não, pois eles ouvem bem
aquilo que acusas e pedes
não falam de volta pois têm
medo de nós:
daquilo que somos capaz,
da nossa alta virtude,
e mais da tua, sim, quietude
com que escreves
e apagas a ardósia
da alma, da metamorfose
da carne em titânica vela
(aquela que apagam no mar),
do facto que quando morremos
sofre mais o algoz
do que eu e tu.
sofre a água
na expectativa da barragem
sofre o músculo do espírito
quando o contraio
em teu nome.
repito o exercício
tantas vezes quantas os teus nomes.
ludibriados pelos gregos reduzimos
deuses à estatura dos homens. quanto
às mulheres, cresceram tanto
que se ficasses acordado
na vigília da noite,
se emudecesses a prece e o canto,
podias ouvir-nos a ocupar
o peristilo e o templo,
por fim o umbigo do mundo,
quiçá até mesmo
várias das ilhas.
mas cederam, uniram, partiram de novo.
e a cada alma deram do homem, da mulher,
e do deus deram o coração heróico,
ou velocidade,
ou uma cicatriz em forma de ombro de prata.
não serve como desculpa mas como dádiva
aceito.
eu sei que foi assim porque eu vi.
se caminhares a meu lado
podemos voltar lá e chamando
sᴇɴʜᴏʀ prestar contas
de todos os anos do mundo.
ou dando-me
as mãos salta para as
trevas,
não sabes o que lá há,
não se vê
nada,
mas também a vela,
que não leva a lado nenhum,
sempre que arde é por amor.
4.09.2015
3.31.2015
Primeira tarde em Atenas
A primeira tarde em Atenas
O poema do tempo passado
A segunda em Saloníca
O lamento da Santa Sofia
Se há algo que não se apaga
É a memória da minha alma
Uma luz em cada beco
Arde como uma vela
É isso que nunca muda
E na minha noite mais profunda
Acha lugar e lá festeja
A minha primeira alegria inteira
Esconde-se num negro papel
E empurra-me para que eu aprenda
Com as suas profundezas misteriosas
Nikos Xidakis. Tradução minha
Πρώτο βράδυ στην Αθήνα
Του παλιού καιρού το ποίημα
Δεύτερο στη Σαλονίκη
Της Αγια Σοφιάς η λύπη
Κάτι αν είναι που δε σβήνει
Είναι της ψυχής μου η μνήμη
Φως σε κάθε του δρομάκι
Αργοκαίει σαν καντηλάκι
Είναι αυτό που δεν αλλάζει
Και στην πιο βαθειά μου νύχτα
Βρίσκει τρόπο και γιορτάζει
Πρώτη μου χαρά γεμάτη
Κρύφτηκε σε μαύρο χάρτη
Και με σπρώχνει να μαθαίνω
Μες στα μυστικά του βάθη
3.29.2015
Um soneto a Orpheu do Rilke (I.11)
Olha para o céu. Não há uma constelação chamada 'O Cavaleiro'?
Pois isto está-se-nos estranhamente entranhado:
Este orgulho da terra. E um segundo
Que o esporeia o detém e o leva.
E não é ela assim, caçada e depois domesticada,
Esta tendinosa natureza do ser?
Via e viragem. Mas uma pressão justifica.
Novas extensões. E os dois são um.
Mas será que o são? Ou será que ambos não indicam
O caminho que percorrem em conjunto?
Sem nome já a mesa e o prado os separam.
Também das estrelas a ligação engana.
Mas que agora por uns instantes nos alegre
Crer na figura. Isso chega.
RM Rilke. Sonetos a Orpheu. I.11. Tradução minha.
Sieh den Himmel. Heißt kein Sternbild "Reiter"?
Denn dies ist uns seltsam eingeprägt:
dieser Stolz aus Erde. Und ein zweiter,
der ihn treibt und hält und den er trägt.
Ist nicht so, gejagt und dann gebändigt,
diese sehnige Natur des Seins?
Weg und Wendung. Doch ein Druck verständigt.
Neue Weite. Und die zwei sind eins.
Aber /sind/ sie's? Oder meinen beide
nicht den Weg, den sie zusammen tun?
Namenlos schon trennt sie Tisch und Weide.
Auch die sternische Verbindung trügt.
Doch uns freue eine weile nun,
der Figur zu glauben. Das genügt.
