ἀνέγνων ποὺ τοῦς ἕλληνας τοὺς παλαίους νεκρολόγια ὅτι οὐκ ἐγράφοντο
ὁπότε τις τελευτηθείη μόνον τοὺς ἠρωτηκέναι ·
ἦ θυμοειδής;
ὅτε τις τελευτᾷ κἀγὼ ὁποίος ἦν ὁ θυμός σου ἐφίημι μεμαθηκέναι.
εἰ θυμὸν εἴχε περὶ τὰ καθολικά,
ὕδωρ,
μέλη,
περὶ τὴν δύναμιν τὴν ἐνίων πραγμάτων κινεῖσθαι ἐν τῷ χάει
περὶ τὸ σῶμα ἀπὸ τῶν κορυφῶν σωθὲν προπετές εἰς τὴν δόξαν
θυμὸν περὶ θυμόν,
ἆρ’ εἶχε;
καὶ μετὰ ταῦτα ἐμαυτὸν σκωπῶ ἆρ’ αὐτὸς θυμοειδὴς ἂν εἴην,
ἂν οἶος τ’ὦ ἑλληνιστὶ θανεῖν,
τίς θυμός;
τὰ μεγάλα θηρία τε ἄγρια κατόλλυται
τὰ μεγάλα ποιήματα ἀφανίζεται ἐν ταῖς μεγάλαις γλώσσαις ἀφανιζομέναις
ἄνδρες τε καὶ γυναῖκες σφάλλονται τὸ φέγγος
τῷ δανεισμῷ,
τοῖς πολιτικοῖς,
τοῖς ἐμπορικοῖς,
τοῖς χειρουργικοῖς,
σύμπλοκοι δάκτυλοι, ὑπάρχουσι δάκτυλοι ἐπίπνοοι ἐκ τῶν μενόντων χρημάτων
φρίσσοντα χρήματα εἰσβαίνοντα ἐκβαίνοντά τε
ἐκ τῶν δέκα ὡς ὀλίγοι οἱ δάκτυλοι πρὸς τοσαύτα
χρήματα τοῦ κόσμου
καὶ τί οὕτως ἐν τῷ κόσμῳ ὅ τι ἀποκρίνοιτο πρὸς τὸ ἐρώτημα τὸ ἑλληνικόν,
περιμένοι ὁ θυμὸς ἀπὸ καρπῶν ἔτι ζώντων ἐσθιομένων,
καὶ ἔπειτα ἅλατι τραχεῖ μέλος ποίοι βυρσευόμενον οὐλῇ,
λόγος φυσώμενος ἐπὶ τίνα κάμινον τίνι πνεύματι,
ὥστε ἐρωτῷτο τις, ἦ θυμοειδής;
ἀφέντων ἀπ’ἐμοῦ τὸ πέπερι, ἡ ζιγγίβερις, τὸ γαριφαλόδενδρον,
ἀναγέτω ἡ μουσική νὰ χορεύσω,
ὑγρός, ἀτελής,
παντὶ τῷ παλαιῷ τε καὶ καινῷ φωτὶ ληφθείς,
οἱ τυφλοί, οἱ μέτριοι, οἴμοι, εἴθε τοὐλάχιστον τὸν θυμὸν εὑρίσκοιμ' ἄν,
ἔνθα ἐμαυτὸν σφάλλοιμι,
τὸν ἑλληνικὸν θυμόν
Herberto Helder
3.24.2015
3.23.2015
Angleterre — poema em cinco partes
Angleterre
I
ser possuído por vozes
ouvir passos lentos nos quartos vazios,
quando vais ver mudaram de divisão,
de metro, até de esquema de rima
ou largaram-no de todo. deixaram-te
livre, demoliram as paredes da casa.
não há penitência possível
que não passe por extradição. mas como fazer-te
falar? muitas vozes estrangeiras (ou então,
"muitas vozes", está melhor assim?) em contra-mão
que pedem auxílio. certamente não serei eu a ajudar.
há partes de mim que foram outros que inventaram
e que são de longe as melhores e de perto também.
II
A Holy King for a Holy People
à beira de rios elenquei os princípios da blasfémia.
primeiro falei, depois repeti, e por fim formulei
de forma a que todos conseguissem entender.
lá onde o rito se alivia por forçada convicção,
aí a palavra enviesada se endireita.
III
Lord Protector
o declínio e queda. sempre
o declínio e queda. deus
do céu, mas tu não te fartas?
