Jan Svankmajer (1966)
8.03.2014
8.02.2014
Facas
«Of course he has a knife, he always has a knife, we all have knives! It's 1183 and we are barbarians! How clear we make it. Oh, my piglets, we are the origins of war: not history's forces, nor the times, nor justice, nor the lack of it, nor causes, nor religions, nor ideas, nor kinds of government, nor any other thing. We are the killers. We breed wars. We carry it like syphilis inside. Dead bodies rot in field and stream because the living ones are rotten. For the love of God, can't we love one another just a little? That's how peace begins. We have so much to love each other for. We have such possibilities, my children. We could change the world.»
Anthony Harvey. The Lion at Winter (1968)
7.25.2014
Vergílio contra o mundo
perdoar-te o quereres começar
aquilo que já existia
a água que bate na praia
as costas adonde se chega;
perdoar-te ainda
do destino a gaita de foles
dos tiranos heróicos as palavras inteiras
o saco de ar quente que foste:
rebentaste nas silvas mordazes,
o meu sangue bateste-o nas eiras.
salva-se saberes que é nos mortos
que se dobra ao meio a viagem
como a casca dum ovo partido
que se bate e mistura a semente,
o centro plos raios se espalha
o passado futuro se torna, e o futuro
não é mais necessário
(e afinal profecias é isto).
sabias o que era o que fora e aquilo que um dia seremos.
tu emudecias os mortos.
por isso perdoamos talvez,
se houver talvez no perdão,
até porque dizem
que por vezes ficavas
triste sem no-lo dizeres.
mas nunca escreveste elegias
e isso eu não to desculpo.
a fúria gerou-te
gerou-te a vontade
e a santa birra de Jove.
e nunca escreveste elegias.
aquilo que já existia
a água que bate na praia
as costas adonde se chega;
perdoar-te ainda
do destino a gaita de foles
dos tiranos heróicos as palavras inteiras
o saco de ar quente que foste:
rebentaste nas silvas mordazes,
o meu sangue bateste-o nas eiras.
salva-se saberes que é nos mortos
que se dobra ao meio a viagem
como a casca dum ovo partido
que se bate e mistura a semente,
o centro plos raios se espalha
o passado futuro se torna, e o futuro
não é mais necessário
(e afinal profecias é isto).
sabias o que era o que fora e aquilo que um dia seremos.
tu emudecias os mortos.
por isso perdoamos talvez,
se houver talvez no perdão,
até porque dizem
que por vezes ficavas
triste sem no-lo dizeres.
mas nunca escreveste elegias
e isso eu não to desculpo.
a fúria gerou-te
gerou-te a vontade
e a santa birra de Jove.
e nunca escreveste elegias.
6.29.2014
Santo Agostinho sobre as pessoas que têm uma opinião sobre o Acordo Ortográfico.
Vide Dominus Deus, et patienter, ut vides, vide, quomodo diligenter observent filii hominum pacta litterarum et syllabarum accepta a prioribus locutoribus et a te accepta æterna pacta perpetuæ salutis neglegant, ut qui illa sonorum vetera placita teneat aut doceat, si contra disciplinam grammaticam sine aspiratione primæ syllabæ hominem dixerit, magis displiceat hominibus, quam si contra tua præcepta hominem oderit, quum sit homo.
Vê Senhor Deus, com a paciência que é a tua, com quanto cuidado os filhos dos homens cuidam dos preceitos que regem letras e sílabas transmitidos por aqueles falantes que viveram antes deles, ao mesmo tempo que descuram dos preceitos eternos da perpétua salvação que de ti receberam. Se alguém que aprendeu ou que ensina a antiga maneira de escrever, se por acaso disser à revelia das leis da gramática a palavra 'Homem' sem a aspiração inicial, será odiado pelos outros homens bem mais do que se, contra os teus preceitos, sendo homem odiar outro homem.
Confissões I.29. Tradução minha.
6.04.2014
mãos cansadas de cavar
Vão-se os dedos, ficam as mãos
que os levavam à cara, esmagadas
pelo peso da própria pele dobrada
sobre a pele como uma renascentista túnica.