Pois isto está-se-nos estranhamente entranhado:
Este orgulho da terra. E um segundo
Que o esporeia o detém e o leva.
E não é ela assim, caçada e depois domesticada,
Esta tendinosa natureza do ser?
Via e viragem. Mas uma pressão justifica.
Novas extensões. E os dois são um.
Mas será que o são? Ou será que ambos não indicam
O caminho que percorrem em conjunto?
Sem nome já a mesa e o prado os separam.
Também das estrelas a ligação engana.
Mas que agora por uns instantes nos alegre
Crer na figura. Isso chega.
RM Rilke. Sonetos a Orpheu. I.11. Tradução minha.
Sieh den Himmel. Heißt kein Sternbild "Reiter"?
Denn dies ist uns seltsam eingeprägt:
dieser Stolz aus Erde. Und ein zweiter,
der ihn treibt und hält und den er trägt.
Ist nicht so, gejagt und dann gebändigt,
diese sehnige Natur des Seins?
Weg und Wendung. Doch ein Druck verständigt.
Neue Weite. Und die zwei sind eins.
Aber /sind/ sie's? Oder meinen beide
nicht den Weg, den sie zusammen tun?
Namenlos schon trennt sie Tisch und Weide.
Auch die sternische Verbindung trügt.
Doch uns freue eine weile nun,
der Figur zu glauben. Das genügt.
3.27.2015
O Japão e a necessidade do belo para a aprendizagem
Um sacerdote que faz um sermão deve ser belo. Afinal de contas, entendes muito melhor a profundidade dos seus ensinamentos se estiveres a olhar para a cara dele enquanto ele fala. Se os teus olhos vaguearem para outras coisas tendes a esquecer-te daquilo que acabaste de ouvir, de forma que uma face pouco atractiva acaba por te fazer sentires-te pecadora. Mas não quero falar disto. Talvez quando eu era jovem tenha escrito com excessiva leviandade sobre tudo isto, mas agora na minha idade a ideia do pecado tornou-se-me bastante assustadora.
Sei Shōnagon. O Livro da Almofada [30].
3.24.2015
a paixão grega (em grego antigo)
ἀνέγνων ποὺ τοῦς ἕλληνας τοὺς παλαίους νεκρολόγια ὅτι οὐκ ἐγράφοντο
ὁπότε τις τελευτηθείη μόνον τοὺς ἠρωτηκέναι ·
ἦ θυμοειδής;
ὅτε τις τελευτᾷ κἀγὼ ὁποίος ἦν ὁ θυμός σου ἐφίημι μεμαθηκέναι.
εἰ θυμὸν εἴχε περὶ τὰ καθολικά,
ὕδωρ,
μέλη,
περὶ τὴν δύναμιν τὴν ἐνίων πραγμάτων κινεῖσθαι ἐν τῷ χάει
περὶ τὸ σῶμα ἀπὸ τῶν κορυφῶν σωθὲν προπετές εἰς τὴν δόξαν
θυμὸν περὶ θυμόν,
ἆρ’ εἶχε;
καὶ μετὰ ταῦτα ἐμαυτὸν σκωπῶ ἆρ’ αὐτὸς θυμοειδὴς ἂν εἴην,
ἂν οἶος τ’ὦ ἑλληνιστὶ θανεῖν,
τίς θυμός;
τὰ μεγάλα θηρία τε ἄγρια κατόλλυται
τὰ μεγάλα ποιήματα ἀφανίζεται ἐν ταῖς μεγάλαις γλώσσαις ἀφανιζομέναις
ἄνδρες τε καὶ γυναῖκες σφάλλονται τὸ φέγγος
τῷ δανεισμῷ,
τοῖς πολιτικοῖς,
τοῖς ἐμπορικοῖς,
τοῖς χειρουργικοῖς,
σύμπλοκοι δάκτυλοι, ὑπάρχουσι δάκτυλοι ἐπίπνοοι ἐκ τῶν μενόντων χρημάτων