IV
Benerabilis
eu venero quem acertou
nos temas dos seus livros:
quem diminuiu a história
e a pisou até sair o mosto,
com esse eu sento-me à mesa
com esse eu parto o meu pão.
V
Sob a colina
Melibeu, à sombra do choupo-branco sentado
Pedes-me um figo e pedes-me amor.
Mas como, se pra chegar até ti
Suplico de voz rouca
Aos alcaides das várias mansões da tua casa
Sem que me deixem entrar?
A palavra justa exagera,
Define pela negativa,
Vira-se do avesso
E apoia-se nela própria.
Dizê-la e respirar
É a mesma coisa e não se faz.
Melibeu, nunca te vi
Mas conheço a tua voz,
Sei como se esboroa com cada espondeu.
Melibeu, moira encantada,
Cala-te e não
Nos cantes mais.
I
ser possuído por vozes
ouvir passos lentos nos quartos vazios,
quando vais ver mudaram de divisão,
de metro, até de esquema de rima
ou largaram-no de todo. deixaram-te
livre, demoliram as paredes da casa.
não há penitência possível
que não passe por extradição. mas como fazer-te
falar? muitas vozes estrangeiras (ou então,
"muitas vozes", está melhor assim?) em contra-mão
que pedem auxílio. certamente não serei eu a ajudar.
há partes de mim que foram outros que inventaram
e que são de longe as melhores e de perto também.
II
A Holy King for a Holy People
à beira de rios elenquei os princípios da blasfémia.
primeiro falei, depois repeti, e por fim formulei
de forma a que todos conseguissem entender.
lá onde o rito se alivia por forçada convicção,
aí a palavra enviesada se endireita.
III
Lord Protector
o declínio e queda. sempre
o declínio e queda. deus
do céu, mas tu não te fartas?
IV
Benerabilis
eu venero quem acertou
nos temas dos seus livros:
quem diminuiu a história
e a pisou até sair o mosto,
com esse eu sento-me à mesa
com esse eu parto o meu pão.
V
Sob a colina
Melibeu, à sombra do choupo-branco sentado
Pedes-me um figo e pedes-me amor.
Mas como, se pra chegar até ti
Suplico de voz rouca
Aos alcaides das várias mansões da tua casa
Sem que me deixem entrar?
A palavra justa exagera,
Define pela negativa,
Vira-se do avesso
E apoia-se nela própria.
Dizê-la e respirar
É a mesma coisa e não se faz.
Melibeu, nunca te vi
Mas conheço a tua voz,
Sei como se esboroa com cada espondeu.
Melibeu, moira encantada,
Cala-te e não
Nos cantes mais.
3.19.2015
patri
En vérité, la prompte retraite de mon père m'avait gratifié d'un
"Œdipe" fort incomplet: pas de Sur-moi, d'accord, mais point
d'agressivité non plus. - Sartre
chora aquilo que não me podes dar, manhã negra, altar côr-de-vinho,
dom de cegueira fria, o queimar de incenso por mãos mortas de linho,
pois ambos sabemos que tudo o que puxa pela luz do crepúsculo
é algo que arde, pele-de-leopardo em costas alheias,
herdeiros que ficam– memórias da mente, atrofias do músculo
escritos patentes primeiras serpentes: essas eu sei,
as imensas manobras que voltam que viram que quebram
alertam pró dia que vem, aprovas as leis às loucas auroras
que ferem os olhos, que cortam as pernas, epístulas ébrias
do rei sob o monte, do ano vindouro, do deus que não tu;
ouvi que subiste a pirâmides sérias, mandaste um oráculo
às cortinas pregadas à tua janela, com o manto do mundo
cobri-me, falei com garganta de seda, honrando o fundo do corno,
o raio primeiro das garras da carne, do canibalismo do santo enchido
de voz; ousaste pedir-me os astros da noite, suspiro de iambo, a cópia
de mim, a mão que benzeu a poucas cabeças, o marco do fim,
relíquias de trevas sagradas, dum touro caído do tempo d'antanho
que sonho e fugi; esqueceste-me ainda a panóplia infinda
das tintas da vida, o choque da queda, o cancro que seca
o choro do golpe ao luar da dor que me afirma; ainda que tragas as velhas
promessas, o podre do sangue, a luz que até vê os trovões de terror,
animas o peito, acordas a lava, aqueces a mão que te esmaga
(2009)