Sei que também eu mudei de roupa, da mesma
forma que mudei de pecados ou os troquei
por verso livre. Não sejas assim perverso
para com o teu império, o domínio
dos outonos habituou-te a desprezares
tudo que não incluísse humor. A verdade
é que a internet, não sendo uma clareira,
tem toda a razão. Queres salvação? Tudo é,
Dizia, tudo é santo, inclusive as mãos
que já lavaste. Estás de fora, separado,
Lavas as mãos de certezas, do sangue
dos teus amigos, das rugas, das linhas
da vida, das da morte, das telefónicas,
e jamais morrerás mas jamais falarás
com outra pessoa outra vez. Nem chamarás
ninguém sem antes reservares um quarto
nas muitas cidades onde ainda podes fazer
isso e amor sem perigo de que resolvas
acidentalmente algum enigma. As pessoas,
e nisso eu e tu estamos de acordo e podemos
falar francamente um com o outro, são
como peixes que de noite mudam de escamas
e de dia nadam sem elas. São quentes
como a lã espanhola que lavei em tinta
Azul. Não vale a pena avaliá-la com certeza.
Sem certezas quanto às mãos que esfregam,
pinto sem distinção mãos e iluminuras
e cidades. Mãos não pintam, mas mãos mortas.
que os levavam à cara, esmagadas
pelo peso da própria pele dobrada
sobre a pele como uma renascentista túnica.
Sei que também eu mudei de roupa, da mesma
forma que mudei de pecados ou os troquei
por verso livre. Não sejas assim perverso
para com o teu império, o domínio
dos outonos habituou-te a desprezares
tudo que não incluísse humor. A verdade
é que a internet, não sendo uma clareira,
tem toda a razão. Queres salvação? Tudo é,
Dizia, tudo é santo, inclusive as mãos
que já lavaste. Estás de fora, separado,
Lavas as mãos de certezas, do sangue
dos teus amigos, das rugas, das linhas
da vida, das da morte, das telefónicas,
e jamais morrerás mas jamais falarás
com outra pessoa outra vez. Nem chamarás
ninguém sem antes reservares um quarto
nas muitas cidades onde ainda podes fazer
isso e amor sem perigo de que resolvas
acidentalmente algum enigma. As pessoas,
e nisso eu e tu estamos de acordo e podemos
falar francamente um com o outro, são
como peixes que de noite mudam de escamas
e de dia nadam sem elas. São quentes
como a lã espanhola que lavei em tinta
Azul. Não vale a pena avaliá-la com certeza.
Sem certezas quanto às mãos que esfregam,
pinto sem distinção mãos e iluminuras
e cidades. Mãos não pintam, mas mãos mortas.
6.02.2014
Pensamentos sobre a Páscoa («und bereiteten das Osterlamm»)
Uma continuação atrasada deste texto: Elogio do Pharaóh.
A questão que coloco aos Cristãos é a seguinte: sê-lo-íeis se Cristo não houvesse ressuscitado? Se não houvesse as cantilenas do três vezes santo, Hosanna, Hosanna, Cristo Ressuscitou, alethôs anésthe, nem nada disso. O que é para vós o Cristo? É a redenção pelo sacrifício? É a salvação de nós pelo sangue dele? O Filho do Homem sentado à direita do Pai. Mas e se assim não fosse? Se o Cristo fosse realmente aquilo e apenas aquilo que vós mesmo dissestes, se as mulheres houvessem chegado ao seu sepulchro naquela manhã de Domingo e houvessem chorado e houvessem vertido unguentos e à distância uma figura vestida de branco tivesse também ela vertido inconsoladas lágrimas? Se não houvesse salvação, se não houvesse sequer certeza de que a Morte virá um dia a ser destruída, se a fortaleza do Senhor subitamente não fosse mais inexpugnável? Se o Príncipe das Trevas eternamente lançasse o seu esgar sorrindo na direcção dos céus. Seríeis ainda assim Cristãos?
Se Cristo fosse nada
mais que um homem. Ou melhor ainda, se Cristo fosse Deus tornado homem, mas as
heresias fossem demasiado certas e, tornando-se homem, se tivesse tornado
completamente homem, sem qualquer resquício de divindade, e sem que as palavras
Santas saindo dos seus lábios fossem por quem quer que seja ouvidas. Se tivesse
feito o Bem, tivesse sofrido da forma mais atroz possível, tivesse morrido. Se
a história fosse apenas isso. Seríeis ainda assim Cristãos?
A beleza pura, o
derrotado Bem do Cristianismo está nisso. É uma beleza que não existe mais
quando o pó e o sangue se confundem com o ouro e com o incenso. A grandeza do
Cristianismo, o Tao do Cristianismo, está na capacidade profundamente humana
como derrotou os pagãos: derrotou os estóicos pois do grande Deus fez um homem.