φρίσσοντα χρήματα εἰσβαίνοντα ἐκβαίνοντά τε
ἐκ τῶν δέκα ὡς ὀλίγοι οἱ δάκτυλοι πρὸς τοσαύτα
χρήματα τοῦ κόσμου
καὶ τί οὕτως ἐν τῷ κόσμῳ ὅ τι ἀποκρίνοιτο πρὸς τὸ ἐρώτημα τὸ ἑλληνικόν,
περιμένοι ὁ θυμὸς ἀπὸ καρπῶν ἔτι ζώντων ἐσθιομένων,
καὶ ἔπειτα ἅλατι τραχεῖ μέλος ποίοι βυρσευόμενον οὐλῇ,
λόγος φυσώμενος ἐπὶ τίνα κάμινον τίνι πνεύματι,
ὥστε ἐρωτῷτο τις, ἦ θυμοειδής;
ἀφέντων ἀπ’ἐμοῦ τὸ πέπερι, ἡ ζιγγίβερις, τὸ γαριφαλόδενδρον,
ἀναγέτω ἡ μουσική νὰ χορεύσω,
ὑγρός, ἀτελής,
παντὶ τῷ παλαιῷ τε καὶ καινῷ φωτὶ ληφθείς,
οἱ τυφλοί, οἱ μέτριοι, οἴμοι, εἴθε τοὐλάχιστον τὸν θυμὸν εὑρίσκοιμ' ἄν,
ἔνθα ἐμαυτὸν σφάλλοιμι,
τὸν ἑλληνικὸν θυμόν
Herberto Helder
ὁπότε τις τελευτηθείη μόνον τοὺς ἠρωτηκέναι ·
ἦ θυμοειδής;
ὅτε τις τελευτᾷ κἀγὼ ὁποίος ἦν ὁ θυμός σου ἐφίημι μεμαθηκέναι.
εἰ θυμὸν εἴχε περὶ τὰ καθολικά,
ὕδωρ,
μέλη,
περὶ τὴν δύναμιν τὴν ἐνίων πραγμάτων κινεῖσθαι ἐν τῷ χάει
περὶ τὸ σῶμα ἀπὸ τῶν κορυφῶν σωθὲν προπετές εἰς τὴν δόξαν
θυμὸν περὶ θυμόν,
ἆρ’ εἶχε;
καὶ μετὰ ταῦτα ἐμαυτὸν σκωπῶ ἆρ’ αὐτὸς θυμοειδὴς ἂν εἴην,
ἂν οἶος τ’ὦ ἑλληνιστὶ θανεῖν,
τίς θυμός;
τὰ μεγάλα θηρία τε ἄγρια κατόλλυται
τὰ μεγάλα ποιήματα ἀφανίζεται ἐν ταῖς μεγάλαις γλώσσαις ἀφανιζομέναις
ἄνδρες τε καὶ γυναῖκες σφάλλονται τὸ φέγγος
τῷ δανεισμῷ,
τοῖς πολιτικοῖς,
τοῖς ἐμπορικοῖς,
τοῖς χειρουργικοῖς,
σύμπλοκοι δάκτυλοι, ὑπάρχουσι δάκτυλοι ἐπίπνοοι ἐκ τῶν μενόντων χρημάτων
φρίσσοντα χρήματα εἰσβαίνοντα ἐκβαίνοντά τε
ἐκ τῶν δέκα ὡς ὀλίγοι οἱ δάκτυλοι πρὸς τοσαύτα
χρήματα τοῦ κόσμου
καὶ τί οὕτως ἐν τῷ κόσμῳ ὅ τι ἀποκρίνοιτο πρὸς τὸ ἐρώτημα τὸ ἑλληνικόν,
περιμένοι ὁ θυμὸς ἀπὸ καρπῶν ἔτι ζώντων ἐσθιομένων,
καὶ ἔπειτα ἅλατι τραχεῖ μέλος ποίοι βυρσευόμενον οὐλῇ,
λόγος φυσώμενος ἐπὶ τίνα κάμινον τίνι πνεύματι,
ὥστε ἐρωτῷτο τις, ἦ θυμοειδής;
ἀφέντων ἀπ’ἐμοῦ τὸ πέπερι, ἡ ζιγγίβερις, τὸ γαριφαλόδενδρον,
ἀναγέτω ἡ μουσική νὰ χορεύσω,
ὑγρός, ἀτελής,
παντὶ τῷ παλαιῷ τε καὶ καινῷ φωτὶ ληφθείς,
οἱ τυφλοί, οἱ μέτριοι, οἴμοι, εἴθε τοὐλάχιστον τὸν θυμὸν εὑρίσκοιμ' ἄν,
ἔνθα ἐμαυτὸν σφάλλοιμι,
τὸν ἑλληνικὸν θυμόν
Herberto Helder
3.23.2015
Angleterre — poema em cinco partes
Angleterre
I
ser possuído por vozes
ouvir passos lentos nos quartos vazios,
quando vais ver mudaram de divisão,
de metro, até de esquema de rima
ou largaram-no de todo. deixaram-te
livre, demoliram as paredes da casa.
não há penitência possível
que não passe por extradição. mas como fazer-te
falar? muitas vozes estrangeiras (ou então,
"muitas vozes", está melhor assim?) em contra-mão
que pedem auxílio. certamente não serei eu a ajudar.
há partes de mim que foram outros que inventaram
e que são de longe as melhores e de perto também.