chora aquilo que não me podes dar, manhã negra, altar côr-de-vinho,
dom de cegueira fria, o queimar de incenso por mãos mortas de linho,
pois ambos sabemos que tudo o que puxa pela luz do crepúsculo
é algo que arde, pele-de-leopardo em costas alheias,
herdeiros que ficam– memórias da mente, atrofias do músculo
escritos patentes primeiras serpentes: essas eu sei,
as imensas manobras que voltam que viram que quebram
alertam pró dia que vem, aprovas as leis às loucas auroras
que ferem os olhos, que cortam as pernas, epístulas ébrias
do rei sob o monte, do ano vindouro, do deus que não tu;
ouvi que subiste a pirâmides sérias, mandaste um oráculo
às cortinas pregadas à tua janela, com o manto do mundo
cobri-me, falei com garganta de seda, honrando o fundo do corno,
o raio primeiro das garras da carne, do canibalismo do santo enchido
de voz; ousaste pedir-me os astros da noite, suspiro de iambo, a cópia
de mim, a mão que benzeu a poucas cabeças, o marco do fim,
relíquias de trevas sagradas, dum touro caído do tempo d'antanho
que sonho e fugi; esqueceste-me ainda a panóplia infinda
das tintas da vida, o choque da queda, o cancro que seca
o choro do golpe ao luar da dor que me afirma; ainda que tragas as velhas
promessas, o podre do sangue, a luz que até vê os trovões de terror,
animas o peito, acordas a lava, aqueces a mão que te esmaga
(2009)
Cantus in memoriam Benjamin Britten (Arvo Pärt)
Cantus in memoriam Benjamin Britten (Arvo Pärt)
Ao ouvir-te lamentares-te
o teres só quase dado o primeiro passo na água
lembrei-me daquilo que a areia acrescenta à pele
quando por fim abandona
a esperança que o mar promete
e se decide pela terra. Há duas semanas
que tocamos "O Tema de Camille" sem interrupção.
Camille afogada?
Quando um ser humano se afoga
as guélreas desfazem-se num pó fino,
tão fino como a cinza do fogo.
Lançando-me contra o mar emproado
gritei os escolhos da justiça.
A areia colou-se aos meus pés.
Respirei fundo.
Lembrei-me da tabula rasa (parte dois).
Respirei fundo.
Ao ouvir-te lamentares-te
o teres só quase dado o primeiro passo na água
lembrei-me daquilo que a areia acrescenta à pele
quando por fim abandona
a esperança que o mar promete
e se decide pela terra. Há duas semanas
que tocamos "O Tema de Camille" sem interrupção.
Camille afogada?
Quando um ser humano se afoga
as guélreas desfazem-se num pó fino,
tão fino como a cinza do fogo.
Lançando-me contra o mar emproado
gritei os escolhos da justiça.
A areia colou-se aos meus pés.
Respirei fundo.
Lembrei-me da tabula rasa (parte dois).
Respirei fundo.
3.08.2015
3.03.2015
um poema
bem. nós
continuamos aqui,
não é? calados,
à espera. de ti,
de outro qualquer.
decidimos que não
interessa. vem,
ou não vem,
é igual.
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
continuamos aqui,
não é? calados,
à espera. de ti,
de outro qualquer.
decidimos que não
interessa. vem,
ou não vem,
é igual.
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
o deus de abraão
o deus de isaac
o deus de jacob
2.18.2015
Hegira
I can prolong the act at times,
to rival Augustine...
GH
GH
largas em mim as vastidões desertas
largas em nós as tuas palavras
em nome do deus clemente e misericordioso
em nome do deus clemente e misericordioso
és a memória da noite de dia
frio como as mãos frias dum poço que espera
quem beba, que repete o teu nome e as tuas palavras
em nome do deus clemente e misericordioso
quando erro no deserto erras tu à procura
de onde esconder minha falha
de escavar tuas mãos ficam secas e gretam
a areia resiste ao teu sopro misericordioso
em nome do deus clemente e misericordioso
em nome do deus clemente e misericordioso
em nome do deus clemente que sopra
nos teus olhos areia e nos seus
que cega e que queima e que seca.
não vês, nem queres. no vento
estás nu. são anjos os grãos que te picam.