E sancionou a Lei da Stôa com um sacrifício excessivamente santo. O Cristo foi o primeiro que
entendeu verdadeiramente a grande lei grega, que recebeu o ensinamento
modificando-o: já não 'aprender pelo sofrimento', mas apenas 'pelo sofrimento'.
A grande diferença sendo que já não é algo decretado pelo grande cosmos mas sim
por alguém que, pregado a uma cruz, morre segundo a sua própria Lei. No seu
sangue diliu-se o paradoxo de Eutifronte.
O grande erro jaz no
instante em que julgamos que o sofrimento irá resultar nalguma coisa. Nietzsche
entendeu-o, é o Grande Ressentimento. Dizemos nós: Sofremos para. Sofreu por. É o pensamento
mais abjecto que uma mente humana alguma vez concebeu: a verdade é que o sofrimento
não serve para nada, e enoja-me quem às vítimas se refere nesses termos. A
história da Igreja nada mais é que a recapitulação dos theológos de
Job: dando sentido ao sofrimento pela vida eterna, pelos vindouros, pela glória
de Deus. Deus, como Diana Soberana dos Vales, não se compraz com o sofrimento
alheio: jamais alguém que sofreu o que ele sofreu poderia desejar a outrem que
sofresse da mesma forma. Não há glória na dor.
O verdadeiro atheísmo ama a Deus. Ama a Deus porque ama a humanidade, cada homem e mulher individualmente, e Deus fez-se homem. Aqui é força ouvir: fez-se homem. Não temporariamente, não esporadicamente, mas fez-se homem. Deus foi um homem. Esse homem morreu, e Deus com ele, porque ele. Continuamos a amá-lo. Da sua morte, como da morte dum amigo, a morte dum irmão, nada poderá vir de bom. A última coisa que poderia dela advir seria a nossa redenção: quem aceitaria salvar-se à custa do sacrifício mortal do nosso irmão? (Essa pessoa não mereceria salvar-se.) Nós não podemos aceitar essa redenção, mesmo que se desse: temos que recusar até mesmo a sua possibilidade. Aceitá-la seria aceitar, seria querer a morte do Cristo. Eu não a quero. Foi gratuita, malvada, cruel. Com Maria Madalena, com Maria mãe de Tiago, e com Salomé também eu choro, é só e basta. Mas ser Cristão certamente não será nada isso.
O verdadeiro atheísmo ama a Deus. Ama a Deus porque ama a humanidade, cada homem e mulher individualmente, e Deus fez-se homem. Aqui é força ouvir: fez-se homem. Não temporariamente, não esporadicamente, mas fez-se homem. Deus foi um homem. Esse homem morreu, e Deus com ele, porque ele. Continuamos a amá-lo. Da sua morte, como da morte dum amigo, a morte dum irmão, nada poderá vir de bom. A última coisa que poderia dela advir seria a nossa redenção: quem aceitaria salvar-se à custa do sacrifício mortal do nosso irmão? (Essa pessoa não mereceria salvar-se.) Nós não podemos aceitar essa redenção, mesmo que se desse: temos que recusar até mesmo a sua possibilidade. Aceitá-la seria aceitar, seria querer a morte do Cristo. Eu não a quero. Foi gratuita, malvada, cruel. Com Maria Madalena, com Maria mãe de Tiago, e com Salomé também eu choro, é só e basta. Mas ser Cristão certamente não será nada isso.
5.23.2014
A ti te reconheço meu Senhor
Serei digno de apenas pronunciar-te,
Ou resvalando os lábios plo teu nome,
Passando o fio santo que os consome,
Carnais hão-de pecar em só chamar-te?
Quem dera que não errasse em ser teu filho
E alegre recebesse a tua graça
E como o caçador que absolve a caça
Me ouvisses contristado um estribilho.
Sou teu, que posso eu sequer dizer-te?
A ti te reconheço meu Senhor.
Em nada te acrescento; o meu amor
Não pode adiantar-te ou comover-te.
Aqui estão os meus fins nas tuas mãos.
Ensina-me os meus sins com os teus nãos.
Ou resvalando os lábios plo teu nome,
Passando o fio santo que os consome,
Carnais hão-de pecar em só chamar-te?
Quem dera que não errasse em ser teu filho
E alegre recebesse a tua graça
E como o caçador que absolve a caça
Me ouvisses contristado um estribilho.
Sou teu, que posso eu sequer dizer-te?
A ti te reconheço meu Senhor.
Em nada te acrescento; o meu amor
Não pode adiantar-te ou comover-te.