II
A Holy King for a Holy People
à beira de rios elenquei os princípios da blasfémia.
primeiro falei, depois repeti, e por fim formulei
de forma a que todos conseguissem entender.
lá onde o rito se alivia por forçada convicção,
aí a palavra enviesada se endireita.
III
Lord Protector
o declínio e queda. sempre
o declínio e queda. deus
do céu, mas tu não te fartas?
IV
Benerabilis
eu venero quem acertou
nos temas dos seus livros:
quem diminuiu a história
e a pisou até sair o mosto,
com esse eu sento-me à mesa
com esse eu parto o meu pão.
V
Sob a colina
Melibeu, à sombra do choupo-branco sentado
Pedes-me um figo e pedes-me amor.
Mas como, se pra chegar até ti
Suplico de voz rouca
Aos alcaides das várias mansões da tua casa
Sem que me deixem entrar?
A palavra justa exagera,
Define pela negativa,
Vira-se do avesso
E apoia-se nela própria.
Dizê-la e respirar
É a mesma coisa e não se faz.
Melibeu, nunca te vi
Mas conheço a tua voz,
Sei como se esboroa com cada espondeu.
Melibeu, moira encantada,
Cala-te e não
Nos cantes mais.
I
ser possuído por vozes
ouvir passos lentos nos quartos vazios,
quando vais ver mudaram de divisão,
de metro, até de esquema de rima
ou largaram-no de todo. deixaram-te
livre, demoliram as paredes da casa.
não há penitência possível
que não passe por extradição. mas como fazer-te
falar? muitas vozes estrangeiras (ou então,
"muitas vozes", está melhor assim?) em contra-mão
que pedem auxílio. certamente não serei eu a ajudar.
há partes de mim que foram outros que inventaram
e que são de longe as melhores e de perto também.
II
A Holy King for a Holy People
à beira de rios elenquei os princípios da blasfémia.
primeiro falei, depois repeti, e por fim formulei
de forma a que todos conseguissem entender.
lá onde o rito se alivia por forçada convicção,
aí a palavra enviesada se endireita.
III
Lord Protector
o declínio e queda. sempre
o declínio e queda. deus
do céu, mas tu não te fartas?
IV
Benerabilis
eu venero quem acertou
nos temas dos seus livros:
quem diminuiu a história
e a pisou até sair o mosto,
com esse eu sento-me à mesa
com esse eu parto o meu pão.
V
Sob a colina
Melibeu, à sombra do choupo-branco sentado
Pedes-me um figo e pedes-me amor.
Mas como, se pra chegar até ti
Suplico de voz rouca
Aos alcaides das várias mansões da tua casa
Sem que me deixem entrar?
A palavra justa exagera,
Define pela negativa,
Vira-se do avesso
E apoia-se nela própria.
Dizê-la e respirar
É a mesma coisa e não se faz.
Melibeu, nunca te vi
Mas conheço a tua voz,
Sei como se esboroa com cada espondeu.
Melibeu, moira encantada,
Cala-te e não
Nos cantes mais.
