha de honra, tem sido uma constante no último século. Grandes culpados, embora não os únicos, são os nietzscheanos de confissão (que confundem força com idolatria, e estimam a fraqueza taoísta como algo condenável). A falência do projecto do Iluminismo, perpètuamente anunciada por quem tem interesse em que ela realmente aconteça, há muitos anos que tem trazido a destruição dos diques que a civilização construíra contra a barbárie. Mas não é inevitável. O Thomas Mann é um dos grandes archotes que poderá evitá-la.