11.21.2010

Apolo Primitivo

Assim como às vezes através dos ramos
inda sem folhas, a manhã espreita
já toda em primavera: assim na sua fronte
nada há que impedir possa que o fulgor

de todos os poemas venha a ferir-nos
quase de morte; pois não há inda sombra
no olhar; a fronte, fresca de mais, não pede louros,
e só mais tarde se lhe elevará

das sobrancelhas o alto rosal
cujas pétalas, soltas e dispersas,
flutuarão sobre o tremor da boca

que agora inda está calma, e brilhante e nova,
e a beber só gota a gota com o sorriso
como se lhe instilassem o cantar.


RilkePaulo Quintela (trad). Ediçõs Asa.




Este é a lembrar a conversa com o João, a Tatiana, e o Zé, precisamente sobre isto, precisamente sobre este poeta. Por vezes a literatura ousa um círculo.

dolce ne la memoria #1

Romanza

Doce na memória
eleva-se a visão.
Sobre o Aventino ardia
lentamente o dia: uma glória

como se de rosas brancas
vertia o céu nas colinas
e cobria com a neve
mole todas as coisas.

Por baixo nuvens ténues
escorriam do rio:
pareciam, na luz ambígua,
riachos volúveis

que traziam nas suas manhas
navios fabulosos.
Diante, grandes e vermelhos
por entre ciprestes, os palácios

sobre as colinas imperiais
pareciam arder com fechados
fogos. Com um confuso
rumor profundo igual,

ruídos de obras humanas
ouviam-se da margem
vizinha; em Santa Sabina
guinchavam os sinos.

A paz serena,
a pia paz que amava
nos teus suaves céus,
ó Cláudio de Lorena,

estendia-se no ocaso,
chovia na alma esquecimento.
Vencido foi o meu ser
por aquele fascínio, e invadido,

e por completo daquele recente
prazer ainda cheio
(ó como, doce senhora,
era ardente a tua boca!),

ao alto ao alto, suspiro,
se lançava, esgotadas todas as guerras.
E parecia como que a terra
iluminasse o céu.


Romanza

Dolce ne la memoria
quella vista si leva.
Su l’Aventino ardeva
lento il giorno: una gloria

come di bianche rose
versava il ciel su ’l colle
e copría de la molle
neve tutte le cose.

A ’l pian nebbie leggere
si spandeano da ’l fiume:
parean, ne ’l dubbio lume,
volubili riviere

traenti in loro ambagi
favolosi navigli.
Dietro, grandi e vermigli
tra i cipressi i palagi

su ’l colle imperiale
parean arsi da chiusi
fochi. In un sol confusi
romor profondo eguale,

suoni d’opere umane
salían da la vicina
ripa; a Santa Sabina
squillavan le campane.

Una pace serena,
la pia pace che amavi
ne’ tuoi cieli soavi,
o Claudio di Lorena,

si spandea ne l’occaso,
piovea su’ cuori oblío.
Vinto l’essere mio
da quel fascino e invaso,

tutto de la recente
voluttà pieno ancora
(come, o dolce signora,
la tua bocca era ardente!),

all’alto all’alto, anélo,
tendea, spenta ogni guerra.
E parea che la terra
illuminasse il cielo.

d'Annunzio
tradução minha

11.17.2010

Vacas

Cows, de TS Eliot. (um poema com uma história especial)

Of all the beasts that God allows
In England’s green and pleasant land,
I most of all dislike the Cows:
Their ways I do not understand.
It puzzles me why they should stare
At me, who am so innocent;
Their stupid gaze is hard to bear —
It’s positively truculent.
I’m very inconspicuous
And scarlet ties I never wear;
I’m not a London Transport Bus,
And yet at me they always stare.
You may reply, to fear a Cow
Is Cowardice the rustic scorns;
But still your reason must allow
That I am weak, and she has horns.
But most I am afraid when walking
With country dames in brogues and tweeds,
Who will persist in hearty talking
And stopping to discuss the breeds.
To country people Cows are mild,
And flee from any stick they throw;
But I’m a timid town bred child,
And all the cattle seem to know.
But when in fields alone I stroll,
Oh then in vain their horns are tossed,
In vain their bloodshot eyes they roll —
Of me they shall not make their boast.
Beyond the hedge or five-barred gate,
My sober wishes never stray;
In vain their prongs may lie in wait,
For I can always run away!
Or I can take sanctuary
In friendly oak or apple tree.