3.19.2015
patri
En vérité, la prompte retraite de mon père m'avait gratifié d'un
"Œdipe" fort incomplet: pas de Sur-moi, d'accord, mais point
d'agressivité non plus. - Sartre
chora aquilo que não me podes dar, manhã negra, altar côr-de-vinho,
dom de cegueira fria, o queimar de incenso por mãos mortas de linho,
pois ambos sabemos que tudo o que puxa pela luz do crepúsculo
é algo que arde, pele-de-leopardo em costas alheias,
herdeiros que ficam– memórias da mente, atrofias do músculo
escritos patentes primeiras serpentes: essas eu sei,
as imensas manobras que voltam que viram que quebram
alertam pró dia que vem, aprovas as leis às loucas auroras
que ferem os olhos, que cortam as pernas, epístulas ébrias
do rei sob o monte, do ano vindouro, do deus que não tu;
ouvi que subiste a pirâmides sérias, mandaste um oráculo
às cortinas pregadas à tua janela, com o manto do mundo
cobri-me, falei com garganta de seda, honrando o fundo do corno,
o raio primeiro das garras da carne, do canibalismo do santo enchido
de voz; ousaste pedir-me os astros da noite, suspiro de iambo, a cópia
de mim, a mão que benzeu a poucas cabeças, o marco do fim,
relíquias de trevas sagradas, dum touro caído do tempo d'antanho
que sonho e fugi; esqueceste-me ainda a panóplia infinda
das tintas da vida, o choque da queda, o cancro que seca
o choro do golpe ao luar da dor que me afirma; ainda que tragas as velhas
promessas, o podre do sangue, a luz que até vê os trovões de terror,
animas o peito, acordas a lava, aqueces a mão que te esmaga
(2009)
chora aquilo que não me podes dar, manhã negra, altar côr-de-vinho,
dom de cegueira fria, o queimar de incenso por mãos mortas de linho,
pois ambos sabemos que tudo o que puxa pela luz do crepúsculo
é algo que arde, pele-de-leopardo em costas alheias,
herdeiros que ficam– memórias da mente, atrofias do músculo
escritos patentes primeiras serpentes: essas eu sei,
as imensas manobras que voltam que viram que quebram
alertam pró dia que vem, aprovas as leis às loucas auroras
que ferem os olhos, que cortam as pernas, epístulas ébrias
do rei sob o monte, do ano vindouro, do deus que não tu;
ouvi que subiste a pirâmides sérias, mandaste um oráculo
às cortinas pregadas à tua janela, com o manto do mundo
cobri-me, falei com garganta de seda, honrando o fundo do corno,
o raio primeiro das garras da carne, do canibalismo do santo enchido
de voz; ousaste pedir-me os astros da noite, suspiro de iambo, a cópia
de mim, a mão que benzeu a poucas cabeças, o marco do fim,
relíquias de trevas sagradas, dum touro caído do tempo d'antanho
que sonho e fugi; esqueceste-me ainda a panóplia infinda
das tintas da vida, o choque da queda, o cancro que seca
o choro do golpe ao luar da dor que me afirma; ainda que tragas as velhas
promessas, o podre do sangue, a luz que até vê os trovões de terror,
animas o peito, acordas a lava, aqueces a mão que te esmaga
(2009)
Cantus in memoriam Benjamin Britten (Arvo Pärt)
Cantus in memoriam Benjamin Britten (Arvo Pärt)
Ao ouvir-te lamentares-te
o teres só quase dado o primeiro passo na água
lembrei-me daquilo que a areia acrescenta à pele
quando por fim abandona
a esperança que o mar promete
e se decide pela terra. Há duas semanas
que tocamos "O Tema de Camille" sem interrupção.
Camille afogada?
Quando um ser humano se afoga
as guélreas desfazem-se num pó fino,
tão fino como a cinza do fogo.
Lançando-me contra o mar emproado
gritei os escolhos da justiça.
A areia colou-se aos meus pés.
Respirei fundo.
Lembrei-me da tabula rasa (parte dois).
Respirei fundo.
Ao ouvir-te lamentares-te
o teres só quase dado o primeiro passo na água
lembrei-me daquilo que a areia acrescenta à pele
quando por fim abandona
a esperança que o mar promete
e se decide pela terra. Há duas semanas
que tocamos "O Tema de Camille" sem interrupção.
Camille afogada?
Quando um ser humano se afoga
as guélreas desfazem-se num pó fino,
tão fino como a cinza do fogo.
Lançando-me contra o mar emproado
gritei os escolhos da justiça.
A areia colou-se aos meus pés.
Respirei fundo.
Lembrei-me da tabula rasa (parte dois).
Respirei fundo.
3.08.2015
3.03.2015
um poema
bem. nós
continuamos aqui,
não é? calados,
à espera. de ti,
de outro qualquer.
decidimos que não
interessa. vem,
ou não vem,
é igual.
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
continuamos aqui,
não é? calados,
à espera. de ti,
de outro qualquer.
decidimos que não
interessa. vem,
ou não vem,
é igual.
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
Subscrever:
Mensagens (Atom)