12.17.2014
dein theologischer Typ, so ein abgefeimter Erzvogel, der auf die Spekulation spekuliert
Ich: [...] »Ihr verlaßt euch darauf, daß der Stolz mich an der zur Rettung notwendigen Zerknirschung hindern wird und stellt dabei nicht in Rechnung, daß es eine stolze Zerknirschung gibt. Die Zerknirschung Kains, der der festen Meinung war, seine Sünde sei größer, als daß sie ihm je verziehen werden möchte. Die contritio jede Hoffnung und als völliger Unglaube an die Möglichkeit der Gnade und Verzeihung, als die felsenfeste Überzeugung des Sünders, er habe es zu grob gemacht, und selbs die unendliche Güte reiche nicht aus, seine Sünde zu verzeihen, — erst das ist die wahre Zerknirschung, und ich mache euch darauf aukmerksam, daß sie der Erlösung am allernächsten, für die Güte am allerunwiderstehlichsten ist. Ihr werdet zugeben, daß der alltäglich-mäßig der Gnade nur mäßig interessant sein kann. In seinem Fall hat der Gnadenakt wenig Impetus, er ist nur eine matte Betätigung. Die Mittelmäßigkeit führt überhaupt kein theologisches Leben. Eine Sündhaftigkeit, so heillos, daß sie ihren Mann von Grund aus am Heile verzweifeln läßt, ist der wahrhaft theologische Weg zum Heil.
Er: »Schlaukopf! Und woher will deinesgleichen die Einfalt nehmen, die naive Rückhaltlosigkeit der Verzweiflung, die die Voraussetzung wäre für diesen heillosen Weg zum Heil? Es ist dir nicht klar, daß die bewußte Spekulation auf den Reiz, den große Schuld auf die Güte ausübt, dieser den Gnadenakt nun schon aufs äußerste unmöglich macht?«
Ich: »Und doch kommt es erst durch dies Non plus ultra zur höchsten Steigerung der dramatisch-theologischen Existenz, das heißt: zur verworfensten Schuld und dadurch zur letzten und unwiderstehlichsten Herausforderung an die Unendlichkeit der Güte.«
Er: »Nicht schlecht. Wahrlich ingeniös. Und nun will ich dir sagen, daß genau Köpfte von deiner Art die Population der Hölle bilden. Es ist nicht so leicht, in die Holle zu kommen; wir litten längst Raummangel, wenn Hinz und Kunz hineinkämen. Aber dein theologischer Typ, so ein abgefeimter Erzvogel, der auf die Spekulation spekuliert, weil er das Spekulieren schon von Vaters Seite im Blut hat, — das müßte mit Kräutern zugehen, wenn der nicht des Teufels wär.«
Thomas Mann. Doktor Faustus. Fischer Verlag (2008) 331-332
Thomas Mann. Doktor Faustus. Fischer Verlag (2008) 331-332
12.15.2014
Considerações contraditórias sobre milagres
Τὸ Θάμα κουτουλάει τὴν πραγματικότητα, ἀνοίγει τρύπα καὶ μβαίνε.
Kazantzakis. "Relato ao 'El Greco'". Tradução minha
G.K. Chesterton, "The Blue Cross"
O milagre atira-se contra a realidade, abre uma fenda, e passa.
Kazantzakis. "Relato ao 'El Greco'". Tradução minha
The most incredible thing about miracles is that they happen. A few clouds in heaven do come together into the staring shape of one human eye. A tree does stand up in the landscape of a doubtful journey in the exact and elaborate shape of a note of interrogation. I have seen both these things myself in the last few days. Nelson does die in the instant of victory; and a man named Williams does quite accidentally murder a man named Williamson; it sounds like a sort of infanticide. In short, there is in life an element of elfin coincidente which people reckoning on the prosaic may perpetually miss. As it has been well expressed in the paradox of Poe, wisdom should reckon on the unforeseen.
G.K. Chesterton, "The Blue Cross"
12.13.2014
Selanik
Criança turca espreita para o fotógrafo escondida atrás dum túmulo islâmico em Selanik, aka Thessaloniki. 1915.
Menos de 10 anos mais tarde toda a população turca virá a ser expulsa de Selanik (por meio de acordos bárbaros que expulsaram também a população grega das suas terras ancestrais na Anatólia). Numa cidade onde em tempos conviveram judeus cristãos e muçulmanos (a 'Jerusalém dos Balcãs') resta apenas um único túmulo muçulmano, o monumento a um santo dervish que foi poupado à destruição porque foi apropriado pela associação de amigos do clube de futebol do bairro, e que hoje está abandonado, supostamente fechado a correntes mas com garrafas de cerveja partidas pelo meio do chão.
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