11.15.2010

"I'm convinced your good nuns believed what they preached to you, but faith mustn't ever be more than an hour old! That's the point!"

Herr Musil

11.09.2010

Amo-te: a última palavra

Adorável é o traço fútil de uma fadiga, que é a fadiga da linguagem. De palavra em palavra, afadigo-me em experimentar diversamente o que é próprio da minha Imagem, impropriamente o que é próprio do meu desejo: viagem no termo da qual a minha filosofia última não pode deixar de reconhecer --e de praticar-- a tautologia. É adorável o que é adorável. Ou ainda: adoro-te porque és adorável, amo-te por te amo. O que assim encerra a linguagem de amor é exactamente o mesmo que a instituiu: o fascínio. Pois descrever o fascínio não poderá afinal ultrapassar este enunciado: "estou fascinado". Atingido o termo da linguagem, onde não é permitido repetir senão a última palavra, à maneira de um disco riscado, satisfaço-me com a sua afirmação: não será a tautologia este estranho estado onde se encontrou, confundidos todos os valores, o glorioso final da operação lógica, o obsceno do disparate e a explosão do sim nietzschiano?

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso

quand je suis enamoré je ne parle que français


10.31.2010

Trevas e não Luz

Ai daqueles que desejam ver o dia do Senhor!
Que será para vós o dia do Senhor?
Trevas e não luz.

Como aquele que escapa de um leão,
mas dá de encontro com um urso;
ou que volta para casa,
mas ao tocar com a mão na parede é mordido pela serpente,

sim, o dia do Senhor será trevas e não claridade,
escuridão, e não luz.

Aborreço as vossas festas; elas desgostam-me;
não sinto gosto algum nos vossos cultos;

quando me ofereceis holocaustos e ofertas,
não encontro neles prazer algum,
e não faço caso dos vossos sacrifícios e animais cevados.

Longe de mim o ruído dos vossos cânticos,
não quero mais ouvir a música das vossas harpas;

mas, antes, que jorre a equidade como uma fonte
e a justiça como uma torrente que não seca.

Amós 5.18-24. Editorial Missões.

The lion hath roared

The lion hath roared, who will not fear?
the Lord GOD hath spoken, who can but prophesy?

Amos 3:8, KJV

10.29.2010

Fala-me da Morte e de Veneza

— De lá o homem parte e cavalga três dias entre o gregal e o Levante… — recomeçava Marco, e a enumerar nomes e costumes e comércios de um grande número de terras. O seu repertório podia dizer-se inesgotável, mas agora foi a sua vez de se render. Era de madrugada quando disse: — Sire, já te falei de todas as cidades que conheço.
— Falta uma de que nunca falas.
Marco Polo baixou a cabeça-
— Veneza — disse o Kan.
Marco sorriu. — E de qual julgavas que eu te falava?
O imperador nem pestanejou. — Mas nunca te ouvi dizer o seu nome.
E Polo: — Sempre que descrevo uma cidade digo qualquer coisa de Veneza.
— Quando te pergunto por outras cidades, quero ouvir-te falar delas. E de Veneza, quando te perguntar por Veneza.
— Para distinguir as qualidades das outras, tenho de partir de uma primeira cidade que está implítica. Para mim é Veneza.
— Deverias então começar todos os relatos das tuas viagens pelo princípio, descrevendo Veneza tal como é, toda, sem omitir nada do que dela recordas.
As águas do lago tinham-se encrespado um pouco; o reflexo dos ramos do antigo palácio dos Sung quebrava-se em reverberações cintilantes como folhas a boiar.
— As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se — disse Polo. — Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, já venha a perdê-la pouco a pouco.

Italo Calvino. As Cidades Invisíveis. José Barreiros (trad.) Teorema (1990).


They still avoided him as a topic of conversation, because mere words were liable to detract from what they saw as an exalted feeling in their hearts. This reluctance to talk about him meant that they were gradually forgetting him, though they would never have believed it.

Tolstoy. War and Peace. Anthony Briggs (trad.). Penguin. (2006)


10.27.2010

fanatismo

É nos mais cultos que se encontra o fanatismo, porque o homem é culto a partir do momento em que se interessa pelas coisas espirituais, e este interesse pelo espiritual, se for vivo, é precisamente o fanatismo, e tem de o ser: é um interesse fanático pelo sagrado (fanum*).

* Templo, lugar consagrado a uma divindade.


Max Stirner, O Único e a sua Propriedade. João Barrento (trad.) Antígona. (2004)