Aqui estão os meus fins nas tuas mãos.
Ensina-me os meus sins com os teus nãos.
Nó. Daniel Jonas, Assírio & Alvim (2014).
5.22.2014
«o primeiro tema da reflexão grega é a justiça»
eu não quero a Grécia
da Sophia, reflectida
na luz gloriosa dos céus,
intacta e cheia da esperança
do dórico eterno sorriso ·
não é diferente da Grécia
dos filólogos, dos Estudos
Clássicos, dos aparatos,
das concordâncias, da espiral
crescente do saber
e do esquecimento daquelas
perguntas · nessas Grécias
jamais um vagabundo mal-cheiroso
pela primeira vez perguntou
o que era a Justiça
e não obteve resposta.
da Sophia, reflectida
na luz gloriosa dos céus,
intacta e cheia da esperança
do dórico eterno sorriso ·
não é diferente da Grécia
dos filólogos, dos Estudos
Clássicos, dos aparatos,
das concordâncias, da espiral
crescente do saber
e do esquecimento daquelas
perguntas · nessas Grécias
jamais um vagabundo mal-cheiroso
pela primeira vez perguntou
o que era a Justiça
e não obteve resposta.
5.20.2014
pássaros
por vezes as pessoas falam e dizem
palavras justas. não é sempre
pois passam dias sem que isso aconteça
mas quando o fazem os pássaros dançam
formas estranhas no ar
que só podem ser vistas de cima. olhamos
para eles, e para nós são como um sólido
desenhado numa folha bidimensional. a grandeza
reduzida a um esquema, o grande volume
capaz de conter em si todo o amor
limitado aos cantos duma folha.
mas quem está por cima, as nuvens, os deuses,
os outros pássaros, olham em profundidade
e aceitam ver os sinais. a vida não muda,
um signo segue-se a um outro, e melhor
não fica o mundo, mas obrigado Senhor
por essas tuas palavras que falas
depois que também tu aprendeste
a linguagem das aves
e foste uma delas.
palavras justas. não é sempre
pois passam dias sem que isso aconteça
mas quando o fazem os pássaros dançam
formas estranhas no ar
que só podem ser vistas de cima. olhamos
para eles, e para nós são como um sólido
desenhado numa folha bidimensional. a grandeza
reduzida a um esquema, o grande volume
capaz de conter em si todo o amor
limitado aos cantos duma folha.
mas quem está por cima, as nuvens, os deuses,
os outros pássaros, olham em profundidade
e aceitam ver os sinais. a vida não muda,
um signo segue-se a um outro, e melhor
não fica o mundo, mas obrigado Senhor
por essas tuas palavras que falas
depois que também tu aprendeste
a linguagem das aves
e foste uma delas.
5.19.2014
A Morte de Marat
The Horatii established [Jacques Louis] David as one of the leaders of the national life. Thenceforward his pictures had the public importance of manifestos. It was a position to which unfortunately several artists since the time of Raphael had aspired but none had achieved in anything like the same degree. David realised the dream which has proved fatal to so many painters of mediocre talent, and even those of real accomplishment such as Diego Rivera and Orozco — the dream that a painter can use his art to influence men's conduct. [...]
The Marat Assassiné is, to my mind, the greatest political picture ever painted. It is almost the only justification of the popular belief that an event which has aroused public emotion may immdiately become the subject of a work of art. Pictorially this was a triumph for the classic discipline. David, who was in the habit of pondering every detail, had to paint with great speed, yet the whole design has an air of concentration and finality which is usually the result of prolongued elimination. David's classical training also enabled him to strike a perfect bargain with 'the ideal'. The figure, no less than the wooden box and the trompe l'œil papers, gives the impression of absolute truth, even though we know that Marat's face and body were ravaged by disease which David dared not represent.
The Death of Marat has a special interest for us today. It proves that totalitarian art must be a form of classicism: the State which is founded on order and subordination demands an art with a similar basis. Romantic painting, however popular, expresses the revolt of the individual. The State also requires an art of reason by which appropriate works may be produced as required. Inspiration is outside state control. The classic attitude towards subject matter — that it should be clear and unequivocal — supports the attitude of unquestioning belief. Add the fact that totalitarian art must be real enough to please the ignorant, ideal enough to commemorate a national hero, and well enough designed to present a memorable image, and one sees how perfectly The Death of Marat fills the bill. That it happens also to be a great work of art makes it dangerously misleading.
Kenneth Clark. The Romantic Rebelion: Romantic versus Classical Art. John Murray (1973).
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